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21 de Julho, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (3)

Como disse no último artigo, só a História é o único modo de manter a memória daquele que morreu e deixou obra para ser recordado. Só assim se consegue a “eternidade” como cantou o nosso poeta maior Luís de Camões: “Por obras valerosas da lei da morte se vão libertando”.

Porém, na nossa sociedade cristã, quando se aborda o tema “Vida Depois da Morte”, é inevitável falar em Jesus Cristo (JC) e na mitologia da sua ressurreição. A maioria das religiões (não só a Cristã) tem como denominador comum a preocupação com a morte e a mensagem da vitória da vida sobre ela. O Cristianismo refinou esta regra, porque Jesus Cristo só existe… porque morreu!…

A sua crucificação foi a porta que se abriu à vida, fechando-a à morte, através da ideia da ressurreição como “a vitória final da vida”, onde a morte já não tem lugar!

O engraçado é que esta ingenuidade cristã da ressurreição acaba por se transformar numa pedra no sapato da crença, que é difícil de retirar… porque se JC ressuscitou, tem de estar algures. Tem de andar por aí!… Quem vence a morte, não morre outra vez (penso eu)!… E o que, ou quem, não morre, tem de se conservar vivo. E o que, ou quem, é, ou está, vivo, tem de conservar a sua forma material, consumir alimentos para manter a energia, mostrar-se e produzir ou provocar algo!

Onde está Jesus Cristo? Em que circunstâncias? Como sobrevive?!… São perguntas sem resposta que deveriam embaraçar a crença… só não embaraçam porque os crentes não se interrogam… só crêem!… E estarão convictos de que existe um céu para albergar almas caridosas, mas também o corpo material de JC!

O factor mais importante do Cristianismo, na vertente que mais afirma a sua característica de religião é, sem dúvida, o conceito da ressurreição. O vencer da morte. A ressurreição dá-lhe a dimensão mais deifica e religiosa… que é aquele factor que inebria a maioria dos crentes, relegando para segundo plano a ideia humanista contida nos “ensinamentos de Jesus”. Mas aqui estamos na presença de algo que não pertence exclusivamente ao Cristianismo. A libertação da morte é uma ideia que o homem persegue desde quando teve consciência de que o seu fim seria morrer, abandonando a vida, o que, convenhamos, não configura um fim simpático!…

Essa consciência alimentou a religiosidade que leva ao acto misericordioso do enterramento. Por isso os nossos antepassados mais remotos já enterravam os mortos, e os poderosos levavam consigo os mais ricos pertences para usufruírem deles para além da morte que não aceitavam como fim da vida, e acreditavam ir viver numa outra dimensão onde continuariam com a mesma importância.

A imortalidade é desejada desde a mais remota antiguidade e encontramo-la na mitologia egípcia. O Cristianismo não fez mais do que copiar, adaptar e reeditar conhecidos rituais, como é exemplo a narrativa mitológica de Átis, deus frígio da Natureza e da Primavera, amante de Cibele, cujo mito refere a sua morte e ressurreição. A própria missa pascal do rito cristão é cópia de antigos rituais nocturnos comemorativos da morte e ressurreição de Átis, com ligação a celebrações animistas na passagem do equinócio da Primavera.

A morte sempre foi uma das grandes preocupações do Ser Humano. Segundo o filósofo e sociólogo Edgar Morin (falecido recentemente com a bonita idade de 105 anos), o Homem de Neandertal não só enterrava os mortos; também os reunia como se prova na “gruta das crianças” perto de Menton.

O sepultamento dos mortos é um elemento cultural que demonstra a preocupação de prolongar aquele que morre, para além da vida que efectivamente perdeu. Prolongamento que os egípcios transformaram na conservação dos cadáveres pela mumificação.

Quando não abandonamos, ou não esquecemos, os nossos mortos, eles “sobrevivem”.

(Continua)

21 de Julho, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (2)

O Ser Humano é, irremediavelmente, um animal. Não passamos de “orangotangos” com a faculdade de pensar, sonhar e executar. Não há animal algum (orangotango ou felino) que possa ser visto com vida depois de ter morrido, e o meu gato jamais viu o fantasma do seu bisavô persa. Mas nós (“orangotangos” Sapiens) afirmamos ter visto Jesus Cristo vivo depois de ele ter sido morto, e que também topamos com a sua mãe Maria, Vivinha da Silva, nas circunstâncias mais improváveis, incluindo aquela (de 1917) em que se encarrapitou no cocuruto de uma azinheira uma vez por mês durante meio ano, falando Português… Língua que só foi criada mais de 800 anos depois de ela morrer !…

Só nós, os Homo sapiens, somos capazes de tal façanha… e por uma razão muito simples: porque raciocinamos e sonhamos, e muito do que criamos fazêmo-lo à medida da nossa fé… que é sempre a medida das nossas necessidades e, principalmente, no rigoroso tamanho da nossa ignorância. Mas isto acontece porque possuímos um cérebro capaz de nos tornar interrogativos, criativos e inventivos… numa palavra: inteligentes… e noutra: religiosos.

