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Etiqueta: Religião

21 de Julho, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (2)

O Ser Humano é, irremediavelmente, um animal. Não passamos de “orangotangos” com a faculdade de pensar, sonhar e executar. Não há animal algum (orangotango ou felino) que possa ser visto com vida depois de ter morrido, e o meu gato jamais viu o fantasma do seu bisavô persa. Mas nós (“orangotangos” Sapiens) afirmamos ter visto Jesus Cristo vivo depois de ele ter sido morto, e que também topamos com a sua mãe Maria, Vivinha da Silva, nas circunstâncias mais improváveis, incluindo aquela (de 1917) em que se encarrapitou no cocuruto de uma azinheira uma vez por mês durante meio ano, falando Português… Língua que só foi criada mais de 800 anos depois de ela morrer !…

Só nós, os Homo sapiens, somos capazes de tal façanha… e por uma razão muito simples: porque raciocinamos e sonhamos, e muito do que criamos fazêmo-lo à medida da nossa fé… que é sempre a medida das nossas necessidades e, principalmente, no rigoroso tamanho da nossa ignorância. Mas isto acontece porque possuímos um cérebro capaz de nos tornar interrogativos, criativos e inventivos… numa palavra: inteligentes… e noutra: religiosos.

O dicionário diz-nos que a inteligência é o “conjunto de todas as funções que têm por objecto o conhecimento, a faculdade de entender”. Ora… é aqui que começam os problemas… mas também as soluções. Quando não conhecemos a coisa que desejamos conhecer, a nossa faculdade de procurar entender o que nos acontece, que observamos e sentimos, leva-nos à procura de uma explicação; e esta, por tão desejada, corre o risco de, antes de ser encontrada, começar por ser inventada no formato de “mentira inconsciente”… aumentando o risco de se fixar como verdadeira. 

Quanto maior for o espaço de tempo em que a apresentamos como real, maior é esse risco. A razão de “isto ser assim” reside no facto de termos nós, Seres Humanos, ultrapassado o estatuto de orangotango (o que não aconteceu ao meu gato… que nem aí chegou). A “mentira em formato de explicação na fé” acaba por se fixar nas nossas mentes, tornando mais difícil a sua substituição por uma explicação verdadeira, real e autêntica, até porque a função da religiosidade é exactamente a de rejeitar a verdade histórica e natural, colocando no seu lugar uma hipótese sugerida pela fé que depositamos no impossível. 

É isto o que ocorre no nosso entendimento quando defendemos a ideia de haver vida para além da morte?

Vejamos… a frase “vida depois da morte” é uma incongruência, porque a morte anula a vida e nada mais há para aquele que morreu… ele tem a vida anulada. É como apagar uma vela de estearina… a chama apaga-se definitivamente; não se translada para outra vela. Morreu!… Deixou de ser… já não é! O que “há para além da morte”, já não tem a ver com o finado (que, como morto, deixou de existir, de sentir, de actuar… de ser!…), mas tem a ver com a vontade dos que cá ficam, familiares e amigos, perpetuando no tempo a memória do falecido. 

Este perpetuar da memória é a única forma que há de eternidade: a memorial, a histórica. A memória dos meus pais será tão longa quanto mais longa for a vida daqueles que os recordam. Na minha morte e na da minha mulher, fica a minha filha que os recordará. Os meus netos, embora não tivessem conhecido os bisavós, sabem das suas existências e histórias que ouviram contar sobre eles, pelo que os meus pais continuarão vivos nas suas memórias. Quando morrer a última pessoa que os recorda, acontecerá a segunda e derradeira morte dos meus pais. 

É assim com toda a “eternidade”, exceptuando a histórica… mas mesmo essa só é perene se for registada e duradoura. Sem um registo que perdure no tempo, mais a existência de quem a lembre… nem a eternidade é eterna!… 

(Continua)

21 de Julho, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (1)

No passado dia 17 de Junho teve lugar, no Auditório Municipal de Gondomar, uma palestra subordinada ao tema “Ciência e Espiritualidade – A Vida Depois da Morte”, com a presença de Luís Portela, médico, empresário e Presidente da Fundação Bial, apresentado pelo meu amigo Mário Augusto, companheiro de lides televisivas e jornalísticas desde há 40 anos.

Luís Portela foi colaborador do Jornal de Notícias nas décadas de 1980/90, onde publicava artigos de opinião e eu ilustrei alguns deles. Sabia, desde então, do seu interesse no tema. É uma personalidade reconhecida pelo seu notável percurso profissional e pela abordagem rigorosa e científica que faz às questões da consciência, da espiritualidade e da relação entre Ciência e experiência humana.

Portanto, pela sua formação científica, Luís Portela não pode ser considerado “defensor do indefensável”, como à primeira vista pode parecer a frase “vida depois da morte”.

Eu fui assistir. Portela deu o exemplo de uma criança recordar “situações vividas noutra vida passada”… presumo que na Inglaterra ou Alemanha… não registei convenientemente a informação, o que levou um grupo de estudiosos a deslocar-se à cidade onde teria vivido (há imensos anos) a personagem que a criança dizia ser. Encontraram familiares da tal personagem que atestaram os factos que a criança disse ter vivido numa vida passada.

Isto remeteu-me a memória para uma série de artigos publicados no jornal O Primeiro de Janeiro na década de 1960, onde se registavam experiências idênticas sob o título genérico “Mais Estranho do Que a Ficção”. De um desses relatos (transformado em clássico, já divulgado com versões aproximadas) recordo a história: um automobilista (presumo que em Inglaterra), numa madrugada fria e chuvosa, encontrou na estrada uma mulher jovem, vestida de branco, que lhe fez paragem e pediu boleia para uma determinada morada. A meio da manhã o homem reparou que a jovem deixou uma pequena carteira no banco do carro. Voltou à morada para a devolver, bateu à porta, foi atendido por um casal idoso que garantiu não haver nenhuma jovem lá em casa, e muito menos que tenha chegado de madrugada!

No decorrer da conversa que o automobilista fez questão de salientar que não sonhou nem tinha bebido… o casal idoso foi buscar uma fotografia de uma jovem, que o homem reconheceu como sendo a mulher a quem deu boleia… era filha daquele casal… mas já havia falecido há três décadas!

Perante relatos destes, eu tenho duas reacções. De acordo com a personalidade do relator, eu acredito ou não acredito. Devo confessar que tenho “um caso enigmático em minha casa”: a minha filha tem experiências idênticas vividas por si… e eu acredito nela porque a eduquei e sei que não mente nem inventa as situações que diz ter vivido. Do mesmo modo reconheço ao doutor Luís Portela seriedade científica para aceitar a honestidade dos seus discursos, tal como aceito os da minha filha… mas não encontro racionalidade neles!… É um túnel sem luz ao fundo… o que não ajuda a dissipar o enigma de modo que me leve a compreender a narrativa com naturalidade e sem dúvidas, percebendo-a.

