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16 de Abril, 2026 Onofre Varela

Eu sou anti-semita?

Por Onofre Varela

A pergunta expressa no título desta prosa foi motivada por uma crítica de que fui alvo em 2023 por parte de uma instituição israelita perante o desenho que ilustra esta crónica, na época (2023) exposto na Bienal de Arte de Gaiae depois de criticado foi mostrado nos canais da televisão e comentado em rádios e jornais. A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia recebeu carta do consulado israelita em Lisboa exigindo a retirada do apoio que a autarquia dava ao evento, alegadamente por apresentar mensagens “anti-semitas”… do que, então, dei conta neste espaço.

Agora, perante o que se passa no mundo, com ditadores como Putin, Netanyahu e Trump a invadirem territórios independentes pretendendo tomá-los para si (para se apoderarem do território, ou do petróleo e da exploração de minerais), em desrespeito pelos direitos dos respectivos povos e pelas leis internacionais, o assunto de “ser-se anti-qualquer coisa” voltou-me à mente.

É comum qualquer ditador considerar-se insultado por quem critica as suas atitudes, por isso não me admirei de os censores do meu trabalho me rotularem de “anti-semita” (Salazar rotulava de anti-patriota quem não fosse Salazarista, Putin rotula de terrorista quem o critica, e Trump diz que os seus críticos são comunistas). Os ditadores sempre se afirmaram cidadãos exemplares e donos da razão universal… embora só mereçam o encarceramento sem fiança e por largas décadas.

Por isso me obrigo a perguntar: Eu sou anti-semita? Uma definição de “anti-semitismo” (*) pode ser esta: «a recusa de conceder a Israel aquilo que é dado a qualquer outro estado, isto é, uma existência plena, definitiva e estável» (palavras de David Grossman no prefácio do seu livro “O Coração Pensante”, editado pela Dom Quixote em 2024).

Segundo esta definição, eu – que defendo a existência de Israel e da Palestina – não sou anti-semita… mas Putin é anti-ucrânia independente e anti-ocidente; Trump é anti-Gronelândia independente, anti-América Latina e anti-Europa… tal como os sportinguistas são anti-benfiquistas e vice-versa, e os genros são anti-sogra… (uma estupidez de todo o tamanho).

Há um tipo de “anti” de que eu estou certo de ser: sou anti-nazi, anti-estado de guerra, anti-invasores e anti-ditadores.

(*) – O termo “Semita” quer dizer “oriundo de Sem”. Sem foi filho de Noé que, na história bíblica, embarcou na arca com os seus irmãos Cam e Jafé para sobreviverem ao dilúvio, e deram origem ao povo Hebreu (Judeu), do qual também faz parte Jesus Cristo.

OV

14 de Abril, 2026 Onofre Varela

CIÊNCIA E ECONOMIA – PROBLEMA DE TODOS NÓS

Por Onofre Varela

A investigação científica é de extrema importância em sociedades modernas. Numa primeira abordagem podemos dizer que a Ciência gera conhecimento e impulsiona o progresso tecnológico. Vista mais de perto, a Ciência melhora a qualidade de vida de todos nós, fomenta o desenvolvimento sócio-económico e impulsiona o progresso tecnológico, ultrapassando a mera economia que também beneficia dela.

Podemos dizer que os trabalhadores da Ciência são os profissionais que mais falta fazem ao mundo… (não são os políticos nem os comerciantes de armamento [estes últimos estão ao nível dos traficantes de seres humanos e exploradores sexuais]) mas que, pela organização económica e política em vigor no mundo, acabam por se submeter aos poderes que, habitualmente, são leigos ou analfabetos em Ciência.

Numa sociedade moderna, a investigação científica está na base da criação de conhecimento, relacionando-se com a compreensão do mundo, mas também com o desenvolvimento de materiais e processos que fazem o caminho do progresso.

Porque as sociedades se baseiam na Economia enquanto mola-catapultadora das condições necessárias ao estudo e à investigação, em Portugal criou-se um organismo para financiar a Ciência. Trata-se da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) criada como Instituto Público com a missão de financiar os sectores da Ciência, Tecnologia e Formação.

As empresas (todas elas) não devem responder, unicamente, às exigências do mercado. Também têm a responsabilidade de liderar a transformação social e económica… e aqui, há um importantíssimo ponto a observar: Eficiência Tecnológica e Económica, não podem existir sem o Humanismo na valorização da condição humana acima de tudo. Sem esta condição “não há condições” que permitam o avanço da Ciência e da Economia positiva.

A FCT foi criada como Instituto Público em 1997 por proposta de José Mariano Gago, então ministro da Ciência e Tecnologia e, até hoje, funcionou sem problemas de maior. Agora, o governo de Luís Montenegro decidiu extinguir a FCT, mais a Agência Nacional de Inovação (ANI), que serão fundidas num só organismo denominado Agência para a Investigação e Inovação (AII).

Se, até aqui, a ajuda dos sucessivos governos à FCT merecia algum reparo, a partir de agora, perdendo o estatuto de Instituto Público, transformando-se numa Entidade Pública Empresarial, o receio dos seus profissionais é extrapolado pelo facto de tal transformação poder trazer acoplado o processo de liberalização, com prejuízo para a liberdade de investigação mais o correspondente (e inevitável) reflexo negativo na sociedade.

A investigação científica não é um prato que se confecciona de imediato usando produtos que temos ao dispor numa dispensa de prateleiras cheias. Os resultados de muitas investigações científicas obedecem ao conhecimento gerado por algumas gerações, e não há calendário para encerramento dos seus estudos. É preciso tempo, pago pela Economia que gera o sector, a qual, sendo privada, apresenta o risco de, na pretensão de colher lucros imediatos, abandonar as investigações mais alargadas no tempo (cujo alargamento é vital para o sucesso) por se afigurarem “dispendiosas”.

A figura de retórica comercial denominada “dispêndio económico” merecia um ensaio aprofundado (não por mim, que não estou habilitado) sobre o tipo de economia que inventamos, e a necessidade de o abandonarmos radicalmente, no sentido de desvalorizarmos o dinheiro, valorizando, cada vez mais, o Ser Humano num Humanismo vital (e deseconómico) que, penso, nunca foi tentado. É preciso fazê-lo!

OV

12 de Abril, 2026 Onofre Varela

DESRESPEITO PELOS IMIGRANTES QUE NOS ENGRANDECEM

A revista Visão, na sua edição do dia 6 de Novembro de 2025, inclui um Dossiê/Reportagem sobre imigração com o título “Isto já não é um país acolhedor”, assinado por três jornalistas: Alexandra Correia, Lucília Monteiro e Francisco Romão Pereira, que fizeram um trabalho de investigação digno de nota.

Transcrevo o último parágrafo da reportagem, porque ele contempla uma das mais importantes mensagens que a reportagem contém, no sentido da valorização do trabalho imigrante na economia do país. (As frases entre parêntesis são da minha responsabilidade):

«Todos os indicadores económicos e demográficos apontam o valor inestimável da imigração para o nosso país. Vários sectores, como a agricultura, as pescas, o turismo e a restauração, não sobreviveriam já sem eles. O medo (disseminado por má-fé pelos xenófobos) é simplesmente algo sem fundamento. (Resulta) da emoção primária usada no discurso político para obtenção de vantagens eleitorais. Já o ódio, esse, tem várias explicações. Pondo o dedo na ferida: o racismo tem sempre implícita a ideia de que o outro ser humano vale menos. E, portanto, como bons cobardes, decide-se bater no elo mais fraco. Naturalmente, o discurso xenófobo vindo dos políticos atiça e inspira a violência nas ruas. Não há inocentes neste caminho. É nesta encruzilhada que nós, enquanto sociedade, nos encontramos (e para dela sairmos temos de crescer em termos de raciocínio humanista, não admitir o ódio dos extremistas e combatê-los, até. Só assim faremos jus ao facto de sermos portugueses e termos herdado uma cultura multi-racial desde que andamos pelo mundo a deixar marcas em todas as regiões)».

