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Mês: Agosto 2026

26 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (8 e Fim)

Por Onofre Varela

A Consciência não é uma faculdade exclusiva dos seres humanos. Outros animais também a terão de um modo mais rudimentar, mas em nós ela permite reagir à “experiência do sofrimento ou do prazer com a invenção de novos objectos, acções ou ideias, os quais se traduziram na criação de culturas”… o que, obviamente, não acontece aos outros nossos companheiros da vida que no planeta eclodiu e de cujo reino animal fazemos parte.

As religiões só poderiam ser desenvolvidas em torno dessa consciência que nos formata, e sem a qual a nossa espécie seria outra que não a que realmente é.

Há um significado da palavra “consciência” reconhecido por neurocientistas, biólogos, psicólogos e filósofos contemporâneos, que diz assim: “Consciência é um sinónimo de Experiência Mental. E o que é uma experiência mental? É um estado da mente e tem uma característica notável: os conteúdos mentais que o constituem são Sentidos e adoptam uma perspectiva singular. Uma análise mais aturada revela que essa perspectiva singular pertence ao organismo no interior do qual se encontra a mente”.

A Consciência acaba por ser um sistema mental enriquecido, produzindo a escolha moral, a criatividade ou cultura humana, as quais só fazem sentido à luz da Consciência. Porém, não é líquido que a integração de um determinado indivíduo numa determinada sociedade, construa a sua consciência de acordo com uma “bitola” hipoteticamente existente nela, e na qual o indivíduo se integra já depois de ter desenvolvido a sua consciência noutro meio cultural.

A capacidade mental de cada indivíduo é como uma mala onde se vai guardar a bagagem que cada um possui… ou não possui! Não é só o conteúdo da mala que faz a qualidade do que nela se guarda. A própria mala terá de ter robustez e capacidade hermética para que o conteúdo não se danifique. Aqui entra a “construção da mala”, que é a nossa realidade biológica, e cada um terá a sua.

Nas várias capacidades do Ser Humano também entra a Homeostasia, que é a propriedade de determinados seres vivos, a despeito das variações do meio ambiente, manterem o equilíbrio de todas as funções, mas também a própria constituição química dos tecidos.

De facto o “Homo Sapiens” é um animal especial entre todos os outros animais nossos companheiros de vida na Terra. O cérebro que nos dá a consciência é único… e todos os dias vemos tanta gente desperdiçando as suas melhores capacidades, ou a usá-las do pior modo (que também é um desperdício)… como os ditadores que já desilustraram a Humanidade, como Hitler no meu tempo de bebé, mais os actuais e horrendos Netanyahu,  Putin e Trump, na minha terceira idade…

E aqui, no final desta série de textos, eu volto ao princípio: não sei explicar as experiências que a minha filha garante ter, inseridas na “secção mental” rotulada “Vida depois da Morte”.

Não lhes encontro lógica (a minha lógica) mas sei que ela não mente quando me afirma “a sua lógica”, que também ela diz não saber explicar… mas que a sente… o que me leva a aceitar a minha ignorância: não sei responder a questões que me são narradas como “sobrenaturais” porque parto do princípio que tudo quanto existe é natural… e se é “sobrenatural”… então não existe!…

É preciso que me expliquem, muito bem explicadinho, as razões naturais que nos levam a evocar a sobrenaturalidade em que não creio. Só então (depois de perceber) aceitarei o fenómeno como coisa natural… mas já com a devida explicação incluída no modo de usar!

(Fim)

26 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (7)

As escolas estabelecidas em todas as sociedades não são apenas lugares de transmissão de saberes… também desenvolvem estilos de consciência… e de esquecimento de outras capacidades, orientando as consciências para comportamentos locais, distanciando-as do entendimento universalista das coisas naturais, construindo um modo de pensar limitado a uma facção, como acontece no xamanismo e também é notório na aprendizagem de cultos religiosos e políticos ministrados pelos interesses instalados em cada grupo.

Carlos Stepanoff é membro do Laboratório de Antropologia Social do Colégio de França e director da École des Hautes Études en Sciences Sociales. Especialista nos rituais xamánicos, diz que o sonho, o devaneio (o sonhar acordado) ocupa 50% da actividade do espírito, desempenhando um importante papel no funcionamento da imaginação.

