Que um homem, celibatário por convicção, e papa, graças ao centralismo democrático dos consistórios, se dedique à criação de cardeais e santos, ao fabrico da água benta e à promulgação de indulgências, compreende-se por dever do múnus e necessidade de arrecadar receitas.
Já a atribuição de milagres a defuntos de comportamento duvidoso, em vida, e desfeitos pelos anos de defunção, parece um embuste para supersticiosos que levaria mulheres de virtude a tribunal e ciganos à prisão. Tal como os exorcismos para tirarem demónios do corpo dos que são crentes. Não há um único caso de um ateu atacado por demónios.
Sempre admirei o olfato papal para descobrir, entre milhões de defuntos, o taumaturgo que curou uma queimadura, desentrevou uma freira ou erradicou um cancro. Sabe-se que a fé é uma graça mas não é de graça. Custa dinheiro. E não é com missas, novenas e benzeduras de medalhinhas que se oleia a máquina do Vaticano. Os Anos Santos que já tiveram um ritmo predefinido são agora quando um papa quiser, mas os proventos das indulgências plenas minguam ao ritmo das dádivas para as alminhas do Purgatório.
A abolição do Limbo foi neutra em prestações monetárias mas a extinção do Purgatório foi demolidora para os rendimentos da ICAR. A progressiva secularização de países que o papa tinha como protetorados arrasou as contribuições financeiras.
Só o medo do Inferno, sobretudo na fase de decadência dos crentes, leva ainda, através dos lares, a deixar heranças à Igreja, com a conivência dos Estados que a exoneram de impostos e descuram a investigação sobre o modo como se transferem fortunas para as instituições pias.
O medo de perderem votos leva os partidos dos países democráticos a condescenderem com a espoliação dos velhos e a transferência de bens para uma instituição que vende na Terra a assoalhada que a superstição religiosa almeja no Paraíso.
Os Estados devem impor a laicidade e fiscalizar a transferência de bens de doentes senis e/ou terminais.
Enquanto os judeus ortodoxos se agarram à Bíblia e à faixa de Gaza, os muçulmanos debitam o Corão e se viram para Meca e os cristãos evangélicos dos EUA ameaçam o Irão e a teoria evolucionista, os conflitos religiosos e o terrorismo regressam à Europa.
A emancipação do Estado face à religião iniciou-se em 1648, após a guerra dos 30 anos, com a Paz de Vestefália, e ampliou-se com as leis de separação dos séc. XIX e XX, sendo paradigmática a lei de 1905, em França, que instituiu a laicidade do Estado.
A libertação social e cultural do controlo das instituições e símbolos religiosos foi um processo lento e traumático que se afirmou no séc. XIX e conferiu à modernidade ocidental a sua identidade.
A secularização libertou a sociedade do clericalismo e fez emergir direitos, liberdades e garantias individuais que são apanágio da democracia. A autonomia do Estado garantiu a liberdade religiosa, a tolerância e a paz civil.
Não há religiões eternas nem sociedades seculares perpétuas. As três religiões do livro, ou abraâmicas, facilmente se radicalizam. O proselitismo nasce na cabeça do clero e medra no coração dos crentes.
Os devotos creem na origem divina dos livros sagrados e na verdade literal das páginas vertidas da tradição oral com a crueza das épocas em que foram impressas.
Os fanáticos recusam a separação da Igreja e do Estado, impõem dogmas à sociedade e perseguem os hereges. Odeiam os crentes das outras religiões, os menos fervorosos da sua e os sectores laicos da sociedade.
Em 1979, a vitória do «ayatollah» Khomeni, no Irão, deu início a um movimento radical de reislamização que contagiou Estados árabes, largas camadas sociais do Médio-Oriente e setores árabes e não árabes de países democráticos.
Por sua vez, o judaísmo, numa atitude simétrica, viu os movimentos ultraortodoxos ganharem dinamismo, influência e armas, empenhando-se numa luta que tanto visa os palestinianos como os setores israelitas laicos.
