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28 de Janeiro, 2026 Eva Monteiro

Quinta (!) Carta a Um Crente

A primeira carta está aqui, a segunda carta está aqui, a terceira carta está aqui e a quarta carta está aqui. Sem esse contexto será muito complicado entender o texto que se segue. Convém deixar claro que a dada altura desta conversa informei o meu interlocutor que estava a publicar esta troca neste blog.

Confesso que nesta altura da discussão, já estamos a chover no molhado. Não digo que a minha resposta diga algo de novo. É uma questão de ser obstinada em debater até que todas as perguntas sejam respondidas, mesmo quando já está visto que o interlocutor não é intelectualmente honesto o suficiente para se chegar a bom porto. Sabendo que a conversa é circular, também achei que não a partilhar seria injusto. Faria parecer que o crente desistiu, quando não o fez. Por isso, para quem queira ler, aqui vai:

Boa tarde.

É giro. ☺️

Mas se funciona para ti, tudo bem. 👌

Eu é que invadi o teu espaço e por isso peço desculpa.

Eu tenho as minhas convicções, que já não não fazem parte da fase da fé mas sim do saber.

Eu não acredito em Deus, eu sei que Ele existe.

A partir daí, tudo o resto ganha outra dimensão.

E independentemente das minhas convicções, nunca quis impor a ninguém, seja o que for.
Mas não posso nunca deixar de divulgar e acima de tudo tentar ser a melhor versão que posso ser, enquanto espírito encarnado.

Não me leves a mal, mas toda a tua explicação é única e exclusivamente baseada nos 5 sentidos, pois falas em vários avanços científicos, mas sempre com o apoio dos 5 sentidos. E está tudo certo 👌
Eu apenas acredito em mais, muito mais.

Falas em dinheiro 💰 😁

A base do espiritismo é dar aos outros de graça aquilo que nos foi dado de graça. Portanto, há uma tremenda mistura de que não posso concordar, pois estás a inserir o espiritismo no mesmo saco que o ocultismo. Nada tem a ver com oculto.

As bases do Espiritismo aceitam, na região, filosofia e ciência. Estavtrindade não pode ser separada, pois há uma correlação entre elas.

Percebo o que dizes, pois visto do teu ponto de vista, alguém dizer não há certo nem errada, há apenas diferentes visões para uma mesma coisa, seja complicado.
Mas do “meu” ponto de vista, faz sentido. ☺️

Pois tu acreditas, que a sociedade só obedece a leis sociais, ou seja – casos extremos, nós só não matamos alguém porque fomos educados a não o fazer e também temos leis que o proíbem. Mas imagina, se não houvesse alguém que a um determinado momento tivesse assassinado alguém, tu pura e simplesmente nem sequer sabias que matar era errado. Apenas o sabes porque alguém o fez. Neste sentido, alguém cometeu algo atroz mas serviu de ensinamento.
E isto é válido para tudo na vida. Tudo tem dois opostos, a não ser a inteligência suprema (Deus).

E para o teu problema de, então se Deus é bondoso e nos ama a todos por igual, porque permite toda esta atividade no planeta Terra? 😁

Muito simples, a ideia é evoluir, só vamos evoluir, experimentando, errando, mas todos lá chegaremos.
É uma maratona, não uma corrida de velocidade.

A Terra tem à volta de 4 mil milhões de anos. O ser humano homo sapiens tem 300 mil anos.
Olha o que nós evoluímos desde aí? ☺️

Já saimos do mundo primitivo, estamos agora num mundo de provas e expiações.
Iremos passar para um mundo de regeneração a seu tempo. 👌
E isso estamos a falar do planeta Terra.

Enfim… Muito há a falar e a discutir e é sempre bom questionarmos tudo. Até porque se assim não for, como iríamos evoluir?

Percebo se não me quiseres aturar, até porque à primeira vista, sou apenas mais um que vive uma fantasia. 😂

Sem stress, vivo bem com isso. 👌

Beijinhos, é sempre um prazer. 🙏

E mais uma vez, como um cão atrás da cauda, voltei a repetir argumentos e a reiterar a oferta de submeter o Espiritismo ao escrutínio da ciência:

Boa tarde!

Gosto imenso do novo tom. O “é giro”, é tão conciliador que quase soa a paternalismo. Quase. Mas convém não confundir simpatia com competência no debate de ideias. Agora já só te estás a repetir em argumentos que já desmontei. O padrão que noto nesta conversa é mesmo este. Eu desmonto argumentos, tu repetes a mesma coisa por palavras diferentes, vestidas de epifania. Já reparaste que ao longo desta conversa foste deixando cair temas que não te davam jeito, enquanto eu faço questão de ir ponto por ponto a todas as tuas afirmações? Estranho, não é? Há até questões que deixaste por responder. Mas não faz mal, eu não me importo de as ir repetindo. Pode ser que te surja outra epifania, tenho essa esperança. Afinal, o que acontece uma vez, pode acontecer mais vezes, não é?

Podemos começar pelo ponto em que insistes em repetir uma frase feita que cheira ao mofo das igrejas: “eu não acredito, eu sei que Deus existe”. Continuas a usar o verbo “saber” num sentido que não corresponde ao que ele significa. Eu acho que já te expliquei isto, mas sou uma rapariga muito paciente. O facto de estares muito convicto, emocionalmente seguro ou existencialmente confortável não transforma uma crença metafísica em conhecimento. Chamar “saber” a uma convicção íntima e pessoal não a torna menos crença, pelo contrário. Torna o teu discurso mais vazio, mais emocional, e se calhar até mais apelativo às pessoas menos racionais, Enfim, é uma espécie de chantagem emocional. Se eu disser que não sabes porque não tens como saber, sou a vilã, que é precisamente a função retórica dessa formulação. Depois de várias trocas de mensagens acho que deixei claro que não me sinto na obrigação de albergar sentimentalismos alheios ou de concordar só para agradar. Não se coaduna nem com a verdade nem com a minha personalidade.

Qualquer sistema fechado de crenças ganha coerência interna a partir do momento em que aceitas o seu postulado central como sendo indiscutível. Neste caso a existência de um deus supremo e de um mundo de fantasmas que andam aí a flutuar com o objetivo de vir “cá abaixo” tomar um cafezinho com os vivos mas cuja sabedoria não se estende a oferecer soluções para os problemas da Humanidade. O Casper tinha mais utilidade. É uma estrutura circular de pensamento, em que um deus justifica a existência de alminhas penadas e as alminhas penadas são elas mesmas a prova de que esse deus existe. Não é sequer mais sofisticado do que o argumento mais comum dos meus debates semanais: “deus existe porque a Bíblia diz que existe, e a Bíblia é verdade porque deus existe”. Aplique-se o mesmo ao Corão, que é usado exatamente da mesma forma. O problema é o facto de não acrescentares qualquer poder explicativo verificável sobre a realidade.

Quanto à insistência nos “5 sentidos”, lá estás tu a repetir uma caricatura que já foi desmontada na minha mensagem anterior. Repara que contra-argumentar é apresentar razões fortes (no mínimo) para contrariarmos o que foi dito anteriormente. Mas se tu achas que faz sentido ficar só a papaguear o que já foi dito, então legitimas a minha própria repetição: não baseio nada exclusivamente nos meus cinco sentidos. Baseio-me, ou antes, confio em cientistas que se baseiam em métodos que corrigem, amplificam e vão além dos sentidos: instrumentos, medições, modelos matemáticos, testes cegos, replicação independente, entre os vários métodos que produziram as conclusões científicas que te permitem, por exemplo, tomar vacinas, ou estar agora mesmo a segurar num telemóvel. A ciência existe precisamente porque os sentidos são falíveis. O que tu chamas “acreditar em mais” não é nem ir além dos sentidos, nem é nada de transcendente. É só uma recusa em aceitar qualquer mecanismo de controlo do erro. Como opinião pessoal, que vale o que vale, é só uma forma de te sentires superior a outras pessoas porque sabes algo que não está ao alcance delas, coitadinhas. Eu reservo a inveja para gente que entende coisas como astronomia, física e matemática. Esses sim, são admiráveis. Mudam o mundo todos os dias. Se tens mais de 30 anos, deves isso a gerações e gerações de gente que ampliou o conhecimento científico, não a fantasmas e almas penadas. Muito menos a Allan Kardec.

Sobre o dinheiro: não falei de ti, nem de centros espíritas específicos. Falei do fenómeno geral da espiritualidade enquanto mercado, e ele existe, quer gostes quer não. Saberás melhor que eu porque é que enfiaste esse barrete. O facto de uma doutrina se autodescrever como gratuita e caridosa não a coloca automaticamente fora de escrutínio, e muito menos a livra de crítica. A maioria das religiões também dizem viver do amor, da partilha e da fraternidade. Isso nunca as impediu de acumular poder, influência e capital. E, já agora, o Espiritismo pode não ser “oculto”, mas é igualmente infundado. Não são sinónimos, mas também não são opostos. Carecem ambos de prova, são ambos baseados em experiências pessoais, ambos fazem afirmações fantásticas sobre a realidade. Naquilo que interessa, ocultismo, espiritismo, espiritualidade, religião, superstição, bruxaria, entre outras, são exatamente iguais.

A tal “trindade” ciência–filosofia–espiritismo é outro exemplo de colagem arbitrária. Acho sinceramente que podemos afirmar que a ciência e filosofia dialogam porque partilham critérios racionais e disposição para revisão. Acima de tudo, a filosofia não tende a apresentar verdades absolutas com base na revelação. O Espiritismo não partilha dessa vontade de falsificar as próprias hipóteses. Apropria-se da linguagem da ciência, cita-a quando convém, ignora-a quando contraria os seus postulados, tal como a religião e o ocultismo e qualquer outra forma de pensamento mágico. É parasitismo e espero que entendas que na prática não há diferença nenhuma entre um espírita e a vidente, médium, taróloga do TikTok (sim, os títulos são engraçados e vêm sempre aos trios, no mínimo). Se achas que há, convido-te a submeteres a tua prática religiosa ao escrutínio da ciência.

Quero só fazer mais uma observação quanto à ideia de que o mal é necessário para aprendermos que o mal é mau. Não precisamos de assassinos para sabermos que matar é errado. As crianças mostram, desde muito pequenas, empatia, aversão ao sofrimento alheio e sentido de justiça antes de qualquer enquadramento religioso. A moral nasce da capacidade de reconhecer o sofrimento humano. Isto é inato porque é biológico e evolucionário. É muito simples entender que uma espécie animal como a nossa necessita de controlar a sua violência e preservar o outro, como forma de garantir a continuidade da espécie. Somos primatas que evoluíram em sociedades que têm como principal pilar a cooperação. O teu raciocínio não só falha como justifica retroativamente atrocidades como etapas pedagógicas divinamente impostas. Não posso aceitar este argumento, que é o clássico de teodiceia, e continua tão fraco hoje como sempre foi.

Dizes que tudo tem dois opostos, exceto o teu deus. Olha que “giro”! Um sistema que começa por afirmar uma dualidade universal e imediatamente cria uma exceção absoluta para salvar a própria tese não explica nada. Tudo tem um criador exceto o teu deus. Afinal, se a regra universal tem uma exceção, quem te diz que não tem duas, ou três, ou mil? Quem te diz que não é o universo essa exceção?

