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Mês: Setembro 2026

20 de Setembro, 2026 Onofre Varela

Considerações de ateu em fim de férias

Enquanto ateu, as minhas ideias sobre Religião são diferentes das de um religioso (La Palisse não diria melhor). Não enfeito o meu discurso para o tornar agradável aos crentes, porque o mais certo é não ser! Também não visto o fato-macaco de coveiro nem pego numa pá para enterrar a fé em Deus aqui e agora. Nada disso… sou ateu… não sou parvo!

Não posso falar “dos ateus” em geral, porque cada um de nós é singular. Por isso é de mim que falo nestas crónicas onde me assumo ateu. Tal como há 100 maneiras de cozinhar bacalhau, também as há de se ser religioso! Não é uma bitola comum que serve para medir o tipo de religiosidade de todos os crentes a granel, sem considerar as sensibilidades particulares, graus de conhecimento de cada um, a razão de se ser, (ou não) religioso, e o modo como cada um se entrega à fé ou se relaciona com a falta dela.

Para além de ser ateu, sou cartunista. E um cartunista é um “jornalista-social” que usa o desenho como crítica. Também é esse o meu papel enquanto ateu: ser crítico das religiões, o que faço com base no conhecimento que detenho (ou julgo deter) da História das Religiões e da necessidade psicológica que temos de crer, o que nos levou à invenção de deuses e depois à reciclagem do panteão até conseguirmos apurar um único e “verdadeiro” Deus, que garantimos ter sido ele que nos fez à sua imagem e semelhança, quando fomos nós que o criamos segundo a nossa morfologia.

Segundo esta consideração, a Bíblia mostra-nos Deus como um oleiro modelador do homem em barro. Imagem bonita e poética que deve ser considerada nessa esfera… mas nunca transportada para a vida real onde as oníricas considerações religiosas não devem ter lugar cativo… mas não é o que se vê, pois é isso mesmo que fazem os sacerdotes nos púlpitos e os “bispos de aviário” nas salas de espectáculo degradante das seitas pretensamente “evangélicas” que crescem nas nossas cidades como cogumelos em estrumeira.

Este crescer da crença “periférica” à fonte de onde brotou o Catolicismo (no caso de Portugal) enraíza-se mais profundamente nos crentes menos letrados por serem mais fáceis de convencer com promessas que não passam pelos seus crivos de análise… simplesmente porque não os têm! Esses crivos são construídos por cada um na observação da sociedade, no raciocínio e na aprendizagem, lendo e pensando criticamente… coisa que os “cardumes” que fazem a lota dos pescadores de “descontentes-desarmados-de-mais-saberes”, não têm. Por isso são “pescados” por quem exerce poder sobre eles, sem o seu livre (e esclarecido) consentimento.

Em todos os tempos os vários poderes (político, económico e religioso) sempre representaram interesses instalados. A evolução do pensamento coloca os poderes em risco, e quem o faz são os críticos desses poderes que, normalmente, se situam nas franjas sociais das minorias historicamente perseguidas. A História está cheia de exemplos, desde Sócrates (o grego!…) a Galileu Galilei, passando por Giordano Bruno, para referir os mais citados através dos tempos.

Na lista dos “contra-a-corrente” social e do pensamento oficializado, também figura o nome de Jesus Cristo, que nunca é tratado como o “homem-político” que foi, mas sim como o “homem-Deus” da fé… (que não foi); o que destrói o Homem, não deixando exemplo concreto e real, que possa ser seguido sem o rótulo da fé religiosa. 

7 de Setembro, 2026 Onofre Varela

GUERRA DA OPUS DEI CONTRA O PAPA

Soube-se agora (notícia do jornal espanhol El País de 3 de Setembro último) que o Papa Francisco foi ameaçado por clérigos afectos à seita extremista católica de Direita, Opus Dei (OD) criada pelo fascista espanhol Escrivá de Balaguer em 1928 e metida no Vaticano, como prelatura pessoal, pelo Papa João Paulo II, em 1982. Balaguer acabou por ser canonizado em 2002, sendo cumprida a sua grande “meta biográfica”.

