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Mês: Janeiro 2024

31 de Janeiro, 2024 João Monteiro

Pedir perdão

Em 2016 o presidente dos EUA, Barack Obama, visitou Hiroshima. Foi a primeira visita de um presidente norte-americano ao Japão depois da Segunda Grande Guerra (durante a qual, em 6 de Agosto de 1945, os EUA lançaram uma bomba atómica sobre Hiroshima destruindo a cidade e matando, instantâneamente, mais de 70.000 pessoas. Destruição atómica que se repetiu dias depois, em Nagasaki, causando mais de 60.000 mortos).

Estranhou-se que Obama não pedisse desculpa pelo facto de os EUA terem enlutado o Japão. Perguntado pelos jornalistas se pedia perdão ao Japão, Barack Obama respondeu que o objectivo daquela sua visita era “honrar todos os que morreram na Segunda Grande Guerra Mundial”.

Era aqui que eu queria chegar para dizer que pedir perdão por actos cometidos no percurso da História, se pode parecer um acto de contrição com alguma positividade pelo arrependimento demonstrado, já não me parece ter cabimento quando não passa de “uma acção puramente teatral”… e, no caso, também sem ressarcir o Japão pelos actos cometidos há mais de 70 anos… o que seria mais do que “teatro”… seria “fita”!

Também seria um pedido hipócrita, já que os actos bélicos dos EUA continuaram a ser praticados provocando sofrimento nas populações, como a História regista!

Os pedidos de perdão não eliminam os males provocados. O que é preciso é que aprendamos com a História e tenhamos inteligência e sensibilidade suficientes para não repetirmos tantos erros através do percurso que fazemos pelo mundo, escrevendo uma História da Humanidade nada dignificante.

Também a Igreja Católica, no seu Jubileu do ano 2000, pela voz do Papa João Paulo II, dirigiu dezenas de pedidos de perdão (a Deus!… Não à memória dos ofendidos!) dos quais destacarei uns poucos, respigados da imprensa da época: “pelos males provocados pela Igreja aos Judeus por parte do Papa Pio XII; pelo anti-semitismo no tempo de Mussolini; por todos os crimes cometidos pela Inquisição; por todas as vítimas abandonadas pela Igreja; pelos actos praticados pelo Vaticano contra os cientistas; por queimar vivos Giordano Bruno e João Hus; pelas divisões no seio das várias sensibilidades cristãs; pelas repressões aos Protestantes e Ortodoxos; pelos pecados cometidos contra o amor, a paz e os direitos dos povos, e pelos pecados cometidos com as mulheres, os pobres e os marginalizados; e, até, pela inoperância da Igreja perante o Ateísmo” (!). 

A Igreja Espanhola pediu perdão pela atitude nada evangélica demonstrada perante os elementos da ETA, e a Igreja da Argentina pediu perdão pelos pecados por ela cometidos durante a ditadura do general Videla. (Curiosamente a Igreja Católica Portuguesa não pediu perdão algum!… Nem, sequer, pelo mal que fez ao poeta Bocage).

Desde o início de 2000 até Junho de 2001, contabilizei 94 pedidos de perdão. E numa cerimónia litúrgica celebrada no Vaticano, o Papa pediu perdão pela soma de todos os pecados.

Pedidos de perdão que me parecem patéticos!

A Igreja, que se considera modelo moral, não devia tê-los cometido… mas cometeu-os! São factos históricos que o perdão panfletário não elimina. 

O importante é termos consciência do mal cometido e emendarmos procedimentos para que não tornemos a cometê-los.

Se assim se fizer, jamais haverá necessidade de se pedir perdão, vivendo-se em paz e de consciência tranquila.

(O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico)

OV

30 de Janeiro, 2024 João Monteiro

O DEUS ANÓNIMO

De Jesus a Shakespeare

O seguinte texto é da autoria de Daniel Ramalho

Mesmo sem saber quem está neste momento a ler estas linhas, arrisco afirmar que é nelas que lerá pela primeira vez o nome de Constantin François de Chassebœuf, conde de Volney. Digo-o com quase absoluta certeza porque o seu anonimato chega ao ponto de o dia do seu aniversário, 3 de Fevereiro, ser conhecido como “Nobody’s Day” – o dia em que por algum inexplicável desígnio do destino alegadamente nenhuma personagem histórica de relevo nasceu.

Que é uma injustiça relegar de Volney à vala comum da História é facilmente justificável. Os seus contributos como arabista, filósofo e político (nomeadamente pelo seu envolvimento na Revolução Francesa) são demasiados em número e interesse para que procure aqui resumi-los. Direi apenas que não será tempo perdido pesquisá-los. Contudo, refiro-o aqui em particular à sua magistral obra As Ruínas, ou Meditações sobre as Revoluções dos Impérios (1817), por ter sido a primeira a popularizar muitos dos argumentos mais comuns no arsenal argumentativo daqueles que defendem a teoria do “Mito de Cristo.”  Apesar de então ter inaugurado a dúvida sobre a existência do Jesus histórico, de Volney foi sem dúvida o mais importante dos seus divulgadores entre a intelligentsia iluminista, em particular após o referido livro ter sido traduzido para Inglês por Thomas Jefferson, seu amigo próximo. Poucos sabem que de Volney existiu, mas o problema histórico e teológico que nos deixou em legado é hoje, em grande medida graças a si, lugar-comum.