A solidariedade – que nos torna humanos na melhor definição do termo – é atacada pelos piores de nós que fazem alarde do primitivo sentido racista que representam e alimentam.

Por associação de ideias, e pegando na frase “a ideia de que o outro ser humano vale menos” acima mencionada, recordo que o racismo levou ao “apartheid” na África do Sul, desde 1948 até 1994.

Nos EUA o “apartheid” praticado pelos americanos tomou o nome de “segregação racial”… a qual, no fundo, praticava o mesmo desrespeito pelo ser humano de tom de pele diferente.

O “apartheid” sul-africano foi condenado internacionalmente como injusto e racista nas Nações Unidas em 1973, mas só em 1976 a ideia ganhou força e caminhou “em câmara lenta” levando à sua abolição, apenas, em 1994, quatro anos depois da libertação de Nelson Mandela a 11 de Fevereiro de 1990.

31 anos nos separam de tal data que marca um avanço na história da Humanidade. Constatarmos, hoje, que a ideia do racismo e da segregação faz o dia-a-dia de muitos países (entre os quais Portugal) que alimentam extremas-direitas xenófobas, é constatar que a Humanidade está em regressão… a andar em marcha-atrás.

A solidariedade e a amizade entre os povos, que faz a melhor parte de nós, é atacada por essas direitas que alastram no mundo como nódoa em tecido precioso.

De facto, tal como se diz na reportagem, isto já não é um país acolhedor… e tal constatação só nos diminui.

É preciso que o tempo avance, permitindo que os eleitores alimentadores de xenófobos percebam a “marcha-atrás” social e humanista que apoiaram… e se envergonhem…

OV

28 de Março, 2026 Onofre Varela

Dia de S. Valentim

Ó leitores… isto de escrever regularmente para um jornal, tem três fases. A primeira, é a novidade e o gozo que nos dá, enquanto articulistas, levar a nossa opinião aos leitores (que até nos podem mandar bugiar por não estarem nada interessados nos nossos pensamentos… mas nós imaginamos, sempre, que é importante o que temos para dizer); a segunda fase é quando a nossa escrita já faz parte da rotina dos nossos dias e os textos saem naturalmente, assim como se as ideias que temos para transmitir estivessem amarradas aos molhos, à espera de serem estendidas no papel, ou no documento do computador, bastando retirá-las do molho como se fossem cabeças de alho; e a terceira é aquela em que me encontro… já com centenas de artigos escritos e publicados (desde 2000, n’O Arauto de Rio Tinto), cuja escrita já se torna, por vezes, mais o “problema da obrigação” do que o “prazer da escrita” (a velhice é tramada!…).

Antes de iniciar este texto olhei para o calendário, e o dia que li (14 de Fevereiro) remeteu-me para o Dia dos Namorados, o que me deu a ideia de escrever sobre ele… só a meio do trabalho me dei conta de que escrevo um mês depois do dia que imaginei… a 14 de Março!… Lá tive de voltar atrás para escrever este intróito explicativo e actualizar a escrita que já tinha registado no papel a esferográfica, e que vem a seguir com a necessária correcção.

O Dia de São Valentim é, como se sabe, dedicado aos namorados. O calendário dos dias festivos votados a algo ou alguém, serve duas intenções: a primeira é a de comemorar determinado evento ou a de lembrar determinada personalidade pelos seus feitos ou pela sua filosofia de vida; e a segunda (provavelmente a mais poderosa) é o comércio que se faz à volta do dia festivo… neste caso, o Dia dos Namorados, que beneficia a hotelaria, o turismo e a restauração, mais o comércio de acessórios de moda e de objectos decorativos do lar… e, eventualmente, uma ou outra livraria).

O 14 de Fevereiro (da minha confusão) também me fez lembrar, pela proximidade, o dia 4 de Fevereiro de 1961, quando angolanos independentistas atacaram prisões de Luanda, no aproveitamento das dezenas de jornalistas e “batalhões” de fotógrafos que ali se encontravam na expectativa de o barco Santa Maria (desviado por Henrique Galvão) se dirigir a Luanda, e a acção dos activistas angolanos – que iniciavam a insurreição armada contra o Estado Português (a qual durou 14 anos) – ser divulgada para todo o mundo (mas Henrique Galvão dirigiu-se ao Brasil)… e cá está outra vez o número 14 que me baralhou!

Quem foi S. Valentim, “santinho” tão evocado pelos namorados do mundo cristão?

Valentim foi um bispo que viveu no século III em Roma, na época do imperador Marco Aurélio Cláudio (ou Cláudio II) que proibiu os casamentos na convicção de que “homens solteiros” são “melhores soldados”… logo, no entender imperial, os homens têm como principal função serem bons soldados (e para Cláudio seria a única serventia dos jovens romanos: serem fortes, guerreiros, valentes e ferozes ao serviço do império) negando as suas vidas próprias, naquele tempo em que Roma lutava contra os “Godos”, o que valeu a Cláudio o cognome de “Gótico Máximo”.

Mas Valentim foi mais homem do que soldado, marimbou-se nas premissas do imperador Cláudio e continuou a celebrar casamentos em segredo, na defesa do amor e do matrimónio, contra a proibição imperial. Por isso foi preso, torturado e decapitado na Via Flamínia, em Roma, no dia 14 de Fevereiro do ano 269 ou 270. Da história se fez lenda, e a liturgia cristã valoriza a fidelidade de Valentim a Jesus Cristo. Por seu lado, a cultura popular fez dele o mito protector dos casais de namorados, simbolizado na entrega de flores e mensagens de carinho… mas que a nossa era do consumismo transformou no negócio que sabemos. 

OV

Foto por Alleksana

17 de Fevereiro, 2026 Carlos Silva

Laicidade

Imagem: IA

A laicidade é um pilar fundamental e inviolável da democracia e um dos princípios identitários da Constituição da República Portuguesa (CRP) que legalmente todos estamos obrigados a respeitar.

Os artigos 41.º e 43.º da CRP consagram precisamente a liberdade de consciência, de religião, de culto e estabelecem a base da laicidade: «as igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado» e «o ensino público não será confessional».

De igual modo, a Lei de Liberdade Religiosa (LLR) estabelece que «o Estado não adota qualquer religião nem se pronuncia sobre questões religiosas»; «nos atos oficiais e no protocolo de Estado será respeitado o princípio da não confessionalidade»; «o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes religiosas» e «o ensino público não será confessional».

Compete, pois, à Assembleia da República «garantir o cumprimento da Constituição e das leis e fiscalizar os atos do Governo e da Administração», bem como «tratar todos os assuntos respeitantes aos direitos e deveres fundamentais consignados na Constituição e na lei».

Compete ao Estado assegurar a liberdade de consciência dos cidadãos, onde se inclui a religiosa, a separação entre política e religião, que protege ambas, e a igualdade de todas as pessoas perante a lei. É precisamente a liberdade de consciência que garante o direito de professar, mudar, ou não ter qualquer religião.

Compete ao Estado (a todos os órgãos) adotar e manter uma postura neutra e imparcial relativamente a todas as confissões religiosas, não interferindo nem permitindo interferências na administração, nomeadamente no que se refere à educação religiosa na escola pública e a participação em atos oficiais ou protocolares de entidades religiosas.

O proselitismo religioso deve restringir-se exclusivamente às instituições religiosas. De igual modo, governantes e todos os membros de órgãos do Estado, no exercício de funções, devem abster-se de participar em cerimónias ou rituais religiosos, podendo, no entanto, a título privado, exercer esse direito no seio da sua própria confissão.

O Estado não pode estabelecer nenhum tipo de convenções ou acordos jurídicos que privilegiem determinada religião. A “Concordata” entre a Santa Sé e a República Portuguesa, é um manifesto exemplo de violação do princípio fundamental da laicidade. Mais do que uma imposição legal, a revogação da Concordata e a revisão da LLR, são imperativos democráticos que urge retificar e ratificar, por forma que sejam abolidos os privilégios e isenções concedidos exclusivamente à Igreja Católica.