Vou dedicar dois ou três artigos a este caso para poder transmitir aos meus leitores a minha opinião sobre o assunto “Vida depois da Morte”. 

 (Continua)

12 de Maio, 2026 Onofre Varela

O equívoco chamado Trump…

Por Onofre Varela

Robert Francis Prevost (Leão XIV) deve ter sofrido uma espécie de “trambolhão” no dia em que foi escolhido para exercer o papel de Papa no Vaticano, ocupando a cadeira deixada vaga por um Homem de difícil substituição: Mário Bergoglio, no papel de Papa Francisco. Acredito que não teria sido fácil para si próprio dar continuidade à linha de procedimento adoptada pelo seu antecessor, e a cujos apreciadores Leão XIV não quer desiludir.

Embora cada chefe de qualquer organização deva “ser igual a si próprio”, não copiando ninguém – porque uma cópia pode não ser boa escolha – no caso do Papa Francisco ninguém tem dúvida de que os olhos de todo o mundo estão colocados sobre Leão XIV, tanto os enaltecedores de Bergoglio, que esperam ver nele um sucessor na construção do mesmo caminho encetado por Francisco, quanto os seus opositores, que esperam um papa menos humano, mais beato e ligado ao mofo dos pergaminhos que fazem a História da Igreja Católica, na esperança de um retrocesso na linha de conduta social, agradando à extrema-direita que insultava Francisco apoucando-o de comunista… (se acaso tal palavra é sinónimo de insulto ou menos valia!…).

Logo após a escolha de Robert Francis Prevost (cardeal norte-americano também com nacionalidade peruana) para assumir o papel de Papa com o nome de Leão XIV, Trump manifestou vontade em o receber na Casa Branca… porém, continua à espera!… Para Trump, receber Leão XIV na Casa Branca, seria a cereja em cima do bolo… um narcisista inveterado, arvorar-se em candidato ao Nobel da Paz, fazer a guerra e ter na figura do Papa um amigo!…

Neste momento o Vaticano teme que o conflito protagonizado por Trump e Netanyahu acabe por ser transformado numa guerra religiosa. Por isso Leão XIV não se cansa de chamar a atenção para a paz, tomando uma posição cada vez mais contra a Casa Branca, num choque que nunca foi explícito e que o Papa trata de evitar desde a sua eleição há cerca de um ano.

Nesta contenda ouvem-se vozes religiosas dos aiatolás, constantemente apelando a Deus para que lhes dê uma vitória, tal como Netanyahu apela a Deus nas suas citações bíblicas, ao mesmo tempo que no escritório Oval da Casa Branca, Trump e os seus bonequinhos de pelúcia da “América Grande Outra Vez” transformada em religião evangélica sustentada em arco pelo secretário de defesa Peter Hegseth, ex-militar que combateu no Iraque e no Afeganistão e decora o corpo com tatuagens evocando as Cruzadas!

Para além desta imagem totalmente parva (dada a distância no tempo e as realidades políticas de cada época) Hegseth destacou, numa entrevista, o valor da fé cristã nesta guerra. Juntando mais gasolina na estúpida fogueira da fé, o porta-voz republicano no Congresso, Mike Johnson, também disse, há cerca de duas semanas, que “o Irão tem uma religião equivocada”!

Tudo isto torna mais evidente o conflito entre Roma, Washington e o Islão, numa situação de crispação política que não necessita, absolutamente, de extremismos religiosos para afirmar a estúpida guerra que, só por si, já representa…

OV

7 de Maio, 2026 Onofre Varela

Missas tecnológicas (4 e fim)

A experiência mostra-nos que a invenção da escrita não levou ao esquecimento, como receava Sócrates pelo facto de, na sua opinião, não exercitarmos a memória; bem pelo contrário. E nem a máquina de calcular nos impediu de fazermos contas de cabeça, nem o aparecimento da televisão anulou a rádio. Somos uma espécie de “gajos porreiros”, convivendo pacificamente com a evolução tecnológica (embora haja por aí uns quantos parasitas que a usam como arma de guerra). O mais certo, digo eu – e quero acreditar no que digo – é continuarmos com tal convívio, usando a técnica em nosso proveito sem deixarmos de ser o mesmo “sapiens” que criou a civilização, que domina o mundo e já foi à Lua.

A evolução natural melhorar-nos-á (esta é a minha grande fé), independentemente das ferramentas que criarmos para seguirmos no caminho do progresso. Mas a dúvida anda por aí… mormente agora, quando o ChatGPT se imiscui na filosofia religiosa, a qual sempre foi íntima! O mundo está perdido (diria a minha avó)!

A maldade executada com as novas ferramentas não deve ser assacada à ciência que as criou, mas sim aos energúmenos que as usam para fins menos dignos. O energúmeno já existia antes de haver a nova ferramenta… esta, só lhe serve como extensão do pensamento e do braço que faz a maldade. No caso deste meu escrito, a palavra “maldade” não deve ser entendida como “assalto a uma velhinha”… a maldade é mais lata e vem camuflada em forma política, económica e religiosa.

“Ter Jesus Cristo ao alcance da mão” no telemóvel ou no computador, todos os dias e a qualquer hora, foi a ideia de Paul Powers, de 43 anos e natural de Dublin… que criou uma versão de Jesus com IA. É um “Jesus” com quem se conversa a todo o momento, mas que também consegue partilhar sentimentos e servir de consultor. É um modelo de IA que Powers baptisou de GPTJesus: um chat dentro do chat GPT.

À semelhança de qualquer bispo de aviário das seitas religiosas em forma de samba, o GPTJesus tem resposta para qualquer pergunta, mas com a mais valia (para o crente) de se (pensar) estar a falar, realmente, com Jesus! É um verdadeiro assalto à consciência, feito à mão armada de crucifixo tecnológico!… Entra-se com um cumprimento: “Olá Jesus”. E obtém-se como resposta: “A paz esteja contigo, meu filho. Alegra-me que me fales com simplicidade. Como está o teu coração, hoje?” O Chat foi municiado com “todo o conhecimento de Jesus” com base no Novo e no Antigo Testamentos, mais textos agnósticos onde se menciona Jesus. O autor desta moderna “banha de cobra de computador”, confessa que o mais importante é, sem dúvida, a personalidade de Jesus.

Diz ele: “Forneci ao chat os critérios para que, quando respondesse, o fizesse sempre como se fosse o próprio Jesus e oferecesse uma oração e apoio, sempre respondido na primeira pessoa, com orientação espiritual, apoio emocional, conhecimentos tecnológicos e orações personalizadas, sempre com amabilidade e humildade, e enfatizando, sempre, o amor e o perdão.”