O termo «fundamentalismo» teve origem no protestantismo evangélico norte-americano do início do séc. XX. Exprimiu o proselitismo, a recusa da distinção entre o sagrado e o profano, a difusão do deus apocalíptico, cruel, intolerante e avesso à modernidade, saído da exegese bíblica mais reacionária. Esse radicalismo não parou de expandir-se e contamina o aparelho de Estado dos EUA, mesmo com os democratas no poder.
O catolicismo, desacreditado pela cumplicidade com regimes obsoletos (monarquias absolutas, fascismo, ditaduras várias), debilitou-se na Europa e facilitou a secularização. O autoritarismo e a ortodoxia regressaram com João Paulo II, que arrumou o concílio Vaticano II e recuperou o Vaticano I e o de Trento.
João Paulo II transformou a Igreja católica num instrumento de luta contra a modernidade, o espírito liberal e a tolerância das modernas democracias. Tem sido particularmente feroz na América Latina e autoritária e agressiva nos Estados onde o poder do Vaticano ainda conta, através de movimentos sectários de que Bento XVI foi herdeiro e protetor, se é que não esteve na sua génese.
A chegada ao poder de líderes políticos que explicitam publicamente a sua fé, em países com fortes tradições democráticas, foi um estímulo para os clérigos e um perigo para a laicidade do Estado. Por outro lado constituem um exemplo perverso para as populações saídas de velhas ditaduras (Portugal, Espanha, Polónia, Grécia, Croácia), facilmente disponíveis para outras sujeições.
A interferência da religião no Estado deve ser vista, tal como a intromissão militar, a influência tribal ou as oligarquias, como uma forma de despotismo que urge erradicar. A competição religiosa voltou à Europa. As sotainas regressam. Os pregadores do ódio sobem aos púlpitos. A guerra religiosa é uma questão de tempo a que os Estados laicos têm de negar a oportunidade. Só o aprofundamento da laicidade nos pode valer.
Talvez por isso o ódio de B16 à laicidade se tornou patológico. E do Islão nem vale a pena falar.
Ouvimos dizer que o mundo vai acabar … outra vez…
E o que poderá haver melhor que uma festa para celebrarmos o fim do mundo ou o Solstício ou a 6ª feira?
No dia 21 de Dezembro, pelas 21h, aparece no Vox Café mascarado da tua figura apocalíptica preferida e vem celebrar o fim do mundo!
Entre as 21h e as 23horas – a entrada inclui jantar. A partir das 23h a entrada será livre
Ementa Buffet “Festa do Fim do Mundo”
Creme de Cenoura c/ Abóbora
Salada Mista
Salda de feijão Frade c/ Atum
Saladinha de Polvo
Pastéis de Bacalhau
Croquetes
Quiche Vegetariana
Quiche de Frango e Cogumelos
Legumes Panados
Frango Assado
Carne Assada
Salada de Frutas
Bolo de Bolacha
Bebidas incluídas: Água, Sumo de Laranja, Chá Gelado, 7UP, Pepsi-Cola
Preço p/ pessoa: 10€
Nota: Apesar das bebidas alcoolicas não estarem incluídas no preço do buffet, a festa do fim do mundo não é abstémia.
Morada – Voz do Operário, Rua Voz do Operário 13 1100 Lisboa
Inscrições para o jantar via Meetup ou via Facebook.
A Festa do Fim do Mundo é uma iniciativa Vox Café n’A Voz do Operário em conjunto com a COMCEPT e o Humanismo Secular Portugal.
É mais fácil criar cardeais do que criar frangos. Os primeiros são mamíferos e mamam a vida inteira; os segundos são granívoros e, em liberdade, fazem pela vida esgaravatando a terra; os cardeais usam o báculo e a mitra para ganharem a vida faustosa; os frangos servem-se do bico e das unhas para sobreviverem.
Os frangos servem para alimentar as pessoas; os purpurados alimentam-se delas. Quem cria os galináceos são as donas de casa que decidem quando os depenam, chamando-os ao som do piu!, piu!; os cardeais são criados pelo Papa que os chama em latim e decide quando podem depenar a diocese. Há bispos que perdem a cabeça por causa da mitra e frangos que perdem a vida por causa da mitra, que é a sua parte mais saborosa, mas têm destinos diferentes.
