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12 de Maio, 2026 Onofre Varela

O equívoco chamado Trump…

Por Onofre Varela

Robert Francis Prevost (Leão XIV) deve ter sofrido uma espécie de “trambolhão” no dia em que foi escolhido para exercer o papel de Papa no Vaticano, ocupando a cadeira deixada vaga por um Homem de difícil substituição: Mário Bergoglio, no papel de Papa Francisco. Acredito que não teria sido fácil para si próprio dar continuidade à linha de procedimento adoptada pelo seu antecessor, e a cujos apreciadores Leão XIV não quer desiludir.

Embora cada chefe de qualquer organização deva “ser igual a si próprio”, não copiando ninguém – porque uma cópia pode não ser boa escolha – no caso do Papa Francisco ninguém tem dúvida de que os olhos de todo o mundo estão colocados sobre Leão XIV, tanto os enaltecedores de Bergoglio, que esperam ver nele um sucessor na construção do mesmo caminho encetado por Francisco, quanto os seus opositores, que esperam um papa menos humano, mais beato e ligado ao mofo dos pergaminhos que fazem a História da Igreja Católica, na esperança de um retrocesso na linha de conduta social, agradando à extrema-direita que insultava Francisco apoucando-o de comunista… (se acaso tal palavra é sinónimo de insulto ou menos valia!…).

Logo após a escolha de Robert Francis Prevost (cardeal norte-americano também com nacionalidade peruana) para assumir o papel de Papa com o nome de Leão XIV, Trump manifestou vontade em o receber na Casa Branca… porém, continua à espera!… Para Trump, receber Leão XIV na Casa Branca, seria a cereja em cima do bolo… um narcisista inveterado, arvorar-se em candidato ao Nobel da Paz, fazer a guerra e ter na figura do Papa um amigo!…

Neste momento o Vaticano teme que o conflito protagonizado por Trump e Netanyahu acabe por ser transformado numa guerra religiosa. Por isso Leão XIV não se cansa de chamar a atenção para a paz, tomando uma posição cada vez mais contra a Casa Branca, num choque que nunca foi explícito e que o Papa trata de evitar desde a sua eleição há cerca de um ano.

Nesta contenda ouvem-se vozes religiosas dos aiatolás, constantemente apelando a Deus para que lhes dê uma vitória, tal como Netanyahu apela a Deus nas suas citações bíblicas, ao mesmo tempo que no escritório Oval da Casa Branca, Trump e os seus bonequinhos de pelúcia da “América Grande Outra Vez” transformada em religião evangélica sustentada em arco pelo secretário de defesa Peter Hegseth, ex-militar que combateu no Iraque e no Afeganistão e decora o corpo com tatuagens evocando as Cruzadas!

Para além desta imagem totalmente parva (dada a distância no tempo e as realidades políticas de cada época) Hegseth destacou, numa entrevista, o valor da fé cristã nesta guerra. Juntando mais gasolina na estúpida fogueira da fé, o porta-voz republicano no Congresso, Mike Johnson, também disse, há cerca de duas semanas, que “o Irão tem uma religião equivocada”!

Tudo isto torna mais evidente o conflito entre Roma, Washington e o Islão, numa situação de crispação política que não necessita, absolutamente, de extremismos religiosos para afirmar a estúpida guerra que, só por si, já representa…

OV

7 de Maio, 2026 Onofre Varela

Missas tecnológicas (4 e fim)

A experiência mostra-nos que a invenção da escrita não levou ao esquecimento, como receava Sócrates pelo facto de, na sua opinião, não exercitarmos a memória; bem pelo contrário. E nem a máquina de calcular nos impediu de fazermos contas de cabeça, nem o aparecimento da televisão anulou a rádio. Somos uma espécie de “gajos porreiros”, convivendo pacificamente com a evolução tecnológica (embora haja por aí uns quantos parasitas que a usam como arma de guerra). O mais certo, digo eu – e quero acreditar no que digo – é continuarmos com tal convívio, usando a técnica em nosso proveito sem deixarmos de ser o mesmo “sapiens” que criou a civilização, que domina o mundo e já foi à Lua.

A evolução natural melhorar-nos-á (esta é a minha grande fé), independentemente das ferramentas que criarmos para seguirmos no caminho do progresso. Mas a dúvida anda por aí… mormente agora, quando o ChatGPT se imiscui na filosofia religiosa, a qual sempre foi íntima! O mundo está perdido (diria a minha avó)!