Quanto à história da evolução moral da Terra, dos mundos de provas e expiações aos mundos de regeneração, desta forma religiosa, é apenas uma forma de apresentar uma cronologia religiosa. A questão não é se evoluímos, é se a nossa existência é fruto de um deus omnipotente, omnibenevolente, omnisciente e omnipresente. Esse deus é tão bom e tão poderoso que esta é a melhor ideia que consegue ter? Eu que sou humana e limitada consigo ter ideias melhores. Aposto que tu também. Esse é um deus pouco poderoso, pouco criativo ou pouco competente. Em todo o caso, é acima de tudo, pouco. Uma explicação estilo “é a vontade de deus nosso senhor” não explica nada, não prevê nada, nem resolve nada. É uma narrativa confortável apenas porque promete uma redenção após “esta vida”. Justifica emocionalmente o sofrimento, mas só se tiveres os olhos fechados, os ouvidos tapados e a boca cosida. Funciona bem como consolo. Agora, como descrição da realidade, é risível.

Dizes que percebes se eu te achar mais um a viver uma fantasia. Não é uma questão de “achar”. Fantasia é o nome que se dá a um sistema explicativo que não tem correspondência demonstrável com os factos e que resiste à refutação porque redefine constantemente os seus critérios. O pensamento mágico é o Ventura da racionalidade humana.

Quanto a não impor nada a ninguém: divulgar convicções como se fossem conhecimento é uma forma suave (suave, no teu caso, suponho) de imposição. Tudo bem que não é coerciva, mas é real. Acima de tudo faz uso de uma chantagem emocional descarada. “Isto é a minha crença, eu estou a dizer-te que é verdade e se me contrariares és rude e estás a chamar-me de louco ou mentiroso. Como te atreves, sua herege??? Respeita a minha crença!!!” É feio, é paternalista, é o que faz persistir o incómodo em criticar ideias religiosas. As ideias competem no espaço público, quer queiramos quer não, e algumas fazem mais estragos do que parece. Sobretudo quando se apresentam como moralmente superiores e imunes à crítica. Lembra-te que o Espiritismo desde 1857 e nada vos impede de submeter as vossas conclusões ao escrutínio da ciência. Quando quiseres, eu própria faço os contactos necessários para submeter uma das vossas sessões à verificação de cientistas e céticos. Acho que já tinha feito esta oferta. És muito simpático e tal, mas esta parte não dá jeito, não é?

Por isso não, não te levo a mal, nem me cansas. Mas convém chamar as coisas pelo nome. Não estamos perante duas “formas igualmente válidas de viver o mundo”. Estamos perante um conflito claro entre pensamento crítico e crença metafísica escondida atrás de uma certeza subjetiva, emocional e logicamente inválida.

Por muito simpático que seja o tom, a falta de pensamento crítico não se resolve com emojis e beijinhos. Eu estou mais que disponível a entender melhor o teu ponto de vista quando te cansares de repetires sempre a mesma narrativa religiosa, supersticiosa e fantasiosa e quiseres entrar no ramo dos factos. Que conclusão consegues apresentar, dentro do Espiritismo que seja testável e repetível? Lembra-te que tem de ser falsificável, ter poder preditivo, ser internamente consistente, compatível com o conhecimento científico já existente, parcimoniosa, independente da crença do observador e passível de correção quando se revelar errada. Se os cientistas fazem isto diariamente, tenho a certeza de que as pessoas iluminadas, superiores e dotadas de poderes mediúnicos também o conseguem fazer e, quiçá, superar.

Fico a aguardar com expectativa a oportunidade de contactar cientistas e céticos para colocar o Espiritismo à prova. A menos que lá no fundo saibas que é uma fantasia mágica da qual não queres abrir mão e que tens medo de ver desconstruída de uma vez por todas. E está tudo bem, cada um anda com as bengalas que quer, ou das quais depende.

Espero, de resto, que a tempestade não te tenha afetado, nem aos teus entes queridos. Será que os fantasmas sentiram a ventania da noite passada?

Alcina Lameiras
27 de Janeiro, 2026 Eva Monteiro

Quarta Carta a Um Crente

A primeira carta está aqui, a segunda carta está aqui e a terceira carta está aqui. Sem esse contexto será muito complicado entender o texto que se segue.

Já tinha perdido esperança de receber uma resposta. Notei que a resposta anterior tinha sido gerada pelo ChatGPT ou outra IA qualquer, pelo que percebi que o meu interlocutor estava cansado do debate e com preguiça mental. Respondi com a terceira mensagem porque não conseguia deixar de o fazer, mas achei sinceramente que não ia receber resposta. Esta última pareceu-me, pelo menos, mais intelectualmente honesta:

Bom dia. Ando há meses para tentar arranjar algo que faça sentido para te responder.

E tive uma epifania agora mesmo.

Nós andamos a responder um ao outro com base naquilo que acreditamos, naquilo que estudamos, naquilo que nos faz sentido enquanto seres humanos pensantes.

Todavia nós esbarramos em algo muito peculiar e até caricato.

Ti respondes com base única e exclusivamente com I que achas que é a verdade, ou seja o que os teus 5 sentidos conseguem detectar. E aí é que está o cerne da questão, e ao qual este diálogo será sempre de sentido único tanto para mim, como para ti.

Já eu, acredito em muito mais do que aquilo que os meus 5 sentidos podem captar. Não há aqui certos nem errados, há apenas uma diferença de viver a vida e o mundo.

E se tu és uma pessoa com dois dedos de testa, ou seja, não praticas o mal, não desejas mal a ninguém, és fraterna, solidária, caridosa, tu até podes ser hippie, gótica, budista, hinduísta, etc.

É-me completamente diferente. ☺️

Se há coisa que aprendi com a minha experiência de vida é que isto não é uma corrida de velocidade e sim uma maratona tão longa quanto o infinito.

Portanto, não faz sentido usarmos literatura, frases feitas, pois nós os dois conseguimos defender a nossa crença, e não crença (de algo mais que a matéria) com alguma facilidade tendo em conta o nosso estudo contínuo.

Não quer dizer que não ache peculiar e deveras interessante as nossas discussões, saudáveis.

Mas realmente é um ponto engraçado.

Pois tu achas que tudo é fruto do acaso e não de uma inteligência superior.

Ben um acaso é mesmo inteligente, para conseguir criar um universo tao denso e tão perfeito. 😁

Não me interpretes mal mas é suigeneres e deveras engraçado, a forma como vês o mundo.

Tu podes dizer exatamente isso mesmo de mim, 👌.

No entanto o busílis da questão é, se é for boa pessoa qual é o problema deveu acreditar no Pai Natal e no Coelhinho da Páscoa? 😂

Um ótimo fim de semana para ti.

Desculpa, deixei de ser tão formal e espero que não me leves a mal.

Beijinhos.

Foto de Greg Rakozy na Unsplash.

Não pude deixar de responder porque, como já sabem, não resisto a contra-argumentar falácias:

Não imaginava que esta conversa pudesse gerar uma epifania, mas fico contente. Claro que a minha alegria não é tanta que não discorde dessa dicotomia entre os que se limitam aos 5 sentidos e os que vão supostamente além disso. Antes de mais, porque não me cinjo aos meus 5 sentidos. Confio em cientistas que dispõem de muito mais do que os 5 sentidos para investigar a realidade (e a base da minha confiança é a verificabilidade e repetibilidade das descobertas científicas). A ciência moderna baseia-se em observações e experiências que testam o mundo real com instrumentos que desenvolveu para esse fim (e que sabemos que funcionam porque produzem resultados). O que não faz e que eu própria recuso fazer é basear o conhecimento da realidade em raciocínios a priori, intuições ou (ainda pior) revelações. Gostava de te relembrar que muitos dos avanços científicos (como a existência de bactérias, ondas de rádio ou buracos negros) são invisíveis aos 5 sentidos, mas foram confirmados com recurso a instrumentos como telescópios e microscópios. Portanto, tratar a visão sobrenaturalista e o método científico como se estivessem no mesmo plano é cair num viés que eu recuso com repulsa. Não são a mesma coisa. A ciência, com os seus instrumentos, permite que tenhas coisas como a internet e o GPS, raios-x, hemodiálise, entre tantos outros. O paracetamol, porra! A espiritualidade permite, como único resultado palpável, verificável e repetível que meia dúzia de pessoas saquem algum ou muito dinheiro a outras. Não é o mesmo nível de resultados, utilidade ou factualidade.

Também não posso aceitar a ideia de que “não há certo nem errado, apenas pontos de vista diferentes igualmente válidos”. Essa postura relativista absoluta destrói logo qualquer possibilidade de critério objetivo. Se todos os pontos de vista fossem colocados no mesmo plano, um especialista numa determinada área teria exatamente o mesmo peso que alguém a opinar sem qualquer base. Eu sei que é isso mesmo que acontece nas redes sociais, e por vezes até nos órgãos de comunicação social. Não devia acontecer. Que entende uma zé ninguém como eu de ciência para opinar sobre a administração de tratamentos médicos? Se calhar tenho opiniões ou experiências pessoais, mas não sou especialista. Acima de tudo, não sou suficientemente arrogante para achar que vou eu descobrir a pólvora quando há médicos que estudam a vida inteira para salvar vidas. Para quem acha isso, a solução é uma: estudar medicina e revolucionar o ramo científico a que se decida dedicar. O cientista não pode ser colocado no mesmo patamar que o tasqueiro que tem a solução para tudo e mais alguma coisa. Posicionar o conceito de verdade como inteiramente relativo impede que tenhamos parâmetros para distinguir facto de fantasia. Há pela internet gente que mete gotas de urina nos olhos para tratar a miopia. Consegues, em consciência, dizer que cada um tem a sua verdade quando há gente a provocar infeções oculares por pura ignorância e uma dose pouco saudável de estupidez? Reconhecer diferentes perspetivas é legítimo, também acho que cada um tem uma cabeça para pensar. Agora, afirmar que todas as perspetivas são igualmente válidas já não é coisa com que eu possa concordar. Caso contrário coloco um biólogo contra um padre e aceito que o padre tem uma posição válida por exemplo, quanto a questões do corpo feminino que supostamente nunca observou, estudou ou sequer tocou.

Quanto ao argumento de que o universo é “perfeito demais para ter surgido ao acaso”, desculpa que te diga, mas estás a assentar numa falácia que já foi desmantelada ad nauseam. A noção de “ajuste fino” (que é uma falsidade religiosa) não implica sequer design consciente, muito menos inteligente. Usar a improbabilidade como prova de intenção está errado. É que assim, confundes dizer “não sei como isto aconteceu” com “logo, alguém teve de criar o universo”. Isso é uma falácia do apelo à ignorância. A história da ciência está cheia de exemplos de fenómenos que noutros tempos foram atribuídos a inteligências superiores que hoje compreendemos perfeitamente por mecanismos naturais. A ignorância momentânea nunca foi boa base para postular entidades sobrenaturais e chama-se a isso o “Deus das Falhas”. Ou seja, à medida que a ciência avança, deus recua. Digo deus, poderia dizer deuses, é apenas o sobrenatural que dá lugar ao natural à medida que as explicações são dadas. Nunca um deus foi necessário à ciência ou à humanidade para avançar o conhecimento. O oposto já é verdade. Tens, aparentemente, um problema com o acaso, ou antes com a existência não intencional de alguma coisa. No entanto, vives todos os dias rodeado de acasos que não te confundem. Pior ainda, achas que há um grupo de pessoas que conseguem falar com os “espíritos” de quem já morreu e que desde 1857 a ciência não consegue estudar fenómenos supostamente testáveis e repetíveis. E eu é que tenho crenças sem sentido?