A teoria do mito de Cristo foi amplamente discutida nos últimos dois séculos e não é minha intenção abordá-la aqui, mesmo porque a posição de que o Jesus histórico existiu é quase consensual entre historiadores. Mais do que a questão em si, interessa-me como é possível que tenha surgido – ou por outras palavras, como pode ser que não saibamos com absoluta certeza se a personagem mais importante da História é ou não fictícia. A forma mais simples de um cristão responder a estas objecções consiste em apontar para o facto de se tratar de alguém que viveu há 2000 anos, numa sociedade predominantemente analfabeta e antes de haver imprensa, e que este abismo cronológico faz com que seja fácil para os cépticos questionar se estas figuras tão distantes no tempo chegaram a nascer (como acontece, por exemplo, com o ainda mais remoto Sócrates).

Será então que a distância temporal justifica duvidar da existência de Jesus, e que se estivéssemos apenas mais perto do tempo e espaço em que ele viveu teríamos dados suficientes (orais e escritos) para saber sem sombra de dúvidas que ele de facto existiu e que fez milagres? Será por miopia histórica que não vemos o que é evidente para todo o cristão?

Não, e sabemos que assim é pelo exemplo de uma outra figura central da história ocidental historicamente muito mais próxima de nós. Refiro-me ao caso de William Shakespeare.

O culto de Shakespeare atingiu ao longo dos séculos proporções tão desmesuradas que George Bernard Shaw sentiu necessidade de criar uma designação para quem padece dessa condição clínica: “bardólatra” – da qual me confesso paciente crónico. Quase dois milénios passaram até que alguém pusesse em causa a existência do Jesus histórico. Com Shakespeare, apesar de ter vivido na Inglaterra isabelina que era obcecada com registos de toda a espécie, foi preciso apenas um século. O espraiar da bardolatria pela Europa foi acompanhado por uma crescente desconfiança sobre quem seria realmente o mítico “Bardo.” Ninguém questiona que alguém chamado Shakespeare existiu entre 1654 e 1616.  Poucas certezas há sobre o homem – alguns até questionam que tenha sido um homem –, mas entre elas estão a de que era actor, filho de um luveiro (provavelmente analfabeto), que não deixou indicação de ter viajado para lá de Londres, que saiu da escola aos 15 anos, e que nunca frequentou uma universidade. Destas certezas uma outra foi extraída por vários ao longo da História: a de que este retrato simplesmente não pode ser o do autor do corpo literário 100.000 palavras mais longo que a Bíblia do King James, e que Harold Bloom designou de “bíblia secular.” Além disso, de todas essas incontáveis palavras que escreveu – muitas das quais cunhadas por si, entre as quais a palavra “incontável” – apenas seis nos chegaram escritas à mão: todas elas assinaturas, de autenticidade duvidosa, e todas escritas de forma diferente (nenhuma delas “Shakespeare” como escrevemos hoje).

Os que não acreditam que o Shakespeare de Stratford-upon-Avon foi o autor da obra que lhe é atribuída consideram que está provado de forma decisiva que o autor foi outro, muito provavelmente Edward de Vre, Conde de Oxford – de onde deriva a designação de “Oxfordianos” atribuída a quem defende esta hipótese. Foram várias as celebridades ao longo do tempo que se incluíram no número dos Oxfordianos, como Sigmund Freud, Henry James, Walt Whitman, William James, Ralph Waldo Emerson, Mark Twain, Orson Wells, Charlie Chaplin, e muitos outros. Diana Price, uma das mais famosas Oxfordianas da actualidade, afirma que “se escrever peças fosse crime, não haveria provas suficientes para condenar Shakespeare em tribunal.” Alexander Waugh, outro anti-Stratfordiano contemporâneo, está convicto de que uma enorme conspiração foi engendrada para proteger a identidade de Edward de Vere, verdadeiro autor da obra “Shakespereana,” com pistas espalhadas aqui e ali que uma vez identificadas provam sem margem para dúvidas que o Shakespeare histórico não foi mais do que um actor e astuto homem de negócios que provavelmente nunca escreveu uma linha na vida por nunca ter aprendido sequer a escrever. Há aqui um interessante paralelismo com o conde de Volney, que propôs a hipótese de ter havido uma obscura figura histórica correspondente a Jesus transubstanciada em Cristo pela religião até pouco ou nada restar da pessoa que realmente existiu.

Mas o paralelo vai mais longe do que isso. Tal como especialistas em crítica textual procuram extrair dados sobre o Jesus histórico dos Evangelhos, também os bardólatras fazem o mesmo com a obra de Shakespeare. A cena do festival da tosquia na peça As You Like It leva os Stratfordianos a crer que o Shakespeare de origens humildes e poucos estudos foi de facto o autor, pois um aristocrata nunca saberia tanto sobre um festival de camponeses. Um outro bardólatra foi a todos os locais de Itália referidos por Shakespeare nas suas peças e concluiu que as descrições feitas dos mesmos só poderiam ter sido escritas por quem tenha lá estado, o que reforça a posição Oxfordiana porque Shakespeare, que se saiba, nunca saiu das fronteiras britânicas.

