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Mês: Março 2021

20 de Março, 2021 João Monteiro

Papa discrimina uniões homossexuais

Em Outubro passado, o Papa Francisco defendeu a regulação do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, através de uniões de facto para casais homossexuais, o que pareceu um distanciamento da posição tradicional da Igreja. Porém, no início desta semana o Vaticano veio dar o dito por não dito, como noticia o jornal Público. Afinal, os padres não podem aprovar uniões de casais do mesmo sexo, nem abençoar essas uniões.

Verifica-se assim que há crentes de primeira categoria e outros de segunda categoria. Uns podem casar-se, a outros é negado o sacramento católico. Não deixa de ser irónico que uma instituição que prega o amor, acabe por penalizar pessoas que escolhem amar quem bem lhes apetece.

Fico satisfeito por o casamento civil ser para todos, de modo a que qualquer pessoa se possa casar independentemente de quem escolhe para viver. Mas lamento que os homossexuais católicos não possam celebrar uma festa religiosa como gostariam, estando limitados por motivos retrógrados da Instituição que seguem. Por solidariedade a todos nessa situação, mesmo não perfilhando a mesma crença, espero que com o tempo haja mudanças.

Deixo os meus votos para que todos sejamos felizes e que continuemos a espalhar amor à nossa volta.

Imagem de Chickenonline por Pixabay
19 de Março, 2021 João Monteiro

Vacinação contra a COVID-19

Enquanto comunicador de ciência, defendo que o conhecimento científico deve ser promovido do modo mais abrangente possível e junto das mais diversas comunidades, pois o conhecimento não deve ser reservado apenas a alguns membros da sociedade.

Por vezes isto significa tentar uma aproximação com grupos que possam ter uma mundividência diferente da científica, como os meios religiosos. Defendo que esta abordagem, se fosse realizada mais frequentemente, talvez contribuísse para o aumento da literacia científica, uma vez que é habitual nesses a procura de conselhos junto de uma autoridade (padre, pastor, imã, guru, etc.). É isso que tem sido feito nos EUA, em que cientistas e profissionais de saúde têm transmitido informação científica credível aos pastores, pedindo-lhes auxílio na promoção da vacinação contra a COVID-19, principalmente junto de populações negras (porque têm razões históricas para duvidar da medicina) ou desfavorecidas (por terem menos acesso a informação). Também rabis de comunidades Sefarditas e Ashkenazi têm incentivado a população vacinar-se.

Se esta comunicação entre ciência e religião não fosse feita, eventualmente verificar-se-ia uma diminuição na taxa de vacinação ou a partilha de desinformação. Na realidade, não é nada que já não tenha acontecido. Um líder religioso iraniano defendeu que a vacina da COVID-19 tornaria as pessoas em homossexuais e o mesmo defendeu um rabi famoso, tendo ainda acrescentado a isso outras teorias da conspiração relacionadas com a Maçonaria, Illuminati e Bill Gates (só ficou a faltar o 5G). Nem a Igreja Católica escapa: um cardeal espanhol, durante a cerimónia religiosa, alegou que a vacina da COVID-19 seria feita à base de células de fetos humanos abortados. Escusado será dizer que nada disto é verdade, mas pode lançar a dúvida junto das pessoas com menos acesso a informação credível. É por situações destas, mesmo que aparentemente sejam casos isolados, que defendo que a aproximação entre ciência e religião deveria ser tentada com mais frequência.

Para terminar, e atendendo que ainda estamos a viver em contexto de pandemia, exorto os nossos leitores a ouvirem a comunidade científica e médica, a tomarem os melhores cuidados tendo em vista a saúde pública e a vacinarem-se assim que for possível.

Votos de boa saúde para todos.

Imagem de Sammy-Williams por Pixabay
18 de Março, 2021 João Monteiro

A mulher na Igreja

Texto da autoria de Onofre Varela:

A escritora e jornalista espanhola Cristina Fallarás, autora do livro El Evangelio Según Maria Magdalena (O Evangelho Segundo Maria Madalena), entrevistada pelo jornal espanhol El País (27 de Fevereiro último) diz que “não se entende a violência contra as mulheres sem a Igreja Católica”.

O seu livro não é uma biografia da personagem mais importante do Cristianismo depois de Maria, mas sim uma novela. “Quando não existe o relato [histórico] devemos criá-lo”, disse a autora. É nessa sua criação literária que se enquadra a afirmação da violência da Igreja contra as mulheres, num enredo novelístico à volta da figura de Maria Madalena e da misoginia da Igreja Católica, uma Igreja patriarcal onde as mulheres são relegadas para uma posição menor na organização do credo. 

Fallarás não quis escrever uma novela histórica, até porque não há fontes históricas fidedignas para se abordar com seriedade intelectual e científica a figura de Maria Madalena, nem, tão pouco, a de Maria, mãe de Jesus, tão venerada mas de quem, na realidade, nada se sabe! A construção dos Evangelhos não configura uma narrativa histórica, mas sim uma narrativa de fé, construída conforme o interesse do narrador. 

