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Etiqueta: Opinião

28 de Janeiro, 2026 Eva Monteiro

Quinta (!) Carta a Um Crente

A primeira carta está aqui, a segunda carta está aqui, a terceira carta está aqui e a quarta carta está aqui. Sem esse contexto será muito complicado entender o texto que se segue. Convém deixar claro que a dada altura desta conversa informei o meu interlocutor que estava a publicar esta troca neste blog.

Confesso que nesta altura da discussão, já estamos a chover no molhado. Não digo que a minha resposta diga algo de novo. É uma questão de ser obstinada em debater até que todas as perguntas sejam respondidas, mesmo quando já está visto que o interlocutor não é intelectualmente honesto o suficiente para se chegar a bom porto. Sabendo que a conversa é circular, também achei que não a partilhar seria injusto. Faria parecer que o crente desistiu, quando não o fez. Por isso, para quem queira ler, aqui vai:

Boa tarde.

É giro. ☺️

Mas se funciona para ti, tudo bem. 👌

Eu é que invadi o teu espaço e por isso peço desculpa.

Eu tenho as minhas convicções, que já não não fazem parte da fase da fé mas sim do saber.

Eu não acredito em Deus, eu sei que Ele existe.

A partir daí, tudo o resto ganha outra dimensão.

E independentemente das minhas convicções, nunca quis impor a ninguém, seja o que for.
Mas não posso nunca deixar de divulgar e acima de tudo tentar ser a melhor versão que posso ser, enquanto espírito encarnado.

Não me leves a mal, mas toda a tua explicação é única e exclusivamente baseada nos 5 sentidos, pois falas em vários avanços científicos, mas sempre com o apoio dos 5 sentidos. E está tudo certo 👌
Eu apenas acredito em mais, muito mais.

Falas em dinheiro 💰 😁

A base do espiritismo é dar aos outros de graça aquilo que nos foi dado de graça. Portanto, há uma tremenda mistura de que não posso concordar, pois estás a inserir o espiritismo no mesmo saco que o ocultismo. Nada tem a ver com oculto.

As bases do Espiritismo aceitam, na região, filosofia e ciência. Estavtrindade não pode ser separada, pois há uma correlação entre elas.

Percebo o que dizes, pois visto do teu ponto de vista, alguém dizer não há certo nem errada, há apenas diferentes visões para uma mesma coisa, seja complicado.
Mas do “meu” ponto de vista, faz sentido. ☺️

Pois tu acreditas, que a sociedade só obedece a leis sociais, ou seja – casos extremos, nós só não matamos alguém porque fomos educados a não o fazer e também temos leis que o proíbem. Mas imagina, se não houvesse alguém que a um determinado momento tivesse assassinado alguém, tu pura e simplesmente nem sequer sabias que matar era errado. Apenas o sabes porque alguém o fez. Neste sentido, alguém cometeu algo atroz mas serviu de ensinamento.
E isto é válido para tudo na vida. Tudo tem dois opostos, a não ser a inteligência suprema (Deus).

E para o teu problema de, então se Deus é bondoso e nos ama a todos por igual, porque permite toda esta atividade no planeta Terra? 😁

Muito simples, a ideia é evoluir, só vamos evoluir, experimentando, errando, mas todos lá chegaremos.
É uma maratona, não uma corrida de velocidade.

A Terra tem à volta de 4 mil milhões de anos. O ser humano homo sapiens tem 300 mil anos.
Olha o que nós evoluímos desde aí? ☺️

Já saimos do mundo primitivo, estamos agora num mundo de provas e expiações.
Iremos passar para um mundo de regeneração a seu tempo. 👌
E isso estamos a falar do planeta Terra.

Enfim… Muito há a falar e a discutir e é sempre bom questionarmos tudo. Até porque se assim não for, como iríamos evoluir?

Percebo se não me quiseres aturar, até porque à primeira vista, sou apenas mais um que vive uma fantasia. 😂

Sem stress, vivo bem com isso. 👌

Beijinhos, é sempre um prazer. 🙏

E mais uma vez, como um cão atrás da cauda, voltei a repetir argumentos e a reiterar a oferta de submeter o Espiritismo ao escrutínio da ciência:

Boa tarde!

Gosto imenso do novo tom. O “é giro”, é tão conciliador que quase soa a paternalismo. Quase. Mas convém não confundir simpatia com competência no debate de ideias. Agora já só te estás a repetir em argumentos que já desmontei. O padrão que noto nesta conversa é mesmo este. Eu desmonto argumentos, tu repetes a mesma coisa por palavras diferentes, vestidas de epifania. Já reparaste que ao longo desta conversa foste deixando cair temas que não te davam jeito, enquanto eu faço questão de ir ponto por ponto a todas as tuas afirmações? Estranho, não é? Há até questões que deixaste por responder. Mas não faz mal, eu não me importo de as ir repetindo. Pode ser que te surja outra epifania, tenho essa esperança. Afinal, o que acontece uma vez, pode acontecer mais vezes, não é?

Podemos começar pelo ponto em que insistes em repetir uma frase feita que cheira ao mofo das igrejas: “eu não acredito, eu sei que Deus existe”. Continuas a usar o verbo “saber” num sentido que não corresponde ao que ele significa. Eu acho que já te expliquei isto, mas sou uma rapariga muito paciente. O facto de estares muito convicto, emocionalmente seguro ou existencialmente confortável não transforma uma crença metafísica em conhecimento. Chamar “saber” a uma convicção íntima e pessoal não a torna menos crença, pelo contrário. Torna o teu discurso mais vazio, mais emocional, e se calhar até mais apelativo às pessoas menos racionais, Enfim, é uma espécie de chantagem emocional. Se eu disser que não sabes porque não tens como saber, sou a vilã, que é precisamente a função retórica dessa formulação. Depois de várias trocas de mensagens acho que deixei claro que não me sinto na obrigação de albergar sentimentalismos alheios ou de concordar só para agradar. Não se coaduna nem com a verdade nem com a minha personalidade.

Qualquer sistema fechado de crenças ganha coerência interna a partir do momento em que aceitas o seu postulado central como sendo indiscutível. Neste caso a existência de um deus supremo e de um mundo de fantasmas que andam aí a flutuar com o objetivo de vir “cá abaixo” tomar um cafezinho com os vivos mas cuja sabedoria não se estende a oferecer soluções para os problemas da Humanidade. O Casper tinha mais utilidade. É uma estrutura circular de pensamento, em que um deus justifica a existência de alminhas penadas e as alminhas penadas são elas mesmas a prova de que esse deus existe. Não é sequer mais sofisticado do que o argumento mais comum dos meus debates semanais: “deus existe porque a Bíblia diz que existe, e a Bíblia é verdade porque deus existe”. Aplique-se o mesmo ao Corão, que é usado exatamente da mesma forma. O problema é o facto de não acrescentares qualquer poder explicativo verificável sobre a realidade.

Quanto à insistência nos “5 sentidos”, lá estás tu a repetir uma caricatura que já foi desmontada na minha mensagem anterior. Repara que contra-argumentar é apresentar razões fortes (no mínimo) para contrariarmos o que foi dito anteriormente. Mas se tu achas que faz sentido ficar só a papaguear o que já foi dito, então legitimas a minha própria repetição: não baseio nada exclusivamente nos meus cinco sentidos. Baseio-me, ou antes, confio em cientistas que se baseiam em métodos que corrigem, amplificam e vão além dos sentidos: instrumentos, medições, modelos matemáticos, testes cegos, replicação independente, entre os vários métodos que produziram as conclusões científicas que te permitem, por exemplo, tomar vacinas, ou estar agora mesmo a segurar num telemóvel. A ciência existe precisamente porque os sentidos são falíveis. O que tu chamas “acreditar em mais” não é nem ir além dos sentidos, nem é nada de transcendente. É só uma recusa em aceitar qualquer mecanismo de controlo do erro. Como opinião pessoal, que vale o que vale, é só uma forma de te sentires superior a outras pessoas porque sabes algo que não está ao alcance delas, coitadinhas. Eu reservo a inveja para gente que entende coisas como astronomia, física e matemática. Esses sim, são admiráveis. Mudam o mundo todos os dias. Se tens mais de 30 anos, deves isso a gerações e gerações de gente que ampliou o conhecimento científico, não a fantasmas e almas penadas. Muito menos a Allan Kardec.

Sobre o dinheiro: não falei de ti, nem de centros espíritas específicos. Falei do fenómeno geral da espiritualidade enquanto mercado, e ele existe, quer gostes quer não. Saberás melhor que eu porque é que enfiaste esse barrete. O facto de uma doutrina se autodescrever como gratuita e caridosa não a coloca automaticamente fora de escrutínio, e muito menos a livra de crítica. A maioria das religiões também dizem viver do amor, da partilha e da fraternidade. Isso nunca as impediu de acumular poder, influência e capital. E, já agora, o Espiritismo pode não ser “oculto”, mas é igualmente infundado. Não são sinónimos, mas também não são opostos. Carecem ambos de prova, são ambos baseados em experiências pessoais, ambos fazem afirmações fantásticas sobre a realidade. Naquilo que interessa, ocultismo, espiritismo, espiritualidade, religião, superstição, bruxaria, entre outras, são exatamente iguais.