Passando, por fim, à tua comparação com o Pai Natal e o Coelhinho da Páscoa, a diferença é que essas figuras são assumidamente ficcionais, não têm como objetivo explicar a realidade nem orientar decisões sobre o dia a dia das pessoas. As crenças espirituais e religiosas é que fazem afirmações sobre a natureza da realidade, da consciência, da moral e da suposta vida após a morte, e influenciam comportamentos individuais e coletivos, aliás, sociedades inteiras. Dizer “qual é o problema de acreditar, se a pessoa for boa?” é ignorar que uma crença, por ser infundada, não é necessariamente inofensiva. A bondade de uma pessoa não valida a veracidade daquilo em que acredita, nem transforma uma crença falsa em verdade. O critério não é a intenção moral, é a correspondência com os factos. Por outro lado, como dizia Weinberg, as pessoas boas hão-de fazer coisas boas e as pessoas más, coisas más. Mas para pôr pessoas boas a fazer coisas más, é preciso religião. São crenças no sobrenatural que iludem, por exemplo, pessoas boas a acharem-se parte de um grupo especial. Por exemplo, acreditarem que têm poderes sobrenaturais, que conseguem ajudar outras pessoas que precisam de cuidados médicas e, no processo matá-las. Não houve neste exemplo uma transgressão moral, a pessoa acha que tem poderes e que há um médico que encarna no seu corpo para curar. Entretanto um cancro fica sem tratamento. Essa pessoa é má? Não. Talvez seja pouco inteligente, mas normalmente só foi endoutrinada e é (quase) tão vítima quanto a sua própria vítima. Normalmente quando digo isto a resposta é: “Ah, mas na minha doutrina/religião/grupo/etc. não fazemos isso! Quando vemos que a pessoa tem um problema de saúde encaminhamos para o médico!”. Pois… porque o que quer que vocês estejam a fazer é um placebo na melhor das hipóteses e desastroso na pior.

Uma questão muito diferente seria se eu julgo uma pessoa como imoral porque tem crenças religiosas, se a quero perseguir ou se quero proibir a crença que tanto a conforta. Se essa questão te tiver passado pela cabeça, a resposta é não. A maioria das pessoas que professam crenças religiosas ou que são supersticiosas não são más pessoas. Ter crenças falsas não é necessariamente ser-se cruel, ou mau. Mas que é um bom sítio para evoluir nesse sentido, lá isso é. A História comprova-o sem sombra de dúvidas.

A nossa evolução pessoal e coletiva depende da disposição de cada um de nós para submeter as nossas ideias ao escrutínio. Ficarmos presos a uma ideia falsa apenas porque nos dá conforto não é intelectualmente honesto nem válido e, acima de tudo, não nos ajuda a nenhum nível. Prezar o pensamento crítico não é uma questão de cinismo ou de arrogância. Pelo contrário, é recusar confundir conforto emocional com factos. Entre preservar crenças porque fornecem algum tipo de certeza inabalável (provavelmente o conforto de achar que esta vida não é o fim) e aceitar apenas aquilo que resiste à crítica racional, eu prefiro estar desconfortável mas entregue à verdade.

Posto isto, bom fim de semana, foi uma excelente conversa!

1 de Janeiro, 2026 Eva Monteiro

Mártir

– Preciso de ir para o inferno – Eufémia sussurrou, quase a encostar os lábios à dobra luminosa onde supunha estar o ouvido do anjo. A ausência de sombras impedia o discernimento de distâncias, num local onde nem o som se propagava. Ainda assim não conseguia elevar a voz.

Hadraniel não se moveu. De asas abertas, mantinha uma imobilidade sólida que se estendia ao ar que o rodeava.

– Não te entendo – disse, sem qualquer censura. – Estás onde deves estar.

Ao fundo, tocava uma harpa incorpórea. Não era alta, nem agressiva. Era perfeita. A melodia repetia-se com variações mínimas, apenas as suficientes para parecer sempre nova mas nunca diferente. Eufémia tentou contar quantas vezes já a tinha ouvido, desistiu, e sentiu o mesmo cansaço de sempre assolar-lhe o corpo, se é que se podia chamar corpo àquilo.

Inspirou fundo. Desde que ali chegara, o ar estivera sempre carregado de doçura: flores que não murchavam, mel que nunca fermentava. Um perfume constante, sem falhas, sem descanso. Abriu os olhos e fechou-os de novo, numa tentativa inútil de escapar ao brilho dourado que se infiltrava em tudo, inclusive por trás das pálpebras.

– Eu não consigo ficar aqui – disse. – Não há aqui nada.

– Nada? – Hadraniel inclinou ligeiramente a cabeça. O gesto era estranho, parecia ensaiado. – Aqui está tudo.

Eufémia quis ajoelhar-se.

O impulso surgiu-lhe inteiro, intacto, aprendido em vida. O corpo iniciou o gesto de forma mecânica, dobrando-se à espera do impacto, do próprio peso a ceder, da pressão nas articulações. Nada. Não houve contacto, nem resistência, nem aquele momento instável em que o ouvido ajusta o equilíbrio.

Forçou o movimento. Inclinou-se mais, empurrando o corpo perfeito para a frente, à procura de um limite que se impusesse. A posição não se alterou. Estar de pé ou de joelhos exigia a mesma ausência de esforço. A perfeição não oferecia fricção.

Endireitou-se bruscamente e deixou-se cair.

Era um gesto calculado e simples. Esperava, pelo menos, a humilhação do fracasso e o eco vazio da tentativa. O movimento dissolveu-se antes de se completar. O conceito de queda parecia incompatível com aquela existência.

O ar não reagiu. Não se deslocou. Não acolheu nem rejeitou o gesto. Eufémia ergueu as mãos ao espaço à sua frente, abrindo e fechando os dedos, à procura de atrito. Nada. Nem frio, nem calor. Uma neutralidade absoluta, colada à pele que já não sentia como sua.

Inspirou fundo e reteve o ar nos pulmões.

Em vida, aquele gesto ter-lhe-ia feito arder o peito com urgência, uma sensação familiar de aflição seguida de um espasmo inevitável. Agora, a reação física estava ausente. Soltou o ar apenas porque sabia que era assim que o gesto devia terminar.

Apertou as mãos uma na outra de forma deliberada. Esperou pela dor, atenta ao formigueiro familiar ou um qualquer sinal de limite. Não doeu. Apertar ou relaxar era indiferente.

– Preciso de sentir alguma coisa – disse, baixo.

– Aqui não há dor – respondeu o anjo. – Não é necessária.

Eufémia soltou uma gargalhada curta e seca, que morreu no espaço sem eco.

– Era – disse. – Para mim, era.

Começou a mover-se. Era estranho caminhar sem produzir passos. Não havia ritmo, nem cadência. Avançar não aproximava nada. Parar não a afastava. Cada tentativa confirmava apenas que não pode haver movimento sem oposição.

Parou.

A sensação de cansaço não lhe largava o corpo perfeito, talvez não como fadiga física, mas como memória de exaustão. Olhou em volta. O branco estendia-se em todas as direções, saturado de reflexos dourados que não indicavam caminho nenhum. Não havia portas, nem margens, nem fissuras.

– Se não posso cair – disse -, se não posso ajoelhar-me, se não posso cansar-me… não estou aqui.

O anjo demorou a responder.

– Estás.

A palavra não corrigiu nada. Encerrou a possibilidade de réplica. Eufémia fechou os olhos. Pela primeira vez desde que ali chegara, desejou simplesmente estilhaçar, já que não lhe era permitido desaparecer. Queria transmutar-se, reconhecer-se em qualquer coisa de imperfeito, mutável, ainda que falhado.

Piscou os olhos com fúria. Tudo permanecia imutável, dourado e perfeito. Sem prestar atenção ao corpo que não reconhecia, deixou-se levar à memória do tempo em que era físico e em constante mutação. Ao procurar sentir os próprios olhos, notou apenas que não produziam lágrimas para espelhar o desamparo.

– Não sei por que estou aqui, anjo. A minha vida não foi tão pia quanto aparenta. O Pai não sabe? – Podia tê-lo dito com maior malícia, se o seu rosto não fosse tão perfeito que não permitisse um esgar.

– O Pai sabe tudo; estás onde deves estar.

– Quando me torturaram, quando me espancaram, quando me violaram, eu não cedi. Nunca renunciei ao Pai. De cada vez que me maltratavam o corpo eu sentia orgulho, não sentia o amor d’Ele. Sentia poder no desafio de me manter dissidente perante quem me queria quebrar. Nunca foi por fé. Não entendes? Eu não pertenço aqui.

Eufémia fechou os olhos com força, numa tentativa vã de recuperar alguma coisa do peso antigo. Em vida, aquele gesto precedia sempre a decisão. Ao fazê-lo, havia de aceitar mais uma humilhação, mais um golpe, mais uma prova.

– Eu queria aquilo – disse por fim. A voz saiu-lhe firme, desafiante. – Não o céu. A dor. Nunca quis nada disto.

Hadraniel fitou-a, com a imobilidade de sempre.

– Quando me batiam, quando me deixavam sem forças, quando me tomavam o corpo com toda a crueldade que a mente humana consegue imaginar, eu sentia-me maior do que eles. – Abriu os olhos, fixando o vazio dourado à sua frente. – Não era amor. Era orgulho. Eu tinha a certeza de que não me conseguiam quebrar.

Em vida, aquelas palavras ter-lhe-iam custado dizer. Por hábito, fez uma pausa curta. Não precisava de respirar mas o hábito permitia sentir se o anjo mudava de posição ou transparecia algum sentimento.

– Eu queria ser como Ele. – disse sem hesitação. – Detestava os santos que rezavam em silêncio, mas almejava ser como o Filho na cruz. A sangrar, exposto à dor, humilhado pelos homens. Queria que o meu corpo fosse prova. Que a morte fosse a confirmação inequívoca de que tinha sido mais digna do que qualquer outro mártir antes de mim.

Hadraniel ouviu-a com a mesma atenção serena que lhe havia dedicado desde que ali chegara. Não havia aprovação, nem reprovação.

– Eu queria morrer – continuou Eufémia. – Não acreditava verdadeiramente na promessa, mas a morte parecia-me o auge. O fim justo para uma vida de sofrimento. – Um sorriso breve tentou formar-se-lhe no rosto, mas não encontrou lugar. – Morri convencida de que tinha vencido.

O silêncio que se seguiu não pesou. Nada ali pesava.

– Aqui – disse ela, mais baixo. – Não tenho um corpo que possa reconhecer como meu. Nem feridas. Nem mérito. Tudo o que fiz… tudo aquilo em que me tornei, está ausente.

Deu um passo em direção ao anjo, com esperança que fosse possível aproximar-se de alguma coisa.

– Se o Pai soubesse quem eu era, não me teria trazido para cá. Eu não fui boa. Fui apenas mais de tudo. Fui cruel comigo mesma e com os outros. Chamei fé ao desprezo pelo mundo, à recusa da dúvida, ao prazer secreto de me sentir eleita. – A voz tentou, em vão, tremer de frustração. – Isso não devia ser recompensado. Ou isto é um castigo?

Hadraniel respondeu sem alterar o tom retumbante e indiferente.

– O sofrimento foi suportado. A renúncia foi mantida. A morte confirmou a fidelidade.

– Mas não foi por amor – insistiu Eufémia. – Foi tudo vaidade.

– A motivação não altera o desfecho – disse o anjo. – Aqui não existe culpa.

As palavras nem sequer precisavam de ecoar.

Eufémia abriu a boca para protestar, para voltar a acusar-se, para encontrar uma falha maior, algo que obrigasse aquele lugar a rejeitá-la. Nada parecia pior do que revelar as suas motivações mais humanas. Sentia que nem sequer havia categoria para o pecado que queria confessar. Ira? Soberba?