O dicionário diz-nos que a inteligência é o “conjunto de todas as funções que têm por objecto o conhecimento, a faculdade de entender”. Ora… é aqui que começam os problemas… mas também as soluções. Quando não conhecemos a coisa que desejamos conhecer, a nossa faculdade de procurar entender o que nos acontece, que observamos e sentimos, leva-nos à procura de uma explicação; e esta, por tão desejada, corre o risco de, antes de ser encontrada, começar por ser inventada no formato de “mentira inconsciente”… aumentando o risco de se fixar como verdadeira. 

Quanto maior for o espaço de tempo em que a apresentamos como real, maior é esse risco. A razão de “isto ser assim” reside no facto de termos nós, Seres Humanos, ultrapassado o estatuto de orangotango (o que não aconteceu ao meu gato… que nem aí chegou). A “mentira em formato de explicação na fé” acaba por se fixar nas nossas mentes, tornando mais difícil a sua substituição por uma explicação verdadeira, real e autêntica, até porque a função da religiosidade é exactamente a de rejeitar a verdade histórica e natural, colocando no seu lugar uma hipótese sugerida pela fé que depositamos no impossível. 

É isto o que ocorre no nosso entendimento quando defendemos a ideia de haver vida para além da morte?

Vejamos… a frase “vida depois da morte” é uma incongruência, porque a morte anula a vida e nada mais há para aquele que morreu… ele tem a vida anulada. É como apagar uma vela de estearina… a chama apaga-se definitivamente; não se translada para outra vela. Morreu!… Deixou de ser… já não é! O que “há para além da morte”, já não tem a ver com o finado (que, como morto, deixou de existir, de sentir, de actuar… de ser!…), mas tem a ver com a vontade dos que cá ficam, familiares e amigos, perpetuando no tempo a memória do falecido. 

Este perpetuar da memória é a única forma que há de eternidade: a memorial, a histórica. A memória dos meus pais será tão longa quanto mais longa for a vida daqueles que os recordam. Na minha morte e na da minha mulher, fica a minha filha que os recordará. Os meus netos, embora não tivessem conhecido os bisavós, sabem das suas existências e histórias que ouviram contar sobre eles, pelo que os meus pais continuarão vivos nas suas memórias. Quando morrer a última pessoa que os recorda, acontecerá a segunda e derradeira morte dos meus pais. 

É assim com toda a “eternidade”, exceptuando a histórica… mas mesmo essa só é perene se for registada e duradoura. Sem um registo que perdure no tempo, mais a existência de quem a lembre… nem a eternidade é eterna!… 

(Continua)

21 de Julho, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (1)

No passado dia 17 de Junho teve lugar, no Auditório Municipal de Gondomar, uma palestra subordinada ao tema “Ciência e Espiritualidade – A Vida Depois da Morte”, com a presença de Luís Portela, médico, empresário e Presidente da Fundação Bial, apresentado pelo meu amigo Mário Augusto, companheiro de lides televisivas e jornalísticas desde há 40 anos.

Luís Portela foi colaborador do Jornal de Notícias nas décadas de 1980/90, onde publicava artigos de opinião e eu ilustrei alguns deles. Sabia, desde então, do seu interesse no tema. É uma personalidade reconhecida pelo seu notável percurso profissional e pela abordagem rigorosa e científica que faz às questões da consciência, da espiritualidade e da relação entre Ciência e experiência humana.

Portanto, pela sua formação científica, Luís Portela não pode ser considerado “defensor do indefensável”, como à primeira vista pode parecer a frase “vida depois da morte”.

Eu fui assistir. Portela deu o exemplo de uma criança recordar “situações vividas noutra vida passada”… presumo que na Inglaterra ou Alemanha… não registei convenientemente a informação, o que levou um grupo de estudiosos a deslocar-se à cidade onde teria vivido (há imensos anos) a personagem que a criança dizia ser. Encontraram familiares da tal personagem que atestaram os factos que a criança disse ter vivido numa vida passada.