Um Estado democrático não tem religião oficial e não apoia ou discrimina qualquer crença; garante que todos os seus cidadãos sejam tratados em igualdade de direitos, independentemente da sua confissão religiosa, ou ausência da mesma.

A laicidade é em si um modelo de cidadania baseado na neutralidade e igualdade de todos os cidadãos perante a lei num espaço comum livre e democrático.

A laicidade do Estado é inviolável!

ATEU ATÉ AO FIM, 2026-01-07 Carlos Silva

28 de Janeiro, 2026 Eva Monteiro

Quinta (!) Carta a Um Crente

A primeira carta está aqui, a segunda carta está aqui, a terceira carta está aqui e a quarta carta está aqui. Sem esse contexto será muito complicado entender o texto que se segue. Convém deixar claro que a dada altura desta conversa informei o meu interlocutor que estava a publicar esta troca neste blog.

Confesso que nesta altura da discussão, já estamos a chover no molhado. Não digo que a minha resposta diga algo de novo. É uma questão de ser obstinada em debater até que todas as perguntas sejam respondidas, mesmo quando já está visto que o interlocutor não é intelectualmente honesto o suficiente para se chegar a bom porto. Sabendo que a conversa é circular, também achei que não a partilhar seria injusto. Faria parecer que o crente desistiu, quando não o fez. Por isso, para quem queira ler, aqui vai:

Boa tarde.

É giro. ☺️

Mas se funciona para ti, tudo bem. 👌

Eu é que invadi o teu espaço e por isso peço desculpa.

Eu tenho as minhas convicções, que já não não fazem parte da fase da fé mas sim do saber.

Eu não acredito em Deus, eu sei que Ele existe.

A partir daí, tudo o resto ganha outra dimensão.

E independentemente das minhas convicções, nunca quis impor a ninguém, seja o que for.
Mas não posso nunca deixar de divulgar e acima de tudo tentar ser a melhor versão que posso ser, enquanto espírito encarnado.

Não me leves a mal, mas toda a tua explicação é única e exclusivamente baseada nos 5 sentidos, pois falas em vários avanços científicos, mas sempre com o apoio dos 5 sentidos. E está tudo certo 👌
Eu apenas acredito em mais, muito mais.

Falas em dinheiro 💰 😁

A base do espiritismo é dar aos outros de graça aquilo que nos foi dado de graça. Portanto, há uma tremenda mistura de que não posso concordar, pois estás a inserir o espiritismo no mesmo saco que o ocultismo. Nada tem a ver com oculto.

As bases do Espiritismo aceitam, na região, filosofia e ciência. Estavtrindade não pode ser separada, pois há uma correlação entre elas.

Percebo o que dizes, pois visto do teu ponto de vista, alguém dizer não há certo nem errada, há apenas diferentes visões para uma mesma coisa, seja complicado.
Mas do “meu” ponto de vista, faz sentido. ☺️

Pois tu acreditas, que a sociedade só obedece a leis sociais, ou seja – casos extremos, nós só não matamos alguém porque fomos educados a não o fazer e também temos leis que o proíbem. Mas imagina, se não houvesse alguém que a um determinado momento tivesse assassinado alguém, tu pura e simplesmente nem sequer sabias que matar era errado. Apenas o sabes porque alguém o fez. Neste sentido, alguém cometeu algo atroz mas serviu de ensinamento.
E isto é válido para tudo na vida. Tudo tem dois opostos, a não ser a inteligência suprema (Deus).

E para o teu problema de, então se Deus é bondoso e nos ama a todos por igual, porque permite toda esta atividade no planeta Terra? 😁

Muito simples, a ideia é evoluir, só vamos evoluir, experimentando, errando, mas todos lá chegaremos.
É uma maratona, não uma corrida de velocidade.

A Terra tem à volta de 4 mil milhões de anos. O ser humano homo sapiens tem 300 mil anos.
Olha o que nós evoluímos desde aí? ☺️

Já saimos do mundo primitivo, estamos agora num mundo de provas e expiações.
Iremos passar para um mundo de regeneração a seu tempo. 👌
E isso estamos a falar do planeta Terra.

Enfim… Muito há a falar e a discutir e é sempre bom questionarmos tudo. Até porque se assim não for, como iríamos evoluir?

Percebo se não me quiseres aturar, até porque à primeira vista, sou apenas mais um que vive uma fantasia. 😂

Sem stress, vivo bem com isso. 👌

Beijinhos, é sempre um prazer. 🙏

E mais uma vez, como um cão atrás da cauda, voltei a repetir argumentos e a reiterar a oferta de submeter o Espiritismo ao escrutínio da ciência:

Boa tarde!

Gosto imenso do novo tom. O “é giro”, é tão conciliador que quase soa a paternalismo. Quase. Mas convém não confundir simpatia com competência no debate de ideias. Agora já só te estás a repetir em argumentos que já desmontei. O padrão que noto nesta conversa é mesmo este. Eu desmonto argumentos, tu repetes a mesma coisa por palavras diferentes, vestidas de epifania. Já reparaste que ao longo desta conversa foste deixando cair temas que não te davam jeito, enquanto eu faço questão de ir ponto por ponto a todas as tuas afirmações? Estranho, não é? Há até questões que deixaste por responder. Mas não faz mal, eu não me importo de as ir repetindo. Pode ser que te surja outra epifania, tenho essa esperança. Afinal, o que acontece uma vez, pode acontecer mais vezes, não é?

Podemos começar pelo ponto em que insistes em repetir uma frase feita que cheira ao mofo das igrejas: “eu não acredito, eu sei que Deus existe”. Continuas a usar o verbo “saber” num sentido que não corresponde ao que ele significa. Eu acho que já te expliquei isto, mas sou uma rapariga muito paciente. O facto de estares muito convicto, emocionalmente seguro ou existencialmente confortável não transforma uma crença metafísica em conhecimento. Chamar “saber” a uma convicção íntima e pessoal não a torna menos crença, pelo contrário. Torna o teu discurso mais vazio, mais emocional, e se calhar até mais apelativo às pessoas menos racionais, Enfim, é uma espécie de chantagem emocional. Se eu disser que não sabes porque não tens como saber, sou a vilã, que é precisamente a função retórica dessa formulação. Depois de várias trocas de mensagens acho que deixei claro que não me sinto na obrigação de albergar sentimentalismos alheios ou de concordar só para agradar. Não se coaduna nem com a verdade nem com a minha personalidade.

Qualquer sistema fechado de crenças ganha coerência interna a partir do momento em que aceitas o seu postulado central como sendo indiscutível. Neste caso a existência de um deus supremo e de um mundo de fantasmas que andam aí a flutuar com o objetivo de vir “cá abaixo” tomar um cafezinho com os vivos mas cuja sabedoria não se estende a oferecer soluções para os problemas da Humanidade. O Casper tinha mais utilidade. É uma estrutura circular de pensamento, em que um deus justifica a existência de alminhas penadas e as alminhas penadas são elas mesmas a prova de que esse deus existe. Não é sequer mais sofisticado do que o argumento mais comum dos meus debates semanais: “deus existe porque a Bíblia diz que existe, e a Bíblia é verdade porque deus existe”. Aplique-se o mesmo ao Corão, que é usado exatamente da mesma forma. O problema é o facto de não acrescentares qualquer poder explicativo verificável sobre a realidade.