Curiosamente a escritora faz uma analogia interessante entre a Bíblia e os filmes de cow-boys! Diz ela que “quando comecei a lê-la dei conta de que a história, desde o princípio, não é mais do que um xadrez sem peões. À partida, não se entende, o jogo não funciona. Colocar as mulheres no relato, completa-o, dando-lhe um sentido que não tinha sem elas”. É aqui que a autora considera que os relatos bíblicos têm forma de “western”, pois, no princípio, também não considerou a mulher. Aquilo era só para homens selvagens e maus, dormindo na montanha tendo a sela por travesseiro. “No ‘western’ as únicas camas são as da cadeia e do bordel. Como relato é uma idiotice igual ao Evangelho de Paulo de Tarso, que considerava a mulher um erro”. 

A sua curiosidade por Maria Madalena tomou forma quando o papa Francisco decidiu nomeá-la apóstolo! Foi em 2016 que a Igreja resgatou aquela mulher que foi referida, durante séculos, como sendo possuída por sete demónios. A Igreja sempre a apelidou de prostituta, adúltera e pecadora. Desde Junho de 2016 Maria Madalena tem dignidade de Mulher, e o seu dia foi marcado no calendário litúrgico (22 de Julho), por mostrar “um grande amor a Cristo e ter sido tão amada por ele, devendo ser exemplo e modelo para toda a mulher na Igreja”.

Cristina Fallarás foi criada num ambiente ultra-católico, passando 17 anos em colégios religiosos femininos. “Sempre soube que havia algo de errado naquela vivência. Não houve nenhum momento em que me desse conta de que o mundo era injusto connosco […] educam-nos com um medo de que não se fala […] como se fossemos o Capuchinho Vermelho, que não é uma mulher, mas uma menina”. 

Na sua obra Fallarás espelha Maria Madalena como uma mulher culta, bissexual e rica. Com base neste possível entendimento da história de Madalena, a autora ficcionou no sentido de explorar “a origem da violência com que nos tratam”. Na Bíblia há três mulheres sexualizadas: Eva, Maria e Maria Madalena. “A primeira é tratada como sendo a culpada de todos os males da Humanidade. A segunda é virgem, perfeita, impoluta… algo inalcançável e absurdo. E a terceira… é uma puta… sem mais! Alguém a quem se usava. A mulher é um corpo que pode ser usado por todos, dizem os Evangelhos”. E conclui a autora: “tenho a raiva dentro de mim […] e qualquer mulher que não tenha a raiva dentro, não é consciente da violência que sofre em cada dia”.

(O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico)

OV

Imagem de Thanks for your Like • donations welcome por Pixabay
17 de Março, 2021 João Monteiro

Na Polónia as pessoas afastam-se da Igreja

A notícia

Uma reportagem da Agência Reuters foi publicada no Jornal Público (8-2-2021) com o título “Na Polónia, a Igreja uniu-se à política e os católicos afastam-se“. Como se trata de conteúdo exclusivo, farei uma síntese da notícia antes de a comentar.

O contexto

Para perceber o que se passa, há que entender o contexto histórico da Polónia. Ao contrário de Portugal, que viveu décadas numa ditadura de extrema-direita com o apoio da Igreja e em que na oposição clandestina estava o Partido Comunista, a Polónia viveu uma ditadura comunista e a Igreja Católica era tida como o “farol da liberdade” durante a década de 1980. Porém, com a queda do comunismo em 1989, a Igreja Católica pressionou os governos a regressarem aos valores católicos conservadores, fazendo lobby para se criarem restrições ao aborto, por exemplo. Com isto, os cidadãos polacos foram-se distanciando da Igreja, uma tendência que tem aumentado nos últimos anos.

A atualidade

Apresentado o contexto, chegamos à atualidade. O atual partido no poder é o PiS (“Prawo i Sprawiedliwość” ou em português “Lei e Justiça”), que elegeu como presidente, em 2015, Andrzej Duda. O PiS é um partido de extrema-direita, nacionalista e autoritário, que tem mantido uma grande proximidade com a Igreja Católica. Essa proximidade tem-se refletido nos seguintes aspectos: o PiS vê a Igreja Católica como parte da identidade e repositório dos ensinamentos morais do país, a televisão pública exibe cerca de 9h semanais de programação católica, incluindo transmissões de serviços religiosos, tem havido sessões de deposição de relíquias católicas na capela do Parlamento, um membro do Conselho Fiscal do país pediu aos fiéis que rezassem pela erradicação do cosmopolitismo das universidades e alguns padres fazem propaganda política nas homilias (a favor do partido no poder).

As consequências

Como consequência da influência e lobby da Igreja, o governo tem sentido legitimidade e poder para avançar com políticas conservadoras – e algumas até atentatórias dos direitos humanos. São exemplo disso as limitações ao aborto e a perseguição à comunidade LGBTQI+. A grande maioria dos interrupções de gravidez feitas na Polónia devem-se a malformações nos fetos, ou seja, por razões médicas. Mas até essas foram proibidas na legislação mais recente dos últimos meses, por lobby da Igreja.