Estudos de neuropsicologia mostram que a imaginação é mobilizada quotidianamente durante toda a nossa vida, implicando incessantes “viagens mentais”. Esta construção da nossa consciência, do espírito humano, não evoluiu na contemporaneidade, no ambiente que hoje nos faz, construído por interacções acontecidas entre humanos, mas reporta-se, sim, a contextos que o Ser Humano viveu como presa de outros animais predadores.

Tais ensinamentos de antanho, passados de geração para geração, são a base da consciência religiosa que hoje ainda nos domina. Na modernidade, estes “sonhos” da actividade espiritual favorecem uma inovação individual imprimindo alguma transformação na passagem de antigos conceitos para as novas gerações, o que se reflecte na criação constante de novas técnicas rituais, como é bem visível nas seitas ditas evangélicas que romperam com as missas tradicionais católicas, mas que têm, na sua essência, a mesma razão de ser que trazemos colada, como cromo de colecção, na caderneta que o nosso cérebro é.

Quem sabe muito sobre a consciência é o nosso cientista António Damásio, um dos mais reputados neurocientistas do mundo, radicado nos EUA há imenso tempo, onde dirige o Brain and Creativity Institute na Universidade da Califórnia do Sul. Nas suas obras “O Livro da Consciência” (2010) e “Sentir & Saber” (2020), ambas editadas pela Temas e Debates / Círculo de leitores, diz-nos o que é possível sabermos, hoje, sobre a consciência como produto do cérebro.

Começa por informar que o cérebro não é mais do que um aparelho físico-químico composto por objectos físicos, denominados neurónios, que se contam em número astronómico na ordem dos milhares de milhões. Várias são as características que o nosso cérebro nos oferece: a Inteligência, que nos dá a capacidade de resolver problemas colocados na luta pela vida; a Mente, como grande armazém de imagens; o Raciocínio, como ferramenta que nos permite recordar e resolver problemas; os Afectos, que provocam reacções emotivas e alteram o organismo numa dinâmica a que também chamamos “estado de espírito”; os Sentimentos, experiências mentais que acompanham vários estados do organismo, como a fome e a sede, mas também provocam emoções como o medo, a raiva e a alegria; e, por fim, a Consciência, que entra em nós guiada pelos sentimentos, já que todos eles são conscientes por definição.

“Sem consciência nada se pode saber […] [ela] foi indispensável para a ascensão das culturas humanas e mudou o rumo da História”.

(Conclui na próxima semana)

10 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (6)

A consciência é uma qualidade da mente e é por ela que cada um é como é, age e reage do modo como o faz, e é sempre limitada àquilo com que cada um a equipou. É uma construção do cérebro de todos nós, independentemente da etnia do seu portador. A matriz é a mesma para qualquer indivíduo sem importar a sua origem. Sendo constituída por conjuntos complexos de neurónios, a consciência acaba por ser forjada de acordo com a sociedade onde o indivíduo se faz, pois embora seja algo inerente a todos os seres humanos e funcione com a mesma química, a verdade é que a herança genética, a educação e o meio social acabam por moldar a consciência de cada um.

Durante tanto tempo reservada aos filósofos, a consciência é terreno fértil para sementeiras religiosas, e conhece hoje um notável progresso com o desenvolvimento das neurociências que, pouco a pouco, progridem na revelação dos segredos que ainda nos esconde o mais complexo órgão do nosso corpo, que é o cérebro.

O cérebro é um órgão biológico admirável e surpreendente, nele se origina a origem da produção e do desenvolvimento de todas as ideias, de raciocínios, de percepções, de sonhos e de sentimentos que fazem a vida de qualquer ser humano. Cada indivíduo tem a sua própria consciência que é aquilo a que chamamos “espírito”, ou modo de ser, de fazer e de sentir: a sua personalidade. Para os religiosos será a sua “alma”, o seu animismo… isto é, o que o movimenta, o anima (mas já relacionado com uma divindade).

A consciência educa-se, e cada sociedade tem na “consciência colectiva” aquilo que ela produziu através da educação nacional e da sua própria história. Na Coreia do Norte, por exemplo, as consciências foram educadas no culto da personalidade do seu chefe Kim Jong-un, e no Japão induziu-se a imagem do trabalho como símbolo da vida, levando muitos reformados a considerarem o suicídio quando deixam de produzir para, economicamente, não pesarem ao Estado.