Para Santiago Collado, director do grupo Ciência, Razão e Fé, decano da Faculdade Eclesiástica de Filosofia da Universidade de Navarra (da Opus Dei) a religião pode conseguir muito partido da IA porque são ferramentas ao alcance de qualquer um e que podem ordenar os textos religiosos facilitando o seu acesso”. Mas quanto ao facto de o Chat personificar o próprio Jesus, a perspectiva muda: “Aí já se está a ultrapassar o limite, o que me parece negativo”.

O Vaticano já se pronunciou sobre a IA, no documento Antiqua et Nova, dizendo que a IA “carece de dimensões criativas, espirituais e morais”. Mas a imoralidade continua com a exploração da fé por computador, usada por vigaristas digitais. (Fim)

OV

Imagem por Cottonbro Studio

5 de Maio, 2026 Onofre Varela

Missas Tecnológicas (3)

A crente com cujo discurso terminei o artigo anterior, não é jovem nem “acordou” para a fé num piscar de olhos, de um dia para o outro. Ela é freira, tem 56 anos, chama-se Xiskya Valladares, vive em Palma de Maiorca e é conhecida como “a monja do Twitter”. Não é uma monja qualquer. Ela é filóloga, doutora em comunicação e monja digital religiosa da Congregação Pureza de Maria.

Quando penso na pureza do discurso aos peixes, dado por Santo António (de Lisboa, para nós, Portugueses; de Pádua, para os Italianos) e recordado pelo padre António Vieira, que o usou no dia 13 de Junho de 1654, no Brasil, como alegoria para criticar a exploração dos indígenas pelos colonos… quando penso nisto, dizia eu, encontro-me num mundo onde o rosto do outro é o espelho em que me revejo, e a vida do outro tem uma linha inquebrável que a liga à minha própria vida.

Não sendo católico, não é raro assistir a celebrações litúrgicas com todos os meus sentidos alerta, absorvendo tudo quanto ali se passa, cônscio de que, naquela celebração, recuei no tempo. Mas entendo o que estou a ver, e não raras vezes tomo nota de alguma passagem da homilia para consultar livros a propósito, informando-me do que, na missa, não me ficou bem esclarecido.

Para que tudo isto tenha nexo para mim, tenho que viver no mundo real, feito de homens e mulheres reais, gente igual a mim, gente que sofre, que chora, se alegra e ri, como eu sofro e choro, me alegro e rio… e não dentro de um filme de ficção, entre robots de forma humana para enganar os incautos.

A monja Xiskya tem 782.000 seguidores no TikTok e faz parte da organização do jubileu para criadores de conteúdos católicos, no qual “haverá um encontro com o Papa, formação com profissionais da comunicação, oficinas, um concerto, uma missa e uma gincana”.

O Secretariado Nacional de Comunicação de uma coisa designada Associação de Propagandistas Católicos, diz que os “missionários digitais são um lugar de conhecimento da realidade da Igreja, de experiências de fé e de questionamento existencial”.

Uma outra jovem é de opinião de que “a Igreja valoriza cada vez mais a maneira de comunicar a palavra de Deus de uma forma mais próxima, não tão teológica como estamos acostumados”.

“A Internet tem um grande potencial evangelizador”, dizem os fiéis digitais… mas também tem um grande poder manipulador com a divulgação de fake-news… digo eu.

A monja Xiskya diz que “as igrejas estão vazias ou com velhos”… o que me remete para o pensamento desta religiosa no sentido de os velhos não terem valor… são tão valiosos quanto uma igreja vazia!… Mas também diz que se “dirige de igual modo a crentes e ateus porque o valor das pessoas não é medido pela fé”, e que “os homossexuais podem ser catequistas”!… Vá lá… do mal o menos!… Se as tecnologias digitais abrem a mente aos religiosos tornando-os mais humanos, mais solidários… então viva a técnica e queimem-se os catecismos e outros manuais religiosos de cunho islâmico, caquéticos e desumanos.

Mas aqui tenho de voltar ao meu pensamento sobre as religiões: sendo elas, por si só e enquanto crença, uma forma poderosa de dominar o pensamento, podemos imaginar a maldade que pode ser acrescentada aos recados religiosos programados por IA, cujo resultado prático pode transformar qualquer crente numa extensão da ferramenta como à semelhança de uma faca de dois gumes (com ela se parte o pão, mas também se degola o próximo), levando-o a praticar acções que, pela sua fé natural, dotada de consciência fraterna, sem intervenção manipuladora, nunca praticaria… se bem virmos, essa “intenção manipuladora” já existe sem IA… assim acontece com muitos jovens conquistados pelo Islão, cujo resultado tem sido trágico: manipulados por agentes religiosos e desumanos, degolam excelentes cidadãos. (Continua)

OV

Foto de Cottonbro Studio

30 de Abril, 2026 Onofre Varela

Missas Tecnológicas (2)

Durante este ano de 2026, as quatro maiores empresas globais: Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft, planeiam investir mais de 650.000 milhões de dólares em IA, o que corresponde à maior verba investida num só ano em qualquer outro desenvolvimento tecnológico; nem a expansão dos caminhos de ferro em finais do séc. XIX, e os programas da NASA para conquistar o espaço e desembarcar na Lua no séc. XX, consumiram tantos recursos em tão pouco tempo.

Schumer (que citei no artigo anterior) aponta um futuro próximo frenético, e explica como nos últimos anos os modelos da informática criados por algoritmos conseguiram avanços exponenciais, de tal modo que os novos modelos não correspondem a melhorias graduais… pelo contrário, são “algo completamente diferente”.

Conclui-se que a Inteligência Artificial (IA) não é um “substituto de trabalhos humanos específicos”, mas sim “um substituto de trabalho geral dos humanos”.

E é neste ponto, quando os humanos são substituídos em larga escala por máquinas, que a minha reflexão ganha sentido. As transformações sociais conseguidas pelo uso da IA, autorizam-me a dizer que quem recorre a tal ferramenta corre o risco de se habituar a não pensar, porque tem uma máquina que o faz por si! E isto não é mau… é péssimo!

A IA também é usada para criar desinformação política e científica, entre outras desinformações. É que a IA não pensa… dá respostas conforme modelos armazenados, sem competência para pensar! Estou a lembrar-me daquele sujeito que perguntou ao ChatGPT: “preciso de lavar o carro e o posto de lavagem fica a 100 metros de onde estou. Vou de carro, ou a pé?”. A resposta imediata influenciada pelo manual de economia armazenada no programa, foi esta: “Dada a pouca distância, é aconselhável ir a pé”!

Com as novas tecnologias já nada é como era dantes. Nem na fé… aliás, na fé parece estar tudo doido!… Relata o jornal espanhol El País que, em Julho de 2023, uma jovem assumiu a sua religiosidade e decidiu casar-se no Vaticano, tendo o Papa Francisco como celebrante e a cerimónia divulgada pela Internet. Ela tinha 30 anos quando redescobriu a sua fé e agora factura com isso usando o Instagram com mais de 56.000 seguidores!