Quanto à insistência nos “5 sentidos”, lá estás tu a repetir uma caricatura que já foi desmontada na minha mensagem anterior. Repara que contra-argumentar é apresentar razões fortes (no mínimo) para contrariarmos o que foi dito anteriormente. Mas se tu achas que faz sentido ficar só a papaguear o que já foi dito, então legitimas a minha própria repetição: não baseio nada exclusivamente nos meus cinco sentidos. Baseio-me, ou antes, confio em cientistas que se baseiam em métodos que corrigem, amplificam e vão além dos sentidos: instrumentos, medições, modelos matemáticos, testes cegos, replicação independente, entre os vários métodos que produziram as conclusões científicas que te permitem, por exemplo, tomar vacinas, ou estar agora mesmo a segurar num telemóvel. A ciência existe precisamente porque os sentidos são falíveis. O que tu chamas “acreditar em mais” não é nem ir além dos sentidos, nem é nada de transcendente. É só uma recusa em aceitar qualquer mecanismo de controlo do erro. Como opinião pessoal, que vale o que vale, é só uma forma de te sentires superior a outras pessoas porque sabes algo que não está ao alcance delas, coitadinhas. Eu reservo a inveja para gente que entende coisas como astronomia, física e matemática. Esses sim, são admiráveis. Mudam o mundo todos os dias. Se tens mais de 30 anos, deves isso a gerações e gerações de gente que ampliou o conhecimento científico, não a fantasmas e almas penadas. Muito menos a Allan Kardec.

Sobre o dinheiro: não falei de ti, nem de centros espíritas específicos. Falei do fenómeno geral da espiritualidade enquanto mercado, e ele existe, quer gostes quer não. Saberás melhor que eu porque é que enfiaste esse barrete. O facto de uma doutrina se autodescrever como gratuita e caridosa não a coloca automaticamente fora de escrutínio, e muito menos a livra de crítica. A maioria das religiões também dizem viver do amor, da partilha e da fraternidade. Isso nunca as impediu de acumular poder, influência e capital. E, já agora, o Espiritismo pode não ser “oculto”, mas é igualmente infundado. Não são sinónimos, mas também não são opostos. Carecem ambos de prova, são ambos baseados em experiências pessoais, ambos fazem afirmações fantásticas sobre a realidade. Naquilo que interessa, ocultismo, espiritismo, espiritualidade, religião, superstição, bruxaria, entre outras, são exatamente iguais.

A tal “trindade” ciência–filosofia–espiritismo é outro exemplo de colagem arbitrária. Acho sinceramente que podemos afirmar que a ciência e filosofia dialogam porque partilham critérios racionais e disposição para revisão. Acima de tudo, a filosofia não tende a apresentar verdades absolutas com base na revelação. O Espiritismo não partilha dessa vontade de falsificar as próprias hipóteses. Apropria-se da linguagem da ciência, cita-a quando convém, ignora-a quando contraria os seus postulados, tal como a religião e o ocultismo e qualquer outra forma de pensamento mágico. É parasitismo e espero que entendas que na prática não há diferença nenhuma entre um espírita e a vidente, médium, taróloga do TikTok (sim, os títulos são engraçados e vêm sempre aos trios, no mínimo). Se achas que há, convido-te a submeteres a tua prática religiosa ao escrutínio da ciência.

Quero só fazer mais uma observação quanto à ideia de que o mal é necessário para aprendermos que o mal é mau. Não precisamos de assassinos para sabermos que matar é errado. As crianças mostram, desde muito pequenas, empatia, aversão ao sofrimento alheio e sentido de justiça antes de qualquer enquadramento religioso. A moral nasce da capacidade de reconhecer o sofrimento humano. Isto é inato porque é biológico e evolucionário. É muito simples entender que uma espécie animal como a nossa necessita de controlar a sua violência e preservar o outro, como forma de garantir a continuidade da espécie. Somos primatas que evoluíram em sociedades que têm como principal pilar a cooperação. O teu raciocínio não só falha como justifica retroativamente atrocidades como etapas pedagógicas divinamente impostas. Não posso aceitar este argumento, que é o clássico de teodiceia, e continua tão fraco hoje como sempre foi.

Dizes que tudo tem dois opostos, exceto o teu deus. Olha que “giro”! Um sistema que começa por afirmar uma dualidade universal e imediatamente cria uma exceção absoluta para salvar a própria tese não explica nada. Tudo tem um criador exceto o teu deus. Afinal, se a regra universal tem uma exceção, quem te diz que não tem duas, ou três, ou mil? Quem te diz que não é o universo essa exceção?

Quanto à história da evolução moral da Terra, dos mundos de provas e expiações aos mundos de regeneração, desta forma religiosa, é apenas uma forma de apresentar uma cronologia religiosa. A questão não é se evoluímos, é se a nossa existência é fruto de um deus omnipotente, omnibenevolente, omnisciente e omnipresente. Esse deus é tão bom e tão poderoso que esta é a melhor ideia que consegue ter? Eu que sou humana e limitada consigo ter ideias melhores. Aposto que tu também. Esse é um deus pouco poderoso, pouco criativo ou pouco competente. Em todo o caso, é acima de tudo, pouco. Uma explicação estilo “é a vontade de deus nosso senhor” não explica nada, não prevê nada, nem resolve nada. É uma narrativa confortável apenas porque promete uma redenção após “esta vida”. Justifica emocionalmente o sofrimento, mas só se tiveres os olhos fechados, os ouvidos tapados e a boca cosida. Funciona bem como consolo. Agora, como descrição da realidade, é risível.

Dizes que percebes se eu te achar mais um a viver uma fantasia. Não é uma questão de “achar”. Fantasia é o nome que se dá a um sistema explicativo que não tem correspondência demonstrável com os factos e que resiste à refutação porque redefine constantemente os seus critérios. O pensamento mágico é o Ventura da racionalidade humana.

Quanto a não impor nada a ninguém: divulgar convicções como se fossem conhecimento é uma forma suave (suave, no teu caso, suponho) de imposição. Tudo bem que não é coerciva, mas é real. Acima de tudo faz uso de uma chantagem emocional descarada. “Isto é a minha crença, eu estou a dizer-te que é verdade e se me contrariares és rude e estás a chamar-me de louco ou mentiroso. Como te atreves, sua herege??? Respeita a minha crença!!!” É feio, é paternalista, é o que faz persistir o incómodo em criticar ideias religiosas. As ideias competem no espaço público, quer queiramos quer não, e algumas fazem mais estragos do que parece. Sobretudo quando se apresentam como moralmente superiores e imunes à crítica. Lembra-te que o Espiritismo desde 1857 e nada vos impede de submeter as vossas conclusões ao escrutínio da ciência. Quando quiseres, eu própria faço os contactos necessários para submeter uma das vossas sessões à verificação de cientistas e céticos. Acho que já tinha feito esta oferta. És muito simpático e tal, mas esta parte não dá jeito, não é?

Por isso não, não te levo a mal, nem me cansas. Mas convém chamar as coisas pelo nome. Não estamos perante duas “formas igualmente válidas de viver o mundo”. Estamos perante um conflito claro entre pensamento crítico e crença metafísica escondida atrás de uma certeza subjetiva, emocional e logicamente inválida.

Por muito simpático que seja o tom, a falta de pensamento crítico não se resolve com emojis e beijinhos. Eu estou mais que disponível a entender melhor o teu ponto de vista quando te cansares de repetires sempre a mesma narrativa religiosa, supersticiosa e fantasiosa e quiseres entrar no ramo dos factos. Que conclusão consegues apresentar, dentro do Espiritismo que seja testável e repetível? Lembra-te que tem de ser falsificável, ter poder preditivo, ser internamente consistente, compatível com o conhecimento científico já existente, parcimoniosa, independente da crença do observador e passível de correção quando se revelar errada. Se os cientistas fazem isto diariamente, tenho a certeza de que as pessoas iluminadas, superiores e dotadas de poderes mediúnicos também o conseguem fazer e, quiçá, superar.

Fico a aguardar com expectativa a oportunidade de contactar cientistas e céticos para colocar o Espiritismo à prova. A menos que lá no fundo saibas que é uma fantasia mágica da qual não queres abrir mão e que tens medo de ver desconstruída de uma vez por todas. E está tudo bem, cada um anda com as bengalas que quer, ou das quais depende.

Espero, de resto, que a tempestade não te tenha afetado, nem aos teus entes queridos. Será que os fantasmas sentiram a ventania da noite passada?