Baixou o olhar. Pela primeira vez desde que morrera, sentiu-se verdadeiramente nua. Num corpo perfeito, só se havia despido de sentido.

Se o céu recusava a culpa, não havia redenção possível. Em vida não o teria confessado, teria visto o mundo como vil e a si mesma ombro a ombro com o deus a quem entregara tudo. Agora, perante a perfeição desta existência, tudo em vida lhe parecia mesquinho e inferior, num mundo tão ternamente imperfeito que teria merecido o seu amor.

– Então tudo o que fui morreu comigo – murmurou.

Hadraniel não respondeu.

Eufémia compreendeu, com uma clareza que a atravessou como uma lança romana, que nem a maldade lhe era permitida ali. Depois de todas as tentativas falhadas, o impulso extinguiu-se-lhe como um músculo atrofiado. Ao invés de resistir, o céu absorvia tudo. Não impunha limites, porque não permitia a existência de nada que os pudesse transpor.

A harpa angelical persistia. Já não a distinguia como som, era apenas o status quo, como o mel e as flores que cheirava continuamente. Não vinham de lugar nenhum, não se dirigiam a ninguém. Existiam como uma condição daquele espaço, tal como o brilho, tal como a ausência de sombra, tal como a certeza de que nada ali podia falhar.

Eufémia tentou recordar a última vez em que sentira medo verdadeiro. Havia o medo ritual, aprendido, invocado nos sermões e nas leituras piedosas, mas o que procurava recordar era o medo animal, que encolhe o corpo e tolda o raciocínio. A memória surgiu-lhe. Estava numa cela húmida e escura que cheirava a fezes e sangue, onde conseguia ouvir o som irregular da própria respiração e o grunhidos das ratazanas. Tentou agarrar-se à memória, deixar-se envolver na recordação. Sentiu-a escapar-lhe, corrigida em vez de apagada.

– Nem a memória me pertence – disse, sem elevação de voz, sem expectativa de resposta.

Hadraniel continuava ali. Os olhos pousados nela não indicavam atenção nem desatenção. Sem troca, o anjo tornava-se apenas parte do branco infinito, mais um raio de luz dourada que a acompanhava.

Eufémia concentrou-se no último gesto possível: desistir de querer. Em vida, desistir fora sempre impossível. Mesmo na exaustão extrema, mesmo quando o corpo implorava rendição, havia nela uma chama obstinada e arrogante, que a obrigava a continuar. Agora, tentava extingui-la deliberadamente.

Não funcionou.

Desistir, ali, não era queda. Era apenas a natural forma de estar. Nem sequer o abandono lhe era permitido enquanto gesto final. A vontade, anulada, tornava-se irrelevante. O céu não exigia participação porque lhe bastava a presença.

– Isto é a vitória – murmurou, mais como constatação do que como acusação. – Não é?

Hadraniel não respondeu, nem havia diálogo possível. O anjo não representava uma consciência com quem pudesse negociar. A sua função não era explicar, nem punir, nem consolar. Era garantir que aquilo que chegava ali nunca mais saía.

Eufémia sentiu por fim a maior das derrotas ontológicas. O cansaço de existir sem consequência. De pensar sem consequência. De ser sem possibilidade de erro. Da inevitável imutabilidade.

– Se não posso errar – disse -, não posso escolher. E se não posso escolher… não posso ser.

A harpa manteve-se inalterada. Repetiu a variação mínima que prometia novidade mas que no fundo representava apenas continuidade.

Durante um instante, tão breve que Eufémia quase o descartou como ilusão, o brilho à sua frente hesitou. Desviou-se, como se se tivesse deparado com algo que não sabia como tocar. Não havia fissura visível, nem porta, nem sombra. Mas a certeza absoluta sofrera uma imperfeição microscópica.

Hadraniel inclinou a cabeça. O gesto foi mínimo, funcional, isento de significado humano. Ainda assim, aconteceu.

– Vais permanecer aqui – disse, finalmente. Não era uma ameaça. A frase era apenas uma descrição.

Eufémia não respondeu. Já não havia palavras que pudessem produzir efeito. O céu tinha vencido de forma total. Onde na violência não podia acontecer, era a impossibilidade de conflito que a fazia, finalmente, render-se. Não lhe restava sequer a dignidade da insurreição.

Deixou de ter noção se tinha os olhos abertos ou fechados, já não fazia diferença. Se o inferno existia, não estava ao seu alcance. E se alguma vez lhe fosse possível alcançá-lo, não seria por força, nem por fé, nem por vontade.

A escolha não lhe pertencia. E o som da harpa continuou a assaltar-lhe os ouvidos perfeitos.

***

Não havia tempo no céu, mas havia registos. A ausência foi anotada antes sequer de ser compreendida.

Hadraniel manteve-se no ponto exato onde Eufémia existira pela última vez. O espaço continuava pleno, intacto, saturado de luz e harmonia. Nada indicava qualquer falha. Nada, exceto o facto de já não haver ali uma presença a sustentar.

– Alma permanente – declarou, não para alguém em particular, mas para o próprio sistema que o constituía. – Estado: íntegro. Continuidade: garantida.

A afirmação não produziu efeito.

A música celestial manteve-se. A harpa executou a variação mínima seguinte. O branco não se alterou, a luz dourada não voltou a hesitar. Ainda assim, algo não coincidia com o enunciado. A permanência exigia ocupação. E ali, naquele ponto exato, havia apenas plenitude vazia.

Hadraniel recalculou. Não tinha a capacidade de produzir dúvida, porque esta não fazia parte da sua função, mas havia um procedimento. O céu não previa evasão. A categoria não existia. As almas não saíam. Permaneciam, dissolvidas na perfeição, sem fricção, nem resíduo.

– Não presente – acrescentou, após um intervalo que não correspondia a hesitação.

O registo aceitou a informação sem reação. A luz intensificou-se, como consequência automática da invocação superior. Não havia deslocamento na presença do Pai, em vez de movimento, a transcendência trazia saturação. Tudo ficou cheio de tudo.

– Uma alma atribuída à glória não permanece – declarou Hadraniel, agora dirigido ao absoluto. A constatação não carregava nenhum tipo de acusação.

Seguiu-se um silêncio que traía apenas a suspensão de relação. O Pai preenchia tudo. A totalidade não precisava de se explicar.

– Alma à glória – constatou o anjo. – Renúncia mantida. Ausência.

A luz da totalidade não se alterou.

Durante um instante impercetível, houve um ajuste falhado. Não no espaço, mas na lógica que o sustentava. Uma correção automática, como se o céu procurasse uma forma de incluir a exceção sem a reconhecer como alteração à sua intrínseca imutabilidade.

– A alma não rejeitou a glória. – acrescentou Hadraniel. – Cessou.

A palavra não era exata. Mas era a mais próxima disponível.

O Pai permaneceu.

Não havia ali um termo para perda. O céu não concebia fuga. Aquilo que não permanecia não podia, por definição, ter lá estado.

– Anomalia registada – disse o anjo, finalmente.

A luz começou a rarefazer-se até ao nível habitual. A harpa retomou o ciclo desde o início, sem memória da interrupção que nunca acontecera. Hadraniel permaneceu no lugar designado. A sua função não era procurar, muito menos compreender. Limitava-se garantir a estabilidade daquilo que existia.

Ainda assim, no ponto onde nada faltava, a totalidade demorou mais do que o expectável a fechar-se sobre si mesma. Se uma alma podia desaparecer sem oposição, não era o inferno que a reclamava. O céu é que não acolhia a sua existência.

25 de Dezembro, 2025 Carlos Silva

Solstício de Inverno

 

Imagem: Internet

Não deveríamos celebrar o Natal, mas sim o Solstício de Inverno!
Na realidade, os cristãos copiaram e deturparam o conceito de Natal.
Na realidade o Natal não passa de uma relíquia dos primórdios da civilização humana que tinha por crença a adoração do Sol.
Quase todas as festividades pagãs estavam ligadas a eventos naturais…
Durante milénios, os nossos antepassados celebravam o Solstício com festivais de luz, trocas de presentes e encontros sazonais…
O Solstício de Inverno anuncia o renascimento simbólico do Sol, o prolongamento dos dias…
Celebrar o Natal católico é, pois, celebrar uma imitação… uma ilusão!
Celebrar o Natal católico é manter acesa a chama de um dos mais antigos dogmas impostos pelo Cristianismo.

Celebrar o Solstício de Inverno é celebrar a Vida e a Realidade!

AGORA ATEU (II), 2024-12-25 Carlos Silva

30 de Novembro, 2025 Onofre Varela

Qual a influência da Religião na Política?

A frase que faz o título desta crónica vi-a, há cerca de uma semana (precisamente na véspera do dia em que escrevo), em rodapé de um programa de televisão, motivando-me a escrever sobre ela. Qualquer enciclopédia nos diz que “Religião” é o termo que designa um sistema sócio-cultural (de entre imensos sistemas) que abarca divindades, práticas, profecias, crenças, cosmovisões, profecias, éticas, sobrenaturalidade, transcendência, espiritismo e também espiritualidade.

O divino e o sagrado são elementos comuns à maioria esmagadora das religiões, que existem em número desmedido… são cerca de 10.000 em todo o mundo… e cada uma se afirma “única e verdadeira”, na demonstração da pequenez do Homem que as fundou e lidera! Nas práticas religiosas incluem-se rituais, sermões, festivais, venerações, sacrifícios, festas, transes e iniciações, mas também serviços prestados à sociedade onde cada religião se estabelece, como casamentos e funerais (inseridos nos rituais) e a comercialização de creches, infantários e escolas.

Em Portugal, a religião Católica faz a fé dos portugueses desde 5 de Outubro de 1143 (há 882 anos), quando, na Conferência de Zamora, se assinou a independência de Portugal entre D. Afonso Henriques (conde de Portucale) e o seu primo Afonso VII de Leão. 767 anos depois, no mesmo dia e mês (5 de Outubro… mas de 1910) a monarquia portuguesa teve o seu fim e foi implantada uma república laica. A Igreja Católica foi perseguida pelos primeiros republicanos anti-clericais (atente-se que “anti-clericalismo” e “anti-religião” não são a mesma coisa. Se o primeiro “anti” teve razão de existir como antídoto a um clericalismo feroz, já o segundo me parece não ter sentido, pois o Homem é um ser religioso por natureza, característica que não me merece discussão (se o não fosse, não tinha criado deuses). Podemos discutir as práticas das várias religiões e o aproveitamento político que delas se faz… mas isso já é outra conversa… e a política que se lhe mistura faz a razão desta crónica).

Em 1911, com Sidónio Pais (após um ano de República anti-clericalista) foram reatadas as relações diplomáticas com a Santa Sé, e o Catolicismo retomou o caminho que em Portugal vinha fazendo no tempo da monarquia… até hoje.

E aqui chegamos à razão do título desta crónica. À pergunta formulada, eu respondo: “sim, a religião tem muita influência na política”, exercendo-a, principalmente, nas mentes dos cidadãos menos atentos, desligados da História e da filosofia comportamental, e que estejam imbuídos de um “sentimento religioso com defeito”, levando-os a aceitar discursos extremistas que influenciam o seu sentido de voto, não percebendo (para desgraça de todos nós) que votam contra si próprios… (e contra mim… o que é bem pior!). Não é por acaso que o líder da extrema-direita exibe, amiúde, um rosário; e que diz ter acabado de vir da missa. Este discurso leva os religiosos (católicos e evangélicos, quando o são no pior sentido dos termos: o extremado), a votar num vírus destruidor da Democracia… a mesma Democracia que permite ao tal vírus nefasto e maléfico, sentar-se no Parlamento, semear insultos para os seus parceiros parlamentares e sementes de erva daninha na sociedade.