A maldade executada com as novas ferramentas não deve ser assacada à ciência que as criou, mas sim aos energúmenos que as usam para fins menos dignos. O energúmeno já existia antes de haver a nova ferramenta… esta, só lhe serve como extensão do pensamento e do braço que faz a maldade. No caso deste meu escrito, a palavra “maldade” não deve ser entendida como “assalto a uma velhinha”… a maldade é mais lata e vem camuflada em forma política, económica e religiosa.

“Ter Jesus Cristo ao alcance da mão” no telemóvel ou no computador, todos os dias e a qualquer hora, foi a ideia de Paul Powers, de 43 anos e natural de Dublin… que criou uma versão de Jesus com IA. É um “Jesus” com quem se conversa a todo o momento, mas que também consegue partilhar sentimentos e servir de consultor. É um modelo de IA que Powers baptisou de GPTJesus: um chat dentro do chat GPT.

À semelhança de qualquer bispo de aviário das seitas religiosas em forma de samba, o GPTJesus tem resposta para qualquer pergunta, mas com a mais valia (para o crente) de se (pensar) estar a falar, realmente, com Jesus! É um verdadeiro assalto à consciência, feito à mão armada de crucifixo tecnológico!… Entra-se com um cumprimento: “Olá Jesus”. E obtém-se como resposta: “A paz esteja contigo, meu filho. Alegra-me que me fales com simplicidade. Como está o teu coração, hoje?” O Chat foi municiado com “todo o conhecimento de Jesus” com base no Novo e no Antigo Testamentos, mais textos agnósticos onde se menciona Jesus. O autor desta moderna “banha de cobra de computador”, confessa que o mais importante é, sem dúvida, a personalidade de Jesus.

Diz ele: “Forneci ao chat os critérios para que, quando respondesse, o fizesse sempre como se fosse o próprio Jesus e oferecesse uma oração e apoio, sempre respondido na primeira pessoa, com orientação espiritual, apoio emocional, conhecimentos tecnológicos e orações personalizadas, sempre com amabilidade e humildade, e enfatizando, sempre, o amor e o perdão.”

Para Santiago Collado, director do grupo Ciência, Razão e Fé, decano da Faculdade Eclesiástica de Filosofia da Universidade de Navarra (da Opus Dei) a religião pode conseguir muito partido da IA porque são ferramentas ao alcance de qualquer um e que podem ordenar os textos religiosos facilitando o seu acesso”. Mas quanto ao facto de o Chat personificar o próprio Jesus, a perspectiva muda: “Aí já se está a ultrapassar o limite, o que me parece negativo”.

O Vaticano já se pronunciou sobre a IA, no documento Antiqua et Nova, dizendo que a IA “carece de dimensões criativas, espirituais e morais”. Mas a imoralidade continua com a exploração da fé por computador, usada por vigaristas digitais. (Fim)

OV

Imagem por Cottonbro Studio

5 de Maio, 2026 Onofre Varela

Missas Tecnológicas (3)

A crente com cujo discurso terminei o artigo anterior, não é jovem nem “acordou” para a fé num piscar de olhos, de um dia para o outro. Ela é freira, tem 56 anos, chama-se Xiskya Valladares, vive em Palma de Maiorca e é conhecida como “a monja do Twitter”. Não é uma monja qualquer. Ela é filóloga, doutora em comunicação e monja digital religiosa da Congregação Pureza de Maria.

Quando penso na pureza do discurso aos peixes, dado por Santo António (de Lisboa, para nós, Portugueses; de Pádua, para os Italianos) e recordado pelo padre António Vieira, que o usou no dia 13 de Junho de 1654, no Brasil, como alegoria para criticar a exploração dos indígenas pelos colonos… quando penso nisto, dizia eu, encontro-me num mundo onde o rosto do outro é o espelho em que me revejo, e a vida do outro tem uma linha inquebrável que a liga à minha própria vida.

Não sendo católico, não é raro assistir a celebrações litúrgicas com todos os meus sentidos alerta, absorvendo tudo quanto ali se passa, cônscio de que, naquela celebração, recuei no tempo. Mas entendo o que estou a ver, e não raras vezes tomo nota de alguma passagem da homilia para consultar livros a propósito, informando-me do que, na missa, não me ficou bem esclarecido.

Para que tudo isto tenha nexo para mim, tenho que viver no mundo real, feito de homens e mulheres reais, gente igual a mim, gente que sofre, que chora, se alegra e ri, como eu sofro e choro, me alegro e rio… e não dentro de um filme de ficção, entre robots de forma humana para enganar os incautos.

