VIDA DEPOIS DA MORTE (7)
As escolas estabelecidas em todas as sociedades não são apenas lugares de transmissão de saberes… também desenvolvem estilos de consciência… e de esquecimento de outras capacidades, orientando as consciências para comportamentos locais, distanciando-as do entendimento universalista das coisas naturais, construindo um modo de pensar limitado a uma facção, como acontece no xamanismo e também é notório na aprendizagem de cultos religiosos e políticos ministrados pelos interesses instalados em cada grupo.
Carlos Stepanoff é membro do Laboratório de Antropologia Social do Colégio de França e director da École des Hautes Études en Sciences Sociales. Especialista nos rituais xamánicos, diz que o sonho, o devaneio (o sonhar acordado) ocupa 50% da actividade do espírito, desempenhando um importante papel no funcionamento da imaginação.
Estudos de neuropsicologia mostram que a imaginação é mobilizada quotidianamente durante toda a nossa vida, implicando incessantes “viagens mentais”. Esta construção da nossa consciência, do espírito humano, não evoluiu na contemporaneidade, no ambiente que hoje nos faz, construído por interacções acontecidas entre humanos, mas reporta-se, sim, a contextos que o Ser Humano viveu como presa de outros animais predadores.
Tais ensinamentos de antanho, passados de geração para geração, são a base da consciência religiosa que hoje ainda nos domina. Na modernidade, estes “sonhos” da actividade espiritual favorecem uma inovação individual imprimindo alguma transformação na passagem de antigos conceitos para as novas gerações, o que se reflecte na criação constante de novas técnicas rituais, como é bem visível nas seitas ditas evangélicas que romperam com as missas tradicionais católicas, mas que têm, na sua essência, a mesma razão de ser que trazemos colada, como cromo de colecção, na caderneta que o nosso cérebro é.
Quem sabe muito sobre a consciência é o nosso cientista António Damásio, um dos mais reputados neurocientistas do mundo, radicado nos EUA há imenso tempo, onde dirige o Brain and Creativity Institute na Universidade da Califórnia do Sul. Nas suas obras “O Livro da Consciência” (2010) e “Sentir & Saber” (2020), ambas editadas pela Temas e Debates / Círculo de leitores, diz-nos o que é possível sabermos, hoje, sobre a consciência como produto do cérebro.
Começa por informar que o cérebro não é mais do que um aparelho físico-químico composto por objectos físicos, denominados neurónios, que se contam em número astronómico na ordem dos milhares de milhões. Várias são as características que o nosso cérebro nos oferece: a Inteligência, que nos dá a capacidade de resolver problemas colocados na luta pela vida; a Mente, como grande armazém de imagens; o Raciocínio, como ferramenta que nos permite recordar e resolver problemas; os Afectos, que provocam reacções emotivas e alteram o organismo numa dinâmica a que também chamamos “estado de espírito”; os Sentimentos, experiências mentais que acompanham vários estados do organismo, como a fome e a sede, mas também provocam emoções como o medo, a raiva e a alegria; e, por fim, a Consciência, que entra em nós guiada pelos sentimentos, já que todos eles são conscientes por definição.
“Sem consciência nada se pode saber […] [ela] foi indispensável para a ascensão das culturas humanas e mudou o rumo da História”.
(Conclui na próxima semana)
Perfil de Autor
Onofre Varela nasceu no Porto em 1944, estudou pintura e exerceu a atividade de desenhador gráfico em litografia e agências de publicidade, antes de abraçar a carreira de jornalista (na área do cartune), em 1970, no jornal O Primeiro de Janeiro. Colaborou com a RTP, desenhando em direto a informação meteorológica no programa Às Dez e animando espaços infantis. Foi caricaturista e ilustrador principal no Jornal de Notícias, onde também escreveu artigos de opinião, crónicas e entrevistas.
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CATEGORIES
Ateísmo Cristianismo Diário de uns ateus História Humanismo -
DATE
26 de Agosto, 2026 -
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