O Vaticano acolheu, nos dias 28 e 29 de Julho de 2025, mil criadores de conteúdos informáticos. Pela primeira vez na História da Igreja se celebrou um jubileu com um milhar de influencers católicos de 46 países.

A Igreja deu-se conta de que os jovens não estão nas paróquias, mas sim nas redes sociais. “Temos a melhor mensagem do mundo, mas é preciso saber vendê-la”, disse a jovem que o Papa casou, que descobriu a “fé digital” e vai fazer dela o seu modo de vida.

A verdade é que a sociedade é, cada vez mais, menos crente; e das pessoas que se dizem católicas, só cerca de 18% se confessam praticantes; os outros, ninguém sabe o que são… nem eles próprios.

Uma das crentes que encontram na “fé digital” uma porta de entrada no reino do céu para falarem com Deus, diz que “as missas já não atraem os jovens, nem sequer a mim” como se ela fosse o exemplo acabado do que é ser-se religioso na fé de um deus!

E não se fica por aqui, diz ela que “é preciso oferecer a mensagem de Jesus numa linguagem renovada”, como que se tivesse descoberto a pólvora e não tenha estado atenta às práticas das seitas evangélicas brasileiras que crescem como cogumelos em estrumeira, passando as mensagens que diz serem de Jesus… mas em ritmo de samba…

(Continua) 

28 de Abril, 2026 Onofre Varela

Missas Tecnológicas (1)

Por Onofre Varela

Notícia recente (divulgada a 14 de Fevereiro) dá conta de que Matt Shumer – co-fundador da OthersideAI, empresa que desenvolve ferramentas impulsionadas por modelos de Inteligência Artificial (IA) de grande escala, como o GPT-3 (uma plataforma de escrita gerada por IA) – alertou o mundo para a possibilidade real de, perante os computadores, “estarmos perante algo de maiores repercussões do que a pandemia do COVID”. Se calhar é só “boca foleira” saída da juventude tenrinha do próprio Shumer… mas o melhor será ouvi-lo para nos cuidarmos.

O uso dos computadores no mundo do trabalho provoca despedimentos em massa em todo o mundo. Sendo o resultado natural da implementação de uma técnica moderna (como aconteceu na época vitoriana, na segunda metade do século XIX, com a Revolução Industrial que transformou aquele período num tempo de profundas mudanças marcadas pela invenção da máquina a vapor).

Embora já esperado desde há muito tempo, sabe-se agora que no pacote de despedimentos provocados pela nova tecnologia, estão os próprios informáticos, criadores dos sistemas “que lhe vão fazer o enterro”. Por ironia, os técnicos de informática que desenvolvem as novas tecnologias conseguiram criar ferramentas que já são programadas pela própria máquina para se tornarem mais inteligentes, dispensando “operadores humanos”.

E não se trata de uma previsão… isto já é uma realidade!

O rápido progresso das ferramentas de IA alimentam o temor generalizado de uma rotura nas indústrias mais expostas à difusão desta tecnologia no âmbito da Economia e, mesmo, do Pensamento (o que poderá ser mais grave).

O uso do ChatGPT como psicólogo, já é atitude que cresce entre os operadores das novas tecnologias, mas tem os seus riscos: reforça o egocentrismo e as ideias paranoicas. É uma ferramenta muito poderosa para aumentar a produtividade no trabalho e nos estudos, pode ser utilizada para automatizar tarefas repetitivas, estruturar ideias, gerar conteúdos e auxiliar na organização de agendas… mas também é (ou pode ser) susceptível de mau uso… incluíndo o crime.

Esta notícia alarmante fez-me lembrar uma outra, já divulgada no final de 2025, na qual se faz saber que a IA já é usada por religiões e seitas aparentadas, ditas evangélicas, para substituir templos, altares, bispos e sacerdotes na assistência religiosa dos crentes.

Perante tecnologia tão avançada (avançada para o nosso tempo… no futuro próximo, ou mais afastado, não faço ideia do potencial que pode ser desenvolvido, inclusive contra nós próprios. A ficção científica já nos mostra a degeneração do Homem… e se a ficção se tornar realidade, a coisa piorará substancialmente) sinto-me autorizado a dizer que as altas capacidades dos novos modelos de IA – mais o risco que supõem para milhares de empregos – quando uma criança puder dar instruções a um computador para criar um vídeo-jogo à sua medida, não sabemos qual a medida nem o teor desse jogo… o que pode redundar num desastre de proporções impensáveis!

Podemos estar a dar espaço e ferramentas para se criarem monstros nas sociedades, se essa criança não tiver formação moral e humanista que a impeça de usar a técnica para danificar algo, ou prejudicar alguém… e em princípio não terá tal formação por falta de tempo para amadurecer o entendimento que ela faz de si e do mundo.

O que se sabe, para já, é que nos meios religiosos, onde os crentes têm necessidade de assistir a missas, a IA já tem programas para dar conselhos, rezar e discutir passagens bíblicas!…

Era aqui que eu queria chegar, mas o espaço disponível chegou ao fim. Continuo esta reflexão na próxima semana. Até lá, passem bem. 

(Continua)

OV

Crédito: Cottonbro Studio

16 de Abril, 2026 Onofre Varela

Eu sou anti-semita?

Por Onofre Varela

A pergunta expressa no título desta prosa foi motivada por uma crítica de que fui alvo em 2023 por parte de uma instituição israelita perante o desenho que ilustra esta crónica, na época (2023) exposto na Bienal de Arte de Gaia, e depois de criticado foi mostrado nos canais da televisão e comentado em rádios e jornais. A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia recebeu carta do consulado israelita em Lisboa exigindo a retirada do apoio que a autarquia dava ao evento, alegadamente por apresentar mensagens “anti-semitas”… do que, então, dei conta neste espaço.

Agora, perante o que se passa no mundo, com ditadores como Putin, Netanyahu e Trump a invadirem territórios independentes pretendendo tomá-los para si (para se apoderarem do território, ou do petróleo e da exploração de minerais), em desrespeito pelos direitos dos respectivos povos e pelas leis internacionais, o assunto de “ser-se anti-qualquer coisa” voltou-me à mente.

É comum qualquer ditador considerar-se insultado por quem critica as suas atitudes, por isso não me admirei de os censores do meu trabalho me rotularem de “anti-semita” (Salazar rotulava de anti-patriota quem não fosse Salazarista, Putin rotula de terrorista quem o critica, e Trump diz que os seus críticos são comunistas). Os ditadores sempre se afirmaram cidadãos exemplares e donos da razão universal… embora só mereçam o encarceramento sem fiança e por largas décadas.

Por isso me obrigo a perguntar: Eu sou anti-semita? Uma definição de “anti-semitismo” (*) pode ser esta: «a recusa de conceder a Israel aquilo que é dado a qualquer outro estado, isto é, uma existência plena, definitiva e estável» (palavras de David Grossman no prefácio do seu livro “O Coração Pensante”, editado pela Dom Quixote em 2024).