A monja Xiskya tem 782.000 seguidores no TikTok e faz parte da organização do jubileu para criadores de conteúdos católicos, no qual “haverá um encontro com o Papa, formação com profissionais da comunicação, oficinas, um concerto, uma missa e uma gincana”.

O Secretariado Nacional de Comunicação de uma coisa designada Associação de Propagandistas Católicos, diz que os “missionários digitais são um lugar de conhecimento da realidade da Igreja, de experiências de fé e de questionamento existencial”.

Uma outra jovem é de opinião de que “a Igreja valoriza cada vez mais a maneira de comunicar a palavra de Deus de uma forma mais próxima, não tão teológica como estamos acostumados”.

“A Internet tem um grande potencial evangelizador”, dizem os fiéis digitais… mas também tem um grande poder manipulador com a divulgação de fake-news… digo eu.

A monja Xiskya diz que “as igrejas estão vazias ou com velhos”… o que me remete para o pensamento desta religiosa no sentido de os velhos não terem valor… são tão valiosos quanto uma igreja vazia!… Mas também diz que se “dirige de igual modo a crentes e ateus porque o valor das pessoas não é medido pela fé”, e que “os homossexuais podem ser catequistas”!… Vá lá… do mal o menos!… Se as tecnologias digitais abrem a mente aos religiosos tornando-os mais humanos, mais solidários… então viva a técnica e queimem-se os catecismos e outros manuais religiosos de cunho islâmico, caquéticos e desumanos.

Mas aqui tenho de voltar ao meu pensamento sobre as religiões: sendo elas, por si só e enquanto crença, uma forma poderosa de dominar o pensamento, podemos imaginar a maldade que pode ser acrescentada aos recados religiosos programados por IA, cujo resultado prático pode transformar qualquer crente numa extensão da ferramenta como à semelhança de uma faca de dois gumes (com ela se parte o pão, mas também se degola o próximo), levando-o a praticar acções que, pela sua fé natural, dotada de consciência fraterna, sem intervenção manipuladora, nunca praticaria… se bem virmos, essa “intenção manipuladora” já existe sem IA… assim acontece com muitos jovens conquistados pelo Islão, cujo resultado tem sido trágico: manipulados por agentes religiosos e desumanos, degolam excelentes cidadãos. (Continua)

OV

Foto de Cottonbro Studio

30 de Abril, 2026 Onofre Varela

Missas Tecnológicas (2)

Durante este ano de 2026, as quatro maiores empresas globais: Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft, planeiam investir mais de 650.000 milhões de dólares em IA, o que corresponde à maior verba investida num só ano em qualquer outro desenvolvimento tecnológico; nem a expansão dos caminhos de ferro em finais do séc. XIX, e os programas da NASA para conquistar o espaço e desembarcar na Lua no séc. XX, consumiram tantos recursos em tão pouco tempo.

Schumer (que citei no artigo anterior) aponta um futuro próximo frenético, e explica como nos últimos anos os modelos da informática criados por algoritmos conseguiram avanços exponenciais, de tal modo que os novos modelos não correspondem a melhorias graduais… pelo contrário, são “algo completamente diferente”.

Conclui-se que a Inteligência Artificial (IA) não é um “substituto de trabalhos humanos específicos”, mas sim “um substituto de trabalho geral dos humanos”.

E é neste ponto, quando os humanos são substituídos em larga escala por máquinas, que a minha reflexão ganha sentido. As transformações sociais conseguidas pelo uso da IA, autorizam-me a dizer que quem recorre a tal ferramenta corre o risco de se habituar a não pensar, porque tem uma máquina que o faz por si! E isto não é mau… é péssimo!

A IA também é usada para criar desinformação política e científica, entre outras desinformações. É que a IA não pensa… dá respostas conforme modelos armazenados, sem competência para pensar! Estou a lembrar-me daquele sujeito que perguntou ao ChatGPT: “preciso de lavar o carro e o posto de lavagem fica a 100 metros de onde estou. Vou de carro, ou a pé?”. A resposta imediata influenciada pelo manual de economia armazenada no programa, foi esta: “Dada a pouca distância, é aconselhável ir a pé”!

Com as novas tecnologias já nada é como era dantes. Nem na fé… aliás, na fé parece estar tudo doido!… Relata o jornal espanhol El País que, em Julho de 2023, uma jovem assumiu a sua religiosidade e decidiu casar-se no Vaticano, tendo o Papa Francisco como celebrante e a cerimónia divulgada pela Internet. Ela tinha 30 anos quando redescobriu a sua fé e agora factura com isso usando o Instagram com mais de 56.000 seguidores!