A organização OD é dona de várias empresas e universidades, tem elementos dispersos por partidos políticos e Parlamentos e, à semelhança do que acontecia com os agentes da polícia política nazi de Salazar, a PIDE, nunca sabemos quem se senta ao nosso lado no café ou no Metro, com a intenção de nos espiar. Também é dona de um santuário em Aragão (o Santuário de Torreciudad – Huesca) que na sua origem foi um forte muçulmano ocupado pelos cristãos no século XI.

A guerra que a OD movia ao Papa Francisco acabou por ser herdada por Leão XIV perante o dilema de decidir de que lado está nesta guerra intestina que os extremistas religiosos ultraconservadores mais agarrados à tradição e contrários à modernização da Igreja que o Papa promovia, alimentavam contra Francisco.

A OD anda de “candeia às avessas” com a Santa Sé desde Julho de 2023, por ver destituído o reitor de Torreciudad, que foi substituído por um bispo da confiança do Papa Francisco. Numa carta de Francisco, dirigida no mesmo ano de 2023 a Pérez Pueyo, bispo de Barbastro (município que tem a jurisdição do Santuário de Torreciudad) e agora divulgada, Francisco recomendava: “Não cedas”… e dizia mais isto “… procuro livrar-te de todas as intrigas mafiosas que estão em curso”, traçando um novo destino para o Santuário.

Angel Javier Pérez Pueyo foi nomeado bispo de Barbastro pelo Papa Francisco em 2014, o que nunca agradou à OD que o quer destituir daquele posto. Nas cartas de Francisco é notório o apoio que o Papa dava a Pueyo e a sua vontade de cortar a influência da OD.

Para além disto, Francisco anulou o carácter exclusivo de “Prelatura Pessoal” da OD, em 2022, título de que gozava desde 1982… o que, evidentemente, não agrada à “obra” do fascista Escrivá de Balaguer. Na biografia de Pérez Pueyo consta que na “Conferência Episcopal Espanhola” ele é membro da “Comissão para os Laicos, Família e Vida”.

Estas questões de interesses de poder numa organização bi-milenar como é a Igreja Católica, não configuram nenhuma novidade. São tão antigas quanto o credo, e em cada tempo a minoria tradicionalista tenta impor as suas vontades numa guerra intestina de colocar “os nervos em pé” a quem deseja viver pacificamente consigo e com os outros… e, ainda mais, no seio de uma Igreja que se diz “pacificadora e distribuidora de amor”… o que vindo do lado mais bafiento da instituição só pode causar riso se não, mesmo, horror… mas também, e principalmente, preocupação, não só para os religiosos católicos, mas para todos os “Homens de Boa Vontade”… como são os ateus.

CURIOSIDADE: Uma universidade espanhola detida pela OD é a Universidade de Navarra. Eu tenho um certificado de jornalista, numa formação que fiz no Centro de Formação de Jornalistas, no Porto, em 1995, ministrada pela Universidade de Navarra!… E esta, heim?!…

6 de Setembro, 2026 Carlos Silva

«O ateísmo não existe…»

Imagem: Internet

«O ateísmo não existe… e a culpa é dos ateus»

Observador, Ricardo Ferreira, 26 abr. 2026

«O ateísmo não existe… e a culpa é dos ateus»

(…)

O ateísmo enquanto certeza, enquanto afirmação positiva da inexistência de Deus, tem ainda outro problema adicional, que apenas alguns ateus mais honestos reconhecem aceitando o custo. Para afirmar com certeza que Deus não existe em nenhum lugar, sob nenhuma forma, em nenhuma dimensão possível da realidade, seria necessário um conhecimento total e exaustivo de tudo o que é. Seria necessário o conhecimento total do passado, do presente e do futuro. Tanto quanto sei, nenhum humano tem esse conhecimento.

Quando falamos de ateísmo como certeza, falamos de uma fé. Uma fé invertida, mas ainda assim, fé. E esta fé exige o mesmo que os ateus criticam aos crentes em Deus: um salto além do que a evidência permite. Com uma importante diferença: os crentes em Deus admitem-no e os ateus torcem a narrativa para não admitir o salto.»

(…)

O ateísmo nada conclui e nada prova. É uma identidade que, como qualquer outra identidade abstracta, não passa no seu próprio teste. O que tem a sua piada, porque o lugar onde o ateísmo claramente não existe é exactamente o lugar onde o ateu mais insiste em verificar as coisas: na evidência empírica.

