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22 de Agosto, 2005 Palmira Silva

Ratzinger versus Bento XVI

Bento XVI lançou um apelo aos jovens ontem um Colónia para que estes voltem às bases do cristianismo, rejeitem o secularismo e aquilo a que chamou «religião faça você mesmo». Pretendendo com esta observação que os católicos não podem escolher quais das «santas e infalíveis» emanações da Santa Sé devem seguir e quais devem rejeitar. Condenou ainda os movimentos inspirados nas religiões orientais e os nascidos das igrejas católica e protestante.

Na realidade Bento XVI denota simplesmente que é de facto (e sempre será) Joseph Ratzinger e que não há qualquer inspiração do Espírito Santo ou quejandos a ditar as suas acções e palavras, incluindo as infalíveis ex-cathedra, como muitos devotos católicos críticos de Ratzinger tentaram suavizar o choque da sua eleição. Bento XVI é Ratzinger com toda a carga que tal acarreta.

O autor de Dominus Iesus (aprovada de forma especial por João Paulo II), que considera que a mensagem de Cristo apenas «subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele», já anteriormente tinha criticado o fascínio que as religiões orientais exercem sobre os europeus. «Se o Budismo é atractivo é apenas porque sugere que sendo budista se pode tocar o infinito, se pode ter felicidade sem obrigações religiosas concretas. É erotismo espiritual» afirmou em 1997. Ratzinger criticou igualmente o hinduismo que, segundo ele, oferece «falsa esperança» garantindo purificação com base no conceito «moralmente cruel» de reincarnação, que parece «um ciclo contínuo de Inferno». Na altura, Ratzinger avisou que o Budismo substituíria o marxismo como o principal inimigo da Igreja Católica.

E para prevenir sincretismos perigosos para a ICAR ordenou que o frade beneditino Willigis Jäger, também um mestre Zen conhecido por Ko-un Roshi, cessasse todas as suas actividades públicas, incluindo palestras, cursos e publicações. A acção de Ratzinger contra o frade foi confirmada em 2002 pelo abade de Münsterschwarzach Abbey, em Würzburg, Nokter Wolf, ao National Catholic Reporter.

A preocupação de Ratzinger com as famigeradas religiões orientais já era evidente em 1989, nomeadamente na forma de um dos múltiplos documentos emanados da ex-Inquisição, «Alguns aspectos da meditação cristã», em que adverte para os malefícios da adaptação de formas de meditação inspiradas nessas religiões, esclarecendo numa nota de rodapé que os métodos errados de meditação para um cristão são a meditação Zen, a meditação transcendental e o yoga.

Ou seja, ontem Bento XVI demonstrou que continua igual a Ratzinger, pelo menos no que se refere às religiões orientais e à única exegese «verdadeira» da Bíblia, a de Roma, claro. Não é de esperar que o novo papa divirja do ex-inquisidor mor no que se refere à sacralidade de uma célula estaminal adulta, à legitimidade de se limitar os direitos dos homossexuais, inerentemente predispostos a «um mal moral intrínseco», a remeter as mulheres a «seguirem os papéis previstos pela sua biologia», isto é a serem glorificados úteros, predestinadas «divinamente» a serem dominadas pelos homens, à condenação do uso profiláctico do preservativo no combate à disseminação do HIV, (que considerou inadmissível mesmo recorrendo ao princípio clássico católico do «mal menor»), enfim, que divirja uma vírgula do que debitou profusamente sobre as «verdades absolutas» do catolicismo enquanto Ratzinger!

Basta recordarmos que uma das primeiras acções de Ratzinger como Bento XVI foi forçar a demissão do editor do periódico jesuíta «America», o padre Thomas Reese, com quem tinha um historial de discórdia como Ratzinger, por publicar artigos discutindo o uso profiláctico do preservativo, a ordenação de padres (publicamente) homossexuais, a posição dos católicos pró-escolha na ICAR, o secretismo nas medidas de disciplina na Igreja e outros assuntos que Ratzinger não queria discutidos.

22 de Agosto, 2005 Palmira Silva

Os fanáticos que fundaram os Estados Unidos

O Times de sábado tem um artigo que recomendo vivamente, do jornalista e escritor Simon Worrall, baseado na investigação para o seu próximo livro sobre os «Pais Peregrinos», os fanáticos fundamentalistas cristãos que embarcaram no Mayflower por verem fustradas as suas tentativas de transformar a Inglaterra numa teocracia governada estritamente pela lei cristã, a interpretação literal das Escrituras.

Particularmente interessante é a história de William Brewster, o líder do grupo que foi o primeiro governador da Nova Inglaterra. Brewster, um político caído em desgraça quando o seu mentor Sir William Davison, o secretário da rainha Elisabeth que assinou a sentença de morte de Mary, rainha dos escoceses, foi preso após a decapitação de Mary.