É por causa da geminação entre Estado e Igreja Católica, refletida na propaganda política nas igrejas, na promoção da religião pelo Estado ou no lobby da igreja na educação e nos gastos públicos, ou ainda pela limitação dos direitos individuais, como o direito a escolher quem amar ou o que fazer com o corpo, que um número crescente de pessoas se tem afastado da Igreja Católica.

O número de apostasias tem aumentado e só em Varsóvia mais pessoas pediram para sair da Igreja no mês de Novembro passado do que em todo o ano de 2019.

A vontade dos cidadãos

Na Polónia, como por cá, os cidadãos desejam a separação da Igreja e do Estado. Esse país é um bom exemplo das consequências nefastas de uma aproximação entre as duas esferas, vivendo a sociedade sob o jugo do autoritarismo, conservadorismo e limitações aos direitos, liberdades e garantias. A moral não emana de uma qualquer religião, mas das decisões em sociedade. A moral iluminista de tratar o outro da maneira como gostaríamos de ser tratados é, por si só, um bom princípio que não necessita de moral divina. Essa aproximação da Igreja ao Estado não é boa para os cidadãos nem para a própria Igreja, como se vê pela notícia, havendo inclusive padres polacos a advogarem a separação entre as entidades, de modo a recuperarem os seus fiéis.

Perante esta realidade, a Associação Ateísta Portuguesa mostra-se solidária para com o povo polaco que se sente oprimido e que se quer libertar dos grilhões da Igreja.

Nota final: os nossos leitores que também queiram realizar apostasia, podem consultar este link.

Imagem de Tasy Hong por Pixabay

14 de Março, 2021 Carlos Esperança

O PR e as visitas erráticas ao estrangeiro

Não se percebe o interesse, a urgência e as motivações das primeiras visitas do segundo mandato do PR a dois Estados monárquicos, um imposto pelo genocida Franco, e outro criado pelo ditador fascista Mussolini, nos Acordos de Latrão.

Sendo a política externa competência exclusiva do Governo, fica-se ainda mais perplexo com o tropismo irrefreável que o levou a uma monarquia em crise e à teocracia católica.

Sendo Portugal um país laico, o PR e os outros órgãos de soberania têm a obrigação de se comportar com absoluta neutralidade religiosa. Oficialmente não podem ser ateus ou crentes, céticos ou livres-pensadores, para poderem respeitar e defender todas as crenças e anti crenças.   

Pode o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa, devorado pela fé, ansioso de se abastecer de um carregamento de indulgências, não resistir aos apelos da salvação da alma, mas não pode o PR, a expensas do Estado, sufragar eventuais pecados e aplainar os caminhos do Céu através do testemunho público da sua confissão particular, ferindo a dignidade da República laica e democrática de que é a máxima referência simbólica.

O PR não pode deixar-se levar pelo crente Marcelo sob pena de se genufletir perante um outro chefe de Estado e prestar-lhe vassalagem num ato que não dignifica a República laica e democrática a que tem a honra de presidir.

Em período de confinamento, não deu um passeio higiénico, fez um voo emocional ao encontro do CEO da multinacional da fé de que é exuberante praticante.

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8 de Março, 2021 João Monteiro

As Mulheres e o Ateísmo

Hoje assinala-se o Dia Internacional da Mulher para recordar que a luta por direitos iguais entre géneros ainda não está concluída.

É verdade que tem havido melhorias em vários sectores, mas ainda assim insuficientes. Poderíamos apontar a necessidade de nivelar salários, de haver mais oportunidades para mulheres em cargos de gestão (e se não estão nesses cargos não há-de ser por falta de mérito), de deixar de atribuir profissões a géneros específicos, de acabar com a violência doméstica e com situações de assédio em contexto social ou laboral, só para mencionar alguns exemplos. É um esforço conjunto que temos de fazer enquanto sociedade.

É também no contexto religioso e espiritual que encontramos disparidades de género: os padres, gurus ou líderes religiosos por norma são homens; a submissão e subalternidade é acentuada para o lado feminino; quando as mulheres participam nos rituais normalmente é como auxiliares embora na prática tenham um papel ativo junto das comunidades e no papel de evangelização. Esta situação é transversal às diversas religiões, em particular as monoteístas. Enquanto associação humanista, gostaríamos que esta situação mudasse.

No que concerne ao ateísmo, sabemos que muitas mulheres se reconhecem como ateias, mas poucas (ainda) são vocais quanto ao tema. Ao elaborar a lista para os órgãos sociais, procurei incluir mais mulheres, mas pouca foi a disponibilidade (as causas são várias). Assim, neste Dia Internacional da Mulher, exorto à participação feminina para que a sua voz seja ouvida, porque a vossa opinião conta muito. Mulheres e Homens devem fazer-se ouvir dentro e fora desta nossa comunidade que estamos a tentar congregar. Juntos, a nossa mensagem terá mais força.

Fonte: Super Interessante