A tal “trindade” ciência–filosofia–espiritismo é outro exemplo de colagem arbitrária. Acho sinceramente que podemos afirmar que a ciência e filosofia dialogam porque partilham critérios racionais e disposição para revisão. Acima de tudo, a filosofia não tende a apresentar verdades absolutas com base na revelação. O Espiritismo não partilha dessa vontade de falsificar as próprias hipóteses. Apropria-se da linguagem da ciência, cita-a quando convém, ignora-a quando contraria os seus postulados, tal como a religião e o ocultismo e qualquer outra forma de pensamento mágico. É parasitismo e espero que entendas que na prática não há diferença nenhuma entre um espírita e a vidente, médium, taróloga do TikTok (sim, os títulos são engraçados e vêm sempre aos trios, no mínimo). Se achas que há, convido-te a submeteres a tua prática religiosa ao escrutínio da ciência.

Quero só fazer mais uma observação quanto à ideia de que o mal é necessário para aprendermos que o mal é mau. Não precisamos de assassinos para sabermos que matar é errado. As crianças mostram, desde muito pequenas, empatia, aversão ao sofrimento alheio e sentido de justiça antes de qualquer enquadramento religioso. A moral nasce da capacidade de reconhecer o sofrimento humano. Isto é inato porque é biológico e evolucionário. É muito simples entender que uma espécie animal como a nossa necessita de controlar a sua violência e preservar o outro, como forma de garantir a continuidade da espécie. Somos primatas que evoluíram em sociedades que têm como principal pilar a cooperação. O teu raciocínio não só falha como justifica retroativamente atrocidades como etapas pedagógicas divinamente impostas. Não posso aceitar este argumento, que é o clássico de teodiceia, e continua tão fraco hoje como sempre foi.

Dizes que tudo tem dois opostos, exceto o teu deus. Olha que “giro”! Um sistema que começa por afirmar uma dualidade universal e imediatamente cria uma exceção absoluta para salvar a própria tese não explica nada. Tudo tem um criador exceto o teu deus. Afinal, se a regra universal tem uma exceção, quem te diz que não tem duas, ou três, ou mil? Quem te diz que não é o universo essa exceção?

Quanto à história da evolução moral da Terra, dos mundos de provas e expiações aos mundos de regeneração, desta forma religiosa, é apenas uma forma de apresentar uma cronologia religiosa. A questão não é se evoluímos, é se a nossa existência é fruto de um deus omnipotente, omnibenevolente, omnisciente e omnipresente. Esse deus é tão bom e tão poderoso que esta é a melhor ideia que consegue ter? Eu que sou humana e limitada consigo ter ideias melhores. Aposto que tu também. Esse é um deus pouco poderoso, pouco criativo ou pouco competente. Em todo o caso, é acima de tudo, pouco. Uma explicação estilo “é a vontade de deus nosso senhor” não explica nada, não prevê nada, nem resolve nada. É uma narrativa confortável apenas porque promete uma redenção após “esta vida”. Justifica emocionalmente o sofrimento, mas só se tiveres os olhos fechados, os ouvidos tapados e a boca cosida. Funciona bem como consolo. Agora, como descrição da realidade, é risível.

Dizes que percebes se eu te achar mais um a viver uma fantasia. Não é uma questão de “achar”. Fantasia é o nome que se dá a um sistema explicativo que não tem correspondência demonstrável com os factos e que resiste à refutação porque redefine constantemente os seus critérios. O pensamento mágico é o Ventura da racionalidade humana.

Quanto a não impor nada a ninguém: divulgar convicções como se fossem conhecimento é uma forma suave (suave, no teu caso, suponho) de imposição. Tudo bem que não é coerciva, mas é real. Acima de tudo faz uso de uma chantagem emocional descarada. “Isto é a minha crença, eu estou a dizer-te que é verdade e se me contrariares és rude e estás a chamar-me de louco ou mentiroso. Como te atreves, sua herege??? Respeita a minha crença!!!” É feio, é paternalista, é o que faz persistir o incómodo em criticar ideias religiosas. As ideias competem no espaço público, quer queiramos quer não, e algumas fazem mais estragos do que parece. Sobretudo quando se apresentam como moralmente superiores e imunes à crítica. Lembra-te que o Espiritismo desde 1857 e nada vos impede de submeter as vossas conclusões ao escrutínio da ciência. Quando quiseres, eu própria faço os contactos necessários para submeter uma das vossas sessões à verificação de cientistas e céticos. Acho que já tinha feito esta oferta. És muito simpático e tal, mas esta parte não dá jeito, não é?

Por isso não, não te levo a mal, nem me cansas. Mas convém chamar as coisas pelo nome. Não estamos perante duas “formas igualmente válidas de viver o mundo”. Estamos perante um conflito claro entre pensamento crítico e crença metafísica escondida atrás de uma certeza subjetiva, emocional e logicamente inválida.

Por muito simpático que seja o tom, a falta de pensamento crítico não se resolve com emojis e beijinhos. Eu estou mais que disponível a entender melhor o teu ponto de vista quando te cansares de repetires sempre a mesma narrativa religiosa, supersticiosa e fantasiosa e quiseres entrar no ramo dos factos. Que conclusão consegues apresentar, dentro do Espiritismo que seja testável e repetível? Lembra-te que tem de ser falsificável, ter poder preditivo, ser internamente consistente, compatível com o conhecimento científico já existente, parcimoniosa, independente da crença do observador e passível de correção quando se revelar errada. Se os cientistas fazem isto diariamente, tenho a certeza de que as pessoas iluminadas, superiores e dotadas de poderes mediúnicos também o conseguem fazer e, quiçá, superar.

Fico a aguardar com expectativa a oportunidade de contactar cientistas e céticos para colocar o Espiritismo à prova. A menos que lá no fundo saibas que é uma fantasia mágica da qual não queres abrir mão e que tens medo de ver desconstruída de uma vez por todas. E está tudo bem, cada um anda com as bengalas que quer, ou das quais depende.

Espero, de resto, que a tempestade não te tenha afetado, nem aos teus entes queridos. Será que os fantasmas sentiram a ventania da noite passada?

Alcina Lameiras
27 de Janeiro, 2026 Eva Monteiro

Quarta Carta a Um Crente

A primeira carta está aqui, a segunda carta está aqui e a terceira carta está aqui. Sem esse contexto será muito complicado entender o texto que se segue.

Já tinha perdido esperança de receber uma resposta. Notei que a resposta anterior tinha sido gerada pelo ChatGPT ou outra IA qualquer, pelo que percebi que o meu interlocutor estava cansado do debate e com preguiça mental. Respondi com a terceira mensagem porque não conseguia deixar de o fazer, mas achei sinceramente que não ia receber resposta. Esta última pareceu-me, pelo menos, mais intelectualmente honesta:

Bom dia. Ando há meses para tentar arranjar algo que faça sentido para te responder.

E tive uma epifania agora mesmo.

Nós andamos a responder um ao outro com base naquilo que acreditamos, naquilo que estudamos, naquilo que nos faz sentido enquanto seres humanos pensantes.

Todavia nós esbarramos em algo muito peculiar e até caricato.

Ti respondes com base única e exclusivamente com I que achas que é a verdade, ou seja o que os teus 5 sentidos conseguem detectar. E aí é que está o cerne da questão, e ao qual este diálogo será sempre de sentido único tanto para mim, como para ti.

Já eu, acredito em muito mais do que aquilo que os meus 5 sentidos podem captar. Não há aqui certos nem errados, há apenas uma diferença de viver a vida e o mundo.

E se tu és uma pessoa com dois dedos de testa, ou seja, não praticas o mal, não desejas mal a ninguém, és fraterna, solidária, caridosa, tu até podes ser hippie, gótica, budista, hinduísta, etc.

É-me completamente diferente. ☺️

Se há coisa que aprendi com a minha experiência de vida é que isto não é uma corrida de velocidade e sim uma maratona tão longa quanto o infinito.

Portanto, não faz sentido usarmos literatura, frases feitas, pois nós os dois conseguimos defender a nossa crença, e não crença (de algo mais que a matéria) com alguma facilidade tendo em conta o nosso estudo contínuo.

Não quer dizer que não ache peculiar e deveras interessante as nossas discussões, saudáveis.

Mas realmente é um ponto engraçado.

Pois tu achas que tudo é fruto do acaso e não de uma inteligência superior.

Ben um acaso é mesmo inteligente, para conseguir criar um universo tao denso e tão perfeito. 😁

Não me interpretes mal mas é suigeneres e deveras engraçado, a forma como vês o mundo.

Tu podes dizer exatamente isso mesmo de mim, 👌.

No entanto o busílis da questão é, se é for boa pessoa qual é o problema deveu acreditar no Pai Natal e no Coelhinho da Páscoa? 😂

Um ótimo fim de semana para ti.

Desculpa, deixei de ser tão formal e espero que não me leves a mal.

Beijinhos.

Foto de Greg Rakozy na Unsplash.