Segundo esta definição, eu – que defendo a existência de Israel e da Palestina – não sou anti-semita… mas Putin é anti-ucrânia independente e anti-ocidente; Trump é anti-Gronelândia independente, anti-América Latina e anti-Europa… tal como os sportinguistas são anti-benfiquistas e vice-versa, e os genros são anti-sogra… (uma estupidez de todo o tamanho).

Há um tipo de “anti” de que eu estou certo de ser: sou anti-nazi, anti-estado de guerra, anti-invasores e anti-ditadores.

(*) – O termo “Semita” quer dizer “oriundo de Sem”. Sem foi filho de Noé que, na história bíblica, embarcou na arca com os seus irmãos Cam e Jafé para sobreviverem ao dilúvio, e deram origem ao povo Hebreu (Judeu), do qual também faz parte Jesus Cristo.

OV

28 de Janeiro, 2026 Eva Monteiro

Quinta (!) Carta a Um Crente

A primeira carta está aqui, a segunda carta está aqui, a terceira carta está aqui e a quarta carta está aqui. Sem esse contexto será muito complicado entender o texto que se segue. Convém deixar claro que a dada altura desta conversa informei o meu interlocutor que estava a publicar esta troca neste blog.

Confesso que nesta altura da discussão, já estamos a chover no molhado. Não digo que a minha resposta diga algo de novo. É uma questão de ser obstinada em debater até que todas as perguntas sejam respondidas, mesmo quando já está visto que o interlocutor não é intelectualmente honesto o suficiente para se chegar a bom porto. Sabendo que a conversa é circular, também achei que não a partilhar seria injusto. Faria parecer que o crente desistiu, quando não o fez. Por isso, para quem queira ler, aqui vai:

Boa tarde.

É giro. ☺️

Mas se funciona para ti, tudo bem. 👌

Eu é que invadi o teu espaço e por isso peço desculpa.

Eu tenho as minhas convicções, que já não não fazem parte da fase da fé mas sim do saber.

Eu não acredito em Deus, eu sei que Ele existe.

A partir daí, tudo o resto ganha outra dimensão.

E independentemente das minhas convicções, nunca quis impor a ninguém, seja o que for.
Mas não posso nunca deixar de divulgar e acima de tudo tentar ser a melhor versão que posso ser, enquanto espírito encarnado.

Não me leves a mal, mas toda a tua explicação é única e exclusivamente baseada nos 5 sentidos, pois falas em vários avanços científicos, mas sempre com o apoio dos 5 sentidos. E está tudo certo 👌
Eu apenas acredito em mais, muito mais.

Falas em dinheiro 💰 😁

A base do espiritismo é dar aos outros de graça aquilo que nos foi dado de graça. Portanto, há uma tremenda mistura de que não posso concordar, pois estás a inserir o espiritismo no mesmo saco que o ocultismo. Nada tem a ver com oculto.

As bases do Espiritismo aceitam, na região, filosofia e ciência. Estavtrindade não pode ser separada, pois há uma correlação entre elas.

Percebo o que dizes, pois visto do teu ponto de vista, alguém dizer não há certo nem errada, há apenas diferentes visões para uma mesma coisa, seja complicado.
Mas do “meu” ponto de vista, faz sentido. ☺️

Pois tu acreditas, que a sociedade só obedece a leis sociais, ou seja – casos extremos, nós só não matamos alguém porque fomos educados a não o fazer e também temos leis que o proíbem. Mas imagina, se não houvesse alguém que a um determinado momento tivesse assassinado alguém, tu pura e simplesmente nem sequer sabias que matar era errado. Apenas o sabes porque alguém o fez. Neste sentido, alguém cometeu algo atroz mas serviu de ensinamento.
E isto é válido para tudo na vida. Tudo tem dois opostos, a não ser a inteligência suprema (Deus).

E para o teu problema de, então se Deus é bondoso e nos ama a todos por igual, porque permite toda esta atividade no planeta Terra? 😁

Muito simples, a ideia é evoluir, só vamos evoluir, experimentando, errando, mas todos lá chegaremos.
É uma maratona, não uma corrida de velocidade.

A Terra tem à volta de 4 mil milhões de anos. O ser humano homo sapiens tem 300 mil anos.
Olha o que nós evoluímos desde aí? ☺️

Já saimos do mundo primitivo, estamos agora num mundo de provas e expiações.
Iremos passar para um mundo de regeneração a seu tempo. 👌
E isso estamos a falar do planeta Terra.

Enfim… Muito há a falar e a discutir e é sempre bom questionarmos tudo. Até porque se assim não for, como iríamos evoluir?

Percebo se não me quiseres aturar, até porque à primeira vista, sou apenas mais um que vive uma fantasia. 😂

Sem stress, vivo bem com isso. 👌

Beijinhos, é sempre um prazer. 🙏

E mais uma vez, como um cão atrás da cauda, voltei a repetir argumentos e a reiterar a oferta de submeter o Espiritismo ao escrutínio da ciência:

Boa tarde!

Gosto imenso do novo tom. O “é giro”, é tão conciliador que quase soa a paternalismo. Quase. Mas convém não confundir simpatia com competência no debate de ideias. Agora já só te estás a repetir em argumentos que já desmontei. O padrão que noto nesta conversa é mesmo este. Eu desmonto argumentos, tu repetes a mesma coisa por palavras diferentes, vestidas de epifania. Já reparaste que ao longo desta conversa foste deixando cair temas que não te davam jeito, enquanto eu faço questão de ir ponto por ponto a todas as tuas afirmações? Estranho, não é? Há até questões que deixaste por responder. Mas não faz mal, eu não me importo de as ir repetindo. Pode ser que te surja outra epifania, tenho essa esperança. Afinal, o que acontece uma vez, pode acontecer mais vezes, não é?

Podemos começar pelo ponto em que insistes em repetir uma frase feita que cheira ao mofo das igrejas: “eu não acredito, eu sei que Deus existe”. Continuas a usar o verbo “saber” num sentido que não corresponde ao que ele significa. Eu acho que já te expliquei isto, mas sou uma rapariga muito paciente. O facto de estares muito convicto, emocionalmente seguro ou existencialmente confortável não transforma uma crença metafísica em conhecimento. Chamar “saber” a uma convicção íntima e pessoal não a torna menos crença, pelo contrário. Torna o teu discurso mais vazio, mais emocional, e se calhar até mais apelativo às pessoas menos racionais, Enfim, é uma espécie de chantagem emocional. Se eu disser que não sabes porque não tens como saber, sou a vilã, que é precisamente a função retórica dessa formulação. Depois de várias trocas de mensagens acho que deixei claro que não me sinto na obrigação de albergar sentimentalismos alheios ou de concordar só para agradar. Não se coaduna nem com a verdade nem com a minha personalidade.