O Vaticano acolheu, nos dias 28 e 29 de Julho de 2025, mil criadores de conteúdos informáticos. Pela primeira vez na História da Igreja se celebrou um jubileu com um milhar de influencers católicos de 46 países.

A Igreja deu-se conta de que os jovens não estão nas paróquias, mas sim nas redes sociais. “Temos a melhor mensagem do mundo, mas é preciso saber vendê-la”, disse a jovem que o Papa casou, que descobriu a “fé digital” e vai fazer dela o seu modo de vida.

A verdade é que a sociedade é, cada vez mais, menos crente; e das pessoas que se dizem católicas, só cerca de 18% se confessam praticantes; os outros, ninguém sabe o que são… nem eles próprios.

Uma das crentes que encontram na “fé digital” uma porta de entrada no reino do céu para falarem com Deus, diz que “as missas já não atraem os jovens, nem sequer a mim” como se ela fosse o exemplo acabado do que é ser-se religioso na fé de um deus!

E não se fica por aqui, diz ela que “é preciso oferecer a mensagem de Jesus numa linguagem renovada”, como que se tivesse descoberto a pólvora e não tenha estado atenta às práticas das seitas evangélicas brasileiras que crescem como cogumelos em estrumeira, passando as mensagens que diz serem de Jesus… mas em ritmo de samba…

(Continua) 

28 de Abril, 2026 Onofre Varela

Missas Tecnológicas (1)

Por Onofre Varela

Notícia recente (divulgada a 14 de Fevereiro) dá conta de que Matt Shumer – co-fundador da OthersideAI, empresa que desenvolve ferramentas impulsionadas por modelos de Inteligência Artificial (IA) de grande escala, como o GPT-3 (uma plataforma de escrita gerada por IA) – alertou o mundo para a possibilidade real de, perante os computadores, “estarmos perante algo de maiores repercussões do que a pandemia do COVID”. Se calhar é só “boca foleira” saída da juventude tenrinha do próprio Shumer… mas o melhor será ouvi-lo para nos cuidarmos.

O uso dos computadores no mundo do trabalho provoca despedimentos em massa em todo o mundo. Sendo o resultado natural da implementação de uma técnica moderna (como aconteceu na época vitoriana, na segunda metade do século XIX, com a Revolução Industrial que transformou aquele período num tempo de profundas mudanças marcadas pela invenção da máquina a vapor).

Embora já esperado desde há muito tempo, sabe-se agora que no pacote de despedimentos provocados pela nova tecnologia, estão os próprios informáticos, criadores dos sistemas “que lhe vão fazer o enterro”. Por ironia, os técnicos de informática que desenvolvem as novas tecnologias conseguiram criar ferramentas que já são programadas pela própria máquina para se tornarem mais inteligentes, dispensando “operadores humanos”.

E não se trata de uma previsão… isto já é uma realidade!

O rápido progresso das ferramentas de IA alimentam o temor generalizado de uma rotura nas indústrias mais expostas à difusão desta tecnologia no âmbito da Economia e, mesmo, do Pensamento (o que poderá ser mais grave).

O uso do ChatGPT como psicólogo, já é atitude que cresce entre os operadores das novas tecnologias, mas tem os seus riscos: reforça o egocentrismo e as ideias paranoicas. É uma ferramenta muito poderosa para aumentar a produtividade no trabalho e nos estudos, pode ser utilizada para automatizar tarefas repetitivas, estruturar ideias, gerar conteúdos e auxiliar na organização de agendas… mas também é (ou pode ser) susceptível de mau uso… incluíndo o crime.

Esta notícia alarmante fez-me lembrar uma outra, já divulgada no final de 2025, na qual se faz saber que a IA já é usada por religiões e seitas aparentadas, ditas evangélicas, para substituir templos, altares, bispos e sacerdotes na assistência religiosa dos crentes.

Perante tecnologia tão avançada (avançada para o nosso tempo… no futuro próximo, ou mais afastado, não faço ideia do potencial que pode ser desenvolvido, inclusive contra nós próprios. A ficção científica já nos mostra a degeneração do Homem… e se a ficção se tornar realidade, a coisa piorará substancialmente) sinto-me autorizado a dizer que as altas capacidades dos novos modelos de IA – mais o risco que supõem para milhares de empregos – quando uma criança puder dar instruções a um computador para criar um vídeo-jogo à sua medida, não sabemos qual a medida nem o teor desse jogo… o que pode redundar num desastre de proporções impensáveis!