Sim, a Religião influencia a Política, porque sendo actividade humana é, também, actividade política. E num Parlamento democrático, republicano, laico e respeitador do Ser Humano, aos grupos extremistas devia ser negado lugar. Partidos racistas, xenófobos e desagregadores da sociedade, não me merecem crédito, e também não deviam merecer existência legal, exactamente por serem inimigos da ordem e da lei que a nossa Constituição regista e defende. E não é a Constituição que está errada!… O erro mora na mente de quem a quer destruir.

OV

Crédito: Imagem de freepik

23 de Novembro, 2025 Eva Monteiro

Terceira Carta a Um Crente

A primeira carta está aqui, e a segunda carta está aqui. Sem esse contexto será complicado entender o texto que se segue.

Este crente é resiliente e tem genuíno interesse no debate. São qualidades que respeito mais do que ele próprio talvez reconheça. Confesso que debater com ateus tem pouco apelo. Naquilo que me interessa debater, concordamos. Naquilo em que discordamos raramente me interessa debater. É uma espécie de desabafo, mais do que debate. Nesse sentido, a troca de ideias com um crente tem para mim mais valor intelectual do que qualquer sessão de concordância com amigos que partilham a minha visão do mundo. Tanto quanto possível, procuro estes debates e sinto que encontrei neste crente alguém que, partilhando do interesse no tema, se coloca do outro lado da mesa com profunda mas respeitosa discordância. Há quem me pergunte como tenho paciência – ao que respondo que, se pudesse, era o que fazia da vida. Não há esforço em manter esta conversa, apenas satisfação em poder fazê-lo com alguém que ainda não desistiu, quanto tantos outros nem sabem por onde começar.

Assim sendo, é com prazer que vos disponibilizo a resposta deste crente anónimo, no seguimento das anteriores já publicadas e respondidas.

Agradeço sinceramente a tua mensagem — não apenas pela forma como estruturaste os teus argumentos, mas pela honestidade intelectual que demonstras ao expor aquilo em que acreditas e aquilo que rejeitas.
Acredito que o diálogo só é verdadeiramente frutífero quando existe abertura de parte a parte. E é nesse espírito — sem pretensão de evangelizar ou converter — que te respondo, ponto a ponto.

“Tu não sabes, acreditas. É matéria de fé e não de facto.”

Começo por concordar contigo num ponto essencial: o verbo saber tem, no campo do conhecimento empírico, um significado que exige demonstração e verificabilidade. Quando alguém diz “sei” sem apresentar provas, é natural que surja ceticismo.

Mas há diferentes camadas de saber.
Há o saber científico (observável e replicável), o lógico (demonstrável pela razão) e o experiencial — aquele que nasce da vivência, da repetição de fenómenos, da coerência entre aquilo que se experiencia e aquilo que se compreende.
Quando um espírita diz “sei que o espírito sobrevive à morte”, não o diz no sentido de uma prova laboratorial, mas no de um conhecimento íntimo e acumulado pela observação reiterada de manifestações semelhantes, por mediunidades diferentes, e pelo impacto moral e intelectual que tais comunicações produzem.

Portanto, sim: é um tipo de saber vivencial e reflexivo, não empírico-laboratorial.
E é importante ser honesto sobre isso — não é ciência no sentido estrito, mas também não é crença cega. É um saber construído a partir da experiência e da razão aplicada a ela.

“Muitos dizem ‘sei’ — o muçulmano, o hindu, o cristão — e não podem ter todos razão.”

Tens razão: a multiplicidade de certezas religiosas é uma das maiores evidências de que o “saber” teológico raramente é factual.
Mas o Espiritismo não se apresenta como revelação exclusiva nem como religião que pretende ter o monopólio da verdade. Kardec partiu precisamente do princípio de convergência — ao comparar mensagens mediúnicas de diferentes locais, culturas e médiuns, procurou extrair princípios universais: a imortalidade da alma, a reencarnação, a lei de causa e efeito, o progresso moral do espírito.

Esses princípios não exigem adesão a um dogma particular ou a uma figura divina específica. São hipóteses filosóficas sobre a natureza da consciência e da moral, e são apresentadas como tal — suscetíveis de reflexão e revisão, nunca como verdades absolutas.

“As experiências subjetivas são universais e explicáveis pela neurociência.”

Também aqui o teu ponto é forte.
A ciência já demonstrou que o cérebro é capaz de produzir estados alterados de consciência, alucinações e sensações de presença. Isso é inegável.
Mas reconhecer que o cérebro pode gerar tais experiências não significa automaticamente que todas elas o sejam.
Do ponto de vista espírita, a mente usa o cérebro como instrumento — o que significa que há interações entre ambos. O que a neurociência observa é a correlação, não necessariamente a causa única.

Por isso, em vez de negar a explicação neurológica, o Espiritismo propõe ampliá-la: o fenómeno mediúnico seria uma coabitação entre planos de consciência, onde o cérebro é o tradutor físico da experiência espiritual. É uma hipótese que a ciência ainda não pode confirmar — mas também não consegue, até hoje, eliminar completamente.

“Kardec não aplicou o método científico.”

Tens toda a razão.
Kardec não realizou experiências controladas no sentido moderno — não havia grupo de controlo, protocolo replicável nem revisão por pares.
O seu método foi comparativo, baseado em observação e coerência das comunicações. Foi uma tentativa de aplicar rigor onde antes só havia superstição. Para o século XIX, foi ousado. Para os padrões científicos atuais, é insuficiente.

Reconhecer isso não é desmerecer Kardec, mas situá-lo historicamente. Ele fez o que pôde com as ferramentas intelectuais e sociais do seu tempo.
A tarefa das gerações seguintes é continuar — aproximando cada vez mais o estudo espiritual das exigências metodológicas modernas.

“O Espiritismo procura confirmar, não refutar.”

Aceito a crítica — e, em muitos casos, é justa.
Muitos grupos espíritas caíram na armadilha do verificacionismo, isto é, aceitar apenas aquilo que confirma a crença prévia e descartar o que a contradiz.
Mas o verdadeiro espírito da obra de Kardec não é esse. Ele próprio dizia: “A fé inabalável é apenas a que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da humanidade.”
Portanto, a busca por refutação deveria ser parte do movimento espírita — e, quando não é, estamos a falhar com Kardec.

“É o argumento do Deus das lacunas — usar o sobrenatural onde não há explicação.”

Concordo contigo no essencial: ausência de explicação não é prova de explicação sobrenatural.
O Espiritismo, quando é fiel ao seu princípio filosófico, não usa o sobrenatural para tapar buracos, mas como hipótese para explicar certos fenómenos observáveis, como as comunicações mediúnicas e as lembranças espontâneas de vidas passadas.
Não digo que sejam provas definitivas — mas são dados interessantes que desafiam o modelo materialista estrito.

Além disso, o Espiritismo não nega a ciência. Ele apenas propõe que há dimensões da existência que o método científico ainda não consegue medir.
Não porque sejam mágicas, mas porque estão fora do alcance instrumental atual — como tantas coisas estiveram antes da física quântica ou da biologia molecular.

“Darwin usou método; Kardec não.”

Certo.
Darwin partiu da observação empírica e construiu hipóteses testáveis. Kardec partiu da observação subjetiva e construiu um sistema moral e filosófico.
São naturezas de trabalho diferentes. Darwin criou uma teoria científica. Kardec, uma filosofia espiritualista.
Seria intelectualmente desonesto colocar ambos no mesmo patamar. Mas também seria injusto desconsiderar que ambos procuraram sentido num mundo que se abria à razão.
Kardec quis tirar o espiritualismo da superstição; não o conseguiu transformar em ciência, mas deu-lhe uma lógica e uma ética.

“Não há provas de consciência fora do cérebro.”

Concordo — não há provas aceites pela comunidade científica.
Mas há casos documentados de experiências de quase morte (EQMs), percepções verídicas durante estados de inconsciência cerebral, e mediunidades estudadas sob condições controladas (como as de Leonora Piper ou Chico Xavier).
Nenhum desses casos é prova absoluta — mas são indícios que pedem estudo, não ridicularização.

Aceito, portanto, o princípio científico: afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias.
Até lá, mantenho a hipótese aberta e o espírito de investigação — porque negar o inexplorado com a mesma certeza com que se afirma o conhecido também é, em si, um dogma.

“O Espiritismo usa apelos à ignorância e wishful thinking.”

Em muitos casos, sim — e é importante admiti-lo.
Mas há espíritas que, como eu, tentam viver a fé sem abdicar da lucidez.
O Espiritismo não deve servir como anestesia da razão. Deve servir como estímulo ao questionamento, à pesquisa e à melhoria moral.
Se a fé serve para fugir da dúvida, é frágil.
Mas se a fé te leva a estudar mais, a servir melhor e a compreender o outro, então cumpre a sua função espiritual.

“Ciência e fé não se complementam; misturá-las é erro.”

Depende do que chamamos “complementar”.
Não defendo que fé e ciência expliquem o mesmo — a ciência responde ao como, e a espiritualidade ao porquê.
Uma estuda os mecanismos; a outra, o sentido.
O erro está em confundir as fronteiras: quando a fé tenta substituir a investigação, erra. Quando a ciência tenta negar o valor da experiência espiritual, erra também.
Ambas são expressões da mesma busca humana por compreensão. Só diferem nas ferramentas.

“O Espiritismo é autoritário porque tem postulados inquestionáveis.”

Infelizmente, parte da prática espírita contemporânea confirma isso.
Há grupos que transformaram princípios em dogmas e médiuns em oráculos. Mas isso não é o Espiritismo de Kardec — é o seu desvio humano.
O verdadeiro Espiritismo é livre-pensador, experimental, questionador.
O seu lema é “fora da caridade não há salvação” — não “fora do Espiritismo não há verdade”.
Se há autoritarismo, é sinal de que nos afastámos da essência.

“A fé é conforto; a verdade é desconfortável — devemos escolher a verdade.”

Concordo plenamente.
O conforto é uma consequência possível da fé, mas não deve ser o seu propósito.
Prefiro uma fé inquieta, que questiona, que aceita a dúvida como parte do caminho, do que uma fé adormecida que teme pensar.
A verdade é o objetivo — e, se um dia a ciência provar que o espírito não sobrevive, aceitarei com serenidade.
Mas até lá, as minhas experiências, os testemunhos que observei, as transformações morais que vi em pessoas através da prática espírita — tudo isso me indica que há mais para descobrir.
E enquanto essa hipótese resistir à razão e à ética, continuarei a estudá-la.

✦ Conclusão ✦

Eva, agradeço sinceramente a tua mensagem.
Sei que a tua intenção não foi ofender, mas propor um debate com rigor — e é exatamente isso que o Espiritismo genuíno deve acolher.
Não te escrevo para te convencer; escrevo para partilhar a minha forma de compreender a realidade, consciente das suas limitações e aberta à crítica.

Creio que a busca pela verdade não pertence a nenhum campo em exclusivo.
A ciência investiga o universo externo; a espiritualidade investiga o universo interno.
Quando ambas caminham com honestidade, complementam-se — não em autoridade, mas em propósito.

No fim, o que realmente importa é evoluir moralmente — aprender a amar, compreender e servir melhor.
E nisso, quer se seja ateu, espírita, cristão ou nada disso, todos estamos na mesma estrada.