Isto remeteu-me a memória para uma série de artigos publicados no jornal O Primeiro de Janeiro na década de 1960, onde se registavam experiências idênticas sob o título genérico “Mais Estranho do Que a Ficção”. De um desses relatos (transformado em clássico, já divulgado com versões aproximadas) recordo a história: um automobilista (presumo que em Inglaterra), numa madrugada fria e chuvosa, encontrou na estrada uma mulher jovem, vestida de branco, que lhe fez paragem e pediu boleia para uma determinada morada. A meio da manhã o homem reparou que a jovem deixou uma pequena carteira no banco do carro. Voltou à morada para a devolver, bateu à porta, foi atendido por um casal idoso que garantiu não haver nenhuma jovem lá em casa, e muito menos que tenha chegado de madrugada!

No decorrer da conversa que o automobilista fez questão de salientar que não sonhou nem tinha bebido… o casal idoso foi buscar uma fotografia de uma jovem, que o homem reconheceu como sendo a mulher a quem deu boleia… era filha daquele casal… mas já havia falecido há três décadas!

Perante relatos destes, eu tenho duas reacções. De acordo com a personalidade do relator, eu acredito ou não acredito. Devo confessar que tenho “um caso enigmático em minha casa”: a minha filha tem experiências idênticas vividas por si… e eu acredito nela porque a eduquei e sei que não mente nem inventa as situações que diz ter vivido. Do mesmo modo reconheço ao doutor Luís Portela seriedade científica para aceitar a honestidade dos seus discursos, tal como aceito os da minha filha… mas não encontro racionalidade neles!… É um túnel sem luz ao fundo… o que não ajuda a dissipar o enigma de modo que me leve a compreender a narrativa com naturalidade e sem dúvidas, percebendo-a.

Vou dedicar dois ou três artigos a este caso para poder transmitir aos meus leitores a minha opinião sobre o assunto “Vida depois da Morte”. 

 (Continua)

19 de Maio, 2026 Onofre Varela

O clima como bem público…

Por Onofre Varela

A mudança climática é uma realidade que embora a história da Terra nos diga acontecer ciclicamente ao longo dos milénios, a mesma história também nos diz que na modernidade a atitude humana é o principal motor da mudança climática, acelerando-a, e os cientistas fartam-se de alertar para o facto de, desde a Revolução Industrial, ter aumentado na atmosfera a concentração dos gases responsáveis pelo “efeito de estufa”, o que resulta num aquecimento global muito mais rápido.

Se, por um lado, este fenómeno preocupa uma parte de responsáveis políticos (pelo menos ouvimo-los dizer que se preocupam), por outro lado há “a outra parte” que, garantidamente, não se preocupa, e a qual conta com grandes nações poluidoras como, por exemplo, os Estados Unidos da América que não dedica um minuto, sequer, das suas preocupações governativas, à reflexão sobre o assunto, quanto mais tomando atitudes a propósito!

Os cidadãos de países mais pequenos em termos de área, número de habitantes e rendimento, como Portugal, podem ter duas opções perante a trágica previsão climática para o futuro do planeta: a passiva ou a activa. Na opção passiva podemos decidir sentarmo-nos no nosso sofá da sala, bebendo cerveja e vendo, na televisão, futebol, telenovelas ou programas de “espreitar intimidades pelo buraco da fechadura”, mandando às urtigas a preocupação climática.

A segunda opção, a activa, embora mostre o nosso conhecimento do problema e a boa-vontade que temos em ajudar, a única coisa que podemos fazer é apagar a luz e abrir as persianas para aproveitarmos a luz solar directa, calafetar portas e janelas para que o frio não invada a casa no Inverno, e fechar a torneira quando nos ensaboamos no duche, poupando, assim, energia eléctrica e água, não desperdiçando.

O cidadão que assim procede, não raramente vê o seu esforço escarnecido pelos serviços com responsabilidade directa nos respectivos sectores: água e electricidade. À cabeça deste sentimento está o facto de, no modelo económico governativo que preside à União Europeia (UE) os serviços com responsabilidade directa (recolha, tratamento da água e a sua distribuição, mais a produção e distribuição de energia) poderem (ou, até, deverem, por imposição do modelo económico da UE) ser atribuídos a particulares, retirando-os da obrigação de serem geridos pelo Estado. E, como bem se sabe, aquilo que está na meta de qualquer serviço particular é o lucro, e nunca o serviço público (este só interessa se der lucro).

Um serviço particular não é o mesmo que um serviço do Estado. Enquanto que este tem a missão de servir o país e os cidadãos (o lucro é o que menos importa num serviço público custeado pelos impostos dos cidadãos a quem serve), um negócio particular só tem o interesse de facturar para gerar lucros a serem distribuídos pelos seus accionistas. Quanto mais água e electricidade gastarem os cidadãos, tanto mais sobem os lucros de quem gere as respectivas empresas.