E há ainda dilemas textuais, como acontece com a Bíblia. Por exemplo, no final da peça King Lear encontram-se em diálogo Edgar e Albany, dois candidatos à coroa, nenhum dos quais a quer. Tradicionalmente, no teatro isabelino e jacobino, as palavras que concluem a peça são proferidas por quem fica no poder. Nos últimos versos do King Lear, um destes dois acaba por ter de aceitar ser rei, mas numa edição (1623) quem o faz é Edgar, e noutra (1632) é Albany. Ora, Albany é o legítimo sucessor, pelo que a mensagem de Shakespeare é diferente consoante quem ascende ao poder no final. E apesar dos rios de tinta que correram sobre a questão, a verdade é que não se sabe. Stephen Greenblatt, um famoso estudioso de Shakespeare da actualidade, diz sobre esta questão que provavelmente nem Shakespeare sabia qual das personagens devia ascender ao trono no final, e que a indeterminação em que nos vemos hoje a esse respeito é tão nossa quanto foi dele.

Ou seja, tanto no caso de Jesus quanto no de Shakespeare, temos uma personalidade histórica que sabemos ter existido mas que é identificada pela tradição com uma personagem rodeada de uma aura de divindade de tal modo ofuscante que não conseguimos perceber se são ou não a mesma pessoa. E este é o ponto para o qual pretendo chamar a atenção. Estando nós na posse quando um milhão de palavras na “voz” de um autor, atribuídas a uma personalidade que sabemos sem sombra de dúvida ter existido, separada de nós por uns meros 400 anos, ainda assim não nos livramos de uma “dúvida razoável” relativamente à sua identidade igual à da do Jesus Cristo dos Evangelhos. Em ambos os casos a dúvida é suscitada pelo carácter “sobrenatural” dos textos que nos chegaram dessas figuras, com a diferença de que no caso de Shakespeare o texto na origem da discussão não lhe atribui milagres mas é em si o milagre que lhe é atribuído.

A hipótese Oxfordiana mais popular aponta, como referido, para uma conspiração que alegadamente visou escudar a real identidade do autor dos textos “Shakespereanos.” Autores como Bart Ehrman defendem algo semelhante em relação a Jesus, i.e. que foi um profeta apocalíptico falhado, cuja mensagem os discípulos desiludidos alteraram para justificar o facto inesperado e traumático de verem crucificado aquele que esperavam vir a ser seu rei terreno, tornando o seu reino sobrenatural. É verdade que houve uma “conspiração” nos casos de Shakespeare e de Jesus? Não sabemos. Apenas sabemos que qualquer medida de tempo tem solo fértil que chegue para a teoria da conspiração germinar.

Então, se a dúvida relativa à identidade de uma figura considerada sobre-humana pode surgir com a mesma pertinência em relação a alguém nascido há 2000 anos e há 400 anos, poderia surgir relativamente a alguém que morreu ontem? Estamos convictos de que os registos audiovisuais que conseguimos captar hoje protegem a identidade histórica dos nossos génios, mas se Shakespeare tivesse morrido ontem, após receber o Nobel da Literatura e três ou quatro Óscares, e com infindáveis entrevistas gravadas ao vivo em programas televisivos e podcasts, seria impensável que a questão da autoria das suas peças se tornasse tópico de debate no ano 2424? Seria impossível que uma franja de intelectuais desconfiados atribuísse a sua fama literária à inteligência artificial, ou a uma conspiração de autores, ou a outra coisa qualquer, de forma plausível?

Caso a resposta seja “não,” o mesmo pensamento é aplicável com igual propriedade a Jesus. Estaríamos em melhor posição para julgar a veracidade dos eventos relatados nos Evangelhos se Jesus tivesse morrido há 400 anos? Ou em Inglaterra no século XVII? Ou ontem? Talvez. Afinal, temos câmaras e microfones. Mas poderia essa certeza manter-se incólume historicamente? O caso de Shakespeare indica que não. Mais século menos século, a dúvida razoável surgirá nas franjas académicas e a posição céptica deixaria de ser absurda. O tempo acumula-se nas figuras que endeusamos como um sarcófago, até que finalmente dos lábios dourados alguém ouve as famosas palavras de Iago: “I am not what I am.”

Se de facto assim for, se o milagre for sempre mais absurdo do que a conspiração independentemente do registo histórico, se a existência do Cristo bíblico não fosse mais certa hoje tivesse ele sido contemporâneo de William Shakespeare, é tarefa de todo o céptico responder à questão a que assim fica exposto perante o Cristianismo: “Ateu, que Evangelho, ainda que em formato audiovisual, te converteria?”

29 de Janeiro, 2024 Onofre Varela

Mais uma atitude positiva do Papa Francisco – I

A seita de extrema-direita católica denominada Opus Dei (OD) nasceu na mente do beato Balaguer em 1928 e teve o seu desenvolvimento durante o Franquismo. Admirador confesso de Hitler e de Francisco Franco, o padre Balaguer odiava republicanos e comunistas. Disse, um dia, que “era um exagero afirmar que Hitler tinha matado seis milhões de judeus”… pois, na sua opinião, “Hitler não era mau. Só tinha matado três ou quatro milhões” (?!). 