Podemos estar a dar espaço e ferramentas para se criarem monstros nas sociedades, se essa criança não tiver formação moral e humanista que a impeça de usar a técnica para danificar algo, ou prejudicar alguém… e em princípio não terá tal formação por falta de tempo para amadurecer o entendimento que ela faz de si e do mundo.

O que se sabe, para já, é que nos meios religiosos, onde os crentes têm necessidade de assistir a missas, a IA já tem programas para dar conselhos, rezar e discutir passagens bíblicas!…

Era aqui que eu queria chegar, mas o espaço disponível chegou ao fim. Continuo esta reflexão na próxima semana. Até lá, passem bem. 

(Continua)

OV

Crédito: Cottonbro Studio

23 de Abril, 2026 Onofre Varela

“Amai-vos uns aos outros”

Por Onofre Varela

O interesse da disciplina de História por Jesus Cristo (JC), tal como por toda a Bíblia, é tardio. As investigações mais sérias só foram encetadas cem anos depois de a Revolução Francesa (1789) ter aberto a porta ao livre pensamento com o advento do Iluminismo (1685-1815) e nos primeiros tempos a abordagem era dificultada pela profunda marca que o “sagrado religioso” gravou na mente dos fiéis.

Os Evangelhos são textos que pretendem narrar feitos e atitudes de JC à luz do pensamento de quatro personalidades: Mateus, Marcos, Lucas e João, que teriam recebido oralmente informações sobre JC, as quais, muito mais tarde, seriam transmitidas a terceiros que as registaram pela escrita.

São textos que, se por um lado, poderão estar mergulhados em dúvidas e incertezas, por outro lado, neles podemos encontrar ensinamentos poderosos, dos quais destaco a frase “Amai-vos uns aos outros” (João: 13; 34). É um conceito comportamental que não é, apenas, cristão; também se encontra no Velho Testamento (Levítico: 19; 18).

Se é verdade que a índole humana tem muita dificuldade em praticar este ensinamento, não é menos verdadeiro que nele se encontra tudo quanto é necessário para que a Humanidade seja um campo de paz, concórdia e ajuda mútua. Se tal fosse conseguido, transformaria o mundo inteiro no verdadeiro Paraíso que a mitologia religiosa nos apresenta como o lugar perfeito a ser habitado por gente perfeita.

Como sempre acontece nas atitudes dos homens desonestos, os ensinamentos mais puros, com marca religiosa, são aproveitados para enganar o próximo. Este “engano propositado” quando é praticado em Política torna-se mais perigoso ainda porque pode infestar toda a sociedade quando os eleitores são incautos e facilmente se deixam enganar (veja-se o que está a acontecer nos EUA).

Há, na extrema-direita do nosso espectro político-partidário, a tendência para enganar eleitores recorrendo à fé em Deus e em JC. Na frase que dá título a esta crónica está contido o conceito de “servir sem excluir”, o qual é letra morta para o líder da direita extremada que assiste a missas e diz barbaridades como esta: “os pretos para África”, e agora quer ser presidente da República… mas já garantiu que, sendo eleito, não o será de todos os Portugueses… porém, nos seus comícios já exibiu um crucifixo, e em entrevistas afirmou ter acabado de assistir a uma missa…

“Servir sem excluir” é a atitude que se pretende de qualquer instituição de um governo democrático e social, e que deve ser exigida por todos os eleitores. Contrariar este fundamento e representar teatralmente uma “atitude cristã” que não se sente, tem um nome: é vigarice!

Podemos dizer que neste único mandamento de JC, que nos manda amar (respeitar) uns aos outros, está a inclusão contra a exclusão; o servir sem excluir e a aceitação do outro, e não a sua expulsão.

Atitudes puramente humanas, atribuídas ao ensinamento religioso mas tão contrariadas por políticos que, manifestando-se tão cristãos, têm atitudes imensamente contrárias aos seus discursos, como por cá encontramos neste candidato à presidência da República.

