Loading

Categoria: História

5 de Julho, 2021 João Monteiro

Padre Eugénio Jalhay (1)

Texto de Onofre Varela publicado na Gazeta de Paços de Ferreira. Primeira parte.

No último número da Gazeta deliciei-me com o artigo “Conhecer o nosso Património” da professora Rosário Rocha, do Agrupamento de Escolas de Frazão. Conta-nos um passeio cultural que fez com os seus alunos da Turma F do Centro Escolar da Arreigada, visitando, com guias qualificados, o Mosteiro de Ferreira, o Museu Arqueológico da Citânia de Sanfins e as ruínas da própria Citânia que justifica a existência do Museu. 

Termina o seu artigo dizendo que “deveria ser ‘obrigatório’ que todas as turmas fizessem o roteiro cultural do nosso concelho”. Aplaudo a ideia!… O conhecimento de História deve começar por sabermos a nossa própria história, estudando a nossa família e o lugar onde moramos. Os primeiros passos a dar no sentido de sabermos História, podem (e devem) ser dados na nossa terra, à nossa porta e na nossa casa. Todos nós temos a nossa própria História que, obrigatoriamente, devemos conhecer. É a partir dela que ficamos a saber quem, e como, somos nós… e que podemos (sobretudo, devemos) respeitar gentes e lugares.

O artigo da Professora Rosário Rocha lembrou-me o interesse que alimentei pela Citânia de Sanfins de Ferreira há mais de 50 anos, e espevitou-me no sentido de contar aqui a minha experiência. Por isso vou-me distanciar do tema que habitualmente abordo nestas páginas (a defesa do Ateísmo) para me dedicar, por quatro edições, à Citânia de Sanfins e a um dos seus importantes arqueólogos, o padre Eugénio Jalhay.

Desde 1969 que, pelo casamento, estou ligado à família Brandão de Sanfins de Ferreira, detentora de brasão que pode ser visto, talhado em pedra, a encimar o portão da Casa da Igreja, ou Solar dos Brandões, edifício do século XVIII que foi residência da família. Em 1947 foi cedida uma sala do Solar para a instalação do Museu Arqueológico da Citânia, e depois a autarquia comprou a casa e a quinta.

Na década de 1960 tive o meu primeiro contacto com a Citânia, que visitei demoradamente, e com o Museu Arqueológico onde adquiri brochuras que me informaram sobre a história daquele lugar arqueológico datado do I milénio AC. Desde logo a minha atenção recaiu sobre dois nomes ligados às escavações da Citânia: o Tenente-coronel Afonso do Paço e o Padre Eugénio Jalhay, os grandes impulsionadores da investigação arqueológica, responsáveis pelo retomar das escavações nas campanhas de 1944/45 (e nos anos 50) naquele lugar histórico situado no planalto da freguesia de Sanfins, na Cumieira (ou Cumeeira, de cume), que já tinha sido escavado pelos arqueólogos Francisco Martins Sarmento, José Leite de Vasconcelos e Félix Alves Pereira, em 1895.

Naturalmente interessei-me por saber mais sobre aqueles dois arqueólogos que redescobriram a Citânia e a mostraram ao mundo. O militar nasceu em Viana do Castelo em 1895, fez os seus estudos em Viana, em Braga e na Faculdade de Letras em Lisboa. Em 1917 foi incorporado no Exército e, um ano depois, em plena Primeira Guerra Mundial (que já estava perto do fim [1914-1918] mas ainda ninguém o sabia), tomou parte na célebre e trágica batalha de La Lys, travada a norte da fronteira Franco-Belga (onde se destacou o nosso soldado-herói Milhões [Aníbal Augusto Milhais], natural de Murça) no dia 9 de Abril de 1918, sob o comando do general Gomes da Costa. Com os soldados exaustos e em vésperas de serem rendidos por tropas inglesas, o Exército Português sofreu grande número de baixas, e Afonso do Paço foi aprisionado pelos alemães, tendo sido libertado em Dezembro de 1918. Só muitos anos depois desta libertação é que entra em cena a personalidade que nos interessa para estas crónicas: o padre Eugénio Jalhay.

(Continua)

 (O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico) OV

Citânia de Sanfins, Paços de Ferreira. Foto de Henrique Matos. Fonte: Wikipedia.
29 de Abril, 2021 João Monteiro

Feliz 25 de Abril!

Texto publicado no Facebook, no dia 25 de Abril

A data que hoje se comemora é importante para todos os cidadãos democratas, inclusive para os ateus, agnósticos, livres-pensadores e humanistas.

Representa o fim de um regime ditatorial e a passagem para um regime democrático; o fim do lema “Deus, Pátria, Família”; o fim do autoritarismo; o fim de uma polícia política e da tortura de inocentes; o fim de uma guerra colonial que praticamente ninguém queria; o início de uma época de esperança, acrescida de uma vontade de reconstruir a sociedade; a promoção de uma cada vez maior capacitação individual; passou a dar-se prioridade ao investimento na educação, na saúde (com a criação do SNS) e na ciência; a conquista de diversos direitos, incluindo o da livre-expressão, e muito, muito mais. E ainda mais o que falta fazer.