O Papa João Paulo II (JP2) promoveu a seita OD por dívidas de gratidão que contraíu com Balaguer por ter sido fornecedor de dinheiro ao Vaticano nos momentos difíceis. Durante o seu papado a OD tomou excessiva dimensão dentro da Igreja, o que não era bem visto por muitos bispos… e, provavelmente, nem o próprio Balaguer teria imaginado ter sido possível conseguir tanto poder dentro da Santa Sé.

A OD sempre funcionou com secretismo na aproximação aos poderes políticos e económicos dos países onde se estabelece, assumindo atitudes semelhantes às acções desenvolvidas pelos partidos da Direita, incluindo os não democráticos. A seita está hoje presente em 68 países e, segundo as suas próprias informações, é composta por cerca de 93.500 membros laicos e 2000 sacerdotes (El País Semanal de 27/08/2023). 

Não é possível confirmar estas declarações exactamente pelo secretismo em que a OD está envolvida. O seu património não é totalmente conhecido pelas mesmas razões, mas sabe-se que é imenso. A “Obra” (termo com que os seus membros gostam de referir a seita), está muito bem implantada na Europa e na América Latina, possuindo vários estabelecimentos, desde grandes empresas a Universidades. Eu próprio tenho um certificado de uma formação de jornalista que fiz no Centro de Formação de Jornalistas, no Porto, em Junho de 1995, ministrada pela Universidade de Navarra que pertence à OD. 

Os Jesuítas nunca foram “às missas de Balaguer” nem aprovam a imagem do “santinho” já colocada numa parede do Vaticano. Recentemente (8 de Agosto último) o Papa Francisco I promulgou leis que retiram à OD a excessiva influência que JP2 lhes conferiu e que mantinha na Igreja desde há 50 anos. Os observadores da Igreja vêem nesta atitude de Francisco o epílogo de crescentes tensões entre a organização conservadora OD, e os Jesuítas que (muitos dos seus membros) têm uma visão mais progressista da Igreja.

Com este “motu próprio” de Francisco, a seita Balagueriana fica impedida de ordenar sacerdotes, e o seu máximo responsável não pode ser bispo. Perde independência e tem de prestar contas ao Vaticano. 

Esta é mais uma atitude positiva de Francisco I a merecer o aplauso dos ateus pela decência nela contida. 

Embora os ateus não façam parte da Igreja (logo, não teriam direito à opinião sobre as coisas internas do culto), na verdade fazem parte da sociedade onde a Igreja Católica se estabelece… por isso não podem alhear-se dos fenómenos sociais que, em algum momento, acabam por tomar parte da vida de todos nós… ateus incluídos. 

(O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico)

OV

26 de Janeiro, 2024 Onofre Varela

Estórias de Jesus

Em Novembro de 2012 foi lançado no mercado um livro biografando Jesus Cristo (o terceiro de uma colecção de três), da autoria de Ratzinger, então Papa Bento XVI. Convenhamos que Jesus Cristo, enquanto personagem histórico, é dono de uma biografia difícil, se não mesmo impossível, de escrever. Já na versão de Homem-Deus, as coisas estão facilitadas… por aí podemos dizer dele os maiores dislates que, se não ofenderem os crentes e roçarem as estórias contadas pelos evangelistas e propagadas pela Igreja durante dois milénios, não as contrariando, essas narrativas ficcionadas serão tomadas como a mais alva pureza das realidades.

Uma biografia tem de partir de um ponto de vista histórico. Não há outro modo de a fazer que não seja relatar os episódios que fizeram a vida real de uma pessoa concreta. Se a obra ultrapassa esta baliza, deixa de se denominar biografia, para passar a ser ficção, romance, ensaio, romance histórico, biografia ficcionada ou… expressão de fé… que é aquilo que a obra de Ratzinger é: a expressão subjectiva da sua fé em Jesus Cristo. E só assim deve ser entendida.

Enaltecer a subjectividade é o que faz o partidarismo, seja político ou religioso. Tomar partido por algo ou por alguém, é colocar-se ao lado de uma corrente de pensamento, por muito que a racionalidade e a História possam garantir o erro dessa corrente. As visões contrárias à natureza das coisas nunca são avalizadas pelas disciplinas científicas que as estudam… por isso a História não garante que seja verdadeiro o teor da maioria dos livros biografando Jesus, os quais não contêm História, mas sim estória (conto popular ficcional… como é a Estória da Carochinha!).

A afirmação de que Deus existe tem por base a crença, não passando de uma convicção. A ideia de Deus permite várias interpretações e discussões, desde logo a sua estranha natureza, até à necessidade que dele muitos sentem e dependem, em consequência dos banhos de religiosidade de que foram vítimas na infância.

Todos nós temos direito às nossas convicções, e a defesa de uma convicção só pode ser rotulada de acto desonesto se o seu defensor tiver consciência da “inverdade” que apregoa; e só é vigarice se, conscientemente, ele quiser comprar a concordância do outro, sabendo que lhe está a vender gato por lebre. Quando o defensor de uma ideia está convicto daquilo que defende, presumindo estar com a verdade, ele é honesto nas suas afirmações e deve ser respeitado na “sua verdade”.

