No passado domingo o Papa Bento XVI, visitou o campo de concentração de Auschwitz.
Muito pelo contrário, a pergunta certa deveria antes ser:
(Publicado simultaneamente no «Random Precision»)
Na aldeia onde fui criança soía as famílias agradecerem a Deus a fome que sobrava das refeições, os governantes que eram e a bondade divina pelos filhos que arribavam.
Na escola, o intervalo do almoço era cumprido com uma côdea de centeio com algumas semanas de cozedura e, no tempo próprio, amoras silvestres ou figos colhidos à socapa pelos garotos, na ausência do dono.
Apenas a fé era robusta e firme a determinação em cumprir a vontade de Deus, entidade que as catequistas louvavam e descreviam como a mais pérfida e sinistra das criaturas.
O padre era o único indivíduo motorizado nas paróquias que lhe cabiam. Usava batina preta com nódoas variadas. No cocuruto fulgia a alvura de um círculo no coiro cabeludo – a tonsura -, exibida com vaidade como marca do Vaticano.
O sino da igreja tocava para um ror de situações, desde os fogos a que urgia acudir até à fonte que era preciso despejar e lavar. Mas era quase sempre ao serviço das almas que as badaladas soavam, com som pungente a finados, estridentes nas procissões, aflitas em caso de acidente ou arrastadas à hora das trindades.
Deus estava em toda a parte, nos calos dos joelhos, nas persignações, nas ave-marias e no terço que todos os dias de Maio enchia a igreja para conversão da Rússia.
O mundo era então pior do que hoje, embora não pareça. Comunistas, judeus e maçons eram inimigos do Deus das catequistas e do Sr. padre e quem aturava o azedume divino eram as crianças, que se fartavam de rezar para lhe aplacar a ira.
A miséria, a fé e o analfabetismo eram a herança legada de geração em geração até que uma professora briosa resgatou as pessoas ao analfabetismo e o conhecimento começou, lentamente, a expulsar Deus.
Até o padre se cansou e trocou a batina e o breviário por uma paroquiana.
Nunca mais tive acesso a um vídeo ao qual me tinha referido no meu último artigo. Mas o autor do blogue «O calhamaço dos Embustes» deixou na caixa de comentário do meu último artigo uma série de referências muito interessantes…
Este video mostra Edir Macedo a expôr a sua estratégia mercantilista:
É revoltante!
Além disso, não deixa de ser curioso ver este video (menina pastora); ou este outro (queima de uma maldição); ou ainda este outro (fala uma senhora que tinha deixado de frequentar a IURD porque 10% dos seus 40 contos mensais eram uma depesa muito pesada).
Para evitar arreliadores comportamentos que comprometem as pias recomendações e a reputação do Vaticano:
Com som…. caso contrário não se percebe a piada.
Já aqui falámos da visita de Ratzinger à Polónia, possivelmente um dos últimos redutos do fanatismo católico em solo europeu e de uma opressão política e social que é sistematicamente ignorada pela maioria dos estados membros.
Mas é de acrescentar umas notas sobre o discurso do papa aquando da visita aos campos de concentração. Como político que é não se conteve e teve que fazer mais uns quantos comentários depreciativos sobre a modernidade (compreendo que um rei que se vê privado da maioria do seu poder se sinta ultrajado pela República…), ou seja, para quem ainda não percebeu: Ratzinger acha que o holocausto é uma boa arma política para combate político! Reflecte uma falta de decência que seria impensável para qualquer governante secular, para um líder religiosos parece que é louvável.
É perfeitamente previsível que uma organização que vê o número de seguidores drasticamente diminuído sinta que tem que atacar violentamente a causa das suas desgraças. O que já não é normal é que se use de forma hipócrita a memória das vítimas do holocausto para esses fins! Especialmente quando em todo o discurso não houve uma palavra de reconhecimento da culpa colectiva católica no anti-semitismo polaco (e não só) – um ódio ancestral. Foi um sentimento que sempre esteve presente na nação, não foi importado da Alemanha aquando da guerra. Apesar das suas longas raízes históricas Ratzinger preferiu falar dos mártires e da maldade da modernidade em vez de reconhecer a culpa da Igreja em todo este cenário cultural.
Mas voltando à modernidade, parece-me claro que a Igreja tem um terror ao mundo moderno, um mundo que além de já não lhe reconhecer autoridade quase já não lhe reconhece valor o que leva frequentemente ao isolamento da realidade e por sua vez à mentalidade da teoria da conspiração. Tal como o Jesuíta Barruel no século XVIII criou a conspiração maçónica/jacobina universal também os actuais porta vozes do Vaticano (como os jesuítas caíram um pouco em desgraça calculo que a opus dei seja no futuro o veiculo privilegiado para este processo) criam a sua própria mitologia da conspiração em que os sinistros ateus são movidos apenas por um ódio irracional, sem qualquer projecto ou objectivo.