Por esse mundo fora também vemos atitudes idênticas em Trump e Putin (que seguem religiões diversas, mas ambas de moral cristã) e Netanyahu (que, sendo judeu, na teologia judaica também se observa o respeito ao próximo)… tudo letra morta para quem apenas quer o Poder pelo Poder, sem respeito algum pelo próximo… nem por si mesmos…

OV

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21 de Abril, 2026 Onofre Varela

Sobre a Eutanásia

Por Onofre Varela

Montaign, filósofo humanista francês do século XVI, tem uma frase lapidar sobre o abandono da vida pelo próprio no acto reconhecido como “Eutanásia”. Diz ele: “A morte mais livremente decidida é a mais bela. A vida depende da vontade de outros; a morte, da nossa”.

Na Europa a Eutanásia é legal em cinco países: Bélgica e Holanda “Países Baixos” (desde 2002), Luxemburgo (2009), Alemanha e Espanha (2020). Entre nós, e legalização da eutanásia arrebata paixões no campo da ética moral de credos religiosos, mas também na vida laica entre posições político-partidárias (quiçá com ligações à Igreja ou a seitas ditas cristãs).

Em Portugal, a lei nº 22/2023, de 25 de Maio, regula as condições em que a morte medicamente assistida não é punível e altera o Código Penal. Por “Morte Medicamente Assistida” entende-se a morte “que ocorre por decisão da própria pessoa, em exercício do seu direito fundamental à autodeterminação e livre desenvolvimento da personalidade quando praticada ou ajudada por profissionais de saúde”.

Para além desta figura designada “Morte Medicamente Assistida”, há mais estas cinco modalidades: 1 – Suicídio Medicamente Assistido (administração de fármacos letais pelo próprio); 2 – Eutanásia (administração de fármacos letais por um técnico de saúde); 3 – Doença Grave e Incurável (doença em fase avançada e progressiva que ameaça a vida); 4 – Lesão Definitiva de Gravidade Extrema (que coloca a pessoa em situação de dependência de terceiros); 5 – Sofrimento de Grande Intensidade (por doença grave e incurável).

A atitude religiosa perante esta lei e pelo sofrimento de quem, conscientemente, deseja a morte por não querer viver em condições degradantes, é a recusa da vontade do outro, impondo-lhe a vontade do religioso! A imposição da vontade de um (alheio ao sofrimento do outro), tentando aniquilar a vontade do outro, é uma atitude, no mínimo, ditatorial e desrespeitadora da liberdade individual de cada um naquilo que só ao próprio diz respeito (como é o caso da anulação da sua própria vida).

A Lei 22/2023 ainda não entrou em vigor por carecer de regulamentação, a qual tem sido alterada pelos partidos com assento na Assembleia da República, mas constantemente rejeitada, por qualquer razão, incluindo a rejeição repetida e reiterada de Marcelo Rebelo de Sousa enquanto católico na presidência de uma República Laica! Por isso, mesmo legislada e despenalizada, a Eutanásia não pode ser praticada entre nós porque o diploma que a legaliza ainda não entrou em vigor.

Os religioso que evocam a vontade de Deus (como se um conceito tivesse vida própria, fosse o tutor de todos nós e estivéssemos obrigados a obedecer a um mito) muito provavelmente baseiam-se naquela parte dos Evangelhos que relata a desilusão de Jesus perante Deus quando, em agonia da crucificação, ergue os olhos ao céu e diz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mateus 27: 46).

Concluo que, se na mitologia cristã Deus não quis salvar Jesus de uma morte imposta e sofrida, obrigando-o à dor, também todos nós estamos condenados a morrer sofridamente, segundo a sádica vontade daqueles que dizem ser peregrinos do “amor de Deus”!… Será isso?! 

 OV

Nota: Para saber mais, ver – https://sicnoticias.pt/especiais/eutanasia/2023-05-25-Lei-da-eutanasia-entra-em-vigor-a-meio-de-julho-6537d9cb

Imagem via Freepik
16 de Abril, 2026 Onofre Varela

Eu sou anti-semita?

Por Onofre Varela

A pergunta expressa no título desta prosa foi motivada por uma crítica de que fui alvo em 2023 por parte de uma instituição israelita perante o desenho que ilustra esta crónica, na época (2023) exposto na Bienal de Arte de Gaiae depois de criticado foi mostrado nos canais da televisão e comentado em rádios e jornais. A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia recebeu carta do consulado israelita em Lisboa exigindo a retirada do apoio que a autarquia dava ao evento, alegadamente por apresentar mensagens “anti-semitas”… do que, então, dei conta neste espaço.

