Loading

Mês: Novembro 2004

28 de Novembro, 2004 Mariana de Oliveira

Santa Tosta

Duas semanas atrás, o André relatou a venda deste objecto, no site de leilões eBay, cuja base de licitação era de 10 dólares. Na passada segunda-feira e um milhão e seiscentas mil consultas depois, o casino «on-line» GoldenPalace.com adquiriu, pela módica quantia de 28 000 dólares, uma tosta de queijo, parcialmente comida e com dez anos de idade, onde está embutida uma imagem da suposta Virgem Maria.

Steve Baker, presidente do Cyber World Group, empresa a que pertence o casino adquirente, afirmou que a tosta «representa algo que acreditamos ser um fragmento da cultura pop americana».

Santa TostaA antiga proprietária, Diana Duyser, desenhadora de jóias com 52 anos, acredita ter cozinhado para o pequeno-almoço uma imagem da mãe de Jesus, há uma década atrás. Quando deu a primeira dentada, contou, «cuspiu-a». «Estava chocada. Aquilo assustou-me, realmente».

O GoldenPalace.com promove a tosta como sendo um «ícone religioso» com uma «imagem mistificadora» e vai enviar a iguaria numa «tournée» mundial.

Diana Duyser vai ter saudades da tosta «porque era um conforto quando os tempos não eram fáceis», apesar de nunca ter tido uma intervenção milagrosa na cura do marido que sofre de enfisema.

De tempos a tempos, aparecem estes fenómenos intrigantes pela forma como se tornam expressão da crendice popular e do aproveitamento da ingenuidade de um sem número de pessoas mais susceptíveis de caírem no «conto do vigário». No entanto, tais fenómenos não estão assim tão distantes como à primeira vista poderia parecer dos milagres e das aparições de Virgens Marias um pouco por toda a Europa e do subsequente aproveitamento económico que as religiões organizadas fazem deles.

Caso se tenha tornado fã do pedaço de pão com queijo tostado, e pensando já no Natal, poderá adquirir t-shirts, tapetes para o rato, canecas, sacos ou aventais com a imagem santa tosta, criar a sua própria tosta abençoada e ver tostas com caras de famosos. Numa nota menos mercantilista, é possível seguir a viagem, através dos Estados Unidos, até Las Vegas, pelo do blogue oficial, «Follow the Cheese».

28 de Novembro, 2004 jvasco

Conselhos de leitura

A propósito da questão do criacionismo, pertinentemente trazida pela Palmira, aproveito para aconselhar um artigo curioso da autoria de um membro do fórum (Leonardo Vasconcelos), que aborda algumas questões relativas aos novos desenvolvimentos na gereralização da teoria da selecção natural.

E já que aconselho leituras, não será de mais sugerir uma espreitadela ao blogue do Banqueiro Anarquista, onde o Francisco Burnay (co-autor, comigo, desse blogue) escreveu um artigo interessante chamado (des)Apologia teológica.

Quanto à actualidade, sugiro dois artigos do público: Confrarias e Madrassas disputam a fé dos Moçambicanos, sobre o aumento da influência do islamismo em Moçambique, e Os Fundamentalistas Semeiam o Fruto nos Jovens, uma entrevista sobre esse mesmo assunto.

Ainda sobre o islamismo, vale a pena ler o artigo de opinião no Diário de Notícias, de M. Youssuf Adamgy, que fala sobre o assassinato de Theo Van Gogh.

Boas leituras!

28 de Novembro, 2004 Palmira Silva

Os dinossauros de Deus

«Destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei o entendimento dos entendidos.» Coríntios 1:18-27.

«A Tradição é a personalidade dos imbecis» Albert Einstein

As religiões mais antigas reverenciavam o Sol e a Lua como deuses: a ciência provou que são apenas corpos celestes. Durante muito tempo acreditou-se que a Terra era plana. Depois, acreditou-se que o centro da criação era o homem na Terra. A ciência provou que o próprio Sol se move no universo, bem como todo o sistema solar. Existem inúmeros pontos semelhantes: cada vez que a religião coloca algum tipo de santidade no plano do concreto, a ciência vem contradizê-la, o que é feito naturalmente, sem perseguições. Alguém conhece perseguições promovidas pela ciência? Mas todos conhecem perseguições religiosas de todas as espécies e especialmente perseguições a cientistas que pagaram com a vida ou a liberdade a ousadia de afirmar que os ensinamentos supostos científicos da santa Igreja eram apenas um chorrilho de disparates.

Agora que as fogueiras inquisitoriais estão fora de moda, as pretensões tridentinas de mistificação da ciência assumem novos contornos. Especialmente no que diz respeito ao evolucionismo, visto por alguns como o maior «inimigo» do teísmo. Assim, existem várias versões de negação do evolucionismo, algumas completamente rídiculas e acéfalas, como seja o criacionismo puro e duro, que advoga uma leitura literal do Genesis.