Falido e com a sua carreira política terminada Brewster regressou à sua terra natal, Scrooby, onde «encontrou» Deus e se dedicou a criar uma «Nova Ordem» baseada nas Escrituras e, claro, com Brewster como líder! Assim estabeleceu os Separatistas, um pequeno grupo que se encontrava em segredo pelas aldeias em redor de Scrooby, e que foi o núcleo dos peregrinos que depois fundaram uma colónia do outro lado do Atlântico.

Na sua teocracia fundamentalista os bares seriam fechados, a dança e o jogo seriam banidos e vestuário sóbrio seria mandatório para homens e mulheres, especialmente para estas, que seriam obrigados a envergar o equivalente da burka, sem um milímetro de pele tentadora à mostra. E, claro, a Bíblia alicerçaria toda a sociedade civil.

O que fizeram mais tarde nas colónias, depois de perseguidos em Inglaterra e de uma passagem por Amesterdão, em que Brewster e restantes fanáticos fundamentalistas introduziram leis que tornavam ilegal viver-se sózinho, permitiam a execução de crianças que não obedeciam aos pais, enfim, um «paraíso» bíblico! Vale a pena ler todo o artigo!

21 de Agosto, 2005 Carlos Esperança

Santo Ofício


A santa Inquisição tinha por objectivo preservar a pureza da fé. Não podia haver mais nobre e pio objectivo.
20 de Agosto, 2005 Carlos Esperança

Circo romano em Colónia

Em Colónia, na Alemanha, anda à solta o pastor alemão que um bando de cardeais, com a cumplicidade do Espírito Santo e do Opus Dei, fez ditador vitalício da única teocracia europeia.

Cobre-o, até aos tornozelos, um alvo vestido, de fino tecido e delicado corte, que realça os sapatinhos vermelhos do animador do circo que levou a Colónia centenas de milhares de jovens para promoção dos interesses da Cúria Romana. Pende-lhe do pescoço a trela que termina em refulgente cruz, riquíssimo adorno do traje feminino.

A brancura do vestido, a condizer com o cabelo, destoa do modelo que o exibe.

Para este espectáculo, que não é cultural nem recomendável, foi pedido um patrocínio à presidência da Comissão Europeia. Não sei se o precedente foi aberto, para que bandas musicais, circos ambulantes e companhias de teatro venham a conseguir apoio.

B16 não tem o arrojo de JP2. Sente-se mal como charlatão de feira. Prefere organizar as pantominas no ar condicionado do Vaticano. Não verga a coluna para oscular o chão, uma espécie de felação de quem julga que Deus está em toda a parte e a Terra é a braguilha da humanidade.

Cumpre os rituais do múnus com a alegria do boi que caminha para o açougue, qual Cristo da mitologia católica a caminho do gólgota.

O barulho encomendado aos jovens há-de azucrinar-lhe os ouvidos, as lambidelas da mão hão-de causar-lhe nojo, as missas que repete há mais de meio século cansam-no e mantém aquele impenetrável rosto enquanto distribui água benta, benzeduras e hóstias consagradas, ad majorem Dei gloriem.

Vai ser uma semana infernal para o vigário de Cristo, um odioso trabalho de campo para um homem de gabinete, repetir até à náusea gestos, palavras, esgares, até ao desfazer da feira, enquanto a boa imprensa entoa hossanas ao impostor que se diz agente do divino.

20 de Agosto, 2005 pfontela

O futuro do Iraque

A imagem que começa a emergir das ruínas do Iraque começa a tornar-se mais clara a cada dia que passa. O documento legal central Iraquiano (a Constituição) vai quase de certeza ser de natureza religiosa. A teocracia está em vias de ser instaurada em tudo menos em nome.

O grande partido xiita exige como condição para a aprovação da nova constituição que se reconheça a lei islâmica como única fonte válida de legislação. As forças mais ou menos seculares e o bloco curdo opõem-se a tal medida mas, a verdade é que possivelmente não terão força suficiente para a bloquear.

Como se esta situação não fosse problemática quanto baste o líder do partido do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque exige que o centro e sul da nação sejam reconhecidos enquanto regiões autónomas (dando poder completo aos fanáticos xiitas que as controlam) – regiões essas com vastas reservas petrolíferas. Desta forma mesmo que o seu assalto ao poder central falhasse os clérigos xiitas continuariam a ter uma base de poder enorme. Como uma cereja no topo do bolo encontra-se a última (por enquanto) reivindicação dos xiitas: Al-Najaf e karbala (duas cidades consideradas como santas – e que geram um considerável fluxo económico) teriam de possuir estatutos de independência – criando assim estados teoricamente semelhantes ao Vaticano mas que na prática se encontrariam nas mãos dos clérigos.