Não pude deixar de responder porque, como já sabem, não resisto a contra-argumentar falácias:

Não imaginava que esta conversa pudesse gerar uma epifania, mas fico contente. Claro que a minha alegria não é tanta que não discorde dessa dicotomia entre os que se limitam aos 5 sentidos e os que vão supostamente além disso. Antes de mais, porque não me cinjo aos meus 5 sentidos. Confio em cientistas que dispõem de muito mais do que os 5 sentidos para investigar a realidade (e a base da minha confiança é a verificabilidade e repetibilidade das descobertas científicas). A ciência moderna baseia-se em observações e experiências que testam o mundo real com instrumentos que desenvolveu para esse fim (e que sabemos que funcionam porque produzem resultados). O que não faz e que eu própria recuso fazer é basear o conhecimento da realidade em raciocínios a priori, intuições ou (ainda pior) revelações. Gostava de te relembrar que muitos dos avanços científicos (como a existência de bactérias, ondas de rádio ou buracos negros) são invisíveis aos 5 sentidos, mas foram confirmados com recurso a instrumentos como telescópios e microscópios. Portanto, tratar a visão sobrenaturalista e o método científico como se estivessem no mesmo plano é cair num viés que eu recuso com repulsa. Não são a mesma coisa. A ciência, com os seus instrumentos, permite que tenhas coisas como a internet e o GPS, raios-x, hemodiálise, entre tantos outros. O paracetamol, porra! A espiritualidade permite, como único resultado palpável, verificável e repetível que meia dúzia de pessoas saquem algum ou muito dinheiro a outras. Não é o mesmo nível de resultados, utilidade ou factualidade.

Também não posso aceitar a ideia de que “não há certo nem errado, apenas pontos de vista diferentes igualmente válidos”. Essa postura relativista absoluta destrói logo qualquer possibilidade de critério objetivo. Se todos os pontos de vista fossem colocados no mesmo plano, um especialista numa determinada área teria exatamente o mesmo peso que alguém a opinar sem qualquer base. Eu sei que é isso mesmo que acontece nas redes sociais, e por vezes até nos órgãos de comunicação social. Não devia acontecer. Que entende uma zé ninguém como eu de ciência para opinar sobre a administração de tratamentos médicos? Se calhar tenho opiniões ou experiências pessoais, mas não sou especialista. Acima de tudo, não sou suficientemente arrogante para achar que vou eu descobrir a pólvora quando há médicos que estudam a vida inteira para salvar vidas. Para quem acha isso, a solução é uma: estudar medicina e revolucionar o ramo científico a que se decida dedicar. O cientista não pode ser colocado no mesmo patamar que o tasqueiro que tem a solução para tudo e mais alguma coisa. Posicionar o conceito de verdade como inteiramente relativo impede que tenhamos parâmetros para distinguir facto de fantasia. Há pela internet gente que mete gotas de urina nos olhos para tratar a miopia. Consegues, em consciência, dizer que cada um tem a sua verdade quando há gente a provocar infeções oculares por pura ignorância e uma dose pouco saudável de estupidez? Reconhecer diferentes perspetivas é legítimo, também acho que cada um tem uma cabeça para pensar. Agora, afirmar que todas as perspetivas são igualmente válidas já não é coisa com que eu possa concordar. Caso contrário coloco um biólogo contra um padre e aceito que o padre tem uma posição válida por exemplo, quanto a questões do corpo feminino que supostamente nunca observou, estudou ou sequer tocou.

Quanto ao argumento de que o universo é “perfeito demais para ter surgido ao acaso”, desculpa que te diga, mas estás a assentar numa falácia que já foi desmantelada ad nauseam. A noção de “ajuste fino” (que é uma falsidade religiosa) não implica sequer design consciente, muito menos inteligente. Usar a improbabilidade como prova de intenção está errado. É que assim, confundes dizer “não sei como isto aconteceu” com “logo, alguém teve de criar o universo”. Isso é uma falácia do apelo à ignorância. A história da ciência está cheia de exemplos de fenómenos que noutros tempos foram atribuídos a inteligências superiores que hoje compreendemos perfeitamente por mecanismos naturais. A ignorância momentânea nunca foi boa base para postular entidades sobrenaturais e chama-se a isso o “Deus das Falhas”. Ou seja, à medida que a ciência avança, deus recua. Digo deus, poderia dizer deuses, é apenas o sobrenatural que dá lugar ao natural à medida que as explicações são dadas. Nunca um deus foi necessário à ciência ou à humanidade para avançar o conhecimento. O oposto já é verdade. Tens, aparentemente, um problema com o acaso, ou antes com a existência não intencional de alguma coisa. No entanto, vives todos os dias rodeado de acasos que não te confundem. Pior ainda, achas que há um grupo de pessoas que conseguem falar com os “espíritos” de quem já morreu e que desde 1857 a ciência não consegue estudar fenómenos supostamente testáveis e repetíveis. E eu é que tenho crenças sem sentido?

Passando, por fim, à tua comparação com o Pai Natal e o Coelhinho da Páscoa, a diferença é que essas figuras são assumidamente ficcionais, não têm como objetivo explicar a realidade nem orientar decisões sobre o dia a dia das pessoas. As crenças espirituais e religiosas é que fazem afirmações sobre a natureza da realidade, da consciência, da moral e da suposta vida após a morte, e influenciam comportamentos individuais e coletivos, aliás, sociedades inteiras. Dizer “qual é o problema de acreditar, se a pessoa for boa?” é ignorar que uma crença, por ser infundada, não é necessariamente inofensiva. A bondade de uma pessoa não valida a veracidade daquilo em que acredita, nem transforma uma crença falsa em verdade. O critério não é a intenção moral, é a correspondência com os factos. Por outro lado, como dizia Weinberg, as pessoas boas hão-de fazer coisas boas e as pessoas más, coisas más. Mas para pôr pessoas boas a fazer coisas más, é preciso religião. São crenças no sobrenatural que iludem, por exemplo, pessoas boas a acharem-se parte de um grupo especial. Por exemplo, acreditarem que têm poderes sobrenaturais, que conseguem ajudar outras pessoas que precisam de cuidados médicas e, no processo matá-las. Não houve neste exemplo uma transgressão moral, a pessoa acha que tem poderes e que há um médico que encarna no seu corpo para curar. Entretanto um cancro fica sem tratamento. Essa pessoa é má? Não. Talvez seja pouco inteligente, mas normalmente só foi endoutrinada e é (quase) tão vítima quanto a sua própria vítima. Normalmente quando digo isto a resposta é: “Ah, mas na minha doutrina/religião/grupo/etc. não fazemos isso! Quando vemos que a pessoa tem um problema de saúde encaminhamos para o médico!”. Pois… porque o que quer que vocês estejam a fazer é um placebo na melhor das hipóteses e desastroso na pior.

Uma questão muito diferente seria se eu julgo uma pessoa como imoral porque tem crenças religiosas, se a quero perseguir ou se quero proibir a crença que tanto a conforta. Se essa questão te tiver passado pela cabeça, a resposta é não. A maioria das pessoas que professam crenças religiosas ou que são supersticiosas não são más pessoas. Ter crenças falsas não é necessariamente ser-se cruel, ou mau. Mas que é um bom sítio para evoluir nesse sentido, lá isso é. A História comprova-o sem sombra de dúvidas.

A nossa evolução pessoal e coletiva depende da disposição de cada um de nós para submeter as nossas ideias ao escrutínio. Ficarmos presos a uma ideia falsa apenas porque nos dá conforto não é intelectualmente honesto nem válido e, acima de tudo, não nos ajuda a nenhum nível. Prezar o pensamento crítico não é uma questão de cinismo ou de arrogância. Pelo contrário, é recusar confundir conforto emocional com factos. Entre preservar crenças porque fornecem algum tipo de certeza inabalável (provavelmente o conforto de achar que esta vida não é o fim) e aceitar apenas aquilo que resiste à crítica racional, eu prefiro estar desconfortável mas entregue à verdade.

Posto isto, bom fim de semana, foi uma excelente conversa!

30 de Novembro, 2025 Onofre Varela

Qual a influência da Religião na Política?

A frase que faz o título desta crónica vi-a, há cerca de uma semana (precisamente na véspera do dia em que escrevo), em rodapé de um programa de televisão, motivando-me a escrever sobre ela. Qualquer enciclopédia nos diz que “Religião” é o termo que designa um sistema sócio-cultural (de entre imensos sistemas) que abarca divindades, práticas, profecias, crenças, cosmovisões, profecias, éticas, sobrenaturalidade, transcendência, espiritismo e também espiritualidade.

O divino e o sagrado são elementos comuns à maioria esmagadora das religiões, que existem em número desmedido… são cerca de 10.000 em todo o mundo… e cada uma se afirma “única e verdadeira”, na demonstração da pequenez do Homem que as fundou e lidera! Nas práticas religiosas incluem-se rituais, sermões, festivais, venerações, sacrifícios, festas, transes e iniciações, mas também serviços prestados à sociedade onde cada religião se estabelece, como casamentos e funerais (inseridos nos rituais) e a comercialização de creches, infantários e escolas.