Qualquer sistema fechado de crenças ganha coerência interna a partir do momento em que aceitas o seu postulado central como sendo indiscutível. Neste caso a existência de um deus supremo e de um mundo de fantasmas que andam aí a flutuar com o objetivo de vir “cá abaixo” tomar um cafezinho com os vivos mas cuja sabedoria não se estende a oferecer soluções para os problemas da Humanidade. O Casper tinha mais utilidade. É uma estrutura circular de pensamento, em que um deus justifica a existência de alminhas penadas e as alminhas penadas são elas mesmas a prova de que esse deus existe. Não é sequer mais sofisticado do que o argumento mais comum dos meus debates semanais: “deus existe porque a Bíblia diz que existe, e a Bíblia é verdade porque deus existe”. Aplique-se o mesmo ao Corão, que é usado exatamente da mesma forma. O problema é o facto de não acrescentares qualquer poder explicativo verificável sobre a realidade.

Quanto à insistência nos “5 sentidos”, lá estás tu a repetir uma caricatura que já foi desmontada na minha mensagem anterior. Repara que contra-argumentar é apresentar razões fortes (no mínimo) para contrariarmos o que foi dito anteriormente. Mas se tu achas que faz sentido ficar só a papaguear o que já foi dito, então legitimas a minha própria repetição: não baseio nada exclusivamente nos meus cinco sentidos. Baseio-me, ou antes, confio em cientistas que se baseiam em métodos que corrigem, amplificam e vão além dos sentidos: instrumentos, medições, modelos matemáticos, testes cegos, replicação independente, entre os vários métodos que produziram as conclusões científicas que te permitem, por exemplo, tomar vacinas, ou estar agora mesmo a segurar num telemóvel. A ciência existe precisamente porque os sentidos são falíveis. O que tu chamas “acreditar em mais” não é nem ir além dos sentidos, nem é nada de transcendente. É só uma recusa em aceitar qualquer mecanismo de controlo do erro. Como opinião pessoal, que vale o que vale, é só uma forma de te sentires superior a outras pessoas porque sabes algo que não está ao alcance delas, coitadinhas. Eu reservo a inveja para gente que entende coisas como astronomia, física e matemática. Esses sim, são admiráveis. Mudam o mundo todos os dias. Se tens mais de 30 anos, deves isso a gerações e gerações de gente que ampliou o conhecimento científico, não a fantasmas e almas penadas. Muito menos a Allan Kardec.

Sobre o dinheiro: não falei de ti, nem de centros espíritas específicos. Falei do fenómeno geral da espiritualidade enquanto mercado, e ele existe, quer gostes quer não. Saberás melhor que eu porque é que enfiaste esse barrete. O facto de uma doutrina se autodescrever como gratuita e caridosa não a coloca automaticamente fora de escrutínio, e muito menos a livra de crítica. A maioria das religiões também dizem viver do amor, da partilha e da fraternidade. Isso nunca as impediu de acumular poder, influência e capital. E, já agora, o Espiritismo pode não ser “oculto”, mas é igualmente infundado. Não são sinónimos, mas também não são opostos. Carecem ambos de prova, são ambos baseados em experiências pessoais, ambos fazem afirmações fantásticas sobre a realidade. Naquilo que interessa, ocultismo, espiritismo, espiritualidade, religião, superstição, bruxaria, entre outras, são exatamente iguais.

A tal “trindade” ciência–filosofia–espiritismo é outro exemplo de colagem arbitrária. Acho sinceramente que podemos afirmar que a ciência e filosofia dialogam porque partilham critérios racionais e disposição para revisão. Acima de tudo, a filosofia não tende a apresentar verdades absolutas com base na revelação. O Espiritismo não partilha dessa vontade de falsificar as próprias hipóteses. Apropria-se da linguagem da ciência, cita-a quando convém, ignora-a quando contraria os seus postulados, tal como a religião e o ocultismo e qualquer outra forma de pensamento mágico. É parasitismo e espero que entendas que na prática não há diferença nenhuma entre um espírita e a vidente, médium, taróloga do TikTok (sim, os títulos são engraçados e vêm sempre aos trios, no mínimo). Se achas que há, convido-te a submeteres a tua prática religiosa ao escrutínio da ciência.

Quero só fazer mais uma observação quanto à ideia de que o mal é necessário para aprendermos que o mal é mau. Não precisamos de assassinos para sabermos que matar é errado. As crianças mostram, desde muito pequenas, empatia, aversão ao sofrimento alheio e sentido de justiça antes de qualquer enquadramento religioso. A moral nasce da capacidade de reconhecer o sofrimento humano. Isto é inato porque é biológico e evolucionário. É muito simples entender que uma espécie animal como a nossa necessita de controlar a sua violência e preservar o outro, como forma de garantir a continuidade da espécie. Somos primatas que evoluíram em sociedades que têm como principal pilar a cooperação. O teu raciocínio não só falha como justifica retroativamente atrocidades como etapas pedagógicas divinamente impostas. Não posso aceitar este argumento, que é o clássico de teodiceia, e continua tão fraco hoje como sempre foi.

Dizes que tudo tem dois opostos, exceto o teu deus. Olha que “giro”! Um sistema que começa por afirmar uma dualidade universal e imediatamente cria uma exceção absoluta para salvar a própria tese não explica nada. Tudo tem um criador exceto o teu deus. Afinal, se a regra universal tem uma exceção, quem te diz que não tem duas, ou três, ou mil? Quem te diz que não é o universo essa exceção?

Quanto à história da evolução moral da Terra, dos mundos de provas e expiações aos mundos de regeneração, desta forma religiosa, é apenas uma forma de apresentar uma cronologia religiosa. A questão não é se evoluímos, é se a nossa existência é fruto de um deus omnipotente, omnibenevolente, omnisciente e omnipresente. Esse deus é tão bom e tão poderoso que esta é a melhor ideia que consegue ter? Eu que sou humana e limitada consigo ter ideias melhores. Aposto que tu também. Esse é um deus pouco poderoso, pouco criativo ou pouco competente. Em todo o caso, é acima de tudo, pouco. Uma explicação estilo “é a vontade de deus nosso senhor” não explica nada, não prevê nada, nem resolve nada. É uma narrativa confortável apenas porque promete uma redenção após “esta vida”. Justifica emocionalmente o sofrimento, mas só se tiveres os olhos fechados, os ouvidos tapados e a boca cosida. Funciona bem como consolo. Agora, como descrição da realidade, é risível.

Dizes que percebes se eu te achar mais um a viver uma fantasia. Não é uma questão de “achar”. Fantasia é o nome que se dá a um sistema explicativo que não tem correspondência demonstrável com os factos e que resiste à refutação porque redefine constantemente os seus critérios. O pensamento mágico é o Ventura da racionalidade humana.