Por isso aceito a subjectividade de Ratzinger, embora não concorde com ele. E todos nós sabemos, pela História, que através dos tempos o Ser Humano conseguiu a audácia de criar fundamentos intelectuais que lhe permitiram direccionar o seu entendimento para a interpretação naturalista, distanciando-se dos mitos que as religiões defendem como verdade e dos quais se alimentam.

(O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico)

OV

24 de Janeiro, 2024 Onofre Varela

Da ciência e da religião.

Falar de Ciência e de Religião é como falar de chá e de vinho. Não são a mesma coisa… mas ambos contêm água!

O leitor mais avisado, seja religioso, agnóstico ou ateu, que não detenha um pensamento fundamentalista e pretenda ser coerente com as coisas que ao mundo e ao Homem pertencem, saberá que desde a origem da Humanidade surgiram tantas religiões como idiomas; umas cem mil… e todas elas sempre foram afirmadas como únicas e verdadeiras.

E também poderá apontar atitudes de crença como sendo indutoras de calma e de paz que lhe mostram a “divina graça da criação”… a mesma calma e a mesma paz que o cientista encontra no final do estudo que lhe mostra a realidade das coisas naturais, baseado na verdade científica dispensando credos religiosos.

Credos que construiram uma espécie de “estrada do conhecimento” que nos serviu de percurso na construção da História do Pensamento, permitindo-nos o “entendimento” da criação do mundo e da criação do Homem modelado em barro, mais o paraíso e o próprio conceito da vida para além da morte como negação do natural fim que recusamos contrapondo-lhe a ideia que criamos da “vida eterna” baseados na fé.

O raciocínio que nos mostra a mesma água contida no chá e no vinho… é que faz a diferença!…

O sabor final de cada uma das bebidas, mais os efeitos que cada uma produz em nós, são tão diversos, como diversos são o saber e o crer. Mas não é absolutamente necessário abandonar um para seguirmos no caminho da vida carregando, somente, o outro. Na nossa mala de viagem cabem os dois.

O chá não substitui o vinho, tal como o sal não substitui o açúcar… mas há um lugar próprio nas prateleiras da nossa cozinha (e da nossa mente) para ambos… o que não devemos é misturá-los!…

Se há religiosos para quem a narrativa do Génesis não ultrapassa o mito que é (não misturando sabores), esses constituem uma minoria… não integram a massa compacta de crentes que se arrastam em lugares ditos sagrados e que aceitam a Bíblia como História, confundindo os frascos na prateleira.

Afirmar a crença como substituto do conhecimento científico, pode conduzir a caminhos tão escuros como os que levaram Donald Trump à presidência dos EUA… país onde, numa sondagem do jornal “USA Today”, há uma vintena de anos, se garantia que 60% dos norte-americanos reivindicavam o ensino do Génesis bíblico nas escolas, em substituição do Evolucionismo de Charles Darwin!

Quando se junta a crença à crise de intelecto, procura-se apoio nas santinhas de altar e na mesa pé-de-galo da bruxa e da cartomante-adivinhadora das televisões, desacreditando a informação científica. O raciocínio religioso de uma grande parte de nós é muito primitivo… e isso é coisa que me inquieta, tanto mais quando penso nas palavras do físico e prémio Nobel Steven Weinberg: “Com ou sem religião sempre haverá gente boa fazendo coisas boas e gente má fazendo coisas más, mas para que gente boa faça coisas más faz falta a Religião”.

No nosso percurso pela estrada da vida, o desencontro das ideias de Ciência e de Religião já levou a alguns confrontos, mas hoje essas atitudes bélicas não têm razão de ser. As duas disciplinas pertencem a diferentes campeonatos… nunca jogam juntas nem disputam a mesma taça. Devemos arrumar cada uma no seu devido lugar nas prateleiras do nosso Conhecimento.

(O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico)

OV

22 de Janeiro, 2024 Onofre Varela

Crer ou não crer

Um dia perguntaram ao filósofo Agostinho da Silva : “Acredita em Deus?” Ao que ele respondeu: “Depende. Se você me disser o que é Deus, pode ser que eu lhe diga se acredito ou não”.

Não conheço resposta mais concreta e acertada para tal pergunta! Na verdade não se pode negar a existência de Deus assim, tão simplesmente, porque logo a seguir a essa negativa se colocaria a questão: se Deus não existe, porque é que estás a falar dele? Se não existia até aqui, passa a existir a partir deste momento, caso contrário não se entenderia porque estás a nomeá-lo!

Só se pode negar ou afirmar aquilo que se conhece. E aquilo que “eu conheço” do conceito de Deus (o conceito, sim, existe) não me merece crédito de existência real para além do conceito que é, nem fora da mente de quem o afirma.

A figura de Deus apregoada pelas religiões é definida como um ser espiritual, mas que tem personalidade e forma material (a crer na Bíblia, reuniu com Moisés para lhe entregar as tábuas da lei), que produz milagres e orienta os homens, que castiga e premeia, que dá e tira, e que reina num universo paralelo onde nos espera depois de morrermos para nos premiar com felicidade eterna, ou nos condenar também eternamente (o que é uma maldade!…).

Este deus, pintado assim, desta maneira tão infantil para o raciocínio de um adulto saudável, definitivamente, não pode existir. As leis da física e da química não permitem a existência de um ser, ou coisa, com tais poderes!