Segue-se a minha resposta:

Agradecimentos à parte, porque já ambos expressamos gratidão pela disponibilidade um do outro, acho que te devo apenas dizer que as tuas respostas me dão sempre prazer em ler e igual prazer em contra-argumentar. Não nego que continuo a discordar das tuas posições e que dificilmente isso mudará (apesar de reconhecer que a possibilidade existe), como não tenho qualquer pretensão de mudar a tua. Contudo, explicar as nossas ideias a outros expõe-nos à crítica. De que outra forma posso encontrar falhas no meu pensamento? Por isso, enquanto tiveres paciência e o tema não se esgotar, eu mantenho a minha disponibilidade para continuar este debate.

Confesso que a expressão “tentar dar a volta ao texto” surge-me com alguma facilidade à medida que leio os teu comentários. Em relação ao verbo saber, usas o termo “conhecimento empírico”. Espero que não te importes que eu prefira “epistemologia”. Acho sinceramente que a distinção importa. É que a epistemologia investiga os critérios, fundamentos e limites do “saber”: o que justifica uma crença, como distinguimos verdade de erro, que métodos são fiáveis e porquê. O conhecimento empírico, por sua vez, nasce da fricção direta com a realidade, daquilo que podemos ver, medir e testar. A diferença entre ambos é simples: a epistemologia é a reflexão sobre o conhecimento; o conhecimento empírico é o próprio conteúdo observado no mundo.

É importante fazer esta distinção porque primeiro há que estabelecer o que significa “saber”, e depois então partimos para a descoberta da realidade, para os dados concretos. Partindo da epistemologia, saber é aquilo que resta depois de termos removido a fé, a superstição, o autoengano e o sentimentalismo. Ou seja, aquilo que se aguenta em pé mesmo quando alguém está ativamente a tentar derrubá-lo. Saber é o que resta do empirismo quando lhe apontas uma bazuca e tentas dar cabo de tudo o que achas que aprendeste com os dados que obtiveste. O saber é para abalar, porque só a fé pode ser inabalável.

Percebes certamente porque é que não posso aceitar a tua posição à luz da epistemologia. Não há camadas de saber, há factos e há hipóteses. Há diferentes tipos de hipóteses, no sentido em que umas são mais plausíveis e bem sustentadas que outras. Contudo, a factualidade não se presta a graus. O meu maior problema, se calhar onde vamos sempre encalhar a conversa, está aqui: “experiencial — aquele que nasce da vivência, da repetição de fenómenos, da coerência entre aquilo que se experiencia e aquilo que se compreende”. Ora, a vivência pessoal, por mais intensa, repetida ou emocionalmente marcante que seja, não é, em si, critério de verdade. A epistemologia moderna é clara neste ponto: uma crença verdadeira por acidente ou por impressão não constitui conhecimento. Centenas de pessoas podem ter visões religiosas, encontros com antepassados, presenças espirituais ou sensação de sair do próprio corpo. A repetição dessas vivências não as torna mais verdadeiras; torna-as apenas mais humanas. A subjetividade não se valida a si mesma.

A repetição de fenómenos subjetivos não tem o mesmo estatuto que a replicação experimental, pelo que não concordo que os coloques no mesmo patamar. Repetir a experiência de alguém não é repetir um fenómeno observável e controlável. Uma alucinação recorrente continua a ser uma alucinação. Uma interpretação errada que se torna rotina não deixa de ser errada. Nos vários campos da ciência, repetir significa recriar condições, controlar variáveis, medir resultados, comparar com hipóteses formuladas anteriormente e permitir que outros obtenham os mesmos resultados. Não só permitir como garantir, no sentido em que, se for avançada uma hipótese que só pode ser repetida pelo próprio, simplesmente não passa no escrutínio de pares e cai por terra com um estrondo vergonhoso. Nada disto se aplica à experiência íntima, que é, por definição, privada, não controlável e não partilhável enquanto dado bruto.

A “coerência entre o que se experiencia e o que se compreende” é um critério circular, sem valor epistemológico. Uma crença aparenta ser coerente quando encaixa nas expectativas e no sistema previamente aceite pelo próprio. Mas coerência interna não é prova de verdade. Um astrólogo encontra coerência entre os mapas astrais e as personalidades que interpreta. O conspiracionista encontra coerência entre os seus medos e os sinais que recolhe, em padrões que lhe parecem inegavelmente relacionados. O místico encontra coerência entre estados mentais e explicações espirituais. Em todos estes casos, a coerência é produto do sistema de crenças, não prova da realidade. Alguém encomenda um bruxedo para fazer mal ao Trump. Por sua vez, o presidente dos EUA, de 79 anos vividos à base de excessos e big macs parece ter a sua saúde afetada repentinamente. A bruxa convence-se que o seu feitiço resultou e nós todos aplaudimos?

Portanto, quando afirmas que o conhecimento experiencial “nasce da vivência, da repetição de fenómenos e da coerência entre experiência e compreensão”, estás, sem te aperceberes, a oferecer uma definição de crença subjetiva, não de conhecimento. O que se quer é a coerência entre conclusões e a realidade, os malditos dados que o espiritismo teima em não avançar ou deixar recolher. A tua definição ignora os pilares básicos do conhecimento: justificação adequada, possibilidade de erro identificável, correspondência com a realidade e métodos que eliminem vieses cognitivos, ilusões internas, distorções emocionais e interpretações à base do desejo, o tal do wishful thinking.

A ciência não rejeita a experiência; rejeita apenas a elevação da experiência a critério de verdade. A experiência é o ponto de partida, nunca pode ser o ponto de chegada. O rigor epistemológico exige que se pergunte: “o que é que, na minha vivência, pode ser explicado por mecanismos naturais, psicológicos, neurológicos ou culturais antes de recorrer a hipóteses sobrenaturais?” Se esta pergunta for evitada (e é apenas isso que o espiritismo faz), o resultado deixa automaticamente de ser conhecimento e passa a ser convicção sentimental(ista). O critério do espiritismo, levado a sério, destrói-se a si mesmo: se tudo pode ser “sabido” pela experiência íntima, nada pode ser verdadeiramente sabido. O verbo saber é de uma austeridade que nega qualquer subjetividade. É um binário: ou sabes ou não sabes. Se sabes, consegues demonstrar, se não sabes, bom… não sabes.

Não querendo ser aborrecida, eu tenho mesmo de fincar o pé. Tanto quanto consigo entender os teus comentários, parece-me que apresentas como método aquilo que, analisado friamente, não passa de filtragem seletiva de dados. Dizes que se recolhem (suponho) largos números de comunicações e que se encontram as convergentes. Mas esse processo, se descrito com precisão epistemológica, é simplesmente isto: sistematização de testemunhos subjetivos mediante critérios arbitrários de coerência. É precisamente o oposto do método científico, cujo valor reside não na confirmação, mas no teste destrutivo, vulgo, na tentativa sistemática de refutar as próprias hipóteses.

Tenho que discordar quando dizes que não há dogmas envolvidos neste processo. Claro que há. Se questionares precisamente “a imortalidade da alma, a reencarnação, a lei de causa e efeito, o progresso moral do espírito” que resta do teu espiritismo? Não tens de acreditar em espíritos para seres espiritista? Então isso é um dogma. Parece-me, e corrige-me se estiver errada, que poderás estar a confundir dogma com pecado ou proibição. Essas crenças que partilhas com os outros espíritas e das quais depende a vossa adesão a essa doutrina (ou a uma das muitas doutrinas espíritas) não têm que informar as vossas decisões no dia a dia. Uma coisa é aquilo em que se acredita outra é aquilo que se faz com o que se acredita. Tem de ser dogmática a crença, no mínimo, em espíritos, senão até eu posso dizer que sou espírita:

– Mas Eva, acreditas na imortalidade da alma?

– Não, eu nem na alma acredito quanto mais.

– Mas então és espírita?

– Pois claro que sou, acreditar em espíritos não é um dogma do espiritismo, eu sou o que me apetecer ser, deixa-me estar cá com as minhas “verdades pessoais”.

Acho que não preciso de te dar mais exemplos do quão incoerente é dizer que não há dogma no espiritismo. Se há uma crença que é condição sine qua non para a tua identificação com o espiritismo, isso é precisamente o dogma do qual dependes para o seres.

Impõe-se-me aqui uma pergunta: em que te baseias para dizeres que “O que a neurociência observa é a correlação, não necessariamente a causa única”? A tua frase distorce o que a investigação científica realmente demonstra. A neurociência não se limita a observar paralelismos entre atividade cerebral e experiência mental. Pelo contrário, observa relações causais diretas, repetidamente testadas e manipuláveis. Qual correlação? Causalidade, se faz favor. Repara: estimular certas áreas do cérebro produz pensamentos e emoções específicos, lesões em regiões definidas eliminam funções cognitivas particulares, há fármacos que alteram neurotransmissores e que por isso modificam o humor, a personalidade e até, imagina, convicções religiosas. A anestesia geral suspende a consciência ao desligar circuitos neurais específicos. Estes factos não são apenas correlações: são provas de dependência causal. Parece-me que estás a tentar insinuar a possibilidade de uma “causa oculta” como um espírito a operar por trás do cérebro. Só que essa hipótese não produz previsões, não é necessária para explicar os dados existentes, não melhora o modelo neurobiológico e não é testável. É, portanto, uma adição metafísica ad hoc, introduzida apenas para preservar uma crença prévia, e não uma inferência razoável baseada em evidência. Lá vamos nós ao dogma.

Ao insinuares que a explicação neurobiológica pode não ser suficiente por não ser “a causa única”, confundes complexidade causal normal (genética, ambiente e história pessoal, entre outros) com a necessidade de introduzir entidades sobrenaturais não demonstradas. A alegação de que “correlação não implica causalidade” torna-se, assim, um pretexto para proteger uma hipótese espiritual, ao ignorares que a ciência, neste caso, já demonstra causalidade. Invocar causas invisíveis que não acrescentam poder explicativo e que não podem ser refutadas é um exemplo clássico do argumento da ignorância, do “espírito das lacunas” e da inversão do ónus da prova. A neurociência não pode provar o que não está lá. A hipótese neurobiológica é simples, preditiva, testável e suficiente; a hipótese espiritual não explica nada que o modelo científico não explique e só subsiste quando se abdica do rigor científico. Incomoda-me esta frase porque me parece apenas um mecanismo retórico para manter intacta uma crença metafísica.

Na ciência, a posição padrão é metodologicamente naturalista: postulam-se explicações que fazem uso de causas dentro do reino observável e testável até que surjam razões muito fortes que justifiquem o recurso a entidades não-falíveis e não-observáveis. Isso nunca aconteceu. E isto não é dogma, é a regra prática que torna possível o progresso científico.

A apreciação histórica de Kardec, que fazes é sensata num plano historiográfico: para o seu tempo, comparativo e sistemático, o método de Kardec revelou um esforço por organização intelectual de fenómenos que muitos consideravam superstição. Cabe aos historiadores das ideias reconhecer isso. No entanto, o facto de um método ter sido útil ou inovador para um contexto social passado não converte automaticamente o seu resultado em ciência moderna. Os critérios de cientificidade evoluíram: controlo experimental, cegamento quando possível, grupos de controlo, documentação replicável, análise estatística e revisão por pares são exigiências que surgiram precisamente porque reduzem o erro humano. A ausência desses elementos em investigações do século XIX não é um erro moral de Kardec, é uma limitação metodológica. Quanto a mim, isto significa que as conclusões por ele retiradas não gozam do estatuto de teorias científicas no sentido contemporâneo. Na verdade, mal se consequem qualificar para os mínimos olímpicos da hipótese.