Alcina Lameiras
27 de Janeiro, 2026 Eva Monteiro

Quarta Carta a Um Crente

A primeira carta está aqui, a segunda carta está aqui e a terceira carta está aqui. Sem esse contexto será muito complicado entender o texto que se segue.

Já tinha perdido esperança de receber uma resposta. Notei que a resposta anterior tinha sido gerada pelo ChatGPT ou outra IA qualquer, pelo que percebi que o meu interlocutor estava cansado do debate e com preguiça mental. Respondi com a terceira mensagem porque não conseguia deixar de o fazer, mas achei sinceramente que não ia receber resposta. Esta última pareceu-me, pelo menos, mais intelectualmente honesta:

Bom dia. Ando há meses para tentar arranjar algo que faça sentido para te responder.

E tive uma epifania agora mesmo.

Nós andamos a responder um ao outro com base naquilo que acreditamos, naquilo que estudamos, naquilo que nos faz sentido enquanto seres humanos pensantes.

Todavia nós esbarramos em algo muito peculiar e até caricato.

Ti respondes com base única e exclusivamente com I que achas que é a verdade, ou seja o que os teus 5 sentidos conseguem detectar. E aí é que está o cerne da questão, e ao qual este diálogo será sempre de sentido único tanto para mim, como para ti.

Já eu, acredito em muito mais do que aquilo que os meus 5 sentidos podem captar. Não há aqui certos nem errados, há apenas uma diferença de viver a vida e o mundo.

E se tu és uma pessoa com dois dedos de testa, ou seja, não praticas o mal, não desejas mal a ninguém, és fraterna, solidária, caridosa, tu até podes ser hippie, gótica, budista, hinduísta, etc.

É-me completamente diferente. ☺️

Se há coisa que aprendi com a minha experiência de vida é que isto não é uma corrida de velocidade e sim uma maratona tão longa quanto o infinito.

Portanto, não faz sentido usarmos literatura, frases feitas, pois nós os dois conseguimos defender a nossa crença, e não crença (de algo mais que a matéria) com alguma facilidade tendo em conta o nosso estudo contínuo.

Não quer dizer que não ache peculiar e deveras interessante as nossas discussões, saudáveis.

Mas realmente é um ponto engraçado.

Pois tu achas que tudo é fruto do acaso e não de uma inteligência superior.

Ben um acaso é mesmo inteligente, para conseguir criar um universo tao denso e tão perfeito. 😁

Não me interpretes mal mas é suigeneres e deveras engraçado, a forma como vês o mundo.

Tu podes dizer exatamente isso mesmo de mim, 👌.

No entanto o busílis da questão é, se é for boa pessoa qual é o problema deveu acreditar no Pai Natal e no Coelhinho da Páscoa? 😂

Um ótimo fim de semana para ti.

Desculpa, deixei de ser tão formal e espero que não me leves a mal.

Beijinhos.

Foto de Greg Rakozy na Unsplash.

Não pude deixar de responder porque, como já sabem, não resisto a contra-argumentar falácias:

Não imaginava que esta conversa pudesse gerar uma epifania, mas fico contente. Claro que a minha alegria não é tanta que não discorde dessa dicotomia entre os que se limitam aos 5 sentidos e os que vão supostamente além disso. Antes de mais, porque não me cinjo aos meus 5 sentidos. Confio em cientistas que dispõem de muito mais do que os 5 sentidos para investigar a realidade (e a base da minha confiança é a verificabilidade e repetibilidade das descobertas científicas). A ciência moderna baseia-se em observações e experiências que testam o mundo real com instrumentos que desenvolveu para esse fim (e que sabemos que funcionam porque produzem resultados). O que não faz e que eu própria recuso fazer é basear o conhecimento da realidade em raciocínios a priori, intuições ou (ainda pior) revelações. Gostava de te relembrar que muitos dos avanços científicos (como a existência de bactérias, ondas de rádio ou buracos negros) são invisíveis aos 5 sentidos, mas foram confirmados com recurso a instrumentos como telescópios e microscópios. Portanto, tratar a visão sobrenaturalista e o método científico como se estivessem no mesmo plano é cair num viés que eu recuso com repulsa. Não são a mesma coisa. A ciência, com os seus instrumentos, permite que tenhas coisas como a internet e o GPS, raios-x, hemodiálise, entre tantos outros. O paracetamol, porra! A espiritualidade permite, como único resultado palpável, verificável e repetível que meia dúzia de pessoas saquem algum ou muito dinheiro a outras. Não é o mesmo nível de resultados, utilidade ou factualidade.

Também não posso aceitar a ideia de que “não há certo nem errado, apenas pontos de vista diferentes igualmente válidos”. Essa postura relativista absoluta destrói logo qualquer possibilidade de critério objetivo. Se todos os pontos de vista fossem colocados no mesmo plano, um especialista numa determinada área teria exatamente o mesmo peso que alguém a opinar sem qualquer base. Eu sei que é isso mesmo que acontece nas redes sociais, e por vezes até nos órgãos de comunicação social. Não devia acontecer. Que entende uma zé ninguém como eu de ciência para opinar sobre a administração de tratamentos médicos? Se calhar tenho opiniões ou experiências pessoais, mas não sou especialista. Acima de tudo, não sou suficientemente arrogante para achar que vou eu descobrir a pólvora quando há médicos que estudam a vida inteira para salvar vidas. Para quem acha isso, a solução é uma: estudar medicina e revolucionar o ramo científico a que se decida dedicar. O cientista não pode ser colocado no mesmo patamar que o tasqueiro que tem a solução para tudo e mais alguma coisa. Posicionar o conceito de verdade como inteiramente relativo impede que tenhamos parâmetros para distinguir facto de fantasia. Há pela internet gente que mete gotas de urina nos olhos para tratar a miopia. Consegues, em consciência, dizer que cada um tem a sua verdade quando há gente a provocar infeções oculares por pura ignorância e uma dose pouco saudável de estupidez? Reconhecer diferentes perspetivas é legítimo, também acho que cada um tem uma cabeça para pensar. Agora, afirmar que todas as perspetivas são igualmente válidas já não é coisa com que eu possa concordar. Caso contrário coloco um biólogo contra um padre e aceito que o padre tem uma posição válida por exemplo, quanto a questões do corpo feminino que supostamente nunca observou, estudou ou sequer tocou.

Quanto ao argumento de que o universo é “perfeito demais para ter surgido ao acaso”, desculpa que te diga, mas estás a assentar numa falácia que já foi desmantelada ad nauseam. A noção de “ajuste fino” (que é uma falsidade religiosa) não implica sequer design consciente, muito menos inteligente. Usar a improbabilidade como prova de intenção está errado. É que assim, confundes dizer “não sei como isto aconteceu” com “logo, alguém teve de criar o universo”. Isso é uma falácia do apelo à ignorância. A história da ciência está cheia de exemplos de fenómenos que noutros tempos foram atribuídos a inteligências superiores que hoje compreendemos perfeitamente por mecanismos naturais. A ignorância momentânea nunca foi boa base para postular entidades sobrenaturais e chama-se a isso o “Deus das Falhas”. Ou seja, à medida que a ciência avança, deus recua. Digo deus, poderia dizer deuses, é apenas o sobrenatural que dá lugar ao natural à medida que as explicações são dadas. Nunca um deus foi necessário à ciência ou à humanidade para avançar o conhecimento. O oposto já é verdade. Tens, aparentemente, um problema com o acaso, ou antes com a existência não intencional de alguma coisa. No entanto, vives todos os dias rodeado de acasos que não te confundem. Pior ainda, achas que há um grupo de pessoas que conseguem falar com os “espíritos” de quem já morreu e que desde 1857 a ciência não consegue estudar fenómenos supostamente testáveis e repetíveis. E eu é que tenho crenças sem sentido?