Paralelamente, há, em cada comunidade, consciências diversas do colectivo porque sendo a consciência naturalmente universalista, ela pode ser independente das influências do meio em que o indivíduo cresce e se educa, causando dissidentes. Por isso é que há ateus em sociedades religiosas, religiosos em sociedades que quiseram impor o ateísmo colectivo, e que na Coreia de Kim Jong-un há quem o deteste e deseje vê-lo morto!

A consciência e a sensibilidade estão irmanadas, quer seja na Religião, na Política e na Cultura – incluindo nesta a Arte – exactamente por serem características universais inerentes ao facto de se ser Ser Humano, sem importar o local onde se nasce. A igualdade é universal.

Como acontece com a maioria dos estudos sérios e precisos sobre o corpo humano – para além das conclusões dos não menos importantes sábios da antiguidade, que usaram pela primeira vez as palavras “Psyché” (Grego) para Psíquico, e “Anima” (Latino) para Alma, também a palavra “Conscientia” (para Consciência) foi escrita, pela primeira vez, por Cícero [106 – 43 aC]. Mais tarde, já na nossa era, o escritor cristão Cassiodoro [490 – 580] inspirado por Platão, referiu o “Homem Interior” – também o estudo do cérebro se iniciou entre os séculos XVII e XIX. Talvez o primeiro cientista a trabalhar no terreno do Conhecimento tenha sido o alemão Korbinian Brodmann (1868 – 1918), mas também o espanhol Ramón Cajal (1852 – 1934).

A consciência é usada como se usa o corpo em sociedade, e é alvo de uma aprendizagem muito diversificada… daí haver “consciências desencontradas” na nossa formatação, indutoras de tantas sensibilidades, levando à criação de tantas religiões e de tantos partidos políticos. 

(Continua)

10 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (5)

Perante as duas hipóteses com que terminei o último artigo, penso que a verdade poderá estar mais próxima da segunda hipótese. A cultura religiosa do paciente fará a interpretação daquele acidente vivencial, construindo a primeira hipótese de acordo com a sua fé.

Eu nunca experimentei a EQM com tanta espectacularidade… mas a minha mulher sentiu-a quando fez uma infecção no pós-operatório de uma cirurgia aos intestinos causada por uma peritonite. Depois da calma, da paz, da luz intensa dentro de um túnel, e da observação da enfermaria do hospital a partir do tecto onde se sentia flutuar vendo-se deitada no leito com médicos e enfermeiras à sua volta, de repente tudo ficou negro e sentiu dor, obrigando-a ao grito e ao choro. O médico acabara de lhe perfurar, a sangue frio, a zona do abdómen onde se localizava a infecção que por pouco não a matou, expulsando todo o pus ali concentrado.

Da minha juventude recordo um episódio que pode constituir a experiência da primeira fase da EQM. O caso deu-se numa tarde de Verão, passada na praia fluvial do Areinho, em Oliveira do Douro (Vila Nova de Gaia), com travessia do rio Douro em barco a partir da marginal do Porto na zona do Freixo, num tempo que situo no início da década de 1960, altura em que ainda não tinha aprendido a nadar, e por isso não me aventurava a mergulhar nem a sair de local onde tivesse pé e a água não me ultrapassasse a linha da cintura.

Um colega que queria, por força, ver-me mergulhar, não aceitou a minha recusa e empurrou-me violentamente obrigando-me ao mergulho. A aflição de me sentir envolvido pela água sem saber esboçar gestos que me permitissem flutuar, levou-me a esbracejar energicamente sem conseguir levantar-me nem colocar a cabeça fora de água.

Naquele momento, que foi ínfimo, pois logo a seguir o mesmo colega agarrou-me um braço e colocou-me em pé, vi a minha curta vida projectada no cérebro a uma velocidade estonteante mas com imagens perfeitamente distintas, nas quais identifiquei os meus pais, irmãos, familiares, amigos e vizinhos (experiência idêntica às que contam os alpinistas que sobrevivem a uma queda).

Escusado será dizer que jamais voltei àquele lugar na companhia daquele colega, e obriguei-me a aprender a nadar, o que fiz no rio Leça, na zona da Ponte de Pedra (S. Mamede de Infesta) num tempo em que naquele bucólico lugar se alugavam barcos a remos para passeios fluviais com a namorada, e a indústria do azeite estabelecida na margem do rio, a montante, ainda não poluía (muito) aquelas águas.