Em Portugal, a religião Católica faz a fé dos portugueses desde 5 de Outubro de 1143 (há 882 anos), quando, na Conferência de Zamora, se assinou a independência de Portugal entre D. Afonso Henriques (conde de Portucale) e o seu primo Afonso VII de Leão. 767 anos depois, no mesmo dia e mês (5 de Outubro… mas de 1910) a monarquia portuguesa teve o seu fim e foi implantada uma república laica. A Igreja Católica foi perseguida pelos primeiros republicanos anti-clericais (atente-se que “anti-clericalismo” e “anti-religião” não são a mesma coisa. Se o primeiro “anti” teve razão de existir como antídoto a um clericalismo feroz, já o segundo me parece não ter sentido, pois o Homem é um ser religioso por natureza, característica que não me merece discussão (se o não fosse, não tinha criado deuses). Podemos discutir as práticas das várias religiões e o aproveitamento político que delas se faz… mas isso já é outra conversa… e a política que se lhe mistura faz a razão desta crónica).

Em 1911, com Sidónio Pais (após um ano de República anti-clericalista) foram reatadas as relações diplomáticas com a Santa Sé, e o Catolicismo retomou o caminho que em Portugal vinha fazendo no tempo da monarquia… até hoje.

E aqui chegamos à razão do título desta crónica. À pergunta formulada, eu respondo: “sim, a religião tem muita influência na política”, exercendo-a, principalmente, nas mentes dos cidadãos menos atentos, desligados da História e da filosofia comportamental, e que estejam imbuídos de um “sentimento religioso com defeito”, levando-os a aceitar discursos extremistas que influenciam o seu sentido de voto, não percebendo (para desgraça de todos nós) que votam contra si próprios… (e contra mim… o que é bem pior!). Não é por acaso que o líder da extrema-direita exibe, amiúde, um rosário; e que diz ter acabado de vir da missa. Este discurso leva os religiosos (católicos e evangélicos, quando o são no pior sentido dos termos: o extremado), a votar num vírus destruidor da Democracia… a mesma Democracia que permite ao tal vírus nefasto e maléfico, sentar-se no Parlamento, semear insultos para os seus parceiros parlamentares e sementes de erva daninha na sociedade.

Sim, a Religião influencia a Política, porque sendo actividade humana é, também, actividade política. E num Parlamento democrático, republicano, laico e respeitador do Ser Humano, aos grupos extremistas devia ser negado lugar. Partidos racistas, xenófobos e desagregadores da sociedade, não me merecem crédito, e também não deviam merecer existência legal, exactamente por serem inimigos da ordem e da lei que a nossa Constituição regista e defende. E não é a Constituição que está errada!… O erro mora na mente de quem a quer destruir.

OV

Crédito: Imagem de freepik

7 de Novembro, 2025 Eva Monteiro

Segunda Carta a Um Crente

A primeira Carta a Um Crente está aqui. Poderá dar maior contexto à troca que se segue.

E não é que obtive resposta? Contra todas as minhas expectativas, o kardecista que anteriormente me abordou e que após insistência minha disse que eventualmente responderia… respondeu mesmo. Não é costume, pelo que lhe reconheço muito valor pelo respeito e esforço. Decidi partilhar aqui porque poderá ter interesse para os que apreciaram a primeira troca.

Segue a resposta do crente:

Boa noite Eva. Por mais que queira, não está a ser fácil dar-te a devida atenção e por isso peço desculpa pela resposta tardia.

Agradeço-te o cuidado e a profundidade da tua mensagem. É raro encontrar um diálogo que não se limite a slogans e que procura ir à raiz das ideias. É nesse espírito de respeito e reflexão que te respondo.

Quando digo “eu sei que existe”, não me refiro a um saber de laboratório, mas a uma certeza construída pela experiência íntima, pelo raciocínio e pela observação dos efeitos espirituais ao longo do tempo. No Espiritismo, essa certeza não é cega nem dogmática, é resultado de estudo, comparação e repetição de fenómenos mediúnicos que, analisados em conjunto, apontam para a sobrevivência da consciência após a morte.

Kardec nunca afirmou possuir provas absolutas, mas propôs algo que considero de uma lucidez rara para o seu tempo:

“Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.”
(O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XIX)

Ou seja, no Espiritismo, crer não é o oposto de pensar. É crer porque se pensa.

É verdade que Kardec não aplicou o método científico no sentido estrito moderno, mas também é verdade que a ciência do século XIX ainda não tinha instrumentos para abordar a consciência como hoje começa a tentar fazê-lo. O que ele fez foi usar o método da observação comparada e recolher milhares de comunicações, eliminar as incoerentes, comparar mensagens de origens diferentes e sistematizar princípios. Não é ciência de laboratório, mas é um método de verificação empírica dentro dos limites possíveis quando o objeto de estudo é o espírito e não a matéria.

Quanto à ideia de que as experiências mediúnicas são meras ilusões neurológicas: o Espiritismo não as exclui. Kardec alertou inúmeras vezes para o autoengano, a influência do subconsciente e dos espíritos inferiores. A verdadeira investigação espírita começa justamente pela dúvida e pela necessidade de confirmação. A diferença é que, depois de filtradas e repetidas, muitas experiências deixam de poder ser explicadas apenas pela imaginação e é nesse ponto que nasce a convicção pessoal, fruto de observação e de coerência interior.

O teu apelo ao questionamento é algo que também defendo. A diferença é que, para mim, o verdadeiro questionamento inclui não excluir à partida a hipótese de que a consciência não se limite ao cérebro. A postura espírita não é de negação da ciência, mas de complementaridade, a ciência explica o mundo físico e o Espiritismo tenta compreender o mundo moral e espiritual que o completa.

Não vejo no Espiritismo uma instituição que pretenda impor autoridade sobre o pensamento humano, vejo, antes, uma doutrina que liberta da autoridade ao incentivar o estudo, o livre-arbítrio e a responsabilidade individual. O anticlericalismo, nesse sentido, não é uma ameaça ao Espiritismo, porque este não tem clero, dogma, nem intermediários entre o homem e Deus.

Por fim, não te escrevo por evangelização, nem para arrancar ninguém de lado algum. Escrevo porque acredito que o diálogo sereno entre a razão e a espiritualidade é a via mais digna de evolução que podemos trilhar.
Como bem disseste:

“Evoluímos melhor quando a verdade, e não o conforto, é o nosso objetivo.”
Nisso, estamos de pleno acordo. 🙏

Ora, como é evidente, eu respondi:

Boa noite,

Antes de mais, quero agradecer-te por teres dedicado o teu tempo a responderes-me.

Acho que quando falas em saber que algo existe por convicção pessoal, estás a cair na falácia da ambiguidade. Dizes que “sabes que Deus existe”, mas que não te referes a um saber de laboratório, e sim a uma certeza interior construída pela experiência. É nisto que precisamos de rigor: o verbo “saber” não muda de significado conforme a conveniência de quem o usa. O conhecimento, em qualquer domínio, requer justificação e correspondência com a realidade. Se falta a justificação verificável, não é saber, é crença. A sinceridade da crença não é um selo de verdade. Pelo contrário: faz-se hoje em dia uma apologia da crença como se fosse uma coisa boa e desejável, como se fosse um marco de integridade e bondade, quando no fundo, só significa ter grande convicção na ausência de provas. Um muçulmano, um hindu ou um cristão místico podem todos afirmar “eu sei que o meu deus existe”, e no entanto as certezas deles são mutuamente exclusivas. Para o teu deus existir, o deus dos outros tem de ser falso. Todas as crenças podem ser (e não duvido que sejam) sentidas como verdadeiras, mas não podem sê-lo simultaneamente. A emoção, por mais intensa que seja, não é critério de realidade. Só deste um palavreado mais intelectual à expressão “mas eu acredito”.

Referes que o Espiritismo chega a essa certeza pela repetição de fenómenos mediúnicos e pela observação comparada. Contudo, a repetição de experiências subjetivas, sem controlo e sem exclusão de hipóteses alternativas, não é ciência, é circularidade na melhor das hipóteses. A tua descrição do método kardecista não passa de um processo de confirmação seletiva. Ou seja, eliminam-se as comunicações incoerentes, sistematizam-se as que parecem convergir e conclui-se que há coerência. No entanto, isso só pode acontecer precisamente porque as incoerências foram descartadas. Não é o método científico a ser aplicado. Esse pode ser aplicado por qualquer pessoa, pelo que se o Espiritismo estivesse em posição de ser confirmado pela ciência, já não pertenceria ao campo da crença. É, aliás, um caso clássico de viés de confirmação. Se um cientista aplicasse este procedimento a um fenómeno físico, seria descredibilizado à primeira revisão por pares. Por falar nisso, onde está a revisão por pares do Kardecismo? Ou os pares têm de ser kardecistas? A grande diferença aqui é que a ciência não elimina as anomalias: investiga-as. No Espiritismo, pelo contrário, as anomalias são descartadas para que a hipótese original se mantenha intacta. Ou seja, o que o kardecista faz é o mesmo tipo de “cherry picking” de todas as outras religiões, tradições místicas, ocultismos e afins, mas com uma roupagem científica. Lembra-te que também os Cientologistas o fazem, e com o mesmo resultado: uma mão cheia de coisa alguma (e a outra cheia de dinheiro).

