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Mês: Julho 2026

21 de Julho, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (3)

Como disse no último artigo, só a História é o único modo de manter a memória daquele que morreu e deixou obra para ser recordado. Só assim se consegue a “eternidade” como cantou o nosso poeta maior Luís de Camões: “Por obras valerosas da lei da morte se vão libertando”.

Porém, na nossa sociedade cristã, quando se aborda o tema “Vida Depois da Morte”, é inevitável falar em Jesus Cristo (JC) e na mitologia da sua ressurreição. A maioria das religiões (não só a Cristã) tem como denominador comum a preocupação com a morte e a mensagem da vitória da vida sobre ela. O Cristianismo refinou esta regra, porque Jesus Cristo só existe… porque morreu!…

A sua crucificação foi a porta que se abriu à vida, fechando-a à morte, através da ideia da ressurreição como “a vitória final da vida”, onde a morte já não tem lugar!

O engraçado é que esta ingenuidade cristã da ressurreição acaba por se transformar numa pedra no sapato da crença, que é difícil de retirar… porque se JC ressuscitou, tem de estar algures. Tem de andar por aí!… Quem vence a morte, não morre outra vez (penso eu)!… E o que, ou quem, não morre, tem de se conservar vivo. E o que, ou quem, é, ou está, vivo, tem de conservar a sua forma material, consumir alimentos para manter a energia, mostrar-se e produzir ou provocar algo!

Onde está Jesus Cristo? Em que circunstâncias? Como sobrevive?!… São perguntas sem resposta que deveriam embaraçar a crença… só não embaraçam porque os crentes não se interrogam… só crêem!… E estarão convictos de que existe um céu para albergar almas caridosas, mas também o corpo material de JC!

O factor mais importante do Cristianismo, na vertente que mais afirma a sua característica de religião é, sem dúvida, o conceito da ressurreição. O vencer da morte. A ressurreição dá-lhe a dimensão mais deifica e religiosa… que é aquele factor que inebria a maioria dos crentes, relegando para segundo plano a ideia humanista contida nos “ensinamentos de Jesus”. Mas aqui estamos na presença de algo que não pertence exclusivamente ao Cristianismo. A libertação da morte é uma ideia que o homem persegue desde quando teve consciência de que o seu fim seria morrer, abandonando a vida, o que, convenhamos, não configura um fim simpático!…

Essa consciência alimentou a religiosidade que leva ao acto misericordioso do enterramento. Por isso os nossos antepassados mais remotos já enterravam os mortos, e os poderosos levavam consigo os mais ricos pertences para usufruírem deles para além da morte que não aceitavam como fim da vida, e acreditavam ir viver numa outra dimensão onde continuariam com a mesma importância.

A imortalidade é desejada desde a mais remota antiguidade e encontramo-la na mitologia egípcia. O Cristianismo não fez mais do que copiar, adaptar e reeditar conhecidos rituais, como é exemplo a narrativa mitológica de Átis, deus frígio da Natureza e da Primavera, amante de Cibele, cujo mito refere a sua morte e ressurreição. A própria missa pascal do rito cristão é cópia de antigos rituais nocturnos comemorativos da morte e ressurreição de Átis, com ligação a celebrações animistas na passagem do equinócio da Primavera.

A morte sempre foi uma das grandes preocupações do Ser Humano. Segundo o filósofo e sociólogo Edgar Morin (falecido recentemente com a bonita idade de 105 anos), o Homem de Neandertal não só enterrava os mortos; também os reunia como se prova na “gruta das crianças” perto de Menton.

O sepultamento dos mortos é um elemento cultural que demonstra a preocupação de prolongar aquele que morre, para além da vida que efectivamente perdeu. Prolongamento que os egípcios transformaram na conservação dos cadáveres pela mumificação.

Quando não abandonamos, ou não esquecemos, os nossos mortos, eles “sobrevivem”.

(Continua)

21 de Julho, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (2)

O Ser Humano é, irremediavelmente, um animal. Não passamos de “orangotangos” com a faculdade de pensar, sonhar e executar. Não há animal algum (orangotango ou felino) que possa ser visto com vida depois de ter morrido, e o meu gato jamais viu o fantasma do seu bisavô persa. Mas nós (“orangotangos” Sapiens) afirmamos ter visto Jesus Cristo vivo depois de ele ter sido morto, e que também topamos com a sua mãe Maria, Vivinha da Silva, nas circunstâncias mais improváveis, incluindo aquela (de 1917) em que se encarrapitou no cocuruto de uma azinheira uma vez por mês durante meio ano, falando Português… Língua que só foi criada mais de 800 anos depois de ela morrer !…

Só nós, os Homo sapiens, somos capazes de tal façanha… e por uma razão muito simples: porque raciocinamos e sonhamos, e muito do que criamos fazêmo-lo à medida da nossa fé… que é sempre a medida das nossas necessidades e, principalmente, no rigoroso tamanho da nossa ignorância. Mas isto acontece porque possuímos um cérebro capaz de nos tornar interrogativos, criativos e inventivos… numa palavra: inteligentes… e noutra: religiosos.

O dicionário diz-nos que a inteligência é o “conjunto de todas as funções que têm por objecto o conhecimento, a faculdade de entender”. Ora… é aqui que começam os problemas… mas também as soluções. Quando não conhecemos a coisa que desejamos conhecer, a nossa faculdade de procurar entender o que nos acontece, que observamos e sentimos, leva-nos à procura de uma explicação; e esta, por tão desejada, corre o risco de, antes de ser encontrada, começar por ser inventada no formato de “mentira inconsciente”… aumentando o risco de se fixar como verdadeira. 