Passando, por fim, à tua comparação com o Pai Natal e o Coelhinho da Páscoa, a diferença é que essas figuras são assumidamente ficcionais, não têm como objetivo explicar a realidade nem orientar decisões sobre o dia a dia das pessoas. As crenças espirituais e religiosas é que fazem afirmações sobre a natureza da realidade, da consciência, da moral e da suposta vida após a morte, e influenciam comportamentos individuais e coletivos, aliás, sociedades inteiras. Dizer “qual é o problema de acreditar, se a pessoa for boa?” é ignorar que uma crença, por ser infundada, não é necessariamente inofensiva. A bondade de uma pessoa não valida a veracidade daquilo em que acredita, nem transforma uma crença falsa em verdade. O critério não é a intenção moral, é a correspondência com os factos. Por outro lado, como dizia Weinberg, as pessoas boas hão-de fazer coisas boas e as pessoas más, coisas más. Mas para pôr pessoas boas a fazer coisas más, é preciso religião. São crenças no sobrenatural que iludem, por exemplo, pessoas boas a acharem-se parte de um grupo especial. Por exemplo, acreditarem que têm poderes sobrenaturais, que conseguem ajudar outras pessoas que precisam de cuidados médicas e, no processo matá-las. Não houve neste exemplo uma transgressão moral, a pessoa acha que tem poderes e que há um médico que encarna no seu corpo para curar. Entretanto um cancro fica sem tratamento. Essa pessoa é má? Não. Talvez seja pouco inteligente, mas normalmente só foi endoutrinada e é (quase) tão vítima quanto a sua própria vítima. Normalmente quando digo isto a resposta é: “Ah, mas na minha doutrina/religião/grupo/etc. não fazemos isso! Quando vemos que a pessoa tem um problema de saúde encaminhamos para o médico!”. Pois… porque o que quer que vocês estejam a fazer é um placebo na melhor das hipóteses e desastroso na pior.

Uma questão muito diferente seria se eu julgo uma pessoa como imoral porque tem crenças religiosas, se a quero perseguir ou se quero proibir a crença que tanto a conforta. Se essa questão te tiver passado pela cabeça, a resposta é não. A maioria das pessoas que professam crenças religiosas ou que são supersticiosas não são más pessoas. Ter crenças falsas não é necessariamente ser-se cruel, ou mau. Mas que é um bom sítio para evoluir nesse sentido, lá isso é. A História comprova-o sem sombra de dúvidas.

A nossa evolução pessoal e coletiva depende da disposição de cada um de nós para submeter as nossas ideias ao escrutínio. Ficarmos presos a uma ideia falsa apenas porque nos dá conforto não é intelectualmente honesto nem válido e, acima de tudo, não nos ajuda a nenhum nível. Prezar o pensamento crítico não é uma questão de cinismo ou de arrogância. Pelo contrário, é recusar confundir conforto emocional com factos. Entre preservar crenças porque fornecem algum tipo de certeza inabalável (provavelmente o conforto de achar que esta vida não é o fim) e aceitar apenas aquilo que resiste à crítica racional, eu prefiro estar desconfortável mas entregue à verdade.

Posto isto, bom fim de semana, foi uma excelente conversa!

1 de Janeiro, 2026 Eva Monteiro

Mártir

– Preciso de ir para o inferno – Eufémia sussurrou, quase a encostar os lábios à dobra luminosa onde supunha estar o ouvido do anjo. A ausência de sombras impedia o discernimento de distâncias, num local onde nem o som se propagava. Ainda assim não conseguia elevar a voz.

Hadraniel não se moveu. De asas abertas, mantinha uma imobilidade sólida que se estendia ao ar que o rodeava.

– Não te entendo – disse, sem qualquer censura. – Estás onde deves estar.

Ao fundo, tocava uma harpa incorpórea. Não era alta, nem agressiva. Era perfeita. A melodia repetia-se com variações mínimas, apenas as suficientes para parecer sempre nova mas nunca diferente. Eufémia tentou contar quantas vezes já a tinha ouvido, desistiu, e sentiu o mesmo cansaço de sempre assolar-lhe o corpo, se é que se podia chamar corpo àquilo.

Inspirou fundo. Desde que ali chegara, o ar estivera sempre carregado de doçura: flores que não murchavam, mel que nunca fermentava. Um perfume constante, sem falhas, sem descanso. Abriu os olhos e fechou-os de novo, numa tentativa inútil de escapar ao brilho dourado que se infiltrava em tudo, inclusive por trás das pálpebras.

– Eu não consigo ficar aqui – disse. – Não há aqui nada.

– Nada? – Hadraniel inclinou ligeiramente a cabeça. O gesto era estranho, parecia ensaiado. – Aqui está tudo.

Eufémia quis ajoelhar-se.

O impulso surgiu-lhe inteiro, intacto, aprendido em vida. O corpo iniciou o gesto de forma mecânica, dobrando-se à espera do impacto, do próprio peso a ceder, da pressão nas articulações. Nada. Não houve contacto, nem resistência, nem aquele momento instável em que o ouvido ajusta o equilíbrio.

Forçou o movimento. Inclinou-se mais, empurrando o corpo perfeito para a frente, à procura de um limite que se impusesse. A posição não se alterou. Estar de pé ou de joelhos exigia a mesma ausência de esforço. A perfeição não oferecia fricção.

Endireitou-se bruscamente e deixou-se cair.

Era um gesto calculado e simples. Esperava, pelo menos, a humilhação do fracasso e o eco vazio da tentativa. O movimento dissolveu-se antes de se completar. O conceito de queda parecia incompatível com aquela existência.

O ar não reagiu. Não se deslocou. Não acolheu nem rejeitou o gesto. Eufémia ergueu as mãos ao espaço à sua frente, abrindo e fechando os dedos, à procura de atrito. Nada. Nem frio, nem calor. Uma neutralidade absoluta, colada à pele que já não sentia como sua.

Inspirou fundo e reteve o ar nos pulmões.

Em vida, aquele gesto ter-lhe-ia feito arder o peito com urgência, uma sensação familiar de aflição seguida de um espasmo inevitável. Agora, a reação física estava ausente. Soltou o ar apenas porque sabia que era assim que o gesto devia terminar.

Apertou as mãos uma na outra de forma deliberada. Esperou pela dor, atenta ao formigueiro familiar ou um qualquer sinal de limite. Não doeu. Apertar ou relaxar era indiferente.

– Preciso de sentir alguma coisa – disse, baixo.

– Aqui não há dor – respondeu o anjo. – Não é necessária.

Eufémia soltou uma gargalhada curta e seca, que morreu no espaço sem eco.

– Era – disse. – Para mim, era.

Começou a mover-se. Era estranho caminhar sem produzir passos. Não havia ritmo, nem cadência. Avançar não aproximava nada. Parar não a afastava. Cada tentativa confirmava apenas que não pode haver movimento sem oposição.

Parou.

A sensação de cansaço não lhe largava o corpo perfeito, talvez não como fadiga física, mas como memória de exaustão. Olhou em volta. O branco estendia-se em todas as direções, saturado de reflexos dourados que não indicavam caminho nenhum. Não havia portas, nem margens, nem fissuras.

– Se não posso cair – disse -, se não posso ajoelhar-me, se não posso cansar-me… não estou aqui.

O anjo demorou a responder.

– Estás.

A palavra não corrigiu nada. Encerrou a possibilidade de réplica. Eufémia fechou os olhos. Pela primeira vez desde que ali chegara, desejou simplesmente estilhaçar, já que não lhe era permitido desaparecer. Queria transmutar-se, reconhecer-se em qualquer coisa de imperfeito, mutável, ainda que falhado.

Piscou os olhos com fúria. Tudo permanecia imutável, dourado e perfeito. Sem prestar atenção ao corpo que não reconhecia, deixou-se levar à memória do tempo em que era físico e em constante mutação. Ao procurar sentir os próprios olhos, notou apenas que não produziam lágrimas para espelhar o desamparo.

– Não sei por que estou aqui, anjo. A minha vida não foi tão pia quanto aparenta. O Pai não sabe? – Podia tê-lo dito com maior malícia, se o seu rosto não fosse tão perfeito que não permitisse um esgar.

– O Pai sabe tudo; estás onde deves estar.