A frase “Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade” não diz rigorosamente nada. É um chavão conceptualmente autofágico. Se a fé espírita tem de encarar a razão, então também tem de se submeter ao critério racional. Ora isto significa que deve poder ser provada, testada e, se falhar, abandonada. Mas o Espiritismo não permite esse exame. Nenhuma das suas afirmações centrais (existência de espíritos, reencarnação, mediunidade, ação dos “fluidos”) resiste ao método científico. Portanto, a própria citação, se levada a sério, aniquila a doutrina que pretende enobrecer. É o mesmo que um astrólogo dizer: “A astrologia é válida apenas se passar pelos testes da astronomia”. Pois claro, só que não passa. E o Espiritismo muito menos. Aceito a ideia de que o Espiritismo possa ser “crer porque se pensa”. Contudo, quando as pessoas pensam mal, acabam a acreditar em falsidades. Daí a necessidade do método científico que, não sendo infalível, é a melhor ferramenta de que dispomos para evitar pensar muito e chegar na mesma a conclusões falsas. A fé que encara a razão não é fé: é hipótese. Se resiste à razão, não precisa de se proteger com metáforas. Se depende da intuição interior, não é conhecimento, não é ciência, não é nada senão aquilo que acontece em todas as religiões do mundo: crença infundada e infundável.

O argumento de que “a ciência do século XIX não tinha instrumentos para estudar a consciência” é um equívoco histórico. O método científico não depende de tecnologia, depende da lógica e do controlo experimental. Em 1859, Darwin publicou “A Origem das Espécies” com base em observação e dedução. Não tinha, nessa altura, um único microscópio eletrónico ou um décimo da tecnologia de que hoje dispomos. O que faltou a Kardec não foram instrumentos, foi precisamente o método. E, mais grave que isso, o que ele propôs não se tornou mais plausível com os instrumentos que a ciência desenvolveu desde então. Se estivesse correto e apenas não tivesse na altura a tecnologia para o provar, o que está a impedir os kardecistas hoje? Não há confirmação da hipótese espírita da sobrevivência da consciência em nenhuma investigação em neurociência, psicologia ou física moderna. Nem sequer há indícios de que a mente exista fora do cérebro, de todo, em nenhum estudo que tenha sido levado ao escrutínio de pares.

Fonte: Britannica

Afirmas que, depois de filtradas e repetidas, certas experiências deixam de poder ser explicadas “apenas pela imaginação”. Essa frase é um exemplo típico da falácia do apelo à ignorância. O facto de não sabermos explicar algo não significa que a explicação espírita esteja correta. Só porque ainda não explicámos algo, não significa que seja inexplicável, é apenas para já inexplicado. E só porque a ciência ainda não explicou determinado fenómeno (sublinho que esse fenómeno deve pertencer ao campo da realidade e não da imaginação), não significa que possas apontar uma explicação sobrenatural só porque te apetece. Se fosse assim, cada lacuna da ciência seria prova do sobrenatural. Essa é precisamente a armadilha do “deus das falhas”, que podemos até apelidar, neste caso, de “espíritos das falhas”: sempre que a explicação natural ainda não está disponível, o sobrenatural preenche o vazio. O problema é que, à medida que o conhecimento avança, as lacunas encolhem e o espiritual recua. A história da ciência é, em grande parte, a história do recuo dos deuses, dos espíritos, das fadas, dos unicórnios, das sereias e restantes criaturas do plano da fantasia. O grande problema está onde dizes “A verdadeira investigação espírita começa justamente pela dúvida e pela necessidade de confirmação”. O método científico não procura confirmação, procura refutação. Quem procura confirmação é o crente, que precisa muito de acreditar e vai em busca de padrões que justifiquem a crença. Parte da resposta, não parte da pergunta. Não é racional, é emocional, é fé.

Dizes também que o verdadeiro questionamento não deve excluir à partida a hipótese de que a consciência não se limita ao cérebro. Concordo, não se deve excluir nenhuma hipótese a priori. Mas uma hipótese que não apresenta qualquer evidência positiva é, por definição, descartável a posteriori. Nas palavras de Christopher Hitchens: “O que pode ser afirmado sem evidências pode ser rejeitado sem evidências”. É esta a navalha que corta, a posteriori, as afirmações de Allan Kardec que, por melhores intenções que tivesse, falhou redondamente a missão. Não é uma questão de recusar à partida uma hipótese, é não me ser dado a encontrar nenhum mérito racional na hipótese colocada. O ceticismo não é o dogma da negação: é a recusa em aceitar como verdadeiro o que não foi demonstrado. A diferença pode ser subtil, mas é mesmo essencial. A dúvida é uma virtude precisamente porque nos protege da tentação de confundir desejo com realidade. O tal “wishful thinking” de que tanto falam os americanos.

Quanto à “complementaridade” entre ciência e espiritismo, o termo é sedutor mas intelectualmente falso e muito enganador. Ciência e fé não se complementam, porque operam em planos distintos e com métodos incompatíveis. Aliás, sempre que se tentam misturar, acaba a fé a querer encurtar a ciência. A ciência, por sua vez, não se preocupa com a fé, deixa-a à porta do laboratório porque não cabe lá dentro. A ciência exige prova e refutabilidade. Já o Espiritismo aceita convicção e intuição, como se o valor fosse o mesmo quando definitivamente não é. A complementaridade só é possível se uma abdicar da sua natureza. Historicamente, é sempre a fé que acaba por abdicar (entre birras e pontapés), ajustando-se a contragosto à medida que a ciência avança. Quando o Espiritismo se afirma “em harmonia com a ciência”, é porque se adapta retroativamente aos seus resultados, nunca porque os antecipa ou os demonstra. Caso contrário não se chamava Espiritismo, chamava-se Neurofísica Post-Mortem ou coisa que o valha.

Dizes ainda que o Espiritismo liberta da autoridade. Mas toda a doutrina que parte de postulados inquestionáveis, como a existência de espíritos, a reencarnação, a evolução moral das almas, entre outros, é uma estrutura de autoridade dogmática, ainda que possa não depender de um clero. A ausência de sotainas e chapéus esquisitos não é sinónimo de liberdade intelectual. Um sistema de crenças que não admite a possibilidade de estar errado é, por definição, autoritário. Mesmo que o autoritarismo se disfarce de serenidade. Ora, se o Espiritismo estivesse disposto a reconhecer efetivamente as suas falhas, já não teria adeptos, já teria concluído que não há razão para manter estas crenças, porque não passam no escrutínio do método científico. Eu sou de facto anticlerical. No entanto, só porque um determinado corpo de crenças não é clerical não me faz ter por ele mais consideração intelectual. O que ganha a minha aceitação são os factos, não o que alguém escreveu num livro, ou em muitos, com roupagens pseudocientificas.

Por fim, afirmas que o diálogo entre razão e espiritualidade é a via mais digna de evolução. Eu diria antes que o diálogo entre razão e espiritualidade só é fértil quando a espiritualidade aceita o crivo da razão e se deixa expirar como o iogurte estragado que é. A espiritualidade que resiste à verificação é apenas uma forma de poesia existencial. Pode ser muito bonita, muito afável ao ego, mas revela-se impotente perante a realidade. A verdade não se mede pela paz interior que nos oferece, mas pela correspondência com os factos. Daí que a utilidade da fé para efeitos de conforto emocional não justifique nada.

Fico contente por concordares que evoluímos melhor quando a verdade, e não o conforto, é o nosso objetivo. Mas a verdade exige disciplina intelectual: a disposição constante de dizer “posso estar enganado”. Essa é precisamente a diferença entre o método científico e qualquer doutrina espiritual: uma pode falhar e corrigir-se, a outra precisa de permanecer certa para continuar a consolar. E entre a necessidade de consolo e o dever de lucidez, hei-de escolher sempre a lucidez.

30 de Outubro, 2025 Onofre Varela

Humanismoe lei religiosa (3 e Fim)

Quando se fala em Humanismo, está-se a falar de quê?

Não há uma definição única amplamente aceite de Humanismo, tal como acontece noutros assuntos relacionados com o Pensamento. Pode haver versões paralelas em cada movimento desenvolvido por pensadores que fizeram as várias épocas que nos precederam, criando variações. Na Igreja essas “variações” são designadas por cisma.

Podemos dizer que os humanistas se opõem à imposição política de uma cultura e rejeitam ditaduras. Também não pertencem a uma igreja ou religião estabelecida, nem aceitam o uso da violência sob qualquer justificação.

Uma definição de Humanismopode ser esta: “Uma postura de vida democrática e ética na afirmação de que os seres humanos têm o direito e a responsabilidade de dar sentido e forma às suas próprias vidas. Representa a construção de uma sociedade mais humana através de uma ética baseada em valores humanos e naturais, no espírito da razão e na investigação livre. O Humanismo não é teísta nem aceita visões sobrenaturais da realidade”.

Em conformidade com esta definição, os humanistas apoiam a erradicação da fome, as melhorias na saúde, na habitação e na educação. O Humanismo é um conceito que pretende melhorar as condições sociais, aumentando a autonomia e a dignidade de todos os seres humanos, seja qual for a geografia de onde sejam naturais ou onde se encontrem. Rejeita qualquer forma de divindade e defende o bem-estar e a liberdade dos povos perante tudo e todos, com base no respeito da dignidade do Ser Humano.