Quanto maior for o espaço de tempo em que a apresentamos como real, maior é esse risco. A razão de “isto ser assim” reside no facto de termos nós, Seres Humanos, ultrapassado o estatuto de orangotango (o que não aconteceu ao meu gato… que nem aí chegou). A “mentira em formato de explicação na fé” acaba por se fixar nas nossas mentes, tornando mais difícil a sua substituição por uma explicação verdadeira, real e autêntica, até porque a função da religiosidade é exactamente a de rejeitar a verdade histórica e natural, colocando no seu lugar uma hipótese sugerida pela fé que depositamos no impossível. 

É isto o que ocorre no nosso entendimento quando defendemos a ideia de haver vida para além da morte?

Vejamos… a frase “vida depois da morte” é uma incongruência, porque a morte anula a vida e nada mais há para aquele que morreu… ele tem a vida anulada. É como apagar uma vela de estearina… a chama apaga-se definitivamente; não se translada para outra vela. Morreu!… Deixou de ser… já não é! O que “há para além da morte”, já não tem a ver com o finado (que, como morto, deixou de existir, de sentir, de actuar… de ser!…), mas tem a ver com a vontade dos que cá ficam, familiares e amigos, perpetuando no tempo a memória do falecido. 

Este perpetuar da memória é a única forma que há de eternidade: a memorial, a histórica. A memória dos meus pais será tão longa quanto mais longa for a vida daqueles que os recordam. Na minha morte e na da minha mulher, fica a minha filha que os recordará. Os meus netos, embora não tivessem conhecido os bisavós, sabem das suas existências e histórias que ouviram contar sobre eles, pelo que os meus pais continuarão vivos nas suas memórias. Quando morrer a última pessoa que os recorda, acontecerá a segunda e derradeira morte dos meus pais. 

É assim com toda a “eternidade”, exceptuando a histórica… mas mesmo essa só é perene se for registada e duradoura. Sem um registo que perdure no tempo, mais a existência de quem a lembre… nem a eternidade é eterna!… 

(Continua)

21 de Julho, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (1)

No passado dia 17 de Junho teve lugar, no Auditório Municipal de Gondomar, uma palestra subordinada ao tema “Ciência e Espiritualidade – A Vida Depois da Morte”, com a presença de Luís Portela, médico, empresário e Presidente da Fundação Bial, apresentado pelo meu amigo Mário Augusto, companheiro de lides televisivas e jornalísticas desde há 40 anos.

Luís Portela foi colaborador do Jornal de Notícias nas décadas de 1980/90, onde publicava artigos de opinião e eu ilustrei alguns deles. Sabia, desde então, do seu interesse no tema. É uma personalidade reconhecida pelo seu notável percurso profissional e pela abordagem rigorosa e científica que faz às questões da consciência, da espiritualidade e da relação entre Ciência e experiência humana.

Portanto, pela sua formação científica, Luís Portela não pode ser considerado “defensor do indefensável”, como à primeira vista pode parecer a frase “vida depois da morte”.

Eu fui assistir. Portela deu o exemplo de uma criança recordar “situações vividas noutra vida passada”… presumo que na Inglaterra ou Alemanha… não registei convenientemente a informação, o que levou um grupo de estudiosos a deslocar-se à cidade onde teria vivido (há imensos anos) a personagem que a criança dizia ser. Encontraram familiares da tal personagem que atestaram os factos que a criança disse ter vivido numa vida passada.

Isto remeteu-me a memória para uma série de artigos publicados no jornal O Primeiro de Janeiro na década de 1960, onde se registavam experiências idênticas sob o título genérico “Mais Estranho do Que a Ficção”. De um desses relatos (transformado em clássico, já divulgado com versões aproximadas) recordo a história: um automobilista (presumo que em Inglaterra), numa madrugada fria e chuvosa, encontrou na estrada uma mulher jovem, vestida de branco, que lhe fez paragem e pediu boleia para uma determinada morada. A meio da manhã o homem reparou que a jovem deixou uma pequena carteira no banco do carro. Voltou à morada para a devolver, bateu à porta, foi atendido por um casal idoso que garantiu não haver nenhuma jovem lá em casa, e muito menos que tenha chegado de madrugada!

No decorrer da conversa que o automobilista fez questão de salientar que não sonhou nem tinha bebido… o casal idoso foi buscar uma fotografia de uma jovem, que o homem reconheceu como sendo a mulher a quem deu boleia… era filha daquele casal… mas já havia falecido há três décadas!

Perante relatos destes, eu tenho duas reacções. De acordo com a personalidade do relator, eu acredito ou não acredito. Devo confessar que tenho “um caso enigmático em minha casa”: a minha filha tem experiências idênticas vividas por si… e eu acredito nela porque a eduquei e sei que não mente nem inventa as situações que diz ter vivido. Do mesmo modo reconheço ao doutor Luís Portela seriedade científica para aceitar a honestidade dos seus discursos, tal como aceito os da minha filha… mas não encontro racionalidade neles!… É um túnel sem luz ao fundo… o que não ajuda a dissipar o enigma de modo que me leve a compreender a narrativa com naturalidade e sem dúvidas, percebendo-a.

Vou dedicar dois ou três artigos a este caso para poder transmitir aos meus leitores a minha opinião sobre o assunto “Vida depois da Morte”. 

 (Continua)