Ricardo Ferreira


Não foi pela indiferença de saber quem é, mas apenas pela diferença de análise que optei por não efetuar qualquer pesquisa sobre a sua pessoa…

Assim, após uma segunda leitura algo mais atenta ao texto…

Meu caro desconhecido Ricardo Ferreira,

Como ateu, “confesso” que a minha postura não foi nada “comovente”; pelo contrário; diria que senti uma misericordiosa necessidade de responder, sobretudo pela sua animosa referência ao ateísmo. É realmente um grandioso texto, do qual, depois de bem exprimido, não resultou praticamente nenhum sumo.

Quero, antes de mais, salientar que é impossível comparar o incomparável!

Ateísmo é simplesmente uma consequência do pensamento racional. Não implica existência, mas sim ausência de crença. Ausência de crença num ou mais deuses.

Não se pode comparar o ateísmo a uma crença!

O ateísmo, tal como o teísmo, só existe como conceito mental abstrato, porque um qualquer iluminado, baseado num simples ato de fé pessoal, afirma que existem entidades supranaturais. Se existisse alguma entidade supranatural, obviamente que não se justificaria a sua existência, uma vez que a crença esvaziar-se-ia deixando de fazer qualquer sentido. Se não houvesse pessoas a acreditar no que não vêm e não podem provar, obviamente que não existiria ateísmo nem teísmo.

Ateísmo não é uma filosofia em que possamos acreditar ou desacreditar, como devotamente procura confecionar. É um posicionamento de ausência de crença. É a admissão do óbvio com base na leitura racional que a ciência e a realidade nos mostram e demonstram. É a simples escolha do evidente e faz parte desta liberdade que hoje a laicidade nos concede; tal como a escolha do dogma religioso por mais absurdo ou ridículo que seja.

O ateísmo é simplesmente uma postura intelectual baseada na lucidez, na capacidade de duvidar, de analisar, de quem continua permanentemente a evoluir na sua compreensão e resulta de um processo de evolução pessoal, intelectual e ético.

O ateísmo não é apresentado como imposição ou superioridade, mas como consequência natural do pensamento racional, crítico e científico. Valoriza a liberdade individual, o humanismo, a tolerância, a solidariedade e a paz como pilares para uma sociedade mais equilibrada e sustentável.

O ateísmo não é negação ou combate à fé alheia, mas uma constatação baseada em factos e evidencias, afastando a crença no sobrenatural. Mais do que um rótulo, trata-se de uma forma consciente de estar no mundo, de viver o presente e procurar o conhecimento e a verdade através da razão.

Nenhum ateu parte da premissa que já conhece a verdade. O ateu analisa, erra, muda de opinião, acerta, erra, muda de opinião, acerta… até conhecer a verdade.

Nenhum ateu nega a existência de uma alegada entidade supranatural, vulgo «deus». Constatando a inexistência de provas ou evidências da sua existência, simplesmente não acredita no que o crente afirma existir com base num intrínseco ato de fé. Tendo em conta que essa suposta entidade supranatural se limita a uma imagem mental abstrata que varia conforme a imaginação do criador ou imputador, parece evidente que, qualquer mente minimamente ciente, não pode negar o que não existe, ou simplesmente confirmar a materialidade do amigo imaginário criado pelo próprio homem. Não podemos provar a sua inexistência porque só a existência pode ser provada. Daí que o ónus da prova esteja do lado do crente. O que negamos é a crença e não o conhecimento!

Resumindo…

Ser ateu não é negar ou lutar contra qualquer crença alheia.

Ser ateu é simplesmente constatar a inexistência de qualquer entidade divina.

Ser ateu é simplesmente raciocinar sobre a realidade dos factos.

Ser ateu é simplesmente retirar conclusões com base em provas fidedignas.

E concluindo…

O ateísmo não é nenhuma crença. O ateísmo não se impõe. É uma opção que resulta duma forma racional de estar e lidar com a realidade!

P.S. Como ateu, “confesso” que não acredito que uma mente realmente inteligente acredite no sobrenatural. Reconheço que o ateísmo não implica inteligência, mas realmente a inteligência pode levar qualquer mente minimamente racional ao ateísmo.


TEU ATÉ AO FIM, 2026-09-06 Carlos Silva