Hoje é dia de celebrar: Viva a Democracia e viva a Liberdade!

21 de Abril, 2021 João Monteiro

Lei da separação do Estado das Igrejas

Assinala-se hoje, dia 20 de Abril, os 110 anos em que foi aprovada, por decreto, a Lei da separação do Estado das Igrejas. Entre os seus princípios destacam-se: a liberdade de consciência; a religião católica deixar de ser a religião do Estado; ninguém poder ser perseguido por motivos de religião; a república não reconhecer, não sustentar, nem subsidiar culto algum; ou ainda a proibição de realização de reuniões políticas nos lugares habitualmente destinados ao culto de qualquer religião.

A lei original estava organizada em torno dos seguintes sete capítulos:

I – Da Liberdade de consciência e de culto;
II – Das corporações e entidades encarregadas do culto;
III – Da fiscalização do culto público;
IV – Da propriedade e encargos dos edifícios;
V – Do destino dos edifícios e bens;
VI – Das pensões aos ministros da religião católicos;
VII – Disposições gerais e transitórias

E a mesma lei pode ser consultada aqui, no site da Associação República e Laicidade.

Apesar destas conquistas sociais, elas não permaneceram no tempo, tendo sido alvo de sucessivas reformas. Como sabemos, a história é feita de avanços e recuos. Hoje, a Igreja Católica tem privilégios (originados pela Concordata e outra legislação); o Estado paga a capelães dos hospitais, das forças armadas e das prisões; e as escolas públicas e universidades promovem comunhões pascais e cerimónias (como temos denunciado). Há pois muito por reivindicar, como temos vindo a fazer junto das entidades competentes, e como continuaremos a fazer.

Afonso Costa assina a Lei da separação do Estado das Igrejas.
Foto do Arquivo Municipal de Lisboa.
23 de Abril, 2016 Carlos Esperança

O Batizado do Menino Dinis

Injustamente ignorado pelas primeiras páginas dos jornais, afastado da abertura dos noticiários televisivos, teve lugar no dia 19 de fevereiro de 2000 o batizado do menino Dinis de Santa Maria Miguel Gabriel Rafael Francisco João de Bragança*.

A princípio julguei tratar-se de uma lista donde os padrinhos escolhessem o nome mais bonito. Só quando percebi que todos os nomes passavam a designar o novo cristão me dei conta da relevância do evento, abrilhantado pelo Senhor Bispo do Porto, numerosos membros do cabido, proeminentes plebeus e piedosas senhoras da melhor sociedade.

Foi com alguma emoção que soube libertado dos riscos do limbo o pequeno Dinis através da água do rio Jordão, embora fosse preferível, por razões bacteriológicas, a dos Serviços Municipalizados do Porto depois de convenientemente benzida.

Escreveu Augusto Abelaira que o homem é o único animal que distingue a água benta da outra, mas nada referiu sobre a diferença da água captada no rio Jordão ou na bacia hidrográfica do Douro.

Certo, certo, é que o menino ficou mais puro, liberto que foi do pecado original que penosamente carregava desde o dia 25 de novembro do ano que findou.

Felicito os patrocinadores e as piedosas pessoas que contribuíram com mais de seis mil contos para tão auspiciosa festa. Apenas temo, por se tratar de uma virtude, que o preço elevado a que ascendeu o primeiro sacramento possa tornar incomportáveis os primeiros vícios.

No entanto, estou certo de que as excelsas senhoras, que ora acompanharam piedosamente o neófito no caminho da virtude, o não abandonarão com a sua solicitude no primeiro pecado.

* Filho do Sr. Duarte Pio, alegado duque de Bragança
Fevereiro de 2000

In Pedras Soltas (2006) – Ortografia atualizada

22 de Fevereiro, 2016 Raul Pereira

Relíquias em catálogo

Um cativante texto de José Carlos Fernandes no “Observador” sobre o mar de relíquias em que se encontra afundada a ICAR desde o seu início:

Relíquias religiosas. Histórias de santos, rosas e caudas de jumento.

Lamento desapontar quem estiver à espera de partes do meu corpo para guardar em cofre de ouro com pedrarias; mas, se tudo correr como espero, pretendo ser cremado e lançado num sítio que ainda não escolhi.

27 de Agosto, 2014 Carlos Esperança

O que o país deve a Paulo Portas

Há dez anos, Portas trocou as galochas de agricultor e o boné das feiras pelas estrelas de almirante e mobilizou a Marinha de Guerra contra o barco Born Diep, da organização Women on Waves, defensora da descriminalização da prática do aborto, que, fortemente municiado de pílulas, se preparava para invadir as águas nacionais.