O expoente máximo do oxímoro Criacionismo Científico, é o primeiro presidente do Institute for Creation Research, Henry Morris, um engenheiro hidráulico arregimentado por John C. Whitcomb, Jr., um teólogo com interesse na geologia do Dilúvio e no criacionismo, cuja Tese de doutoramento (em Teologia, claro) tinha o título sugestivo «O Dilúvio do Genesis».

Que debitava «pérolas» como:

«A evidência final e conclusiva contra a evolução é o facto de a Bíblia a negar. A Bíblia é a Palavra de Deus, absolutamente inerrante e verbalmente inspirada.»

«O cristão instruído sabe que as evidências para uma completa inspiração divina das Escrituras têm muito mais peso do que as evidências para qualquer facto da ciência. Quando confrontado com o testemunho bíblico consistente sobre um Dilúvio universal, o crente certamente tem de aceitá-lo como sendo inquestionavelmente verdadeiro.»

Mas por que não se rendem aos factos os dinossauros em nome de Deus e aceitam que a Evolução Biológica é inquestionável? E porque têm sucesso em algumas faixas da população? A grande maioria da população não tem acesso à ciência, e as suas descobertas são passíveis de deturpação em nome do proseletismo religioso. A grande preocupação dos prosélitos do criacionismo reside no facto de que se Deus não criou a vida, então todo o mito do cristianismo cai por terra. Muitos cristãos já não acreditam no conto da criação de Adão e Eva, mas não se aperceberam (por enquanto) das suas implicações. Ao desabar a crença na criação do homem, todos os fundamentos desta religião desabam qual castelo de cartas. E uma das cartas fundamentais consiste no mito do pecado original. Se o pecado original é uma fábula, então toda a expiação desse pecado não tem sentido. Assim como a lenda associada ao criador do cristianismo que supostamente se sacrificou para redenção do mítico pecado original.

Para os cristãos cientificamente mais esclarecidos existem versões aparentemente mais sofisticadas e apresentadas como imbatíveis e irrefutáveis. Uma delas é designada por «Princípio Antrópico», ou princípio da natureza do homem, que, baseada na verdade de Monsieur de La Palice que se as constantes da natureza (como por exemplo, a carga e a massa do electrão, a constante de Planck, a velocidade da luz, a permitividade no vácuo, enfim todas as constantes que governam as leis da Física ) fossem diferentes, o Universo como nós o conhecemos não seria possível.

O princípio antrópico recusa que sejamos o que é subjacente ao evolucionismo, ou seja, o produto do acaso e propõe que o Universo e as leis da Física foram «desenhadas» para a existência do Homem. Existem essencialmente três versões do princípio antrópico, desmistificadas aqui ou aqui e ainda aqui:

Princípio Antrópico Fraco (WAP): Os valores das constantes físicas e cosmológicas estão restritas pela exigência que existam locais onde a vida baseada no carbono possa evoluir e pela exigência de que o universo é velho o suficiente para esta já ter evoluído;

Princípio Antrópico Forte (SAP): O universo deve apresentar as propriedades que permitem o desenvolvimento da vida. Ou seja, mais um raciocínio circular, ou Circulus In Demonstrando, a vida existe, logo as constantes fundamentais e as leis de natureza devem ser tais que vida possa existir. Os valores das constantes físicas fundamentais incompatíveis com a vida (e vida inteligente) são proibidos;

Princípio Antrópico Final (FAP). Esta versão diz que o processamento de informação inteligente tem que entrar em existência no universo, e, uma vez entrado em existência, nunca desaparecerá. O FAP tem em Frank Tipler o seu principal advogado de defesa, nomeadamente no livro pomposamente chamado «A Física da Imortalidade».

Este tratado da arrogância pseudo-científica contem um «apêndice para cientistas» de 110 páginas, cheio de operadores, derivadas parciais e integrais, um amontoado de equações matemáticas complexas, confusas e desconexas, que não têm rigorosamente nada a ver com a tese que o autor quer sustentar: a inevitabilidade da existência de Deus. Claro que qualquer cientista que inspeccione as páginas ficará perplexo sobre o que estes apêndices estão lá a fazer… mas o leitor leigo em ciência ficará certamente impressionado com os supostos argumentos científicos do autor. Olhando para os apêndices da minha área de especialização, por exemplo, o apêndice D, «A lei das accções da massa requer indistinguibilidade quântica», só vejo uma forma rebuscada e propositadamente confusa de apresentar a 2ª lei da termodinâmica (com algumas incorrecções formais) que não tem rigorosamente nada a ver com nada que seja apresentado no livro.