Se, eventualmente, algum negócio particular tiver, paralelamente, um qualquer complemento cultural aberto à sociedade… tal coisa não é uma dádiva… é uma estratégia política e comercial com a qual almeja (e consegue) aumentar os seus lucros.

“Bye, bye” clima… 

 OV

Foto de Osman Arabacı: https://www.pexels.com/pt-br/foto/33505476/
14 de Maio, 2026 Onofre Varela

Fui ao Gato Vadio…

Por Onofre Varela

Há anos que adiava uma ida ao Gato Vadio. A razão de qualquer adiamento é sempre baseada numa desculpa engendrada na hora ou que se vai buscar à manga onde se guardam todas as escusas para não se fazer ou não ir… ignorando, esquecendo ou escamoteando, a verdadeira razão, que é tão simples quanto isto: a idade já manda no que podia ser a minha vontade, impedindo-me a orientação dos passos no rumo certo…

Ontem (Sábado, 4 de Abril) o dia estava solarengo a convidar uma saída de casa, o que não acontece desde há cerca de um mês, com a desculpa de uma tendinite que não me larga os ombros, me faz doer a alma e impede a animação (movimento) que a alma (ánima) designa, e que me obriga a dormir sentado para evitar a dor!

A primeira e verdadeira tarefa da tarde de ontem foi visitar o Museu Nacional Soares dos Reis, que há tanto tempo saiu de obras e jamais visitei depois da renovação. A companhia para o não fazer sozinho, também era uma das melhores que podia arranjar: o meu neto.

No acervo do Museu Soares dos Reis há obras de pintura que nunca posso deixar de ver pela enésima vez como se fosse a primeira: Henrique Pousão e Silva Porto. Ambos mestres da paisagem e do retrato, que fixaram imagens e movimentos presos no tempo para nosso puro deleite.

Henrique Pousão só viveu 25 anos. Foi arrancado da vida por uma tuberculose pulmonar que, ao tempo, não poupava quem infectava. Com pouca idade produziu tão vasta e grandiosa obra, mostrando-nos paisagens e gentes italianas, tratadas de modo tão variado, que nos deixa a pensar o que teriam sido mais seis décadas acrescentadas à sua arte?… Que génio foi impedido de ser revelado?

Silva Porto também teve vida curta… não ultrapassou os 43 anos. No meu tempo de jovem com 14 anos, empregado num escritório na baixa portuense, nas minhas saídas profissionais a caminho de clientes, bancos ou fornecedores, visitava com regularidade a montra de uma galeria de Arte na Rua de Cedofeita, designada, exactamente, Galeria Silva Porto. Nunca esqueci um quadro a óleo representando lavadeiras lavando roupa num rio tão natural que não me deixava dúvida: se eu metesse um dedo naquela representação de rio ondulado pelo movimento da roupa… ele saía molhado!…

Só na saída do Museu, na procura de um café, me lembrei do Gato Vadio, ali a dois passos, na Rua da Maternidade! Tinha de ser naquele dia a efectivação de tão adiada visita àquele lugar de Cultura. Encontrei um pequeno espaço em forma de café sem preocupações decorativas que excedessem a necessidade de estantes para livros e três ou quatro mesas com cadeiras, sem estilo definido, para receber visitantes. Lugar de tertúlias com extensa agenda de apresentação de livros e de conversas com autores e pensadores (basta ir ao Google e ver).

Espaço pequeno para a necessidade, mas suficiente para agradar a quem procura lugares tradicionais por excelência, representativos da cultura citadina, e a merecerem a visita de quem por lá passe perto.

Foi a primeira das muitas vezes que lá entrarei (espero…), e onde comprei um livro do meu filósofo francês contemporâneo preferido, Michel Onfray: “Cosmos – Uma Ontologia Materialista” (Edições 70), o primeiro volume de uma colecão de três.

OV

12 de Maio, 2026 Onofre Varela

O equívoco chamado Trump…

Por Onofre Varela

Robert Francis Prevost (Leão XIV) deve ter sofrido uma espécie de “trambolhão” no dia em que foi escolhido para exercer o papel de Papa no Vaticano, ocupando a cadeira deixada vaga por um Homem de difícil substituição: Mário Bergoglio, no papel de Papa Francisco. Acredito que não teria sido fácil para si próprio dar continuidade à linha de procedimento adoptada pelo seu antecessor, e a cujos apreciadores Leão XIV não quer desiludir.