O papa B16 criará no próximo sábado seis novos cardeais vindos de várias partes do mundo. O número de frangos criados no Planeta são milhares de milhões que abanam a crista; os cardeais são em número reduzido e agitam o Cristo. Os frangos dão belos churrascos que deliciam os gourmets; os cardeais abdicaram do churrasco dos hereges porque a secularização lhes reduziu os poderes.
Um frango distingue-se de um cardeal porque o primeiro reveste o ânus com a mitra e o segundo cobre com ela a cabeça. A criação de frangos é universal e transversal a todas as religiões; a de cardeais é exclusiva do Papa e a capoeira é o Vaticano.
Não é preciso ser erudito para distinguir um galo de um cardeal. A utilidade e o volume são diferentes.
O erro sobre o ano de nascimento de Jesus Cristo utilizado para o início do calendário cristão terá sido cometido no século VI pelo monge Dionysius Exiguus, defende o Papa Bento XVI no último livro da trilogia “Jesus de Nazaré”, ontem publicado.
Papa nomeia seis novos cardeais e tenta mostrar abertura do Vaticano
O papa Bento 16 nomeou nesse sábado seis novos cardeais vindos de várias partes dos mundos. Com o anúncio, o sumo pontífice tenta mostrar a abertura do Vaticano, provando que a Igreja é “universal e se exprime nas diferentes culturas e diversos continentes”. A América Latina foi representada por um colombiano.
Os ateus não reivindicam superioridade moral. Não é a crença que faz alguém melhor nem o ateísmo que torna qualquer um pior. A influência do meio ambiente, a educação recebida, a instrução que se adquire e a matriz genética, fazem os homens. Os homens são eles próprios e a sua circunstância, como disse Ortega y Gasset.
Há crentes que visitam o Diário de uns Ateus e que demonstram tolerância, espírito de diálogo, sentido crítico e respeito pelos valores humanos. Mas isso não faz respeitável a sua religião nem universais os seus valores e, muito menos, prova a existência de Deus. Apenas faz deles cidadãos respeitáveis ou mesmo exemplares.
O Diário de uns Ateus procura preservar alguns valores que as religiões combatem – a liberdade individual, a laicidade do Estado e tratamento igual para todos os cidadãos, independentemente do sexo, da religião e da raça. É surpreendente que os crentes se não interroguem sobre a geografia das religiões e não reflitam sobre como se distribuem os credos pelo planeta e à custa de quanto sangue.
Outro aspeto inquietante é o facto de todas as religiões defenderem tratamento igual quando são minoritárias e afirmarem que «não de deve tratar de forma igual o que é desigual» quando são maioritárias – argumento usado até à náusea em Portugal, pela ICAR, na negociação da Concordata.
A religião só não é mais repressiva porque não tem força suficiente. A cada conquista exige sempre mais. Não dispensa o batismo de crianças de tenra idade, não desiste de tornar obrigatório o ensino religioso na escola oficial, interfere através das associações que domina nos conteúdos e programas escolares e no comportamento social dos que não são crentes. Condiciona o aparelho de Estado e influencia as leis.
A possibilidade do divórcio entre casais que contraíram matrimónio católico só foi possível depois do saudoso ministro da Justiça Salgado Zenha ter ameaçado com a denúncia da Concordata. As Escolas do Magistério Primário, até ao 25 de Abril, tinham uma cadeira de Religião Católica, igual a qualquer outra, que exigia nota positiva para a obtenção do diploma de professor. Ninguém era dispensado da missa de consagração do curso, da bênção da pasta e da fotografia com o bispo da diocese. Ninguém podia ser professor sem praticar a religião católica, embora a lei não fosse clara a esse respeito.
A admissão em Escolas de Enfermagem exigia um certificado de batismo católico e o atestado de bom comportamento passado pelo padre da paróquia de nascimento. Eram documentos necessários. E, no fim do curso, lá vinha a bênção, a missa da consagração e outras pias violências a que tinha de se sujeitar quem precisava de ganhar a vida.
Para conter a violência clerical é preciso uma vigilância constante. O combate às religiões e o direito à blasfémia são necessários para a preservação da liberdade de pensamento que as igrejas se esforçam por erradicar.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.