É pela cultura religiosa que se interpreta o túnel de luz e a paz como caminho para o Paraíso onde se encontra a luz divina. Na realidade, quem conta o “seu regresso à vida” após a situação de quase morte, fá-lo de acordo com a sua cultura. Quem tem o cérebro clonado por uma religião, inevitavelmente irá dizer que teve um encontro com Deus após a viagem que fez até ao Paraíso por um túnel iluminado pela divindade, garantindo que lhe aconteceu o que, na realidade… não aconteceu.

O que terá acontecido foi a construção de uma “explicação” à medida da sua crença formatada na sua consciência religiosa… e talvez não seja mais do que isso… mas aqui temos que indagar: o que é a consciência?

Será tema para o próximo artigo.

(Continua)

10 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (4)

A crença na imortalidade universalizou-se transformando a morte numa espécie de “vida prolongada”, como disse Morin. O trauma da morte conduziu à aspiração da vida eterna… e até o alindar das campas (como é comum na nossa cultura) tão presente no lembrar dos nossos familiares mortos no dia 1 de Novembro, transformando os cemitérios em exposição de flores, obedece a esse acto piedoso de não esquecermos os nossos mortos.

Não há dúvida de que o registo da memória dos que partiram é a verdadeira eternidade em forma de recordação… mas, para além desta irrefutável verdade biológica e histórica, há imensos testemunhos recolhidos em várias partes do mundo, de gente que diz ter experimentado a proximidade da condição de morta, mas que, no último instante, se manteve viva, ou, se o podemos dizer, “regressou à vida”, não tendo, por isso, morrido concretamente.

É essa experiência que têm para contar, e todos os relatos são unânimes na descrição de uma mesma imagem: visão panorâmica de toda a sua vida; um forte sentimento de paz; a sensação estranha de saírem do seus próprios corpos sentindo-se a flutuar junto ao tecto do quarto ou da enfermaria do hospital, vendo-se deitados no leito onde repousam, e terem a sensação de atravessarem um túnel que se transforma em espaço de resplandecente luz.

Na “Experiência de Quase Morte” (EQM), ou morte iminente, há a referência a um estado vivencial no qual a pessoa experimenta um conjunto de sensações associadas à iminência da morte no decorrer de uma doença grave ou outra ocorrência da qual possa resultar perigo de vida. Em tais circunstâncias há uma espécie de “projecção da consciência” que o paciente refere como “experiência fora do corpo”, acompanhada de uma sensação de serenidade e a passagem por um “túnel de luz”.

A EQM é um termo que foi proposto pelo psicólogo francês Victor Egger, em 1896, em resultado das discussões mantidas entre cientistas, relativas às histórias contadas por escaladores que, durante as quedas a que sobreviviam, tinham uma visão panorâmica da vida durante o momento em que durava a queda. O interesse generalizado pelo tema só aconteceu em 1975, resultando da publicação do livro “Vida Depois da Vida” do psiquiatra e parapsicólogo norte americano Raymond Moody.

Os cientistas que estudam os casos de EQM ainda não chegaram a um consenso científico que explique o fenómeno de forma definitiva. Há quem considere a característica de “alucinação” surgida durante um estado de coma, ou perda de consciência profunda, sendo esta a tentativa de explicação mais plausível que até hoje foi encontrada, desconhecendo-se, no entanto, o modo como o nosso cérebro processa tais alucinações.

Em 1982, um estudo do Instituto Gallup (empresa que se dedica à pesquisa de opinião, nos EUA, fundada em 1930 pelo técnico de estatística George Gallup) referiu que cerca de oito milhões de norte-americanos já tinham passado pela EQM. Até 2005 foram registados casos idênticos em 95% das culturas do mundo, o que torna a experiência bastante frequente, independentemente do grau académico e cultural de cada protagonista. Perante tais depoimentos há quem avance duas hipóteses explicativas para o fenómeno: 1 – Prova da existência de um Paraíso para onde vamos após morrermos, no qual não há sofrimento nem trevas… apenas paz e luz. 2 – Última reacção neurológica construída pelo nosso cérebro, por deficiente função química resultante da menor irrigação sanguínea quando se aproxima o momento da falência de orgãos vitais. (Continua)