Agora, perante o que se passa no mundo, com ditadores como Putin, Netanyahu e Trump a invadirem territórios independentes pretendendo tomá-los para si (para se apoderarem do território, ou do petróleo e da exploração de minerais), em desrespeito pelos direitos dos respectivos povos e pelas leis internacionais, o assunto de “ser-se anti-qualquer coisa” voltou-me à mente.

É comum qualquer ditador considerar-se insultado por quem critica as suas atitudes, por isso não me admirei de os censores do meu trabalho me rotularem de “anti-semita” (Salazar rotulava de anti-patriota quem não fosse Salazarista, Putin rotula de terrorista quem o critica, e Trump diz que os seus críticos são comunistas). Os ditadores sempre se afirmaram cidadãos exemplares e donos da razão universal… embora só mereçam o encarceramento sem fiança e por largas décadas.

Por isso me obrigo a perguntar: Eu sou anti-semita? Uma definição de “anti-semitismo” (*) pode ser esta: «a recusa de conceder a Israel aquilo que é dado a qualquer outro estado, isto é, uma existência plena, definitiva e estável» (palavras de David Grossman no prefácio do seu livro “O Coração Pensante”, editado pela Dom Quixote em 2024).

Segundo esta definição, eu – que defendo a existência de Israel e da Palestina – não sou anti-semita… mas Putin é anti-ucrânia independente e anti-ocidente; Trump é anti-Gronelândia independente, anti-América Latina e anti-Europa… tal como os sportinguistas são anti-benfiquistas e vice-versa, e os genros são anti-sogra… (uma estupidez de todo o tamanho).

Há um tipo de “anti” de que eu estou certo de ser: sou anti-nazi, anti-estado de guerra, anti-invasores e anti-ditadores.

(*) – O termo “Semita” quer dizer “oriundo de Sem”. Sem foi filho de Noé que, na história bíblica, embarcou na arca com os seus irmãos Cam e Jafé para sobreviverem ao dilúvio, e deram origem ao povo Hebreu (Judeu), do qual também faz parte Jesus Cristo.

OV

14 de Abril, 2026 Onofre Varela

CIÊNCIA E ECONOMIA – PROBLEMA DE TODOS NÓS

Por Onofre Varela

A investigação científica é de extrema importância em sociedades modernas. Numa primeira abordagem podemos dizer que a Ciência gera conhecimento e impulsiona o progresso tecnológico. Vista mais de perto, a Ciência melhora a qualidade de vida de todos nós, fomenta o desenvolvimento sócio-económico e impulsiona o progresso tecnológico, ultrapassando a mera economia que também beneficia dela.

Podemos dizer que os trabalhadores da Ciência são os profissionais que mais falta fazem ao mundo… (não são os políticos nem os comerciantes de armamento [estes últimos estão ao nível dos traficantes de seres humanos e exploradores sexuais]) mas que, pela organização económica e política em vigor no mundo, acabam por se submeter aos poderes que, habitualmente, são leigos ou analfabetos em Ciência.

Numa sociedade moderna, a investigação científica está na base da criação de conhecimento, relacionando-se com a compreensão do mundo, mas também com o desenvolvimento de materiais e processos que fazem o caminho do progresso.

Porque as sociedades se baseiam na Economia enquanto mola-catapultadora das condições necessárias ao estudo e à investigação, em Portugal criou-se um organismo para financiar a Ciência. Trata-se da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) criada como Instituto Público com a missão de financiar os sectores da Ciência, Tecnologia e Formação.

As empresas (todas elas) não devem responder, unicamente, às exigências do mercado. Também têm a responsabilidade de liderar a transformação social e económica… e aqui, há um importantíssimo ponto a observar: Eficiência Tecnológica e Económica, não podem existir sem o Humanismo na valorização da condição humana acima de tudo. Sem esta condição “não há condições” que permitam o avanço da Ciência e da Economia positiva.

A FCT foi criada como Instituto Público em 1997 por proposta de José Mariano Gago, então ministro da Ciência e Tecnologia e, até hoje, funcionou sem problemas de maior. Agora, o governo de Luís Montenegro decidiu extinguir a FCT, mais a Agência Nacional de Inovação (ANI), que serão fundidas num só organismo denominado Agência para a Investigação e Inovação (AII).

Se, até aqui, a ajuda dos sucessivos governos à FCT merecia algum reparo, a partir de agora, perdendo o estatuto de Instituto Público, transformando-se numa Entidade Pública Empresarial, o receio dos seus profissionais é extrapolado pelo facto de tal transformação poder trazer acoplado o processo de liberalização, com prejuízo para a liberdade de investigação mais o correspondente (e inevitável) reflexo negativo na sociedade.