– Quando me torturaram, quando me espancaram, quando me violaram, eu não cedi. Nunca renunciei ao Pai. De cada vez que me maltratavam o corpo eu sentia orgulho, não sentia o amor d’Ele. Sentia poder no desafio de me manter dissidente perante quem me queria quebrar. Nunca foi por fé. Não entendes? Eu não pertenço aqui.

Eufémia fechou os olhos com força, numa tentativa vã de recuperar alguma coisa do peso antigo. Em vida, aquele gesto precedia sempre a decisão. Ao fazê-lo, havia de aceitar mais uma humilhação, mais um golpe, mais uma prova.

– Eu queria aquilo – disse por fim. A voz saiu-lhe firme, desafiante. – Não o céu. A dor. Nunca quis nada disto.

Hadraniel fitou-a, com a imobilidade de sempre.

– Quando me batiam, quando me deixavam sem forças, quando me tomavam o corpo com toda a crueldade que a mente humana consegue imaginar, eu sentia-me maior do que eles. – Abriu os olhos, fixando o vazio dourado à sua frente. – Não era amor. Era orgulho. Eu tinha a certeza de que não me conseguiam quebrar.

Em vida, aquelas palavras ter-lhe-iam custado dizer. Por hábito, fez uma pausa curta. Não precisava de respirar mas o hábito permitia sentir se o anjo mudava de posição ou transparecia algum sentimento.

– Eu queria ser como Ele. – disse sem hesitação. – Detestava os santos que rezavam em silêncio, mas almejava ser como o Filho na cruz. A sangrar, exposto à dor, humilhado pelos homens. Queria que o meu corpo fosse prova. Que a morte fosse a confirmação inequívoca de que tinha sido mais digna do que qualquer outro mártir antes de mim.

Hadraniel ouviu-a com a mesma atenção serena que lhe havia dedicado desde que ali chegara. Não havia aprovação, nem reprovação.

– Eu queria morrer – continuou Eufémia. – Não acreditava verdadeiramente na promessa, mas a morte parecia-me o auge. O fim justo para uma vida de sofrimento. – Um sorriso breve tentou formar-se-lhe no rosto, mas não encontrou lugar. – Morri convencida de que tinha vencido.

O silêncio que se seguiu não pesou. Nada ali pesava.

– Aqui – disse ela, mais baixo. – Não tenho um corpo que possa reconhecer como meu. Nem feridas. Nem mérito. Tudo o que fiz… tudo aquilo em que me tornei, está ausente.

Deu um passo em direção ao anjo, com esperança que fosse possível aproximar-se de alguma coisa.

– Se o Pai soubesse quem eu era, não me teria trazido para cá. Eu não fui boa. Fui apenas mais de tudo. Fui cruel comigo mesma e com os outros. Chamei fé ao desprezo pelo mundo, à recusa da dúvida, ao prazer secreto de me sentir eleita. – A voz tentou, em vão, tremer de frustração. – Isso não devia ser recompensado. Ou isto é um castigo?

Hadraniel respondeu sem alterar o tom retumbante e indiferente.

– O sofrimento foi suportado. A renúncia foi mantida. A morte confirmou a fidelidade.

– Mas não foi por amor – insistiu Eufémia. – Foi tudo vaidade.

– A motivação não altera o desfecho – disse o anjo. – Aqui não existe culpa.

As palavras nem sequer precisavam de ecoar.

Eufémia abriu a boca para protestar, para voltar a acusar-se, para encontrar uma falha maior, algo que obrigasse aquele lugar a rejeitá-la. Nada parecia pior do que revelar as suas motivações mais humanas. Sentia que nem sequer havia categoria para o pecado que queria confessar. Ira? Soberba?

Baixou o olhar. Pela primeira vez desde que morrera, sentiu-se verdadeiramente nua. Num corpo perfeito, só se havia despido de sentido.

Se o céu recusava a culpa, não havia redenção possível. Em vida não o teria confessado, teria visto o mundo como vil e a si mesma ombro a ombro com o deus a quem entregara tudo. Agora, perante a perfeição desta existência, tudo em vida lhe parecia mesquinho e inferior, num mundo tão ternamente imperfeito que teria merecido o seu amor.

– Então tudo o que fui morreu comigo – murmurou.

Hadraniel não respondeu.

Eufémia compreendeu, com uma clareza que a atravessou como uma lança romana, que nem a maldade lhe era permitida ali. Depois de todas as tentativas falhadas, o impulso extinguiu-se-lhe como um músculo atrofiado. Ao invés de resistir, o céu absorvia tudo. Não impunha limites, porque não permitia a existência de nada que os pudesse transpor.

A harpa angelical persistia. Já não a distinguia como som, era apenas o status quo, como o mel e as flores que cheirava continuamente. Não vinham de lugar nenhum, não se dirigiam a ninguém. Existiam como uma condição daquele espaço, tal como o brilho, tal como a ausência de sombra, tal como a certeza de que nada ali podia falhar.

Eufémia tentou recordar a última vez em que sentira medo verdadeiro. Havia o medo ritual, aprendido, invocado nos sermões e nas leituras piedosas, mas o que procurava recordar era o medo animal, que encolhe o corpo e tolda o raciocínio. A memória surgiu-lhe. Estava numa cela húmida e escura que cheirava a fezes e sangue, onde conseguia ouvir o som irregular da própria respiração e o grunhidos das ratazanas. Tentou agarrar-se à memória, deixar-se envolver na recordação. Sentiu-a escapar-lhe, corrigida em vez de apagada.

– Nem a memória me pertence – disse, sem elevação de voz, sem expectativa de resposta.

Hadraniel continuava ali. Os olhos pousados nela não indicavam atenção nem desatenção. Sem troca, o anjo tornava-se apenas parte do branco infinito, mais um raio de luz dourada que a acompanhava.

Eufémia concentrou-se no último gesto possível: desistir de querer. Em vida, desistir fora sempre impossível. Mesmo na exaustão extrema, mesmo quando o corpo implorava rendição, havia nela uma chama obstinada e arrogante, que a obrigava a continuar. Agora, tentava extingui-la deliberadamente.

Não funcionou.

Desistir, ali, não era queda. Era apenas a natural forma de estar. Nem sequer o abandono lhe era permitido enquanto gesto final. A vontade, anulada, tornava-se irrelevante. O céu não exigia participação porque lhe bastava a presença.

– Isto é a vitória – murmurou, mais como constatação do que como acusação. – Não é?

Hadraniel não respondeu, nem havia diálogo possível. O anjo não representava uma consciência com quem pudesse negociar. A sua função não era explicar, nem punir, nem consolar. Era garantir que aquilo que chegava ali nunca mais saía.

Eufémia sentiu por fim a maior das derrotas ontológicas. O cansaço de existir sem consequência. De pensar sem consequência. De ser sem possibilidade de erro. Da inevitável imutabilidade.

– Se não posso errar – disse -, não posso escolher. E se não posso escolher… não posso ser.

A harpa manteve-se inalterada. Repetiu a variação mínima que prometia novidade mas que no fundo representava apenas continuidade.

Durante um instante, tão breve que Eufémia quase o descartou como ilusão, o brilho à sua frente hesitou. Desviou-se, como se se tivesse deparado com algo que não sabia como tocar. Não havia fissura visível, nem porta, nem sombra. Mas a certeza absoluta sofrera uma imperfeição microscópica.

Hadraniel inclinou a cabeça. O gesto foi mínimo, funcional, isento de significado humano. Ainda assim, aconteceu.

– Vais permanecer aqui – disse, finalmente. Não era uma ameaça. A frase era apenas uma descrição.

Eufémia não respondeu. Já não havia palavras que pudessem produzir efeito. O céu tinha vencido de forma total. Onde na violência não podia acontecer, era a impossibilidade de conflito que a fazia, finalmente, render-se. Não lhe restava sequer a dignidade da insurreição.