Quanto a não impor nada a ninguém: divulgar convicções como se fossem conhecimento é uma forma suave (suave, no teu caso, suponho) de imposição. Tudo bem que não é coerciva, mas é real. Acima de tudo faz uso de uma chantagem emocional descarada. “Isto é a minha crença, eu estou a dizer-te que é verdade e se me contrariares és rude e estás a chamar-me de louco ou mentiroso. Como te atreves, sua herege??? Respeita a minha crença!!!” É feio, é paternalista, é o que faz persistir o incómodo em criticar ideias religiosas. As ideias competem no espaço público, quer queiramos quer não, e algumas fazem mais estragos do que parece. Sobretudo quando se apresentam como moralmente superiores e imunes à crítica. Lembra-te que o Espiritismo desde 1857 e nada vos impede de submeter as vossas conclusões ao escrutínio da ciência. Quando quiseres, eu própria faço os contactos necessários para submeter uma das vossas sessões à verificação de cientistas e céticos. Acho que já tinha feito esta oferta. És muito simpático e tal, mas esta parte não dá jeito, não é?

Por isso não, não te levo a mal, nem me cansas. Mas convém chamar as coisas pelo nome. Não estamos perante duas “formas igualmente válidas de viver o mundo”. Estamos perante um conflito claro entre pensamento crítico e crença metafísica escondida atrás de uma certeza subjetiva, emocional e logicamente inválida.

Por muito simpático que seja o tom, a falta de pensamento crítico não se resolve com emojis e beijinhos. Eu estou mais que disponível a entender melhor o teu ponto de vista quando te cansares de repetires sempre a mesma narrativa religiosa, supersticiosa e fantasiosa e quiseres entrar no ramo dos factos. Que conclusão consegues apresentar, dentro do Espiritismo que seja testável e repetível? Lembra-te que tem de ser falsificável, ter poder preditivo, ser internamente consistente, compatível com o conhecimento científico já existente, parcimoniosa, independente da crença do observador e passível de correção quando se revelar errada. Se os cientistas fazem isto diariamente, tenho a certeza de que as pessoas iluminadas, superiores e dotadas de poderes mediúnicos também o conseguem fazer e, quiçá, superar.

Fico a aguardar com expectativa a oportunidade de contactar cientistas e céticos para colocar o Espiritismo à prova. A menos que lá no fundo saibas que é uma fantasia mágica da qual não queres abrir mão e que tens medo de ver desconstruída de uma vez por todas. E está tudo bem, cada um anda com as bengalas que quer, ou das quais depende.

Espero, de resto, que a tempestade não te tenha afetado, nem aos teus entes queridos. Será que os fantasmas sentiram a ventania da noite passada?

Alcina Lameiras
27 de Janeiro, 2026 Eva Monteiro

Quarta Carta a Um Crente

A primeira carta está aqui, a segunda carta está aqui e a terceira carta está aqui. Sem esse contexto será muito complicado entender o texto que se segue.

Já tinha perdido esperança de receber uma resposta. Notei que a resposta anterior tinha sido gerada pelo ChatGPT ou outra IA qualquer, pelo que percebi que o meu interlocutor estava cansado do debate e com preguiça mental. Respondi com a terceira mensagem porque não conseguia deixar de o fazer, mas achei sinceramente que não ia receber resposta. Esta última pareceu-me, pelo menos, mais intelectualmente honesta:

Bom dia. Ando há meses para tentar arranjar algo que faça sentido para te responder.

E tive uma epifania agora mesmo.

Nós andamos a responder um ao outro com base naquilo que acreditamos, naquilo que estudamos, naquilo que nos faz sentido enquanto seres humanos pensantes.

Todavia nós esbarramos em algo muito peculiar e até caricato.

Ti respondes com base única e exclusivamente com I que achas que é a verdade, ou seja o que os teus 5 sentidos conseguem detectar. E aí é que está o cerne da questão, e ao qual este diálogo será sempre de sentido único tanto para mim, como para ti.

Já eu, acredito em muito mais do que aquilo que os meus 5 sentidos podem captar. Não há aqui certos nem errados, há apenas uma diferença de viver a vida e o mundo.

E se tu és uma pessoa com dois dedos de testa, ou seja, não praticas o mal, não desejas mal a ninguém, és fraterna, solidária, caridosa, tu até podes ser hippie, gótica, budista, hinduísta, etc.

É-me completamente diferente. ☺️

Se há coisa que aprendi com a minha experiência de vida é que isto não é uma corrida de velocidade e sim uma maratona tão longa quanto o infinito.

Portanto, não faz sentido usarmos literatura, frases feitas, pois nós os dois conseguimos defender a nossa crença, e não crença (de algo mais que a matéria) com alguma facilidade tendo em conta o nosso estudo contínuo.

Não quer dizer que não ache peculiar e deveras interessante as nossas discussões, saudáveis.

Mas realmente é um ponto engraçado.

Pois tu achas que tudo é fruto do acaso e não de uma inteligência superior.

Ben um acaso é mesmo inteligente, para conseguir criar um universo tao denso e tão perfeito. 😁

Não me interpretes mal mas é suigeneres e deveras engraçado, a forma como vês o mundo.

Tu podes dizer exatamente isso mesmo de mim, 👌.

No entanto o busílis da questão é, se é for boa pessoa qual é o problema deveu acreditar no Pai Natal e no Coelhinho da Páscoa? 😂

Um ótimo fim de semana para ti.

Desculpa, deixei de ser tão formal e espero que não me leves a mal.

Beijinhos.

Foto de Greg Rakozy na Unsplash.

Não pude deixar de responder porque, como já sabem, não resisto a contra-argumentar falácias:

Não imaginava que esta conversa pudesse gerar uma epifania, mas fico contente. Claro que a minha alegria não é tanta que não discorde dessa dicotomia entre os que se limitam aos 5 sentidos e os que vão supostamente além disso. Antes de mais, porque não me cinjo aos meus 5 sentidos. Confio em cientistas que dispõem de muito mais do que os 5 sentidos para investigar a realidade (e a base da minha confiança é a verificabilidade e repetibilidade das descobertas científicas). A ciência moderna baseia-se em observações e experiências que testam o mundo real com instrumentos que desenvolveu para esse fim (e que sabemos que funcionam porque produzem resultados). O que não faz e que eu própria recuso fazer é basear o conhecimento da realidade em raciocínios a priori, intuições ou (ainda pior) revelações. Gostava de te relembrar que muitos dos avanços científicos (como a existência de bactérias, ondas de rádio ou buracos negros) são invisíveis aos 5 sentidos, mas foram confirmados com recurso a instrumentos como telescópios e microscópios. Portanto, tratar a visão sobrenaturalista e o método científico como se estivessem no mesmo plano é cair num viés que eu recuso com repulsa. Não são a mesma coisa. A ciência, com os seus instrumentos, permite que tenhas coisas como a internet e o GPS, raios-x, hemodiálise, entre tantos outros. O paracetamol, porra! A espiritualidade permite, como único resultado palpável, verificável e repetível que meia dúzia de pessoas saquem algum ou muito dinheiro a outras. Não é o mesmo nível de resultados, utilidade ou factualidade.