O conceito humanista também pode ser referido por “Humanismo Renascentista” pelo facto de ter nascido num movimento intelectual e filosófico que floresceu na Europa entre os séculos XIV e XVI, com origem em Itália. Caracterizou-se pelo interesse renovado na antiguidade clássica, pelo antropocentrismo (o homem no centro do universo) e pela crença nas capacidades do ser humano, influenciando a arte, a ciência e a filosofia. Este movimento marcou a transição do pensamento medieval para o moderno, promovendo uma visão mais racional e individualista.

O termo Humanismo para designar esse resgate dos valores do período clássico, foi inicialmente usado pelo estudioso alemão Friedrich Niethammer, na sua obra de 1808: “A controvérsia entre filantropismo e humanismo na teoria da instrução educacional do nosso tempo”.

Friedrich Niethammer

No contexto histórico das transformações sociais que marcaram o tempo de Niethammer, o Humanismo surgiu como manifestação cultural de rupturas com a decadência da hegemonia da Igreja e o enfraquecimento do poder papal, a secularização da política, o surgimento das monarquias nacionais com o fim do feudalismo e a renovação da filosofia: portanto, uma atitude positiva para a Humanidade no seu todo.

O movimento trouxe uma renovação no estudo de Humanidades como algo essencial à formação do Ser Humano enquanto universalista.

Hoje vivemos um mau período para o Humanismo. Assistimos a práticas políticas anti-humanistas promovidas por uma extrema-direita que alastra como nódoa social, ajudada pela ganância pessoal de políticos, a qual é, sempre, alicerçada na ignorância e na falta de memória histórica. Com a sua retórica, os anti-humanistas convencem os eleitores menos atentos que são apanhados pela ganância própria do miserável que, destituído de moral humanista, quer ultrapassar o seu vizinho mas nunca deixando de ser, no pensamento, o miserável que é… por muito dinheiro que tenha… mas habitualmente é pobre. No bolso e no pensamento.

26 de Outubro, 2025 Onofre Varela

Humanismo e lei religiosa (2)

É sabido que as ditaduras oprimem os povos submetendo-os a uma pretensa “tradição a pedir respeito”. Tal tradição não passa de falácia pela qual se praticam maldades. As tradições sociais e religiosas não legalizam a maldade. 

Numa aldeia transmontana era tradição prender um gato no cimo de um poste, ao qual se ateava fogo! Numa outra localidade espanhola também era tradição lançar uma cabra viva, das ameias de um castelo, para um penhasco!

Dir-se-á que nas duas situações se dava vida a “tradições culturais” comunitárias… mas eram, principalmente, acções desumanas e cruéis que tiravam a vida aos animais (ou os feriam) para gáudio de uns tantos homens de comportamento moral duvidoso (muito mais imoral do que moral) que a “cultura” não pode tolerar e que a lei de um país moderno não pode outorgar; por isso se proibiram essas práticas “culturais”. As leis não podem ser desligadas do respeito devido a qualquer ser humano, ou animal, seja aqui ou na Cochinchina.

No Irão e no Afeganistão praticam-se leis que não são modelo de respeito em lugar nenhum do mundo… começando por não o ser nos próprios países que as praticam. No Irão, em Outubro de 2024 foi publicada uma lei sobre o uso do “hijab” (lenço de cabeça) que castiga com até cinco anos de cadeia as mulheres que não o usem. 

Num comunicado da organização “Human Rights Watch” (Observatório dos Direitos Humanos – uma organização não governamental) faz-se saber que a nova lei, intitulada “Protecção da família através da promoção da cultura do hijab e da castidade”, apresentada no Parlamento iraniano a 20 de Setembro de 2023, foi aprovada pelo Conselho dos Guardiões, o órgão religioso que faz a aprovação final das leis do país. 

Tal lei consolida medidas que já vigoravam para impor o véu islâmico, e adiciona sanções mais severas, como multas e penas de prisão mais longas, bem como restrições ao emprego e às oportunidades de educação para os infractores. (No Ocidente os governos extremistas de Direita vão atrás dos mentores islâmicos e proíbem o uso de trajes regionais. Por cá, a proibição acontece para imigrantes quando usam trajes folclóricos quando não são minhotos, escalabitanos ou algarvios!…).

A morte da jovem de 22 anos Mahsa Amini, às mãos da polícia em Setembro de 2022 por não usar o hijab conforme a lei manda, desencadeou uma onda de protestos durante vários meses com motins nas ruas e a polícia a matar e a prender manifestantes. 

Fonte: Britannica

O governo autocrático e religioso, em vez de responder ao movimento “Mulher, Vida, Liberdade” com as reformas fundamentais reivindicadas, “silenciou as mulheres com leis de vestuário ainda mais repressivas, o que só pode gerar uma resistência e um desafio feroz entre as mulheres dentro e fora do Irão”, disse Nahid Naghsh Bandi, investigadora da Human Rights Watch no Irão. 

A nova lei, que pode castigar com cinco anos de prisão a falta de uso do véu, é composta por 71 artigos que reforçam o controle sobre a vida das mulheres e das instituições que não aplicam estas medidas. No século XXI, o Irão – que tem a carga histórica de se localizar na região geográfica da Mesopotâmia onde nasceu a civilização há cerca de seis mil anos – em termos de evolução do pensamento ainda não passou da mais profunda Idade Média!

(Continua)

20 de Outubro, 2025 Onofre Varela

Humanismo e lei religiosa (1)

O tema em que pego para escrever esta crónica, obriga-me a ocupar um espaço maior do que aquele que o jornal me concede. Vou, por isso, dividi-lo em três partes, publicando hoje a primeira parte.

Cada país rege-se pelas leis aprovadas no seu Parlamento, o qual tem duas formas de existência: ou foi formado pelo voto popular e vive em Democracia, ou foi imposto por um qualquer sistema ditatorial.

Retirando a segunda hipótese que todos nós rejeitamos (espero eu… exceptuando quem não o rejeita, até o deseja, e que hoje até tem assento no nosso Parlamento), é comum, por respeito à liberdade dos povos, não nos imiscuirmos na política interna de outros países, nem “ditarmos leis” na casa dos nossos vizinhos. Mas podemos (e, sobretudo, devemos) criticá-los porque a Democracia também existe para isso mesmo… e no caso de os nossos vizinhos serem dirigidos por ditadores, podemos (e também, sobretudo, devemos) ajudá-los a combater a ditadura que os oprime, em nome da decência, da ética e da Humanidade.

As leis não caem do céu como as folhas outonais caem das árvores.

Há uma “História das Leis” ligada ao desenvolvimento da Civilização. No Egipto Antigo, há 5.000 anos, já havia uma lei escrita para governar o país, baseada na tradição e na igualdade social.

Há 3.800 anos, o Código Hamurábi regia a lei na Babilónia, ficando conhecido como o primeiro código de leis da civilização Suméria (o berço da civilização).

Fonte: The Paris Review

O Antigo Testamento tem mais de 3.300 anos e assume a forma de imperativos morais (alegadamente ditados por um deus) como recomendações para uma boa gestão da sociedade.

Há cerca de 2.900 anos, Atenas foi a primeira sociedade a basear-se na ampla inclusão dos seus cidadãos, mas excluindo mulheres e escravos.

A lei romana foi influenciada pela filosofia grega e impôs-se na Europa Medieval após a queda do Império Romano, a qual foi retocada com preceitos religiosos católicos.

Depois surgiu a necessidade de redigir leis internacionais para regular o comércio em toda a Europa e no mundo.

Toda esta retórica me serviu para chegar ao momento de dizer que, embora cada país tenha a autoridade legal e inalienável de ditar leis aos seus povos, é igualmente verdade que a liberdade de cada pessoa em qualquer parte do mundo é, também ela, inalienável à luz do Humanismo, do conceito da igualdade e do respeito devido ao próximo. Por isso as ditaduras são repudiadas.

Podemos dizer que cada sociedade tem a sua sensibilidade, e esta está na base das leis que a rege. Porém, o Humanismo não está presente nas leis de muitos países… e o Ser Humano é igual em qualquer parte do mundo. Cada mulher, cada homem, cada criança, tem o mesmo sistema nervoso que lhes permite sentir alegria e tristeza perante a mesma experiência de vida, e não precisamos de estudar Direito para sabermos – e sentirmos – o que é justo e o que é injusto. Aqui ou nos antípodas.

O Humanismo, com todas as particularidades que o constroem, é o único modo político e económico de governar (bem) os povos, em qualquer parte do mundo.

