10 de Agosto, 2026 Onofre Varela
VIDA DEPOIS DA MORTE (6)
A consciência é uma qualidade da mente e é por ela que cada um é como é, age e reage do modo como o faz, e é sempre limitada àquilo com que cada um a equipou. É uma construção do cérebro de todos nós, independentemente da etnia do seu portador. A matriz é a mesma para qualquer indivíduo sem importar a sua origem. Sendo constituída por conjuntos complexos de neurónios, a consciência acaba por ser forjada de acordo com a sociedade onde o indivíduo se faz, pois embora seja algo inerente a todos os seres humanos e funcione com a mesma química, a verdade é que a herança genética, a educação e o meio social acabam por moldar a consciência de cada um.
Durante tanto tempo reservada aos filósofos, a consciência é terreno fértil para sementeiras religiosas, e conhece hoje um notável progresso com o desenvolvimento das neurociências que, pouco a pouco, progridem na revelação dos segredos que ainda nos esconde o mais complexo órgão do nosso corpo, que é o cérebro.
O cérebro é um órgão biológico admirável e surpreendente, nele se origina a origem da produção e do desenvolvimento de todas as ideias, de raciocínios, de percepções, de sonhos e de sentimentos que fazem a vida de qualquer ser humano. Cada indivíduo tem a sua própria consciência que é aquilo a que chamamos “espírito”, ou modo de ser, de fazer e de sentir: a sua personalidade. Para os religiosos será a sua “alma”, o seu animismo… isto é, o que o movimenta, o anima (mas já relacionado com uma divindade).
A consciência educa-se, e cada sociedade tem na “consciência colectiva” aquilo que ela produziu através da educação nacional e da sua própria história. Na Coreia do Norte, por exemplo, as consciências foram educadas no culto da personalidade do seu chefe Kim Jong-un, e no Japão induziu-se a imagem do trabalho como símbolo da vida, levando muitos reformados a considerarem o suicídio quando deixam de produzir para, economicamente, não pesarem ao Estado.
Paralelamente, há, em cada comunidade, consciências diversas do colectivo porque sendo a consciência naturalmente universalista, ela pode ser independente das influências do meio em que o indivíduo cresce e se educa, causando dissidentes. Por isso é que há ateus em sociedades religiosas, religiosos em sociedades que quiseram impor o ateísmo colectivo, e que na Coreia de Kim Jong-un há quem o deteste e deseje vê-lo morto!
A consciência e a sensibilidade estão irmanadas, quer seja na Religião, na Política e na Cultura – incluindo nesta a Arte – exactamente por serem características universais inerentes ao facto de se ser Ser Humano, sem importar o local onde se nasce. A igualdade é universal.
Como acontece com a maioria dos estudos sérios e precisos sobre o corpo humano – para além das conclusões dos não menos importantes sábios da antiguidade, que usaram pela primeira vez as palavras “Psyché” (Grego) para Psíquico, e “Anima” (Latino) para Alma, também a palavra “Conscientia” (para Consciência) foi escrita, pela primeira vez, por Cícero [106 – 43 aC]. Mais tarde, já na nossa era, o escritor cristão Cassiodoro [490 – 580] inspirado por Platão, referiu o “Homem Interior” – também o estudo do cérebro se iniciou entre os séculos XVII e XIX. Talvez o primeiro cientista a trabalhar no terreno do Conhecimento tenha sido o alemão Korbinian Brodmann (1868 – 1918), mas também o espanhol Ramón Cajal (1852 – 1934).
A consciência é usada como se usa o corpo em sociedade, e é alvo de uma aprendizagem muito diversificada… daí haver “consciências desencontradas” na nossa formatação, indutoras de tantas sensibilidades, levando à criação de tantas religiões e de tantos partidos políticos.
(Continua)