Eis o que me incomoda: que os espiritistas ou kardecistas (qualquer que seja a nomemclatura com que te identifiques) tenham dado a mão a Kardec no século XIX e prefiram manter o braço esticado no tempo em vez de reverem a hipótese postulada à luz de uma metodologia científica atual. Porquê?

Que aconteceria se em vez de retirar só o que lhe interessa, Kardec tivesse analisado os dados todos? Esquece Kardec, porque é que os espíritas não o fazem agora? Que vos impede de utilizar o método científico agora? Se consegues demonstrar “a imortalidade da alma, a reencarnação, a lei de causa e efeito, o progresso moral do espírito”, eu ofereço-me como tributo. Em vez dos Jogos da Fome, fazemos os Jogos do Espiritismo. Deixa-me reunir uma equipa de céticos e vamos ter contigo (e com a equipa de espíritas que quiseres reunir), de mente aberta. Desde que nos deixes estabelecer os critérios de investigação (que serão inequivocamente científicos), nada nos deixaria mais felizes. Recolhemos todos os dados que nos forem possível recolher, apresentamos as descobertas que houver a apresentar e submetemo-las ao escrutínio de pares. A mim soa-me incrível. Perdoa-me o humor mas: Nobel Prizes galore.

Continua?

11 de Novembro, 2025 João Monteiro

Grémio Atlântico promove I Festival do Livre-Pensamento

Quando a Associação Ateísta Portuguesa (AAP) procedeu à divulgação do seu “I Congresso do Livre-Pensamento“, que teve lugar na Casa da Cultura de Coimbra, a 27 de setembro de 2025, recebeu de volta um contacto de um associado de uma outra organização, o Grémio Atlântico, informando que, também eles, estariam a organizar uma iniciativa com um nome semelhante, sugerindo uma parceria na divulgação dos eventos. Assim, como eles divulgaram em setembro o Congresso da AAP, a AAP divulga agora o “I Festival do Livre-Pensamento” promovido pela associação Grémio Atlântico.

Informações:
Data: 15 de novembro de 2025, 18h30
Local: Auditório do Ramo Grande, Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores

Partilhamos em baixo, o e-mail que recebemos com o pedido de divulgação, e que contém mais informações. O tema desse primeiro evento será dedicado a uma exposição relativa às origens da Maçonaria, sendo os oradores Feliciana Ferreira e Luís Natal Marques, conhecidos membros dessa instituição cívica. A AAP, sendo alheia à organização do evento, desconhece os conteúdos das apresentações para além do que é referido no texto do convite.

O Grémio Atlântico – Associação Cívica, Cultural e Solidária, vem por este meio convidar V. Exa. à participação num evento que será promovido no próximo dia 15 de novembro, no Auditório do Ramo Grande, Praia da Vitória, pelas 18h30.
Será a primeira edição do que se convencionou chamar «Festival do Livre Pensamento», momento de celebração do pensamento crítico e potenciador de reflexões sobre o futuro de uma Humanidade que enfrenta graves desafios à sua capacidade de livremente pensar e construir novas correntes filosóficas, adogmáticas, racionais e autonómicas. 
Nesse sentido, e em vésperas dos 50 anos da Autonomia nos Açores, consideramos ser relevante trazer até à comunidade local estes desafios, procurando, para o efeito, diversificar a programação sobre os temas em discussão.
Conforme ao programa, e restante material promocional em anexo, no dia 15 de novembro, pelas 18h30, irá estrear uma exposição no supramencionado Auditório do Ramo Grande, subordinada às origens do Grande Oriente Lusitano, organização centenária, que muito tem contribuído para potenciar o livre pensamento, em Portugal e no mundo.

Seguem-se duas conferências, por parte de Feliciana Ferreira e Luís Natal Marques, cujas notas biográficas podem encontrar em anexo, e que irão incidir sobre as temáticas atrás referidas, dissertando sobre como enfrentar e lapidar esses assuntos, numa sociedade contemporânea cada vez mais acrítica, focada apenas no imediatismo.
Por fim, o evento encerra com um concerto de José Pedro Correia, que irá abordar várias obras de música clássica, algumas da sua própria autoria, desbastando o caminho do pensamento livre para lá da troca de ideias, e refletindo-o na arte musical. A sua nota biográfica também se encontra em anexo. 
Muito nos honraria contar com a vossa presença em tão especial dia, pelo que serve o presente convite para apelar a essa participação que enriquecerá aquele dia especial.
Agradecemos a vossa atenção, manifestando disponibilidade para qualquer esclarecimento adicional, sobre este ou qualquer outro assunto.
Com os melhores cumprimentos,
A Direção do Grémio Atlântico

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7 de Novembro, 2025 Eva Monteiro

Segunda Carta a Um Crente

A primeira Carta a Um Crente está aqui. Poderá dar maior contexto à troca que se segue.

E não é que obtive resposta? Contra todas as minhas expectativas, o kardecista que anteriormente me abordou e que após insistência minha disse que eventualmente responderia… respondeu mesmo. Não é costume, pelo que lhe reconheço muito valor pelo respeito e esforço. Decidi partilhar aqui porque poderá ter interesse para os que apreciaram a primeira troca.

Segue a resposta do crente:

Boa noite Eva. Por mais que queira, não está a ser fácil dar-te a devida atenção e por isso peço desculpa pela resposta tardia.

Agradeço-te o cuidado e a profundidade da tua mensagem. É raro encontrar um diálogo que não se limite a slogans e que procura ir à raiz das ideias. É nesse espírito de respeito e reflexão que te respondo.

Quando digo “eu sei que existe”, não me refiro a um saber de laboratório, mas a uma certeza construída pela experiência íntima, pelo raciocínio e pela observação dos efeitos espirituais ao longo do tempo. No Espiritismo, essa certeza não é cega nem dogmática, é resultado de estudo, comparação e repetição de fenómenos mediúnicos que, analisados em conjunto, apontam para a sobrevivência da consciência após a morte.

Kardec nunca afirmou possuir provas absolutas, mas propôs algo que considero de uma lucidez rara para o seu tempo:

“Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.”
(O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XIX)

Ou seja, no Espiritismo, crer não é o oposto de pensar. É crer porque se pensa.

É verdade que Kardec não aplicou o método científico no sentido estrito moderno, mas também é verdade que a ciência do século XIX ainda não tinha instrumentos para abordar a consciência como hoje começa a tentar fazê-lo. O que ele fez foi usar o método da observação comparada e recolher milhares de comunicações, eliminar as incoerentes, comparar mensagens de origens diferentes e sistematizar princípios. Não é ciência de laboratório, mas é um método de verificação empírica dentro dos limites possíveis quando o objeto de estudo é o espírito e não a matéria.

Quanto à ideia de que as experiências mediúnicas são meras ilusões neurológicas: o Espiritismo não as exclui. Kardec alertou inúmeras vezes para o autoengano, a influência do subconsciente e dos espíritos inferiores. A verdadeira investigação espírita começa justamente pela dúvida e pela necessidade de confirmação. A diferença é que, depois de filtradas e repetidas, muitas experiências deixam de poder ser explicadas apenas pela imaginação e é nesse ponto que nasce a convicção pessoal, fruto de observação e de coerência interior.

O teu apelo ao questionamento é algo que também defendo. A diferença é que, para mim, o verdadeiro questionamento inclui não excluir à partida a hipótese de que a consciência não se limite ao cérebro. A postura espírita não é de negação da ciência, mas de complementaridade, a ciência explica o mundo físico e o Espiritismo tenta compreender o mundo moral e espiritual que o completa.

Não vejo no Espiritismo uma instituição que pretenda impor autoridade sobre o pensamento humano, vejo, antes, uma doutrina que liberta da autoridade ao incentivar o estudo, o livre-arbítrio e a responsabilidade individual. O anticlericalismo, nesse sentido, não é uma ameaça ao Espiritismo, porque este não tem clero, dogma, nem intermediários entre o homem e Deus.

Por fim, não te escrevo por evangelização, nem para arrancar ninguém de lado algum. Escrevo porque acredito que o diálogo sereno entre a razão e a espiritualidade é a via mais digna de evolução que podemos trilhar.
Como bem disseste:

“Evoluímos melhor quando a verdade, e não o conforto, é o nosso objetivo.”
Nisso, estamos de pleno acordo. 🙏

Ora, como é evidente, eu respondi:

Boa noite,

Antes de mais, quero agradecer-te por teres dedicado o teu tempo a responderes-me.

Acho que quando falas em saber que algo existe por convicção pessoal, estás a cair na falácia da ambiguidade. Dizes que “sabes que Deus existe”, mas que não te referes a um saber de laboratório, e sim a uma certeza interior construída pela experiência. É nisto que precisamos de rigor: o verbo “saber” não muda de significado conforme a conveniência de quem o usa. O conhecimento, em qualquer domínio, requer justificação e correspondência com a realidade. Se falta a justificação verificável, não é saber, é crença. A sinceridade da crença não é um selo de verdade. Pelo contrário: faz-se hoje em dia uma apologia da crença como se fosse uma coisa boa e desejável, como se fosse um marco de integridade e bondade, quando no fundo, só significa ter grande convicção na ausência de provas. Um muçulmano, um hindu ou um cristão místico podem todos afirmar “eu sei que o meu deus existe”, e no entanto as certezas deles são mutuamente exclusivas. Para o teu deus existir, o deus dos outros tem de ser falso. Todas as crenças podem ser (e não duvido que sejam) sentidas como verdadeiras, mas não podem sê-lo simultaneamente. A emoção, por mais intensa que seja, não é critério de realidade. Só deste um palavreado mais intelectual à expressão “mas eu acredito”.

Referes que o Espiritismo chega a essa certeza pela repetição de fenómenos mediúnicos e pela observação comparada. Contudo, a repetição de experiências subjetivas, sem controlo e sem exclusão de hipóteses alternativas, não é ciência, é circularidade na melhor das hipóteses. A tua descrição do método kardecista não passa de um processo de confirmação seletiva. Ou seja, eliminam-se as comunicações incoerentes, sistematizam-se as que parecem convergir e conclui-se que há coerência. No entanto, isso só pode acontecer precisamente porque as incoerências foram descartadas. Não é o método científico a ser aplicado. Esse pode ser aplicado por qualquer pessoa, pelo que se o Espiritismo estivesse em posição de ser confirmado pela ciência, já não pertenceria ao campo da crença. É, aliás, um caso clássico de viés de confirmação. Se um cientista aplicasse este procedimento a um fenómeno físico, seria descredibilizado à primeira revisão por pares. Por falar nisso, onde está a revisão por pares do Kardecismo? Ou os pares têm de ser kardecistas? A grande diferença aqui é que a ciência não elimina as anomalias: investiga-as. No Espiritismo, pelo contrário, as anomalias são descartadas para que a hipótese original se mantenha intacta. Ou seja, o que o kardecista faz é o mesmo tipo de “cherry picking” de todas as outras religiões, tradições místicas, ocultismos e afins, mas com uma roupagem científica. Lembra-te que também os Cientologistas o fazem, e com o mesmo resultado: uma mão cheia de coisa alguma (e a outra cheia de dinheiro).