PARTE 2

18 de Outubro, 2025 Eva Monteiro

Soltem as Ideias

O Vice-Presidente da Associação Ateísta Portuguesa, Onofre Varela, em conversa sobre a sua vida:

5 de Outubro, 2025 Eva Monteiro

Carta a um Crente

(Quase) todas as quartas-feiras sou anfitriã de um debate online em que convido crentes a discutirem temas que me parecem relevantes à luz das suas crenças. Faço-o através da plataforma TikTok e vou lá deixando também, em formato de vídeo, algum conteúdo. Foi com alguma surpresa que encontrei na minha caixa de entrada desta plataforma uma mensagem mais educada e razoável que as do costume (normalmente são insultos). Sou detalhada nas minhas respostas, pelo que no fim, achei que o texto poderia ser útil e decidi publicá-lo aqui. O que se segue é a mensagem inicial desta pessoa:

Ponderei bastante antes de enviar mensagem. Era bem mais fácil não dizer nada e pronto, vida que segue. Mas não consigo concordar contigo em relação às religiões. As religiões têm um papel fundamental na sociedade e esta é somente a minha opinião. E esta é a minha verdade. Tu tens a tua e outra pessoa qualquer poderá ter a dela e está tudo certo. Sem julgamentos, até porque a meu ver cada um tem o seu caminho e trajeto a seguir. Que me digas que houve e há uma instrumentalização por parte dos homens em relação a essas mesmas religiões, sem dúvida alguma, 100% de acordo. No entanto, as religiões na sua essência são apenas e só uma maneira de mostrar valores e distinguir o certo do errado. Percebo que me digas que isso faz parte da educação de cada ser, mas na minha opinião não é a mesma coisa. Pois uma coisa é o pai, ou a mãe, ou mesmo a professora, outra é supostamente uma entidade superior a demonstrar o bem ou o mal.

Atenção que à medida que crescemos todos nós optamos por diversos caminhos e começamos a questionar esses mesmos ensinamentos. O que é normal pois são apenas histórias que passaram de pessoas para pessoas e que quem as passa age como se fossem verdades absolutas.

Como é lógico, devemos questionar sempre e não acreditarmos em algo só porque sim. Devemos tirar as nossas próprias conclusões, pelas nossas próprias experiências e também pelas nossas pesquisas se assim o desejarmos e quisermos saber mais. Por exemplo, se me perguntares se eu acredito em Deus, eu vou responder o que respondo sempre. Eu não acredito, eu sei que Existe.

Não me identifico com nenhuma religião. Fui educado sim na igreja católica cristã (é cultural) e tive passagens pelo budismo. No entanto, desde os meus 5 anos de idade que tenho contato com outros planos, que não aquele que estamos no momento presente. Estudo o espiritismo segundo Allan Kardec, sempre baseado no método científico.

Como eu costumo dizer, o espiritismo não é uma religião, é um modo de vida. É apenas a maneira como vemos o mundo e que não há certos nem errados, há apenas experiências e modos de fazer e ver as coisas de maneira diferente. Lá porque dizes que algo é assim e eu digo que é assado é tudo uma questão de perspectivas. Estamos sempre a aprender e a evoluir.

Peço desculpa pela intromissão e pelo testamento. Bom fim de semana.

A minha resposta:

É a tua vez de me perdoares a extensão da resposta. Quando acabei de a escrever dei conta que talvez tenha sido detalhada demais. Ainda assim, acho que devo escrever o que tenho a dizer e tu decidirás se tens o tempo e a paciência de fazeres a leitura e até, se eu tiver alguma sorte, responderes aos pontos em que discordo contigo.

Prometi que te respondia mal pudesse dar atenção completa à tua mensagem e tive algum tempo para ponderar. É sempre um sinal de integridade intelectual quando alguém que me manda mensagem privada numa rede social se dispõe a refletir, questionar e dialogar, mesmo quando o tema é sensível; e poucas coisas o são mais do que as crenças religiosas. Por isso, antes de mais, quero agradecer-te novamente pela mensagem.

O facto de não concordares comigo quanto às religiões é válido, temos direito a portar diferentes opiniões e a defendermos diferentes posições. Contudo, eu acredito em fundamentar as minhas posições e a questionar o fundamento das posições contrárias à minha. Desta forma, posso entender se a minha posição está afinal, errada. Hoje não foi o dia. Parece-me que confundes, antes de mais, opinião com verdade. Esta ideia de que dada coisa é “a minha verdade” é completamente descabida. É a tua opinião, faz parte da tua mundividência, é o que tu achas. A verdade é outra coisa. Não depende da opinião nem da perspectiva de quem afirma que algo é verdadeiro, mas da coerência entre a afirmação e a realidade. Isto é, uma afirmação é verdadeira se corresponder aos factos ou ao estado de coisas que a pessoa afirma.

Quanto a opiniões, cada um tem a sua, é verdade. Por outro lado, não devo aceitar tudo o que me dizem só porque as pessoas têm direito a terem opiniões. Podemos certamente concordar que nem todas as opiniões fazem sentido. Há quem acredite que a terra é plana. Têm direito a acreditar numa coisa falsa, mas eu não tenho que aceitar que a terra é plana só porque essa é a opinião de uma pessoa que está muito claramente errada mas que decidiu ser essa “a sua verdade”. Há opiniões sobre tudo e para todos os gostos. Algumas opiniões são inócuas, outras têm consequências. Quando a consequência só atinge o próprio, está tudo bem. Quanto a consequência atinge outros ou a sociedade em geral, creio que opor-me é imperativo.

Do ponto de vista histórico, é verdade que as religiões moldaram civilizações, inspiraram arte, música e literatura, e serviram de estrutura moral e social durante séculos. Mas a questão crucial é: a que custo e com que fundamentos. A religião, de uma forma geral, foi a primeira explicação que a humanidade conseguiu dar a grandes questões, mas não foi a última nem foi a melhor. Pelo contrário, é a mais imperfeita das explicações do mundo e a que provocou piores danos. Contudo, ainda que não tivesse provocado danos e não fosse hoje uma visão obsoleta, o facto de em tempos ter tido utilidade não significa que seja verdade. São dois conceitos diferentes. Um vidente pode ser útil a um cliente que lá vai desabafar, mas não deixa de ser charlatanice. Naturalmente, não concordo contigo que as religiões ainda têm esse papel social, pelo menos no ocidente secularizado em que as leis, feitas por pessoas para pessoas, moldam a nossa vida diária. Por outro lado, a religião mantém esse poder em países onde a teocracia é a regra. Acho que basta olhar para os países que não fazem a separação entre o estado e as organizações religiosas para vermos o quanto a religião corrompe e destrói sociedades inteiras.

Quando alguém me diz que as pessoas é que instrumentalizam a religião, sinto que estamos a cair numa tautologia. A religião não é petróleo. Não é uma coisa que a humanidade descobriu e que não soube usar corretamente. A religião é uma construção humana cujo objetivo é o controlo. Parece-me por isso evidente que um instrumento seja… instrumentalizado. Basta olharmos para as sociedades para entendermos que tipo de deuses é que as pessoas criam. Uma sociedade de pequenas tribos, onde toda a gente se conhece e em que a violência e o crime são situações pontuais e aberrantes tende a ser animista. Já uma sociedade que desenvolve grandes cidades tende a criar deuses que vigiam, que estão em todo o lado, que castigam pecados. A religião é o que as pessoas criam antes de desenvolverem sistemas legais e modos mais seculares de regulação social.

Na sua essência, as religiões não te dão um sistema de valores. Pelo contrário, és tu que imprimes moralidade à religião que professas. Por isso é que tantos cristãos não são racistas, misóginos e violentos, apesar de o seu livro sagrado estabelecer um sistema de “valores” absurdo e impensável. Se decidisses agora seguir à letra o sistema de valores que o cristianismo, o judaísmo ou o islamismo oferecem nos seus escritos sagrados, só não ias parar à cadeia se te rebentasses juntamente com uma bomba, ou te suicidasses após desatares a matar infiéis, pecadores, bruxas, ateus e outros. Se seguisses à letra esse sistema de “valores”, não distinguirias o certo do errado. É porque consegues distinguir o certo do errado que tens a capacidade de ignorar as partes imorais de uma religião e selecionar ou reinterpretar as partes que se coadunam com o teu sistema moral.

Para mim, distinguir o que é bom e o que é mau também não faz inteiramente parte da educação de cada pessoa. Faz também parte do processo de seleção e da sobrevivência da espécie. Somos uma espécie cooperativa e se não tivéssemos a capacidade de coexistir, de saber que não se faz mal aos outros, que devemos ser bons uns para os outros, não sobreviveríamos enquanto espécie. Com todos os defeitos que temos, temos tendência a não sermos violentos, a não sermos destruidores da nossa própria espécie. É coisa comum a muitas espécies, especialmente entre os mamíferos e especificamente entre os primatas que nos são, do ponto de vista da evolução, mais próximos. A mãe e o pai, ou a mãe e a mãe, ou o pai e o pai, ou a avó, o avô, o tio, a tia, ou seja quem for que educa uma criança tem um papel essencial na sua vida através da educação e isso eu não nego. Uma criança bem educada terá um futuro mais feliz e útil, para si e para os outros. Contudo, falas de uma entidade superior que demonstra o bem e o mal. Suponho no entanto que o teu deus, seja ele qual for, nunca te respondeu às preces de forma audível e verificável. Não temos quaisquer provas de que uma entidade sobrenatural alguma vez tenha falado ou aparecido a alguém. Temos é padres, pastores, bispos, apóstolos, profetas, gurus e restantes líderes espirituais que dizem saber o que está certo e o que está errado, e que afirmam o que é ou deixa de ser a vontade do respetivo deus. Ora, cada líder religioso tem a sua opinião sobre o que está certo ou errado, pelo que não existe nessa suposta comunicação divina objetividade suficiente, nem nos dias de hoje nem ao longo da História, para suportar a tua afirmação. Eu creio que entendes isto, pela forma como escreves, mas não me parece que entendas que o que dizes num parágrafo contradiz o que dizes no parágrafo anterior.