O arrojo do ministro da Defesa e do Mar venceu a batalha moral sem disparar um tiro e evitou que uma pílula atingisse um só útero. Portugal tornou-se uma potência marítima respeitada antes de adquirir os submarinos topo de gama. Faz hoje 10 anos e esquecer a efeméride é desprezar uma página gloriosa da História e o seu herói de serviço.

Paulo Portas lamentou, na altura certa, que o Governo não se tivesse congratulado com a canonização de Nuno Álvares Pereira. A comunicação social referiu a queixa mas foi indiferente à patriótica proclamação do antigo ministro da Defesa e do Mar e insensível à omissão do Governo.

Que Governo esse, que não acompanhou o ex-ministro que, graças à Senhora de Fátima, conseguiu que a poluição do navio Prestige poupasse as costas do Minho e fustigasse as da Galiza? Que jornalismo podia esquecer o único ministro que se deslocou a Coimbra para assistir à missa pela Irmã Lúcia quando a vidente se finou?

Um país que não exulta com o milagre da cura do olho esquerdo da D. Guilhermina de Jesus, queimado com óleo de fritar peixe, não é digno de um santo com a dimensão de D. Nuno. Uma comunicação social que não exalta o heroico taumaturgo que, depois de exterminar castelhanos nas batalhas dos Atoleiros, Aljubarrota e Valverde, se recolheu a um convento e, após 577 anos de defunção, se estreou no ramo dos milagres, não vale o país que somos.

Paulo Portas, antigo Condestável de Durão Barroso e de Santana Lopes, não esqueceu o antecessor, no heroísmo e na piedade. E tê-lo-á recordado nas paradas militares quando, entre mancebos fardados, deslocava o fato às riscas com o ministro dentro.

Mas que ingratidão é esta que já esqueceu a coragem de Paulo Portas perante a invasão do barco do aborto quando, com risco de vida, fez deslocar para a Figueira da Foz um vaso de guerra para defender a Pátria da invasão iminente… de pílulas do dia seguinte?

Um país que esquece os pios lamentos de Paulo Portas não é digno da D. Guilhermina, não merece a intercessão celeste de D. Nuno nas sequelas do óleo fervente do peixe que fritava, nem a glória do taumaturgo que foi em vida carrasco de castelhanos e, depois de morto, colírio para queimadelas de óleo de fritar.

Vale à Pátria este modesto cronista atento às efemérides, embora, às vezes, se engane na data.

23 de Junho, 2014 Carlos Esperança

A posse do rei de Espanha

Apesar de a monarquia ser uma instituição obsoleta, sem legitimidade, onde o poder se transmite por via uterina e se torna vitalício, o rei de Espanha portou-se melhor do que alguns republicanos, como se vê no post anterior.

As sotainas recolheram o cálice e a patena, os bispos a mitra e o báculo, e os cardeais o barrete. A cerimónia insalubre não teve lugar. O clero limita-se a mandar rezar.

21 de Junho, 2014 Carlos Esperança

Iraque – A invasão dos cruzados e as sequelas atuais

Os aliados confundiram a rapidez da vitória com a virtude da expedição, a febre de destruição com a sede de liberdade e usaram a crueldade do regime deposto para legitimar a agressão.

A passividade perante a fúria devastadora dos bandos ensandecidos deveu-se à cultura dos soldados americanos. Suspeitando que os sumérios fossem terroristas e os assírios financiadores da Al-qaeda, nas tábuas de gesso, com mais de cinco mil anos, temeram mensagens cifradas em escrita cuneiforme, e numa cabeça esculpida, da época suméria, viram um busto de Saddam.

Numa biblioteca a arder, com preciosidades únicas, julgaram ver a livraria do ministro da informação.

A inércia e incultura dos invasores criaram cáfilas de díscolos, numa orgia destruidora, e hordas de saqueadores em busca de despojos.

No Iraque, o povo que sobrou devastou palácios, arruinou o património, ajustou contas antigas e recentes, desfez o país que restava.

Os invasores não se limitaram a arrasar o país, quiseram apagar uma civilização.

Agora, onze anos decorridos, o País ameaça dividir-se. Acentuaram-se as rivalidades étnicas e religiosas e o ódio comum ao invasor transferiu-se para sunitas e xiitas, entre si, enquanto a sharia vai a caminho.

O julgamento de Saddam foi uma farsa em que o ditador humilhou e desmascarou o simulacro de tribunal que o julgou. Os crimes de Saddam não tinham defesa e o tribunal carecia de legitimidade. É difícil apurar a verdade num tribunal protegido por invasores que se basearam na mentira.

Saddam, num dos últimos dias de vida, acusou o ministério do Interior, dirigido por um xiita de montar esquadrões da morte que assassinavam sunitas, e afirmou que se tornara um órgão que matou milhares de iraquianos e os torturou.

Agora são sunitas os dementes da fé, alucinados do Profeta, o Misericordioso, que estão a vingar-se dos xiitas, enquanto o Irão entra para o Eixo do Bem e oferece auxílio contra os muçulmanos desvairados que só querem a vitória ou 72 virgens.