A frase “Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade” não diz rigorosamente nada. É um chavão conceptualmente autofágico. Se a fé espírita tem de encarar a razão, então também tem de se submeter ao critério racional. Ora isto significa que deve poder ser provada, testada e, se falhar, abandonada. Mas o Espiritismo não permite esse exame. Nenhuma das suas afirmações centrais (existência de espíritos, reencarnação, mediunidade, ação dos “fluidos”) resiste ao método científico. Portanto, a própria citação, se levada a sério, aniquila a doutrina que pretende enobrecer. É o mesmo que um astrólogo dizer: “A astrologia é válida apenas se passar pelos testes da astronomia”. Pois claro, só que não passa. E o Espiritismo muito menos. Aceito a ideia de que o Espiritismo possa ser “crer porque se pensa”. Contudo, quando as pessoas pensam mal, acabam a acreditar em falsidades. Daí a necessidade do método científico que, não sendo infalível, é a melhor ferramenta de que dispomos para evitar pensar muito e chegar na mesma a conclusões falsas. A fé que encara a razão não é fé: é hipótese. Se resiste à razão, não precisa de se proteger com metáforas. Se depende da intuição interior, não é conhecimento, não é ciência, não é nada senão aquilo que acontece em todas as religiões do mundo: crença infundada e infundável.

O argumento de que “a ciência do século XIX não tinha instrumentos para estudar a consciência” é um equívoco histórico. O método científico não depende de tecnologia, depende da lógica e do controlo experimental. Em 1859, Darwin publicou “A Origem das Espécies” com base em observação e dedução. Não tinha, nessa altura, um único microscópio eletrónico ou um décimo da tecnologia de que hoje dispomos. O que faltou a Kardec não foram instrumentos, foi precisamente o método. E, mais grave que isso, o que ele propôs não se tornou mais plausível com os instrumentos que a ciência desenvolveu desde então. Se estivesse correto e apenas não tivesse na altura a tecnologia para o provar, o que está a impedir os kardecistas hoje? Não há confirmação da hipótese espírita da sobrevivência da consciência em nenhuma investigação em neurociência, psicologia ou física moderna. Nem sequer há indícios de que a mente exista fora do cérebro, de todo, em nenhum estudo que tenha sido levado ao escrutínio de pares.

Fonte: Britannica

Afirmas que, depois de filtradas e repetidas, certas experiências deixam de poder ser explicadas “apenas pela imaginação”. Essa frase é um exemplo típico da falácia do apelo à ignorância. O facto de não sabermos explicar algo não significa que a explicação espírita esteja correta. Só porque ainda não explicámos algo, não significa que seja inexplicável, é apenas para já inexplicado. E só porque a ciência ainda não explicou determinado fenómeno (sublinho que esse fenómeno deve pertencer ao campo da realidade e não da imaginação), não significa que possas apontar uma explicação sobrenatural só porque te apetece. Se fosse assim, cada lacuna da ciência seria prova do sobrenatural. Essa é precisamente a armadilha do “deus das falhas”, que podemos até apelidar, neste caso, de “espíritos das falhas”: sempre que a explicação natural ainda não está disponível, o sobrenatural preenche o vazio. O problema é que, à medida que o conhecimento avança, as lacunas encolhem e o espiritual recua. A história da ciência é, em grande parte, a história do recuo dos deuses, dos espíritos, das fadas, dos unicórnios, das sereias e restantes criaturas do plano da fantasia. O grande problema está onde dizes “A verdadeira investigação espírita começa justamente pela dúvida e pela necessidade de confirmação”. O método científico não procura confirmação, procura refutação. Quem procura confirmação é o crente, que precisa muito de acreditar e vai em busca de padrões que justifiquem a crença. Parte da resposta, não parte da pergunta. Não é racional, é emocional, é fé.

Dizes também que o verdadeiro questionamento não deve excluir à partida a hipótese de que a consciência não se limita ao cérebro. Concordo, não se deve excluir nenhuma hipótese a priori. Mas uma hipótese que não apresenta qualquer evidência positiva é, por definição, descartável a posteriori. Nas palavras de Christopher Hitchens: “O que pode ser afirmado sem evidências pode ser rejeitado sem evidências”. É esta a navalha que corta, a posteriori, as afirmações de Allan Kardec que, por melhores intenções que tivesse, falhou redondamente a missão. Não é uma questão de recusar à partida uma hipótese, é não me ser dado a encontrar nenhum mérito racional na hipótese colocada. O ceticismo não é o dogma da negação: é a recusa em aceitar como verdadeiro o que não foi demonstrado. A diferença pode ser subtil, mas é mesmo essencial. A dúvida é uma virtude precisamente porque nos protege da tentação de confundir desejo com realidade. O tal “wishful thinking” de que tanto falam os americanos.

Quanto à “complementaridade” entre ciência e espiritismo, o termo é sedutor mas intelectualmente falso e muito enganador. Ciência e fé não se complementam, porque operam em planos distintos e com métodos incompatíveis. Aliás, sempre que se tentam misturar, acaba a fé a querer encurtar a ciência. A ciência, por sua vez, não se preocupa com a fé, deixa-a à porta do laboratório porque não cabe lá dentro. A ciência exige prova e refutabilidade. Já o Espiritismo aceita convicção e intuição, como se o valor fosse o mesmo quando definitivamente não é. A complementaridade só é possível se uma abdicar da sua natureza. Historicamente, é sempre a fé que acaba por abdicar (entre birras e pontapés), ajustando-se a contragosto à medida que a ciência avança. Quando o Espiritismo se afirma “em harmonia com a ciência”, é porque se adapta retroativamente aos seus resultados, nunca porque os antecipa ou os demonstra. Caso contrário não se chamava Espiritismo, chamava-se Neurofísica Post-Mortem ou coisa que o valha.

Dizes ainda que o Espiritismo liberta da autoridade. Mas toda a doutrina que parte de postulados inquestionáveis, como a existência de espíritos, a reencarnação, a evolução moral das almas, entre outros, é uma estrutura de autoridade dogmática, ainda que possa não depender de um clero. A ausência de sotainas e chapéus esquisitos não é sinónimo de liberdade intelectual. Um sistema de crenças que não admite a possibilidade de estar errado é, por definição, autoritário. Mesmo que o autoritarismo se disfarce de serenidade. Ora, se o Espiritismo estivesse disposto a reconhecer efetivamente as suas falhas, já não teria adeptos, já teria concluído que não há razão para manter estas crenças, porque não passam no escrutínio do método científico. Eu sou de facto anticlerical. No entanto, só porque um determinado corpo de crenças não é clerical não me faz ter por ele mais consideração intelectual. O que ganha a minha aceitação são os factos, não o que alguém escreveu num livro, ou em muitos, com roupagens pseudocientificas.

Por fim, afirmas que o diálogo entre razão e espiritualidade é a via mais digna de evolução. Eu diria antes que o diálogo entre razão e espiritualidade só é fértil quando a espiritualidade aceita o crivo da razão e se deixa expirar como o iogurte estragado que é. A espiritualidade que resiste à verificação é apenas uma forma de poesia existencial. Pode ser muito bonita, muito afável ao ego, mas revela-se impotente perante a realidade. A verdade não se mede pela paz interior que nos oferece, mas pela correspondência com os factos. Daí que a utilidade da fé para efeitos de conforto emocional não justifique nada.

Fico contente por concordares que evoluímos melhor quando a verdade, e não o conforto, é o nosso objetivo. Mas a verdade exige disciplina intelectual: a disposição constante de dizer “posso estar enganado”. Essa é precisamente a diferença entre o método científico e qualquer doutrina espiritual: uma pode falhar e corrigir-se, a outra precisa de permanecer certa para continuar a consolar. E entre a necessidade de consolo e o dever de lucidez, hei-de escolher sempre a lucidez.

1 de Novembro, 2025 Carlos Silva

Dia de todos os santos

Imagem: Internet


Não há dia que não se recorde um santo
Todos os santos têm seu dia quem diria
São tantos os santos e os dias de pranto
Que todos os santos juntos têm um dia

Não há noite ou dia em que um santo
Não tenha feito milagre ou boa ação
Que não seja venerado em algum canto
Que não tenha exposto doente ou vilão

Não há dia que não se recorde um santo
Todos os dias são dias santos
Até um dia é dia de todos os santos


AGORA ATEU (I), 2020-01-11 Carlos Silva

30 de Outubro, 2025 Onofre Varela

Humanismoe lei religiosa (3 e Fim)

Quando se fala em Humanismo, está-se a falar de quê?

Não há uma definição única amplamente aceite de Humanismo, tal como acontece noutros assuntos relacionados com o Pensamento. Pode haver versões paralelas em cada movimento desenvolvido por pensadores que fizeram as várias épocas que nos precederam, criando variações. Na Igreja essas “variações” são designadas por cisma.

Podemos dizer que os humanistas se opõem à imposição política de uma cultura e rejeitam ditaduras. Também não pertencem a uma igreja ou religião estabelecida, nem aceitam o uso da violência sob qualquer justificação.

Uma definição de Humanismopode ser esta: “Uma postura de vida democrática e ética na afirmação de que os seres humanos têm o direito e a responsabilidade de dar sentido e forma às suas próprias vidas. Representa a construção de uma sociedade mais humana através de uma ética baseada em valores humanos e naturais, no espírito da razão e na investigação livre. O Humanismo não é teísta nem aceita visões sobrenaturais da realidade”.

Em conformidade com esta definição, os humanistas apoiam a erradicação da fome, as melhorias na saúde, na habitação e na educação. O Humanismo é um conceito que pretende melhorar as condições sociais, aumentando a autonomia e a dignidade de todos os seres humanos, seja qual for a geografia de onde sejam naturais ou onde se encontrem. Rejeita qualquer forma de divindade e defende o bem-estar e a liberdade dos povos perante tudo e todos, com base no respeito da dignidade do Ser Humano.

O conceito humanista também pode ser referido por “Humanismo Renascentista” pelo facto de ter nascido num movimento intelectual e filosófico que floresceu na Europa entre os séculos XIV e XVI, com origem em Itália. Caracterizou-se pelo interesse renovado na antiguidade clássica, pelo antropocentrismo (o homem no centro do universo) e pela crença nas capacidades do ser humano, influenciando a arte, a ciência e a filosofia. Este movimento marcou a transição do pensamento medieval para o moderno, promovendo uma visão mais racional e individualista.

O termo Humanismo para designar esse resgate dos valores do período clássico, foi inicialmente usado pelo estudioso alemão Friedrich Niethammer, na sua obra de 1808: “A controvérsia entre filantropismo e humanismo na teoria da instrução educacional do nosso tempo”.

Friedrich Niethammer

No contexto histórico das transformações sociais que marcaram o tempo de Niethammer, o Humanismo surgiu como manifestação cultural de rupturas com a decadência da hegemonia da Igreja e o enfraquecimento do poder papal, a secularização da política, o surgimento das monarquias nacionais com o fim do feudalismo e a renovação da filosofia: portanto, uma atitude positiva para a Humanidade no seu todo.

O movimento trouxe uma renovação no estudo de Humanidades como algo essencial à formação do Ser Humano enquanto universalista.

Hoje vivemos um mau período para o Humanismo. Assistimos a práticas políticas anti-humanistas promovidas por uma extrema-direita que alastra como nódoa social, ajudada pela ganância pessoal de políticos, a qual é, sempre, alicerçada na ignorância e na falta de memória histórica. Com a sua retórica, os anti-humanistas convencem os eleitores menos atentos que são apanhados pela ganância própria do miserável que, destituído de moral humanista, quer ultrapassar o seu vizinho mas nunca deixando de ser, no pensamento, o miserável que é… por muito dinheiro que tenha… mas habitualmente é pobre. No bolso e no pensamento.