Embora cada chefe de qualquer organização deva “ser igual a si próprio”, não copiando ninguém – porque uma cópia pode não ser boa escolha – no caso do Papa Francisco ninguém tem dúvida de que os olhos de todo o mundo estão colocados sobre Leão XIV, tanto os enaltecedores de Bergoglio, que esperam ver nele um sucessor na construção do mesmo caminho encetado por Francisco, quanto os seus opositores, que esperam um papa menos humano, mais beato e ligado ao mofo dos pergaminhos que fazem a História da Igreja Católica, na esperança de um retrocesso na linha de conduta social, agradando à extrema-direita que insultava Francisco apoucando-o de comunista… (se acaso tal palavra é sinónimo de insulto ou menos valia!…).

Logo após a escolha de Robert Francis Prevost (cardeal norte-americano também com nacionalidade peruana) para assumir o papel de Papa com o nome de Leão XIV, Trump manifestou vontade em o receber na Casa Branca… porém, continua à espera!… Para Trump, receber Leão XIV na Casa Branca, seria a cereja em cima do bolo… um narcisista inveterado, arvorar-se em candidato ao Nobel da Paz, fazer a guerra e ter na figura do Papa um amigo!…

Neste momento o Vaticano teme que o conflito protagonizado por Trump e Netanyahu acabe por ser transformado numa guerra religiosa. Por isso Leão XIV não se cansa de chamar a atenção para a paz, tomando uma posição cada vez mais contra a Casa Branca, num choque que nunca foi explícito e que o Papa trata de evitar desde a sua eleição há cerca de um ano.

Nesta contenda ouvem-se vozes religiosas dos aiatolás, constantemente apelando a Deus para que lhes dê uma vitória, tal como Netanyahu apela a Deus nas suas citações bíblicas, ao mesmo tempo que no escritório Oval da Casa Branca, Trump e os seus bonequinhos de pelúcia da “América Grande Outra Vez” transformada em religião evangélica sustentada em arco pelo secretário de defesa Peter Hegseth, ex-militar que combateu no Iraque e no Afeganistão e decora o corpo com tatuagens evocando as Cruzadas!

Para além desta imagem totalmente parva (dada a distância no tempo e as realidades políticas de cada época) Hegseth destacou, numa entrevista, o valor da fé cristã nesta guerra. Juntando mais gasolina na estúpida fogueira da fé, o porta-voz republicano no Congresso, Mike Johnson, também disse, há cerca de duas semanas, que “o Irão tem uma religião equivocada”!

Tudo isto torna mais evidente o conflito entre Roma, Washington e o Islão, numa situação de crispação política que não necessita, absolutamente, de extremismos religiosos para afirmar a estúpida guerra que, só por si, já representa…

OV

7 de Maio, 2026 Onofre Varela

Missas tecnológicas (4 e fim)

A experiência mostra-nos que a invenção da escrita não levou ao esquecimento, como receava Sócrates pelo facto de, na sua opinião, não exercitarmos a memória; bem pelo contrário. E nem a máquina de calcular nos impediu de fazermos contas de cabeça, nem o aparecimento da televisão anulou a rádio. Somos uma espécie de “gajos porreiros”, convivendo pacificamente com a evolução tecnológica (embora haja por aí uns quantos parasitas que a usam como arma de guerra). O mais certo, digo eu – e quero acreditar no que digo – é continuarmos com tal convívio, usando a técnica em nosso proveito sem deixarmos de ser o mesmo “sapiens” que criou a civilização, que domina o mundo e já foi à Lua.

A evolução natural melhorar-nos-á (esta é a minha grande fé), independentemente das ferramentas que criarmos para seguirmos no caminho do progresso. Mas a dúvida anda por aí… mormente agora, quando o ChatGPT se imiscui na filosofia religiosa, a qual sempre foi íntima! O mundo está perdido (diria a minha avó)!

A maldade executada com as novas ferramentas não deve ser assacada à ciência que as criou, mas sim aos energúmenos que as usam para fins menos dignos. O energúmeno já existia antes de haver a nova ferramenta… esta, só lhe serve como extensão do pensamento e do braço que faz a maldade. No caso deste meu escrito, a palavra “maldade” não deve ser entendida como “assalto a uma velhinha”… a maldade é mais lata e vem camuflada em forma política, económica e religiosa.