Mesmo os mais fanáticos sabem que não vão conseguir alcançar todos os objectivos a que se propõem, mas sabem também que muitas destas exigências podem ser usadas como moeda de troca quando for altura de negociar a constituição. A julgar pelas acções que estes grandes partidos xiitas estão a ter nas regiões que controlam plenamente o resultado da sua ampliação de poderes (a nível nacional ou regional) só pode ser má noticia.

Neste clima todos os interessados e analistas indicam que seja qual for a disposição final dos detalhes entre xiitas, sunitas e curdos o estado Iraquiano vai sem dúvida possuir uma forte influência legal do islão. O sonho de um Iraque onde a liberdade (e não só a estabilidade repressiva) existe e é para todos não passa de uma memória algo distante.

19 de Agosto, 2005 Carlos Esperança

Secularização – condição de paz

A emancipação do Estado face à religião iniciou-se em 1648, após a guerra dos 30 anos, com a Paz da Vestfália e ampliou-se com as leis de separação dos séc. XIX e XX, sendo paradigmática a lei de 1905, em França, que instituiu a laicidade do Estado.

A libertação social e cultural do controle das instituições e símbolos religiosos foi um processo lento e traumático que se afirmou no séc. XIX e conferiu à modernidade ocidental a sua identidade.

A secularização libertou a sociedade do clericalismo e fez emergir direitos, liberdades e garantias individuais que são apanágio da democracia. A autonomia do Estado garantiu a liberdade religiosa, a tolerância e a paz civil.

Não há religiões eternas nem sociedades seculares perpétuas. As três religiões do livro, ou abraâmicas, facilmente se radicalizam. O proselitismo nasce na cabeça do clero e medra no coração dos crentes.

Os devotos crêem na origem divina dos livros sagrados e na verdade literal das páginas vertidas da tradição oral com a crueza das épocas em que foram impressas.

Os fanáticos recusam a separação da Igreja e do Estado, impõem dogmas à sociedade e perseguem os hereges. Odeiam os crentes das outras religiões, os menos fervorosos da sua e os sectores laicos da sociedade.

Em 1979, a vitória do ayatollah Khomeni, no Irão, deu início a um movimento radical de reislamização que contagiou Estados árabes, largas camadas sociais do Médio Oriente e sectores árabes e não árabes da Europa e dos EUA.

Por sua vez o judaísmo, numa atitude simétrica, viu os movimentos ultra-ortodoxos ganharem dinamismo, influência e armas, empenhando-se numa luta que tanto visa os palestinianos como os sectores sionistas laicos.

O termo «fundamentalismo» teve origem no protestantismo evangélico norte-americano do início do séc. XX. Exprimiu o proselitismo, recusa da distinção entre o sagrado e o profano, a difusão do deus apocalíptico, cruel, intolerante e avesso à modernidade, saído da exegese bíblica mais reaccionária. Esse radicalismo não parou de expandir-se e já contaminou o aparelho de Estado dos EUA.

O catolicismo, desacreditado pela cumplicidade com regimes obsoletos (monarquias absolutas, fascismo, ditaduras várias), debilitou-se na Europa e facilitou a secularização. O autoritarismo e a ortodoxia regressaram com João Paulo II (JP2), que arrumou o concílio Vaticano II e recuperou o Vaticano I e o de Trento.

JP2 transformou a Igreja católica num instrumento de luta contra a modernidade, o espírito liberal e a tolerância das modernas democracias. Tem sido particularmente feroz na América latina e autoritária e agressiva nos Estados onde o poder do Vaticano ainda conta, através de movimentos sectários de que Bento XVI é herdeiro e protector, se é que não esteve na sua génese.

A recente chegada ao poder de líderes políticos que explicitam publicamente a sua fé, em países com fortes tradições democráticas (EUA e Reino Unido), foi um estímulo para os clérigos e um perigo para a laicidade do Estado. Por outro lado, constituem um exemplo perverso para as populações saídas de velhas ditaduras (Portugal, Espanha, Polónia, Grécia, Croácia), facilmente disponíveis para outras sujeições.

A interferência da religião no Estado deve ser vista, tal como a intromissão militar, a influência tribal ou as oligarquias – uma forma de despotismo que urge erradicar.

A ameaça de Deus paira de novo sobre a Europa. Os saprófitas da Providência vestem as sotainas e ensaiam o regresso ao poder. Os pregadores do ódio voltaram aos púlpitos.