As opiniões que contrariam a fé dos crentes costumam incitá-los à recusa imediata da opinião do outro, sem qualquer raciocínio crítico que os pudesse levar a comparar ideias antes de negarem o “incrédulo demoníaco”. Esta atitude só é tomada por quem não está preparado para enfrentar tal raciocínio, mas que, pelo contrário, está programado para o recusar liminarmente.

Seria mais razoável se os crentes enfrentassem os factos contrários à sua fé com capacidade analítica e concluíssem depois. Acredito que se assim fizessem, as crenças religiosas perderiam a maioria dos seus adeptos por terem adquirido conhecimentos mais avançados do que o primitivo “saber religioso” adquirido pelos Homens da Idade do Ferro, bem antes de haver um pensamento científico, mas que hoje ainda é consumido desregradamente…

A fé da medievalidade do pensamento ainda habita cérebros sem o critério científico que alimenta a dúvida e incita à procura, mau grado os diversos meios de conhecimento que a modernidade tem ao dispor de todos nós. A crença “pura e dura”, numa primeira análise “a frio”, não é compatível com a nossa época. Na crença entregamo-nos ao sonho mais inconcretizável e à simulação, convictos de estarmos com a verdade.

(Advertência: “Crença” não é sinónimo de “Ignorância”. O Crer e o Saber co-habitam pacificamente no mesmo cérebro sem conflituarem. Ignorantes todos nós somos, começando pelos cientistas… que só procuram e investigam, porque sabem que não sabem!… Se soubessem que já sabiam, não se davam a tal trabalho. A crença e o conhecimento científico têm vasos comunicantes e não se deve partir do raciocínio simplista [e errado] de que o crente é detentor de menor inteligência por garantir saber, desconhecendo que não sabe. A “Sensibilidade” de cada um é pedra fundamental na construção do nosso pensamento… e também tem direito a ser atendida nesta questão).

(O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico)

OV

21 de Janeiro, 2024 Onofre Varela

SOBRE JESUS CRISTO

Acabamos de viver mais uma quadra festiva integrando o Natal e a Passagem de Ano, duas datas emblemáticas para as culturas ocidentais. A primeira delas, considerada a Festa da Família, transporta uma carga religiosa conotando o dia 25 de Dezembro com o nascimento de Jesus Cristo (JC). 

O que se sabe de JC é o que os Evangelhos nos contam. Referências históricas que confirmem os relatos dos evangelistas Marcos, Mateus, Lucas e João, não existem.

Perante a falta de fontes históricas credíveis, podemos considerar a existência de “dois Jesus Cristos”: o JC histórico e o JC mitológico. Do Jesus histórico pouco se sabe… e do Jesus mitológico há bibliotecas imensas sobre ele, que o afirmam Deus e que operou milagres, o último dos quais foi a sua própria ressurreição e a subida ao céu!

A vida real do Jesus Cristo histórico será bem mais prosaica, mais terra-a-terra e muito mais humana, do que a fórmula mitológica com que a contam as várias Igrejas inspiradas nos Evangelhos que foram escritos algumas dezenas de anos depois de JC morrer, e não passam de narrativas na fórmula “alguém disse que ouviu dizer”.

Jesus Cristo foi um rebelde que ascendeu à condição de personagem histórica com maior repercussão na História da Humanidade nos últimos dois mil anos, chegando a condicionar a vida, a Arte, a Cultura e os costumes de milhões de pessoas. Aceite como Deus, em seu nome se mataram inocentes, e muitos dos seus seguidores perderam a vida na propagação da sua fé.

Jesus Cristo é, incontornavelmente, a figura mais poderosa na história da civilização ocidental. Jesus nasceu e viveu no local e no tempo certos.

Se tivesse vivido na Alemanha nazi, teria sido morto nos fornos crematórios de Hitler, anonimamente, entre milhares de outros judeus. 

Se tivesse nascido na União Soviética de José Staline, teria sido enviado para a Sibéria e fuzilado entre tantos infortunados filhos da mãe Rússia. 

Se tivesse nascido na América Latina das ditaduras protegidas pelos EUA, teria sido um guerrilheiro camarada de Che Guevara, em luta contra o imperialismo americano (que o adora), e seria assassinado numa emboscada montada pela CIA numa selva da Bolívia. 

Se tivesse crescido na China de Deng Xiaoping, enfrentaria o exército e os tanques na praça Tiananmen, seria preso e rapidamente julgado por um Pilatos de olhos em bico que o condenaria à morte. A bala que lhe perfuraria a nuca teria de ser obrigatoriamente paga pelo seu pai carpinteiro. 

Se fosse português desempregado no Portugal governado por Passos Coelho e Paulo Portas, e presidido por Cavaco Silva, manifestava-se ruidosamente contra as atitudes do governo e o silêncio do presidente, e os responsáveis pelo seu desemprego apontavam-lhe a fronteira para que emigrasse. 

E se vivesse hoje no seu próprio território natal, a Palestina, era contestatário dos colonatos judeus e seria assassinado pela fúria criminosa dos soldados de Netanyahu na vaga de ódio que promove o genocídio do seu Povo Palestino… com a aprovação dos EUA, que o adoram!…

(O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico) 

OV

21 de Janeiro, 2024 João Monteiro

O ateísmo morreu. Viva o ateísmo!