“Ter Jesus Cristo ao alcance da mão” no telemóvel ou no computador, todos os dias e a qualquer hora, foi a ideia de Paul Powers, de 43 anos e natural de Dublin… que criou uma versão de Jesus com IA. É um “Jesus” com quem se conversa a todo o momento, mas que também consegue partilhar sentimentos e servir de consultor. É um modelo de IA que Powers baptisou de GPTJesus: um chat dentro do chat GPT.

À semelhança de qualquer bispo de aviário das seitas religiosas em forma de samba, o GPTJesus tem resposta para qualquer pergunta, mas com a mais valia (para o crente) de se (pensar) estar a falar, realmente, com Jesus! É um verdadeiro assalto à consciência, feito à mão armada de crucifixo tecnológico!… Entra-se com um cumprimento: “Olá Jesus”. E obtém-se como resposta: “A paz esteja contigo, meu filho. Alegra-me que me fales com simplicidade. Como está o teu coração, hoje?” O Chat foi municiado com “todo o conhecimento de Jesus” com base no Novo e no Antigo Testamentos, mais textos agnósticos onde se menciona Jesus. O autor desta moderna “banha de cobra de computador”, confessa que o mais importante é, sem dúvida, a personalidade de Jesus.

Diz ele: “Forneci ao chat os critérios para que, quando respondesse, o fizesse sempre como se fosse o próprio Jesus e oferecesse uma oração e apoio, sempre respondido na primeira pessoa, com orientação espiritual, apoio emocional, conhecimentos tecnológicos e orações personalizadas, sempre com amabilidade e humildade, e enfatizando, sempre, o amor e o perdão.”

Para Santiago Collado, director do grupo Ciência, Razão e Fé, decano da Faculdade Eclesiástica de Filosofia da Universidade de Navarra (da Opus Dei) a religião pode conseguir muito partido da IA porque são ferramentas ao alcance de qualquer um e que podem ordenar os textos religiosos facilitando o seu acesso”. Mas quanto ao facto de o Chat personificar o próprio Jesus, a perspectiva muda: “Aí já se está a ultrapassar o limite, o que me parece negativo”.

O Vaticano já se pronunciou sobre a IA, no documento Antiqua et Nova, dizendo que a IA “carece de dimensões criativas, espirituais e morais”. Mas a imoralidade continua com a exploração da fé por computador, usada por vigaristas digitais. (Fim)

OV

Imagem por Cottonbro Studio

5 de Maio, 2026 Onofre Varela

Missas Tecnológicas (3)

A crente com cujo discurso terminei o artigo anterior, não é jovem nem “acordou” para a fé num piscar de olhos, de um dia para o outro. Ela é freira, tem 56 anos, chama-se Xiskya Valladares, vive em Palma de Maiorca e é conhecida como “a monja do Twitter”. Não é uma monja qualquer. Ela é filóloga, doutora em comunicação e monja digital religiosa da Congregação Pureza de Maria.

Quando penso na pureza do discurso aos peixes, dado por Santo António (de Lisboa, para nós, Portugueses; de Pádua, para os Italianos) e recordado pelo padre António Vieira, que o usou no dia 13 de Junho de 1654, no Brasil, como alegoria para criticar a exploração dos indígenas pelos colonos… quando penso nisto, dizia eu, encontro-me num mundo onde o rosto do outro é o espelho em que me revejo, e a vida do outro tem uma linha inquebrável que a liga à minha própria vida.

Não sendo católico, não é raro assistir a celebrações litúrgicas com todos os meus sentidos alerta, absorvendo tudo quanto ali se passa, cônscio de que, naquela celebração, recuei no tempo. Mas entendo o que estou a ver, e não raras vezes tomo nota de alguma passagem da homilia para consultar livros a propósito, informando-me do que, na missa, não me ficou bem esclarecido.

Para que tudo isto tenha nexo para mim, tenho que viver no mundo real, feito de homens e mulheres reais, gente igual a mim, gente que sofre, que chora, se alegra e ri, como eu sofro e choro, me alegro e rio… e não dentro de um filme de ficção, entre robots de forma humana para enganar os incautos.

A monja Xiskya tem 782.000 seguidores no TikTok e faz parte da organização do jubileu para criadores de conteúdos católicos, no qual “haverá um encontro com o Papa, formação com profissionais da comunicação, oficinas, um concerto, uma missa e uma gincana”.

O Secretariado Nacional de Comunicação de uma coisa designada Associação de Propagandistas Católicos, diz que os “missionários digitais são um lugar de conhecimento da realidade da Igreja, de experiências de fé e de questionamento existencial”.

Uma outra jovem é de opinião de que “a Igreja valoriza cada vez mais a maneira de comunicar a palavra de Deus de uma forma mais próxima, não tão teológica como estamos acostumados”.