Sinto-me alvo de injustiça quando os católicos me acusam de privilegiar a sua Igreja em detrimento das outras.
Sempre considerei todas as religiões falsas. Nunca poupei os judeus das trancinhas à Dama das Camélias que execram a liberdade, a carne de porco e a integridade da Palestina. Nunca fui solidário com quem marra piamente no Muro das Lamentações, apenas sinto alguma piedade pelas pedras seculares e a sua preservação.
Não me canso de denunciar o carácter misógino das religiões do livro, a sanha contra a liberdade, a sua homofobia assassina, enfim, a glorificação de um Deus demente, cruel, sádico e apocalíptico.
Não vejo no protestantismo evangélico, que exige o ensino obrigatório do criacionismo nas escolas públicas e uma vida de acordo com as determinações bíblicas, maior abertura intelectual do que nos mullahs que deliram a lapidar mulheres adúlteras para deleite de Maomé.
O Papa, como vértice da pirâmide de anacrónicos sacerdotes do obscurantismo, tem, é certo, gozado de especial e merecido destaque. A forma como interfere, através dos núncios e das conferências episcopais, nas decisões democráticas dos países livres, torna-o um alvo apetecível.
Longe de mim considerar uma mentira melhor do que outra, uma religião menos perigosa do que a concorrente.
Mas não nos iludamos, não é nas mentiras da fé que está o perigo, é no poder do clero.
Todos os dias passo pelo gigantesco templo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) quando subo a alameda a caminho do IST. Isso vai-me lembrando que a IURD não desapareceu: ainda tem muitos crentes e alguma importância na nossa sociedade.
Eu não gosto da IURD. Não gosto da forma como exploram as pessoas, as mais pobres, as mais vulneráveis. Não gosto de ver aqueles folhetos em que as pessoas põem cruzinhas nos seus problemas – infidelidade conjugal, filho viciado em drogas, violência doméstica, etc… – esperando que com a ajuda de algumas economias oferecidas à Igreja, Deus lhes vá resolver esses problemas. Não gosto da teatrada toda dos «corpos possuídos», quando os Pastores sabem muito bem que tudo aquilo é um disparate.
Não gosto de saber que pessoas tão ateias como eu estão a tirar proveito dos mais desfavorecidos.
E realmente fiquei muito revoltado quando vi aquele vídeo em que o Bispo Edir Macedo se rebola em dinheiro, rindo-se da estupidez dos crentes da Igreja que fundou. Depois vieram dizer que o video foi «obra do Diabo». É preciso ter muita lata! Mas os crentes, esses continuaram. Sempre a acreditar.
E isto dá muito que pensar sobre a Fé…
Apesar de já o ter visto, não tenho acesso a esse video. Mas recentemente, através de um comentador, tive acesso a este. Vejam-no! O video diz muito sobre a natureza da IURD…
A cerimónia de beatificação da freira Rita Amada de Jesus esteve marcada para 24 de Abril e aconteceu – como foi público -, em 28 de Maio.
A Igreja católica, na sua mais jurássica expressão de que a diocese de Viseu tem sido paradigma, dá preferência a certas datas. O 24 de Abril ou o 28 de Maio são datas que a pia nostalgia autóctone não deixa cair no olvido.
A beatificação da freira deve ter constituído uma euforia para a superstição autóctone, um lenitivo para uma região a que falta desenvolvimento mas sobra piedade.
Da sepultura do cemitério de Ribafeita saltou um milagre do cadáver da freira, no ramo da gastrenterologia, milagre que o Vaticano logo reconheceu com a autoridade que lhe sobra na matéria e a honestidade que se lhe conhece.
Em 1989, no Brasil, uma mulher, atingida por doença mortal no intestino, curou-se por intercessão de Rita Amada de Jesus. O Papa nunca tem dúvidas e raramente se engana.
Creio que é uma glória para nós, portugueses, sermos capazes de milagres como os mais avançados que se fazem no estrangeiro, concebidos e executados por cadáveres pios, sem necessidade de tecnologia importada.
Basta uma freira com gosto pela flagelação e por rezas para conseguir o milagre pedido por uma devota supersticiosa e aflita. É espantoso um milagre saído de um cemitério dos arredores de Viseu a caminho do Brasil.
Só me surpreende que Deus não faça milagres fora da área de influência da ICAR para mostrar aos ímpios a sua força e distribuir os milagres pelas aldeias das várias religiões.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.