Também não posso aceitar a ideia de que “não há certo nem errado, apenas pontos de vista diferentes igualmente válidos”. Essa postura relativista absoluta destrói logo qualquer possibilidade de critério objetivo. Se todos os pontos de vista fossem colocados no mesmo plano, um especialista numa determinada área teria exatamente o mesmo peso que alguém a opinar sem qualquer base. Eu sei que é isso mesmo que acontece nas redes sociais, e por vezes até nos órgãos de comunicação social. Não devia acontecer. Que entende uma zé ninguém como eu de ciência para opinar sobre a administração de tratamentos médicos? Se calhar tenho opiniões ou experiências pessoais, mas não sou especialista. Acima de tudo, não sou suficientemente arrogante para achar que vou eu descobrir a pólvora quando há médicos que estudam a vida inteira para salvar vidas. Para quem acha isso, a solução é uma: estudar medicina e revolucionar o ramo científico a que se decida dedicar. O cientista não pode ser colocado no mesmo patamar que o tasqueiro que tem a solução para tudo e mais alguma coisa. Posicionar o conceito de verdade como inteiramente relativo impede que tenhamos parâmetros para distinguir facto de fantasia. Há pela internet gente que mete gotas de urina nos olhos para tratar a miopia. Consegues, em consciência, dizer que cada um tem a sua verdade quando há gente a provocar infeções oculares por pura ignorância e uma dose pouco saudável de estupidez? Reconhecer diferentes perspetivas é legítimo, também acho que cada um tem uma cabeça para pensar. Agora, afirmar que todas as perspetivas são igualmente válidas já não é coisa com que eu possa concordar. Caso contrário coloco um biólogo contra um padre e aceito que o padre tem uma posição válida por exemplo, quanto a questões do corpo feminino que supostamente nunca observou, estudou ou sequer tocou.

Quanto ao argumento de que o universo é “perfeito demais para ter surgido ao acaso”, desculpa que te diga, mas estás a assentar numa falácia que já foi desmantelada ad nauseam. A noção de “ajuste fino” (que é uma falsidade religiosa) não implica sequer design consciente, muito menos inteligente. Usar a improbabilidade como prova de intenção está errado. É que assim, confundes dizer “não sei como isto aconteceu” com “logo, alguém teve de criar o universo”. Isso é uma falácia do apelo à ignorância. A história da ciência está cheia de exemplos de fenómenos que noutros tempos foram atribuídos a inteligências superiores que hoje compreendemos perfeitamente por mecanismos naturais. A ignorância momentânea nunca foi boa base para postular entidades sobrenaturais e chama-se a isso o “Deus das Falhas”. Ou seja, à medida que a ciência avança, deus recua. Digo deus, poderia dizer deuses, é apenas o sobrenatural que dá lugar ao natural à medida que as explicações são dadas. Nunca um deus foi necessário à ciência ou à humanidade para avançar o conhecimento. O oposto já é verdade. Tens, aparentemente, um problema com o acaso, ou antes com a existência não intencional de alguma coisa. No entanto, vives todos os dias rodeado de acasos que não te confundem. Pior ainda, achas que há um grupo de pessoas que conseguem falar com os “espíritos” de quem já morreu e que desde 1857 a ciência não consegue estudar fenómenos supostamente testáveis e repetíveis. E eu é que tenho crenças sem sentido?

Passando, por fim, à tua comparação com o Pai Natal e o Coelhinho da Páscoa, a diferença é que essas figuras são assumidamente ficcionais, não têm como objetivo explicar a realidade nem orientar decisões sobre o dia a dia das pessoas. As crenças espirituais e religiosas é que fazem afirmações sobre a natureza da realidade, da consciência, da moral e da suposta vida após a morte, e influenciam comportamentos individuais e coletivos, aliás, sociedades inteiras. Dizer “qual é o problema de acreditar, se a pessoa for boa?” é ignorar que uma crença, por ser infundada, não é necessariamente inofensiva. A bondade de uma pessoa não valida a veracidade daquilo em que acredita, nem transforma uma crença falsa em verdade. O critério não é a intenção moral, é a correspondência com os factos. Por outro lado, como dizia Weinberg, as pessoas boas hão-de fazer coisas boas e as pessoas más, coisas más. Mas para pôr pessoas boas a fazer coisas más, é preciso religião. São crenças no sobrenatural que iludem, por exemplo, pessoas boas a acharem-se parte de um grupo especial. Por exemplo, acreditarem que têm poderes sobrenaturais, que conseguem ajudar outras pessoas que precisam de cuidados médicas e, no processo matá-las. Não houve neste exemplo uma transgressão moral, a pessoa acha que tem poderes e que há um médico que encarna no seu corpo para curar. Entretanto um cancro fica sem tratamento. Essa pessoa é má? Não. Talvez seja pouco inteligente, mas normalmente só foi endoutrinada e é (quase) tão vítima quanto a sua própria vítima. Normalmente quando digo isto a resposta é: “Ah, mas na minha doutrina/religião/grupo/etc. não fazemos isso! Quando vemos que a pessoa tem um problema de saúde encaminhamos para o médico!”. Pois… porque o que quer que vocês estejam a fazer é um placebo na melhor das hipóteses e desastroso na pior.

Uma questão muito diferente seria se eu julgo uma pessoa como imoral porque tem crenças religiosas, se a quero perseguir ou se quero proibir a crença que tanto a conforta. Se essa questão te tiver passado pela cabeça, a resposta é não. A maioria das pessoas que professam crenças religiosas ou que são supersticiosas não são más pessoas. Ter crenças falsas não é necessariamente ser-se cruel, ou mau. Mas que é um bom sítio para evoluir nesse sentido, lá isso é. A História comprova-o sem sombra de dúvidas.

A nossa evolução pessoal e coletiva depende da disposição de cada um de nós para submeter as nossas ideias ao escrutínio. Ficarmos presos a uma ideia falsa apenas porque nos dá conforto não é intelectualmente honesto nem válido e, acima de tudo, não nos ajuda a nenhum nível. Prezar o pensamento crítico não é uma questão de cinismo ou de arrogância. Pelo contrário, é recusar confundir conforto emocional com factos. Entre preservar crenças porque fornecem algum tipo de certeza inabalável (provavelmente o conforto de achar que esta vida não é o fim) e aceitar apenas aquilo que resiste à crítica racional, eu prefiro estar desconfortável mas entregue à verdade.

Posto isto, bom fim de semana, foi uma excelente conversa!