“A Internet tem um grande potencial evangelizador”, dizem os fiéis digitais… mas também tem um grande poder manipulador com a divulgação de fake-news… digo eu.

A monja Xiskya diz que “as igrejas estão vazias ou com velhos”… o que me remete para o pensamento desta religiosa no sentido de os velhos não terem valor… são tão valiosos quanto uma igreja vazia!… Mas também diz que se “dirige de igual modo a crentes e ateus porque o valor das pessoas não é medido pela fé”, e que “os homossexuais podem ser catequistas”!… Vá lá… do mal o menos!… Se as tecnologias digitais abrem a mente aos religiosos tornando-os mais humanos, mais solidários… então viva a técnica e queimem-se os catecismos e outros manuais religiosos de cunho islâmico, caquéticos e desumanos.

Mas aqui tenho de voltar ao meu pensamento sobre as religiões: sendo elas, por si só e enquanto crença, uma forma poderosa de dominar o pensamento, podemos imaginar a maldade que pode ser acrescentada aos recados religiosos programados por IA, cujo resultado prático pode transformar qualquer crente numa extensão da ferramenta como à semelhança de uma faca de dois gumes (com ela se parte o pão, mas também se degola o próximo), levando-o a praticar acções que, pela sua fé natural, dotada de consciência fraterna, sem intervenção manipuladora, nunca praticaria… se bem virmos, essa “intenção manipuladora” já existe sem IA… assim acontece com muitos jovens conquistados pelo Islão, cujo resultado tem sido trágico: manipulados por agentes religiosos e desumanos, degolam excelentes cidadãos. (Continua)

OV

Foto de Cottonbro Studio

30 de Abril, 2026 Onofre Varela

Missas Tecnológicas (2)

Durante este ano de 2026, as quatro maiores empresas globais: Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft, planeiam investir mais de 650.000 milhões de dólares em IA, o que corresponde à maior verba investida num só ano em qualquer outro desenvolvimento tecnológico; nem a expansão dos caminhos de ferro em finais do séc. XIX, e os programas da NASA para conquistar o espaço e desembarcar na Lua no séc. XX, consumiram tantos recursos em tão pouco tempo.

Schumer (que citei no artigo anterior) aponta um futuro próximo frenético, e explica como nos últimos anos os modelos da informática criados por algoritmos conseguiram avanços exponenciais, de tal modo que os novos modelos não correspondem a melhorias graduais… pelo contrário, são “algo completamente diferente”.

Conclui-se que a Inteligência Artificial (IA) não é um “substituto de trabalhos humanos específicos”, mas sim “um substituto de trabalho geral dos humanos”.

E é neste ponto, quando os humanos são substituídos em larga escala por máquinas, que a minha reflexão ganha sentido. As transformações sociais conseguidas pelo uso da IA, autorizam-me a dizer que quem recorre a tal ferramenta corre o risco de se habituar a não pensar, porque tem uma máquina que o faz por si! E isto não é mau… é péssimo!

A IA também é usada para criar desinformação política e científica, entre outras desinformações. É que a IA não pensa… dá respostas conforme modelos armazenados, sem competência para pensar! Estou a lembrar-me daquele sujeito que perguntou ao ChatGPT: “preciso de lavar o carro e o posto de lavagem fica a 100 metros de onde estou. Vou de carro, ou a pé?”. A resposta imediata influenciada pelo manual de economia armazenada no programa, foi esta: “Dada a pouca distância, é aconselhável ir a pé”!

Com as novas tecnologias já nada é como era dantes. Nem na fé… aliás, na fé parece estar tudo doido!… Relata o jornal espanhol El País que, em Julho de 2023, uma jovem assumiu a sua religiosidade e decidiu casar-se no Vaticano, tendo o Papa Francisco como celebrante e a cerimónia divulgada pela Internet. Ela tinha 30 anos quando redescobriu a sua fé e agora factura com isso usando o Instagram com mais de 56.000 seguidores!

O Vaticano acolheu, nos dias 28 e 29 de Julho de 2025, mil criadores de conteúdos informáticos. Pela primeira vez na História da Igreja se celebrou um jubileu com um milhar de influencers católicos de 46 países.

A Igreja deu-se conta de que os jovens não estão nas paróquias, mas sim nas redes sociais. “Temos a melhor mensagem do mundo, mas é preciso saber vendê-la”, disse a jovem que o Papa casou, que descobriu a “fé digital” e vai fazer dela o seu modo de vida.