Deixou de ter noção se tinha os olhos abertos ou fechados, já não fazia diferença. Se o inferno existia, não estava ao seu alcance. E se alguma vez lhe fosse possível alcançá-lo, não seria por força, nem por fé, nem por vontade.

A escolha não lhe pertencia. E o som da harpa continuou a assaltar-lhe os ouvidos perfeitos.

***

Não havia tempo no céu, mas havia registos. A ausência foi anotada antes sequer de ser compreendida.

Hadraniel manteve-se no ponto exato onde Eufémia existira pela última vez. O espaço continuava pleno, intacto, saturado de luz e harmonia. Nada indicava qualquer falha. Nada, exceto o facto de já não haver ali uma presença a sustentar.

– Alma permanente – declarou, não para alguém em particular, mas para o próprio sistema que o constituía. – Estado: íntegro. Continuidade: garantida.

A afirmação não produziu efeito.

A música celestial manteve-se. A harpa executou a variação mínima seguinte. O branco não se alterou, a luz dourada não voltou a hesitar. Ainda assim, algo não coincidia com o enunciado. A permanência exigia ocupação. E ali, naquele ponto exato, havia apenas plenitude vazia.

Hadraniel recalculou. Não tinha a capacidade de produzir dúvida, porque esta não fazia parte da sua função, mas havia um procedimento. O céu não previa evasão. A categoria não existia. As almas não saíam. Permaneciam, dissolvidas na perfeição, sem fricção, nem resíduo.

– Não presente – acrescentou, após um intervalo que não correspondia a hesitação.

O registo aceitou a informação sem reação. A luz intensificou-se, como consequência automática da invocação superior. Não havia deslocamento na presença do Pai, em vez de movimento, a transcendência trazia saturação. Tudo ficou cheio de tudo.

– Uma alma atribuída à glória não permanece – declarou Hadraniel, agora dirigido ao absoluto. A constatação não carregava nenhum tipo de acusação.

Seguiu-se um silêncio que traía apenas a suspensão de relação. O Pai preenchia tudo. A totalidade não precisava de se explicar.

– Alma à glória – constatou o anjo. – Renúncia mantida. Ausência.

A luz da totalidade não se alterou.

Durante um instante impercetível, houve um ajuste falhado. Não no espaço, mas na lógica que o sustentava. Uma correção automática, como se o céu procurasse uma forma de incluir a exceção sem a reconhecer como alteração à sua intrínseca imutabilidade.

– A alma não rejeitou a glória. – acrescentou Hadraniel. – Cessou.

A palavra não era exata. Mas era a mais próxima disponível.

O Pai permaneceu.

Não havia ali um termo para perda. O céu não concebia fuga. Aquilo que não permanecia não podia, por definição, ter lá estado.

– Anomalia registada – disse o anjo, finalmente.

A luz começou a rarefazer-se até ao nível habitual. A harpa retomou o ciclo desde o início, sem memória da interrupção que nunca acontecera. Hadraniel permaneceu no lugar designado. A sua função não era procurar, muito menos compreender. Limitava-se garantir a estabilidade daquilo que existia.

Ainda assim, no ponto onde nada faltava, a totalidade demorou mais do que o expectável a fechar-se sobre si mesma. Se uma alma podia desaparecer sem oposição, não era o inferno que a reclamava. O céu é que não acolhia a sua existência.

25 de Dezembro, 2025 Carlos Silva

Solstício de Inverno

 

Imagem: Internet

Não deveríamos celebrar o Natal, mas sim o Solstício de Inverno!
Na realidade, os cristãos copiaram e deturparam o conceito de Natal.
Na realidade o Natal não passa de uma relíquia dos primórdios da civilização humana que tinha por crença a adoração do Sol.
Quase todas as festividades pagãs estavam ligadas a eventos naturais…
Durante milénios, os nossos antepassados celebravam o Solstício com festivais de luz, trocas de presentes e encontros sazonais…
O Solstício de Inverno anuncia o renascimento simbólico do Sol, o prolongamento dos dias…
Celebrar o Natal católico é, pois, celebrar uma imitação… uma ilusão!
Celebrar o Natal católico é manter acesa a chama de um dos mais antigos dogmas impostos pelo Cristianismo.

Celebrar o Solstício de Inverno é celebrar a Vida e a Realidade!

AGORA ATEU (II), 2024-12-25 Carlos Silva

30 de Novembro, 2025 Onofre Varela

Qual a influência da Religião na Política?

A frase que faz o título desta crónica vi-a, há cerca de uma semana (precisamente na véspera do dia em que escrevo), em rodapé de um programa de televisão, motivando-me a escrever sobre ela. Qualquer enciclopédia nos diz que “Religião” é o termo que designa um sistema sócio-cultural (de entre imensos sistemas) que abarca divindades, práticas, profecias, crenças, cosmovisões, profecias, éticas, sobrenaturalidade, transcendência, espiritismo e também espiritualidade.

O divino e o sagrado são elementos comuns à maioria esmagadora das religiões, que existem em número desmedido… são cerca de 10.000 em todo o mundo… e cada uma se afirma “única e verdadeira”, na demonstração da pequenez do Homem que as fundou e lidera! Nas práticas religiosas incluem-se rituais, sermões, festivais, venerações, sacrifícios, festas, transes e iniciações, mas também serviços prestados à sociedade onde cada religião se estabelece, como casamentos e funerais (inseridos nos rituais) e a comercialização de creches, infantários e escolas.

Em Portugal, a religião Católica faz a fé dos portugueses desde 5 de Outubro de 1143 (há 882 anos), quando, na Conferência de Zamora, se assinou a independência de Portugal entre D. Afonso Henriques (conde de Portucale) e o seu primo Afonso VII de Leão. 767 anos depois, no mesmo dia e mês (5 de Outubro… mas de 1910) a monarquia portuguesa teve o seu fim e foi implantada uma república laica. A Igreja Católica foi perseguida pelos primeiros republicanos anti-clericais (atente-se que “anti-clericalismo” e “anti-religião” não são a mesma coisa. Se o primeiro “anti” teve razão de existir como antídoto a um clericalismo feroz, já o segundo me parece não ter sentido, pois o Homem é um ser religioso por natureza, característica que não me merece discussão (se o não fosse, não tinha criado deuses). Podemos discutir as práticas das várias religiões e o aproveitamento político que delas se faz… mas isso já é outra conversa… e a política que se lhe mistura faz a razão desta crónica).

Em 1911, com Sidónio Pais (após um ano de República anti-clericalista) foram reatadas as relações diplomáticas com a Santa Sé, e o Catolicismo retomou o caminho que em Portugal vinha fazendo no tempo da monarquia… até hoje.

E aqui chegamos à razão do título desta crónica. À pergunta formulada, eu respondo: “sim, a religião tem muita influência na política”, exercendo-a, principalmente, nas mentes dos cidadãos menos atentos, desligados da História e da filosofia comportamental, e que estejam imbuídos de um “sentimento religioso com defeito”, levando-os a aceitar discursos extremistas que influenciam o seu sentido de voto, não percebendo (para desgraça de todos nós) que votam contra si próprios… (e contra mim… o que é bem pior!). Não é por acaso que o líder da extrema-direita exibe, amiúde, um rosário; e que diz ter acabado de vir da missa. Este discurso leva os religiosos (católicos e evangélicos, quando o são no pior sentido dos termos: o extremado), a votar num vírus destruidor da Democracia… a mesma Democracia que permite ao tal vírus nefasto e maléfico, sentar-se no Parlamento, semear insultos para os seus parceiros parlamentares e sementes de erva daninha na sociedade.

Sim, a Religião influencia a Política, porque sendo actividade humana é, também, actividade política. E num Parlamento democrático, republicano, laico e respeitador do Ser Humano, aos grupos extremistas devia ser negado lugar. Partidos racistas, xenófobos e desagregadores da sociedade, não me merecem crédito, e também não deviam merecer existência legal, exactamente por serem inimigos da ordem e da lei que a nossa Constituição regista e defende. E não é a Constituição que está errada!… O erro mora na mente de quem a quer destruir.

OV

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