Concordo que devemos questionar, tirar as nossas próprias conclusões, como dizes. Mas então em que momento desse processo é que entra deus?

Dizes uma frase que já ouvi centenas se não milhares de vezes em debates, especialmente com cristãos e muçulmanos: “Eu não acredito, eu sei que Existe.” Na verdade é o oposto, tu não sabes, tu acreditas. É matéria de fé e não de facto. Se soubesses efetivamente que o teu deus existe, terias como prová-lo. Se fosse esse o caso, não estaríamos a debater via mensagem no TikTok, terias mostrado esse facto à humanidade, não existiriam ateus e terias ganho meia dúzia de prémios Nobel e pelo menos uma beatificação. É apenas, e lamento ter que to dizer de forma tão direta, uma frase feita daquelas que os padres e os pastores gostam de atirar ao ar mas que carecem de qualquer tipo de sentido. É aquela jogada de dizer “eu sei no meu coração que deus existe” – se sabes no teu coração, não sabes na tua cabeça. Estou interessada naquilo que é verificável, não em “verdades pessoais” que é uma forma de dizer crenças infundadas.

Quando alguém me diz que não se identifica com nenhuma religião chego sempre à conclusão que é porque não se querem comprometer à partida com determinados dogmas, com os quais podem não concordar ou não saber como sustentar. No entanto, quando faço perguntas a quem diz que não se identifica com nenhuma religião, chego sempre à conclusão que o deus em que acreditam é aquele que lhes foi imposto na infância e que as suas crenças religiosas vão de encontro às crenças da instituição religiosa correspondente, ainda que não na sua totalidade. Resumindo, posso dizer que apesar de tu não te identificares com nenhuma religião, bastariam 10 minutos de conversa honesta para eu fazer essa identificação por ti. Aliás, esse diálogo, a ser feito internamente e de forma honesta, provavelmente também faria com que te identificasses com alguma religião. Vou apostar, sem muita base, porque essa conversa não aconteceu, que acreditas no deus da Igreja Católica (omnisciente, omnipotente, omnipresente e bom), mas que gostas de práticas mais místicas pelo que em vez de ires à missa preferes meditar e que não te identificas com a Igreja Católica porque o Kardecismo te conferiu a crença de que o mundo dos espíritos está ao teu alcance, quando a Igreja o nega. Isto é, descaradamente, um pré-conceito da minha parte. Não o nego e até peço desculpas se estiver errada. No entanto, apostaria uns euros nesta opinião se fosse forçada a isso.

Quanto ao espiritismo e à ideia de contacto com outros planos, o que posso dizer é que a sinceridade da experiência não garante a veracidade da interpretação. As experiências subjetivas (visões, intuições, sentimentos de presença) são universais e explicáveis em termos neurológicos e psicológicos. A mente humana é extraordinariamente criativa, e o cérebro é capaz de gerar experiências intensamente reais que, no entanto, não têm correspondência objetiva. O método científico serve precisamente para proteger-nos dessas ilusões, inclusive das mais agradáveis.

Embora Allan Kardec afirmasse seguir o “método científico” na elaboração da doutrina espírita, na realidade ele nunca aplicou qualquer procedimento científico reconhecível. Não houve observação controlada, hipóteses testáveis, experimentação reproduzível nem revisão por pares. O que Kardec fez foi recolher relatos mediúnicos e interpretá-los à luz das suas próprias convicções, apresentando-os como factos. Esse processo pode ter sido feito com sinceridade, mas não é ciência, é especulação metafísica. A ciência baseia-se em evidências verificáveis e na possibilidade de refutação. Já o espiritismo baseia-se em testemunhos subjetivos e fenómenos não demonstráveis. Portanto, apesar de Kardec desejar dar ao espiritismo uma aparência racional, os seus escritos pertencem ao domínio da crença, não ao da investigação científica. Que seja esse o teu modo de vida é uma escolha pessoal que não tenho que questionar. Contudo, é só isso, uma escolha de vida que em nada demonstra a veracidade dos ensinamentos que escolheste seguir e que em nada se baseia no método científico.

Concordo inteiramente contigo num ponto essencial: devemos sempre questionar e continuar a aprender. O problema é que o verdadeiro questionamento exige que também coloquemos em dúvida as nossas certezas mais íntimas, inclusive as espirituais. E é aqui que a postura ateísta não é uma negação da espiritualidade humana, mas uma exigência de honestidade intelectual. Por fim, suspeito que o que te incomoda no meu conteúdo é sobretudo o anticlericalismo. Deixa-me só referir que o anticlericalismo não é ódio à religião, mas defesa da liberdade de consciência contra qualquer instituição que pretenda ter autoridade sobre o pensamento humano. É uma oposição ao poder clerical. As igrejas e demais instituições religiosas e espirituais, todas elas, devem ser submetidas ao mesmo escrutínio que qualquer outra forma de poder. Isso não é intolerância; é maturidade intelectual.

Ao ler e reler a tua mensagem fico na dúvida: seria uma forma de evangelização? Tens como objetivo arrancar-me do ateísmo herege e pecaminoso? Tiveste necessidade de partilhar as tuas crenças porque sentes que o meu conteúdo as invalida de alguma forma? Ou só quiseste iniciar um debate? Não sei, mas agradeço na mesma a tua mensagem. O diálogo é o que nos permite evoluir.

Evoluímos melhor quando a verdade, e não o conforto, é o nosso objetivo.

29 de Setembro, 2025 Onofre Varela

«ERA UMA VEZ NA AMÉRICA»…

Os Estados Unidos da América (EUA) pelas acções dos republicanos no poder comandados por Donald Trump, deram, de si mesmos, a habitual imagem degradante do que é a política na versão fundamentalista com muletas religiosas.

Charlie Kirk, militante republicano assassinado a tiro no dia 10 de Setembro último, foi homenageado num recinto que se mostrou pequeno para albergar a multidão que acorreu à homenagem, congregando cerca de 90.000 pessoas. Kirk foi honrado como “mártir da fé cristã”, nas palavras do vice-presidente dos EUA, J. D. Vance. E Donald Trump, por sua vez, referiu-o como um “evangelista da liberdade”!…

Esta do “evangelista” é a mais recente versão do Cristianismo no seu modelo de seita fundamentalista, conseguida na confusão do lema “A América Grande Outra Vez” inventado por Trump, que é o candidato ao lugar histórico de ditador dos EUA. Nesta aproximação da América actual ao figurino religioso islâmico-fundamentalista, o Secretário de Estado Marco Rubio comparou Charlie Kirk a Jesus Cristo!…

Por sua vez, a viúva de Kirk tomou parte do espectáculo debitando um discurso místico, perdoando ao “jovem que matou” o seu marido, porque foi o que Jesus fez na cruz, ao dizer “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. “Porque a resposta nunca é o ódio, mas sim o amor. Amor pelos nossos inimigos e por quem nos persegue”.

Seguiu-se um outro momento patriótico com a multidão a entoar a canção “América the Beautiful”, rematada com um discurso do conselheiro presidencial Stephen Miller, dizendo que os que estão contra o activista Kirk “não são conscientes do que despertaram. Vós acreditastes que pudestes matar Charlie Kirk? Só conseguistes torná-lo imortal… agora, milhões tomarão o seu lugar!”

Depois apelou à derrota “das forças das trevas e do mal”, concluindo: “Não podem parar-nos. Nós temos beleza, luz, virtude, força, determinação. Os nossos inimigos não percebem a nossa paixão. Nós construímos este mundo e vamos defendê-lo. Estamos do lado do bem, do lado de Deus”. A seguir, Jack Posobiec, comentador de extrema-Direita e apoiante fervoroso de Trump, na mesma senda de Miller, entrou em cena apelando “a uma guerra espiritual”!…

Chegou o momento de Trump brilhar em apoteose, encerrando o degradante espectáculo. Fez um comício onde enalteceu o ideal “republicano-americano”, defendendo as comissões “caça-dinheiro” que impôs aos países que querem negociar com os EUA; atacou Joe Biden (o seu inimigo de estimação já neutralizado desde as eleições); mais os imigrantes que quer ver expulsos do território; e mais a “esquerda radical” a quem culpa pelo assassinato de Kirk; e ainda os meios de informação independentes por não dizerem o que ele quer que se diga. Acabou em grande, garantindo que nos seus oito meses de governação converteu os EUA no “país mais sexy do mundo”!…

Se tudo isto não é uma súmula de discursos de loucos… então o que é?!…

Aquilo que seria o funeral de um activista político assassinado, foi transformado numa jornada “político-religiosa” com Deus na boca e o Diabo no coração de todos os intervenientes, ao estilo das ameaças extremistas islâmicas!

E tudo isto acontece, hoje, na América!…