19 de Agosto, 2005 Palmira Silva

Mo Mowlam

Morreu Mo Mowlam, uma das figuras mais carismáticas do Partido Trabalhista inglês nos anos 90. Mo Mowlan foi secretária para a Irlanda do Norte e conduziu as conversações que culminaram em 1998 na assinatura do acordo de paz de Belfast, mais conhecido como Good Friday, crucial para o processo de paz nesta tão conturbada zona do globo.

Talvez o facto de Mo Mowlam ser uma ateísta «devota», como se descrevia, tenha impedido acusações de favoritismo em relação a qualquer das facções cristãs que se degladiam há séculos na Irlanda do Norte. E o que é certo é que o processo de paz na Irlanda do Norte parece firmemente estabelecido!

19 de Agosto, 2005 Palmira Silva

Atentados no Bangladesh

A autoria dos atentados de quarta-feira no Bangladesh, que envolveram cerca de 350 bombas, foi atribuída ao grupo radical islâmico Jamayetul Mujahideen, proíbido no país.

As bombas caseiras de pequena dimensão foram colocadas perto de edíficios administrativos, tribunais, estações de comboios e autocarros. Perto dos locais onde se deram as explosões foram encontrados panfletos do Jamayetul Mujahideen onde se lia «É tempo de implementar a lei islâmica no Bangladesh. Não há futuro com leis feitas pelo homem».

Nos últimos anos surgiram no Blangladesh vários grupos militantes e radicais advogando a lei islâmica, especialmente nas zonas pobres do norte e sul do país. País em que pouco islâmicamente o primeiro-ministro é uma mulher…

18 de Agosto, 2005 pfontela

Os (ab)usos da imunidade

Relativamente ao caso dos escândalos de pedofilia relacionados com membros da ICAR nos Estados Unidos parece ter havido um novo desenvolvimento que no mínimo torna ainda mais evidentes as hipocrisias e psicoses que regem as cúpulas católicas.

Daniel Shea (o advogado de 3 rapazes que acusam o então seminarista Juan Carlos Patino-Arango de ter abusado deles durante sessões de aconselhamento), que já tinha movido um processo em que o nome de Ratzinger (Bento XVI) aparece como réu por ter encoberto os abusos, ameaça contestar em tribunal a imunidade do papa enquanto chefe de Estado.

Os advogados de Ratzinger já estão em movimento e pediram ao presidente Bush que reconhecesse a imunidade do papa enquanto chefe de Estado.O Sr. Shea tenciona apresentar argumentos em tribunal que permitam revogar esse privilégio. A tese central para tal medida é lógica e de senso comum: o Vaticano (Santa Sé) não é um Estado mas sim a sede de uma religião.

O documento que implica Ratzinger no escândalo (que longe de estar restrito aos Estados Unidos já chegou ao Reino Unido e Irlanda e provavelmente estende-se por toda a Europa) é um carta dirigida aos bispos de todo o mundo onde o antigo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé afirma que os graves crimes, como o abuso de menores, seriam tratados pela sua congregação através de tribunais especiais onde os casos estariam sujeitos a segredo pontifício.

Parece tratar-se de um encobrimento em larga escala que implica as mais altas patentes da hierarquia católica. Uma verdadeira conspiração de silêncio. Sobre a qual os advogados e outros representantes do actual papa continuam silenciosos como um túmulo (túmulo esse que pelos vistos enterra a pouca credibilidade que restava à organização).

Apesar de ter um bom caso a verdade é que não é provável que os argumentos do Sr. Shea tenham qualquer efeito. O seu pedido de revogação da imunidade papal vai ser ignorado por questões políticas e Ratzinger nunca vai ter que responder pela parte que desempenhou nestes crimes. Mas apesar de tudo fica a imagem, para todos verem, de uma hierarquia que mais parece uma confraria do crime do que do amor.

18 de Agosto, 2005 Carlos Esperança

B16 em campanha de propaganda

Ao chegar a Colónia, uma cidade onde a fé vem do estrangeiro, pois os autóctones são maioritariamente indiferentes a esse anacronismo, o Papa B16 desafiou os jovens a aproximar-se da Igreja.

Certamente já olvidou a mulher morta na Sardenha, Itália, no passado dia 10, enquanto assistia à missa em honra do patrono local, S. Lourenço. Morreu ao cair-lhe em cima um crucifixo acompanhado de um pedaço da cornija da igreja.

Provavelmente esqueceu-se dos dois operários, de 26 e 28 anos, que no dia 11 deste mês ficaram gravemente feridos na sequência da derrocada parcial de uma igreja em construção no município de S. Fulgêncio, em Alicante.

No entanto, o prémio do humor vai para o noticiário da SIC, hoje, às 20H00. Diz o locutor: «cerca de 400 mil jovens dirigem-se para Colónia ao encontro de Cristo».

Calcule-se a decepção de quem espera um cadáver com dois mil anos e encontra uma múmia com apenas 78.