A investigação científica não é um prato que se confecciona de imediato usando produtos que temos ao dispor numa dispensa de prateleiras cheias. Os resultados de muitas investigações científicas obedecem ao conhecimento gerado por algumas gerações, e não há calendário para encerramento dos seus estudos. É preciso tempo, pago pela Economia que gera o sector, a qual, sendo privada, apresenta o risco de, na pretensão de colher lucros imediatos, abandonar as investigações mais alargadas no tempo (cujo alargamento é vital para o sucesso) por se afigurarem “dispendiosas”.

A figura de retórica comercial denominada “dispêndio económico” merecia um ensaio aprofundado (não por mim, que não estou habilitado) sobre o tipo de economia que inventamos, e a necessidade de o abandonarmos radicalmente, no sentido de desvalorizarmos o dinheiro, valorizando, cada vez mais, o Ser Humano num Humanismo vital (e deseconómico) que, penso, nunca foi tentado. É preciso fazê-lo!

OV

12 de Abril, 2026 Onofre Varela

DESRESPEITO PELOS IMIGRANTES QUE NOS ENGRANDECEM

A revista Visão, na sua edição do dia 6 de Novembro de 2025, inclui um Dossiê/Reportagem sobre imigração com o título “Isto já não é um país acolhedor”, assinado por três jornalistas: Alexandra Correia, Lucília Monteiro e Francisco Romão Pereira, que fizeram um trabalho de investigação digno de nota.

Transcrevo o último parágrafo da reportagem, porque ele contempla uma das mais importantes mensagens que a reportagem contém, no sentido da valorização do trabalho imigrante na economia do país. (As frases entre parêntesis são da minha responsabilidade):

«Todos os indicadores económicos e demográficos apontam o valor inestimável da imigração para o nosso país. Vários sectores, como a agricultura, as pescas, o turismo e a restauração, não sobreviveriam já sem eles. O medo (disseminado por má-fé pelos xenófobos) é simplesmente algo sem fundamento. (Resulta) da emoção primária usada no discurso político para obtenção de vantagens eleitorais. Já o ódio, esse, tem várias explicações. Pondo o dedo na ferida: o racismo tem sempre implícita a ideia de que o outro ser humano vale menos. E, portanto, como bons cobardes, decide-se bater no elo mais fraco. Naturalmente, o discurso xenófobo vindo dos políticos atiça e inspira a violência nas ruas. Não há inocentes neste caminho. É nesta encruzilhada que nós, enquanto sociedade, nos encontramos (e para dela sairmos temos de crescer em termos de raciocínio humanista, não admitir o ódio dos extremistas e combatê-los, até. Só assim faremos jus ao facto de sermos portugueses e termos herdado uma cultura multi-racial desde que andamos pelo mundo a deixar marcas em todas as regiões)».

A solidariedade – que nos torna humanos na melhor definição do termo – é atacada pelos piores de nós que fazem alarde do primitivo sentido racista que representam e alimentam.

Por associação de ideias, e pegando na frase “a ideia de que o outro ser humano vale menos” acima mencionada, recordo que o racismo levou ao “apartheid” na África do Sul, desde 1948 até 1994.

Nos EUA o “apartheid” praticado pelos americanos tomou o nome de “segregação racial”… a qual, no fundo, praticava o mesmo desrespeito pelo ser humano de tom de pele diferente.

O “apartheid” sul-africano foi condenado internacionalmente como injusto e racista nas Nações Unidas em 1973, mas só em 1976 a ideia ganhou força e caminhou “em câmara lenta” levando à sua abolição, apenas, em 1994, quatro anos depois da libertação de Nelson Mandela a 11 de Fevereiro de 1990.

31 anos nos separam de tal data que marca um avanço na história da Humanidade. Constatarmos, hoje, que a ideia do racismo e da segregação faz o dia-a-dia de muitos países (entre os quais Portugal) que alimentam extremas-direitas xenófobas, é constatar que a Humanidade está em regressão… a andar em marcha-atrás.

A solidariedade e a amizade entre os povos, que faz a melhor parte de nós, é atacada por essas direitas que alastram no mundo como nódoa em tecido precioso.

De facto, tal como se diz na reportagem, isto já não é um país acolhedor… e tal constatação só nos diminui.

É preciso que o tempo avance, permitindo que os eleitores alimentadores de xenófobos percebam a “marcha-atrás” social e humanista que apoiaram… e se envergonhem…

OV