Pessoalmente só acredito no CRAP (Princípio Antrópico Completamente Ridículo), como é denonimado o princípio antrópico pelo céptico Martin Gardner.

27 de Novembro, 2004 Palmira Silva

Newsweek proíbida no Paquistão

Um magistrado paquistanês ordenou que todas as cópias do número da Newsweek de 22 de Novembro fossem destruídas sob a alegação de que continham material ofensivo para o Islão.

Em causa está um artigo sobre o assassinato de Theo van Gogh, «Choque de Civilizações» que o magistrado Tariq Mahmood Pirzada afirmou «conter algumas afirmações questionáveis que correspondem à profanação do Corão».

As autoridades paquistanesas estão ainda a considerar uma acção legal contra a publicação, embora não tenham adiantado pormenores sobre a mesma.

Sob a lei paquistanesa da blasfémia, alguém culpado de insultar o Islão, o profeta Maomé ou o Corão, é condenado à morte. O diário em língua inglesa de maior circulação no Paquistão, News, classificou ontem o artigo ofensivo como «blasfemo e altamente provocativo».

26 de Novembro, 2004 Mariana de Oliveira

ENA III

Companheiros, amigos, camaradas, fãs e afins,

Vai realizar-se, no dia 19 de Dezembro, em Coimbra, o III Encontro Nacional de Ateus.

Estão a ser ultimados os pormenores da organização e, brevemente, comunicar-vos-emos como e onde se devem inscrever, o programa do evento e outras informações importantes.

Esperamos, desde já, o vosso interesse numa eventual participação.

26 de Novembro, 2004 Palmira Silva

Fernando Valle



O Diário Ateísta presta a sua homenagem a uma referência cívica para todos nós: Fernando Valle, médico que «empobreceu a fazer Medicina», humanista, republicano, laico, «democrata, de maneira profunda, muito ligado ao povo».

O «Matusalém sem idade», como o intitulava Miguel Torga, faleceu hoje em Coimbra. Foi um opositor da ditadura, o que lhe valeu várias detenções pela polícia política, e o afastamento, por Salazar, das funções de médico municipal e delegado de saúde em Arganil. Foi fundador, na clandestinidade, do Partido Socialista.

26 de Novembro, 2004 Carlos Esperança

A fé do general da R.M.S.

Na Região Militar Sul, o Exército português pode falhar o alvo, mas acerta na hóstia; talvez não saiba orientar-se na guerra mas sabe, em tempo de paz, encontrar o caminho da missa; não será exímio em manobras mas é insuperável em «Encontros Jubilares». Antigamente os generais preparavam as tropas para o combate, hoje orientam os soldados para a salvação da alma. Em vez da carreira de tiro preferem celebrações religiosas e substituem a táctica militar pela divulgação dos dogmas religiosos.

Esta é a conclusão a tirar do convite feito pelo General Comandante da Região Militar Sul ao bispo Januário para um encontro em Vila Viçosa, com os militares, funcionários civis e familiares das Unidades, Estabelecimentos e Órgãos sob o seu comando. O objectivo é celebrar os cento e cinquenta anos do dogma da Imaculada Conceição, proclamada padroeira de Portugal por D. João IV, função nunca homologada em Diário da República após a instauração da democracia em Portugal.

Integrada no programa militar, teve lugar a Celebração Mariana e a reflexão sobre «Nossa Senhora da Conceição e o seu Santuário Nacional», pelo padre Mário Tavares, seguida da Eucaristia presidida pelo bispo das Forças Armadas e das Forças de Segurança, a quem coube, certamente, disparar hóstias tendo como alvo a boca dos militares.

É verdade que as Forças Armadas Portuguesas se cobriram de glória em 1820, 1910 e 1974 mas não foi, certamente, com a ajuda da padroeira que no tempo de D. João IV não era ainda virgem. O dogma da virgindade é uma bizarria que se deve a PIO IX, um papa ultra-reaccionário e anti-semita que, depois de ter condenado o socialismo, a democracia, o liberalismo e a maçonaria, excomungou os judeus, os livres-pensadores, os que contestavam o poder temporal da ICAR e todos os que se batiam pelos valores que deram origem às modernas democracias.

Apostila: Pio IX foi ainda o inventor de um segundo dogma – o da infalibilidade papal. E, recentemente, fez um milagre encomendado e confirmado por JP2.