Neste texto, Daniel Ramalho explica as motivações que levaram a que diminuísse o tempo dedicado a escrever sobre ateísmo.

Escrevi sobre ateísmo com frequência e de forma disseminada durante mais de metade da minha vida, de tal modo que muitos dos meus conhecidos (em particular nas redes sociais) pouco mais conhecem de mim para além dessa faceta. Há relativamente pouco tempo, e quase de repente, parei, o que levou a que alguns desses conhecidos me perguntassem porquê. A esses, aqui deixo a minha resposta.

Não foi por ter passado a achar que é tempo perdido argumentar com fanáticos que me calei, nem por ter deixado de considerar o tema importante ou interessante, nem por me ter convertido. Apenas cheguei à conclusão de que o ateísmo está finalmente completo. Quero com isto dizer que chegámos a um ponto em que não já existe argumento teológico algum que não tenha um contra-argumento demolidor. Por não ser um sistema de crenças independente, o ateísmo precisa da vitalidade da religião para sobreviver, e há já muito tempo que não surge um argumento teológico com pretensão de originalidade que dê aos ateus alguma coisa que fazer. Houve tentativas como a do Plantinga, mas tão exangues e fáceis de rebater que podem ser consideradas nados-mortos. A religião chegou ao limite do que pode dizer em sua defesa, e já não pode haver dúvida razoável que faça pender o fiel da razão a seu favor.

O ateísmo chegou à sua última página. Nada do que possa ser dito daqui em diante em resposta aos velhos argumentos teológicos mesmo dos mais sofisticados católicos (que sempre gostaram de se considerar mais espertos do que a concorrência) poderá ser mais do que a repetição de um argumento também ele já vetusto ao qual nada de importante precisa de ser acrescentado para que seja fatal. Tanto do lado da física, cosmologia, biologia, geologia, etc., quanto da história, antropologia, filosofia moral e crítica textual, todos os “bolsos de ignorância” onde se poderia adivinhar a presença de um deus foram ou iluminados para se revelarem vazios, ou se verificou que enfiar lá deus apenas multiplicaria os problemas. Chegámos a um ponto em que os nossos melhores teólogos (e note-se que a completude do ateísmo implica o fim da teologia) não têm como discordar de grande parte da argumentação avassaladora com que agora se deparam. Resta-lhes refugiarem-se nos únicos dois redutos em que tal ainda é possível: ou na fé esvaziada de razão que se assume como tal, ou na deprimente afirmação de que o valor cultural e utilidade social da religião a justificariam ainda que fosse falsa – e é incrível o número de apologetas cristãos derrotados que segue esta última linha.

Por tudo isto não tenho muito mais a dizer acerca de ateísmo excepto que está lá para quem o quiser visitar, em exposição num mausoléu. Ser religioso neste momento é, como sempre será doravante, um imperativo psicológico dos doutrinados desde tenra idade, daqueles com demasiado investimento social/profissional na sua crença, seduzidos emocionalmente pela estética religiosa, ou que simplesmente não aguentam a ideia de que um dia deixarão de existir. Ironicamente, estes sempre existirão (de forma colectiva), mas é um facto que toda a argumentação de que tentem socorrer-se para defender a sua crença de forma discursiva já tem resposta suficiente escrita algures. Nada mais podem fazer do que desviar os olhos e acreditar porque sim.

O trabalho do ateu militante não terminou, claro. A religião continua e continuará a ter de ser empurrada diariamente e sem descanso para a esfera privada, a que pela sua natureza nunca se confinará de forma voluntária. No que diz respeito à questão da sua veracidade ou falsidade, o trabalho está feito. E por isso vou lendo, vendo e ouvindo sobre ateísmo como quem contempla uma estátua: em silêncio, deleitando-me com um prazer que é agora apenas estético.

O ateísmo morreu. Viva o ateísmo.

15 de Janeiro, 2024 Eva Monteiro

Reflexões sobre a Origem da Crença

O nosso medo da inevitável finitude da vida humana levou-nos a procurar o divino. É certo que devemos ter questionado acerca dos fenómenos naturais que nos rodeavam e que não tínhamos ainda como explicar. Mas creio que acima de tudo, em algum momento da nossa existência como seres pensantes mas também profundamente emocionais, alguma mãe deve ter passado dias a cuidar de um filho moribundo em absoluto desespero. Algum caçador se deve ter visto caçado e, tendo a natureza como leito da morte em solidão, deve ter-se questionado se aquele momento seria mesmo o fim.

Não me inclino a pensar que a crença no divino tenha resultado na expetativa de uma vida pós-morte. Pelo contrário, parece-me que a esperança de que “isto” não fosse a nossa única existência, nos levou a imaginar um ser que pudesse garantir que o nosso sofrimento não seria em vão, nem que o fim fosse só isso.

Peçam, e será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta será aberta.

Mateus 7:7-8

Sendo o ser humano dotado de infinita imaginação, neste caso, procurar leva mesmo à descoberta. Dizem os americanos que devemos parar de escavar quando encontramos um buraco. Foi precisamente isso que nos falhou. Em vez de criarmos uma ideia que nos aliviasse o fardo da morte, conseguimos ir muito além e criar um conceito que não só justifica a morte, como a torna apetecível. Pior do que isso, nem tampouco nos ficamos pelo desejo da morte individual, tivémos que extrapolar para o coletivo. Deixou de nos bastar que a morte passasse a ser uma sedutora amiga, para a desejarmos para toda a humanidade. Há-de vir o profeta, ou voltar, consoante o delírio. E com ele virá o apocalipse em que os vivos e os mortos (não-mortos? só um pouco mortos?) serão julgados e assistirão ao fim dos tempos.

