VIDA DEPOIS DA MORTE (3)
Como disse no último artigo, só a História é o único modo de manter a memória daquele que morreu e deixou obra para ser recordado. Só assim se consegue a “eternidade” como cantou o nosso poeta maior Luís de Camões: “Por obras valerosas da lei da morte se vão libertando”.
Porém, na nossa sociedade cristã, quando se aborda o tema “Vida Depois da Morte”, é inevitável falar em Jesus Cristo (JC) e na mitologia da sua ressurreição. A maioria das religiões (não só a Cristã) tem como denominador comum a preocupação com a morte e a mensagem da vitória da vida sobre ela. O Cristianismo refinou esta regra, porque Jesus Cristo só existe… porque morreu!…
A sua crucificação foi a porta que se abriu à vida, fechando-a à morte, através da ideia da ressurreição como “a vitória final da vida”, onde a morte já não tem lugar!
O engraçado é que esta ingenuidade cristã da ressurreição acaba por se transformar numa pedra no sapato da crença, que é difícil de retirar… porque se JC ressuscitou, tem de estar algures. Tem de andar por aí!… Quem vence a morte, não morre outra vez (penso eu)!… E o que, ou quem, não morre, tem de se conservar vivo. E o que, ou quem, é, ou está, vivo, tem de conservar a sua forma material, consumir alimentos para manter a energia, mostrar-se e produzir ou provocar algo!
Onde está Jesus Cristo? Em que circunstâncias? Como sobrevive?!… São perguntas sem resposta que deveriam embaraçar a crença… só não embaraçam porque os crentes não se interrogam… só crêem!… E estarão convictos de que existe um céu para albergar almas caridosas, mas também o corpo material de JC!
O factor mais importante do Cristianismo, na vertente que mais afirma a sua característica de religião é, sem dúvida, o conceito da ressurreição. O vencer da morte. A ressurreição dá-lhe a dimensão mais deifica e religiosa… que é aquele factor que inebria a maioria dos crentes, relegando para segundo plano a ideia humanista contida nos “ensinamentos de Jesus”. Mas aqui estamos na presença de algo que não pertence exclusivamente ao Cristianismo. A libertação da morte é uma ideia que o homem persegue desde quando teve consciência de que o seu fim seria morrer, abandonando a vida, o que, convenhamos, não configura um fim simpático!…
Essa consciência alimentou a religiosidade que leva ao acto misericordioso do enterramento. Por isso os nossos antepassados mais remotos já enterravam os mortos, e os poderosos levavam consigo os mais ricos pertences para usufruírem deles para além da morte que não aceitavam como fim da vida, e acreditavam ir viver numa outra dimensão onde continuariam com a mesma importância.
A imortalidade é desejada desde a mais remota antiguidade e encontramo-la na mitologia egípcia. O Cristianismo não fez mais do que copiar, adaptar e reeditar conhecidos rituais, como é exemplo a narrativa mitológica de Átis, deus frígio da Natureza e da Primavera, amante de Cibele, cujo mito refere a sua morte e ressurreição. A própria missa pascal do rito cristão é cópia de antigos rituais nocturnos comemorativos da morte e ressurreição de Átis, com ligação a celebrações animistas na passagem do equinócio da Primavera.
A morte sempre foi uma das grandes preocupações do Ser Humano. Segundo o filósofo e sociólogo Edgar Morin (falecido recentemente com a bonita idade de 105 anos), o Homem de Neandertal não só enterrava os mortos; também os reunia como se prova na “gruta das crianças” perto de Menton.
O sepultamento dos mortos é um elemento cultural que demonstra a preocupação de prolongar aquele que morre, para além da vida que efectivamente perdeu. Prolongamento que os egípcios transformaram na conservação dos cadáveres pela mumificação.
Quando não abandonamos, ou não esquecemos, os nossos mortos, eles “sobrevivem”.
(Continua)
Perfil de Autor
Onofre Varela nasceu no Porto em 1944, estudou pintura e exerceu a atividade de desenhador gráfico em litografia e agências de publicidade, antes de abraçar a carreira de jornalista (na área do cartune), em 1970, no jornal O Primeiro de Janeiro. Colaborou com a RTP, desenhando em direto a informação meteorológica no programa Às Dez e animando espaços infantis. Foi caricaturista e ilustrador principal no Jornal de Notícias, onde também escreveu artigos de opinião, crónicas e entrevistas.
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CATEGORIES
Arte e cultura Ateísmo Cristianismo Diário de uns ateus -
DATE
21 de Julho, 2026 -
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