25 de Novembro, 2004 Ricardo Alves

Liberdade de expressão e delito de blasfémia

(1) Tentativa de endurecer a lei contra a blasfémia fracassou nos Países Baixos

Tal como em muitos outros países europeus (Alemanha, Reino Unido, Áustria, Dinamarca, Finlândia), a liberdade de criticar a religião nos Países Baixos está limitada por uma lei contra a blasfémia. Na sequência do assassinato de Theo van Gogh, o Partido Democrata Cristão holandês (do primeiro ministro Balkenende) tentou endurecer esta lei, que data de 1932 e foi utilizada pela última vez em 1968 (quando um romancista escreveu um livro em que «Deus» era um burro). Felizmente, esta iniciativa foi travada no Parlamento holandês. Mas não ficou claro se o «discurso de ódio religioso» que o Ministro da Justiça pretendia limitar era o dos sermões de alguns fanáticos islâmicos, ou o de filmes como o já famoso «Submissão» de Theo Van Gogh…

Fonte: National Secular Society.

(2) Senadora belga ameaçada de morte pela extrema direita islamista

Mimount Bousakla, uma senadora socialista de Antuérpia de origem marroquina e nacionalidade belga, encontra-se ameaçada de morte e sob protecção policial, após ter criticado grupos muçulmanos que não condenaram o assassinato de Theo Van Gogh. Bousakla escreveu há alguns anos um livro («Couscous et pommes frites») onde denunciou o papel de submissão que é esperado das mulheres nas sociedades muçulmanas, nomeadamente os casamentos forçados. Embora não fale publicamente das suas crenças religiosas, pensa-se que Bousakla poderá ser uma apóstata, o que para os islamistas é causa para condenação à morte.

Fonte: National Secular Society.

(3) Lei da blasfémia alterada no Paquistão

A lei contra a blasfémia do Paquistão, que restringe enormemente a liberdade de expressão neste país asiático, foi alterada. As emendas introduzidas na lei pelo governo de Musharraf implicam que o início de um processo por blasfémia necessitará de uma investigação conduzida por um oficial de justiça, enquanto até aqui bastava qualquer denúncia para efectuar uma prisão e começar o processo judicial. A alteração é insuficiente, uma vez que mantém a pena de morte para casos de blasfémia. As disposições legais paquistanesas contra a blasfémia já foram usadas em cerca de 4000 ocasiões desde 1986, muitas vezes por questões de vingança pessoal.

Fonte: Rationalist International.

25 de Novembro, 2004 Palmira Silva

De volta ao Genesis

Uma pesquisa divulgada pela CBS indica que cerca de dois terços dos americanos deseja que o criacionismo seja ensinado nas escolas como alternativa ao evolucionismo. Na realidade 37% dos americanos quer mesmo que o ensino do criacionismo substitua o evolucionismo nos curricula escolares.

A pesquisa indica ainda que a maioria dos americanos acredita que Deus criou os homens na sua forma actual e dos restantes, que aceitam a evolução do Homem, apenas 13% diz que não houve envolvimento de Deus no processo.

Os resultados deste estudo, para além de preocupantes, são inesperados na nação onde a investigação científica e o desenvolvimento tecnológico subsquente, nomeadamente a nível das biotecnologias, são considerados os mais avançados do mundo. Constituem também razão de reflexão para a comunidade científica que aparentemente falhou na passagem da sua mensagem para a população em geral. O criacionismo é completamente absurdo, sem qualquer base científica e as pretensões dos pseudo cientistas que o divulgam muito fáceis de desmascarar. Por exemplo, as fantasias que a Terra tem apenas seis mil anos, que o Grand Canyon foi formado num dia como consequência do dilúvio ou que os homens coexistiram com os dinossauros, como é afirmado no parque temático Dinosaur Adventure Land na Flórida.

23 de Novembro, 2004 Mariana de Oliveira

Malta anti-ateísta

O número de ateus ou de pessoas que seguem uma vida sem a cognoscência de Deus está a aumentar em Malta. Quem o afirma é o arcebispo Joseph Mercieca, que advertiu que a sociedade maltesa está a brincar com o fogo, não precisando, no entanto, se existe algum plano divino para castigar os cidadão do novo Estado-membro da União Europeia através da imolação.

O arcebispo disse que, de acordo com os ateus, as revelações morais que iluminam a doutrina da Igreja Católica devem ser postas de lado da vida pública e remetidas apenas para o foro privado. Os ateus defendem, segundo ele, que os princípios católicos não devem influenciar um juízo moral sobre a política e os assuntos do Estado. Por acaso, o prelado não deturpou grandemente algumas das bases do pensamento ateísta.

Ora, estas posições são más posições. Porquê? Porque «são ensinamentos baseados numa compreensão errada da natureza humana. Os seres humanos são criados à semelhança de Deus e só através dele eles atingirão a realização». O senhor bispo esqueceu-se de que o ateísmo faz parte da natureza humana uma vez que o Homem nasce sem crenças só as adquirindo através da educação e do contacto com a sociedade. Quanto à semelhança com Deus, esta ainda não foi provada já que este nunca se dignou a aparecer para tirar teimas.