O Juízo Final (Hieronymus Bosch) 1482

Para muitos, o apocalipse está iminente. Aliás, muitas pessoas viveram vidas inteiras convencidas de que veriam o fim dos tempos. E de que o fariam com prazer, vendo vizinhos e familiares arder no fogo eterno, num julgamento divino que não poderia distinguir-se do seu próprio. Questiono-me com frequência que tipo de dissonância cognitiva leva a que uma pessoa que se considera suficientemente merecedora de estar na presença do inefável divino, se comporte com esse nível de mesquinhez. Será porque acreditam que basta arrependerem-se? Será que é porque se consideram parte do povo escolhido de deus? E assim sendo, estão acima da moral que se exige aos restantes mortais?

Eles receberam ordens para não causar dano nem à relva da terra, nem a qualquer planta ou árvore, mas apenas àqueles que não tinham o selo de Deus na testa.

Apocalipse, 9:4

Ver o fim dos tempos é apenas ver o fim dos vivos, não o fim de tudo – tudo, tudo, mas mesmo tudo. E nem é um conceito particularmente original. Pelo contrário, vai aparecendo em quase todas as culturas ao longo dos tempos, num esforço de, digamos, acertar contas. É que mais uma vez, encontrámos um buraco mas continuámos a escavar. Já os antigos egípcios acreditavam que as suas almas seriam pesadas em comparação com uma pena. Só os justos, os que viveram de acordo com as regras divinas poderiam sentir essa leveza de espírito e entrar no reino dos bem aventurados. Mas, em data a anunciar, eis que viria, para muitas outras culturas, incluíndo aquela que melhor conhecemos hoje, a morte das mortes, o fim dos fins, o julgamento final.

Não lhe retiro valor pelo dramatismo, ainda que apresente graves problemas logísticos, que rivalizam apenas com a noção de que dois pinguins da Antártida viajaram mais de 13 mil quilómetros para entrarem na arca de Noé. É estrondoso pensar num evento dessa envergadura. Os mortos todos a voltar à vida, para serem julgados novamente, alguns a gritar “non bis in idem”! Quem acredita que está entre aqueles que vão sair ilesos desse espetáculo pirotécnico bem pode rir dos desgraçados dos pecadores, pior, ateus, a sofrer a maior confusão das suas vidas. Ou mortes. É que, para quem tem deus ao seu lado, há permissão para tudo, até para ser cruel. E para quem está acima do bem e do mal, até se pode julgar duas vezes o mesmo crime.

Disseram-me muitas vezes que sem deus não há moral. Sem deus, não resta ninguém acima de mim que eu tema. Sem esse temor, não há castigo que me obrigue a viver de forma justa. Sem deus, eu aparentemente sentir-me-ia tão livre, tão soltinha, que desatava a matar e a roubar, a pilhar e a esquartejar. Como ateia e até à data, diz a totalidade desses atos que me apeteceu. Ora, sendo que não vos escrevo de nenhum estabelecimento prisional, é fácil concluir que, por ser ateia, não me apetece propriamente arrancar os órgãos internos a ninguém. Pelo menos não depois de sair do trabalho. É que a justiça dos homens faz um excelente trabalho a manter-me nos eixos. Quem dera que a justiça divina tivesse impedido fosse quem fosse de cometer crimes horrendos, especialmente aqueles que aconteceram e acontecem no seio de muitas (todas? quase todas?) as organizações religiosas que conheço.

Pior do que isso. Significa então que os crentes só ajudam o próximo por temor a deus? Só amam por temor a deus? É apenas medo que os impede de cometer atrocidades? Às vezes penso que sim, que é isso que pensam sobre si próprios. E às vezes, cai-lhes um pouco os véus de moralidade divina. É nessas alturas em que vejo pessoas que rezam todas as noites, dizer que os sem-abrigo não querem é trabalhar, que quem anda de mini-saia é que anda aí a pedi-las, que não ser igual à regra é só moda para chamar à atenção, que tanto aperta a mão a este como o pescoço àquele. Se são todos? Não. Mas são muitos e eu cresci rodeada deles.

A diferença entre o ateu e o crente não é que o ateu não tem medo da morte. É que o ateu escolhe não se iludir. E ao fazê-lo, vive mais plenamente a sua vida, com a consciência de que não vai a lado nenhum depois, nem voltar de lá eventualmente. Ama mais livremente, porque ama sem motivos ulteriores. Quando faz algo pelo próximo, é porque realmente quer ajudar, não porque está a somar pontos. Vive consciente de que é insignificante neste universo que ninguém criou. Vive sabendo que ao morrer, devolve a matéria às estrelas.

Não me digam que não tenho pelo que viver por não acreditar numa vida após a morte e no deus que a garante. Para parafrasear Seth Andrews, não deixei de ter uma razão para viver, deixei de ter uma razão para ansiar a morte.