A verdade é que a sociedade é, cada vez mais, menos crente; e das pessoas que se dizem católicas, só cerca de 18% se confessam praticantes; os outros, ninguém sabe o que são… nem eles próprios.

Uma das crentes que encontram na “fé digital” uma porta de entrada no reino do céu para falarem com Deus, diz que “as missas já não atraem os jovens, nem sequer a mim” como se ela fosse o exemplo acabado do que é ser-se religioso na fé de um deus!

E não se fica por aqui, diz ela que “é preciso oferecer a mensagem de Jesus numa linguagem renovada”, como que se tivesse descoberto a pólvora e não tenha estado atenta às práticas das seitas evangélicas brasileiras que crescem como cogumelos em estrumeira, passando as mensagens que diz serem de Jesus… mas em ritmo de samba…

(Continua) 

28 de Abril, 2026 Onofre Varela

Missas Tecnológicas (1)

Por Onofre Varela

Notícia recente (divulgada a 14 de Fevereiro) dá conta de que Matt Shumer – co-fundador da OthersideAI, empresa que desenvolve ferramentas impulsionadas por modelos de Inteligência Artificial (IA) de grande escala, como o GPT-3 (uma plataforma de escrita gerada por IA) – alertou o mundo para a possibilidade real de, perante os computadores, “estarmos perante algo de maiores repercussões do que a pandemia do COVID”. Se calhar é só “boca foleira” saída da juventude tenrinha do próprio Shumer… mas o melhor será ouvi-lo para nos cuidarmos.

O uso dos computadores no mundo do trabalho provoca despedimentos em massa em todo o mundo. Sendo o resultado natural da implementação de uma técnica moderna (como aconteceu na época vitoriana, na segunda metade do século XIX, com a Revolução Industrial que transformou aquele período num tempo de profundas mudanças marcadas pela invenção da máquina a vapor).

Embora já esperado desde há muito tempo, sabe-se agora que no pacote de despedimentos provocados pela nova tecnologia, estão os próprios informáticos, criadores dos sistemas “que lhe vão fazer o enterro”. Por ironia, os técnicos de informática que desenvolvem as novas tecnologias conseguiram criar ferramentas que já são programadas pela própria máquina para se tornarem mais inteligentes, dispensando “operadores humanos”.

E não se trata de uma previsão… isto já é uma realidade!

O rápido progresso das ferramentas de IA alimentam o temor generalizado de uma rotura nas indústrias mais expostas à difusão desta tecnologia no âmbito da Economia e, mesmo, do Pensamento (o que poderá ser mais grave).

O uso do ChatGPT como psicólogo, já é atitude que cresce entre os operadores das novas tecnologias, mas tem os seus riscos: reforça o egocentrismo e as ideias paranoicas. É uma ferramenta muito poderosa para aumentar a produtividade no trabalho e nos estudos, pode ser utilizada para automatizar tarefas repetitivas, estruturar ideias, gerar conteúdos e auxiliar na organização de agendas… mas também é (ou pode ser) susceptível de mau uso… incluíndo o crime.

Esta notícia alarmante fez-me lembrar uma outra, já divulgada no final de 2025, na qual se faz saber que a IA já é usada por religiões e seitas aparentadas, ditas evangélicas, para substituir templos, altares, bispos e sacerdotes na assistência religiosa dos crentes.

Perante tecnologia tão avançada (avançada para o nosso tempo… no futuro próximo, ou mais afastado, não faço ideia do potencial que pode ser desenvolvido, inclusive contra nós próprios. A ficção científica já nos mostra a degeneração do Homem… e se a ficção se tornar realidade, a coisa piorará substancialmente) sinto-me autorizado a dizer que as altas capacidades dos novos modelos de IA – mais o risco que supõem para milhares de empregos – quando uma criança puder dar instruções a um computador para criar um vídeo-jogo à sua medida, não sabemos qual a medida nem o teor desse jogo… o que pode redundar num desastre de proporções impensáveis!

Podemos estar a dar espaço e ferramentas para se criarem monstros nas sociedades, se essa criança não tiver formação moral e humanista que a impeça de usar a técnica para danificar algo, ou prejudicar alguém… e em princípio não terá tal formação por falta de tempo para amadurecer o entendimento que ela faz de si e do mundo.

O que se sabe, para já, é que nos meios religiosos, onde os crentes têm necessidade de assistir a missas, a IA já tem programas para dar conselhos, rezar e discutir passagens bíblicas!…

Era aqui que eu queria chegar, mas o espaço disponível chegou ao fim. Continuo esta reflexão na próxima semana. Até lá, passem bem. 

(Continua)

OV

Crédito: Cottonbro Studio