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Mês: Junho 2010

19 de Junho, 2010 Eduardo Costa Dias

O obscurantismo religioso e o comunitarismo são, …

… neste momento na Europa, face e verso de uma mesma praga que urge estripar.

Muito embora o artigo tenha mais de um ano, pela sua actualidade recomenda-se a leitura do artigo “Os tribunais religiosos na Europa”
(http://www.europe-et-laicite.org/spip.php?article90).
De facto, como o seu autor demonstra, « l’Europe bascule lentement mais sûrement dans l’obscurantisme religieux et la communautarisation à outrance, dans tous les domaines. L’union européenne elle-même est de plus en plus noyautée par les lobbys religieux »

19 de Junho, 2010 Carlos Esperança

Carta a Saramago

Amigo Saramago

Recebi, desde há umas horas atrás, alguns telefonemas e mensagens de amigos meus espanhóis que te adoram. Uma amiga minha dizia que a qualidade ou virtude que mais admirou em ti, e que mais a marcou, foi a lucidez. Concordo absolutamente com ela. E disse-lhe que tu morreste, segundo me informaram, em plena lucidez e consciência, sem qualquer medo ou surpresa em relação à morte. Foi assim e não podia ser de outra maneira, porque tu tinhas da vida e da morte o conceito antropológico, filosófico e de liberdade com que vivem e morrem os homens que não são homens vulgares.

E tu não foste um homem vulgar. Por isso me enojam as pessoas vulgares que te odeiam, como odeiam tudo o que está para além da fronteira onde a sua mente não consegue chegar. Do ponto de vista literário, tu fizeste o que, ate aí, ninguém fez, talvez depois do Padre António Vieira. Revolucionaste a literatura, quebraste a cristalização da literatura clássica como se tivesses feito explodir um fogo de artifício ao fim da página trinta ou quarenta do teu “Levantado do chão”. Criaste uma profunda influência na maior parte dos escritores portugueses actuais. E não só portugueses. Eu não sou nenhum especialista em literatura nem pretendo armar-me em tal, mas como tu pensavas e bem, a literatura é uma espécie de “Casa de Deus” onde todos cabem e têm o seu lugar. Claro que “Casa de Deus”, aqui, a terás entendido como casa da arte. Deus nada tem a ver contigo nem comigo.

Consta-se que nunca disseste mal ou menosprezaste outro escritor. Por isso, creio que não desprezarás a minha opinião. Passaram perante os meus olhos, nas minhas leituras, além de ti, dezenas, se não centenas de escritores, desde a minha juventude, desde aqueles dezoito anos, em que eu devorava Dostoievski, debaixo dos lençóis, à luz de um foco olho-de-boi para que minha mãe não visse. Sinto que tenho algum direito a falar da tua obra. E a tua obra foi das mais belas que li, das que mais me ensinaram e perturbaram, no construtivo sentido que a perturbação pode trazer, das mais difíceis de construir, das mais penosas a levantar do chão.

E fizeste-o com toda a humildade e sabedoria das grandes mentes que têm a noção da sua pequenez humana. Basta ver que por todos os teus livros vagabundeia um narrador que não és tu nem uma personagem inventada, um fio condutor que não é obra estéril de ficção, mas a voz de um povo, a voz do povo, a voz da humanidade. Quem fala nas entrelinhas de toda a tua obra é a humanidade. Magnífica mensagem, a da humanidade silenciada. Comoves-me, meu amigo, porque entraste profundamente no coração do meu pensamento.

Referes a tua infância, tão bem descrita no discurso de Estocolmo, como a única fase da tua vida, digna de uma autobiografia. A tua pepita de ouro, ali burilada debaixo da figueira com o teu avô. O resto da tua existência, dá-lo tu a entender, não passa de cascalho na ingrata tarefa garimpeira da vida. Entendo-te tão bem, Saramago. Também eu tive uma infância a contar as estrelas e a percorrer com os olhos a Estrada de Santiago. Também eu tive histórias de encantar e aterrar. Também eu me vesti de sol e me despi de luar. Também eu tive uma tigela de café com sopas de pão, no mais belo pequeno almoço da minha vida.

Mas a tua escrita, profunda e admirável escrita, que vai desde a esperança ao descrédito na humanidade, é a tua humanidade. A tua terceira qualidade que em nós penetrou de forma convincente. Irmãs gémeas ou trigémeas inseparáveis. A escrita do pensador, a lucidez do escritor, a humanidade do ser humano, a humanidade do criador de utopias, que consegue ter a coragem de chegar ao fim da vida sorrindo das suas próprias utopias. Morres com um sorriso nos lábios, não pela paz do mundo pela qual lutaste, mas com a paz de quem tudo fez para que assim não fosse, depois de teres dito ou pensado que, no fim de contas, das tuas contas, o homem é uma merda, um vírus que apareceu na cadeia evolutiva, metido à força no gráfico de Hillis, contaminando, irremediavelmente, não só toda a humanidade como toda a ordem natural dos seres vivos. Creio que tens razão, embora mantenha ainda a esperança ou a utopia de a não teres.

Adão Cruz

18 de Junho, 2010 Carlos Esperança

José Saramago – COMUNICADO da AAP

COMUNICADO

A Associação Ateísta Portuguesa, profundamente consternada com o falecimento de José Saramago, prémio Nobel da Literatura e ateu coerente, manifesta à família do enorme escritor o testemunho da sua solidariedade e o respeito pela sua memória.

José Saramago não foi apenas o mais destacado escritor de língua portuguesa, foi também uma figura ímpar do ateísmo que nunca vacilou na crítica ao obscurantismo e na luta contra a superstição.

As suas convicções ateístas mereceram da Associação Ateísta Portuguesa (AAP) uma proposta para o tornar membro honorário desta associação, proposta entusiasticamente votada na sua primeira Assembleia Geral, em 19 de Julho de 2008.

O País, a literatura e o ateísmo estão de luto.

Associação Ateísta Portuguesa – Odivelas, 18 de Junho de 2010

18 de Junho, 2010 Carlos Esperança

É o que nos vale…

Bispos dizem que Igreja enfrenta “resistências”

A Igreja “encontra dificuldades e resistências” em Portugal, as instituições católicas estão “dispersas, parecendo não ter ligação entre si” e o modelo de sociedade na Europa é “cada vez mais mais secularizado e por vezes secularista, abafando ou denegrindo o valor e a influência pessoal e social da religião, da fé cristã e da Igreja”.

17 de Junho, 2010 Carlos Esperança

A burqa, o niqab e a laicidade

É surpreendente que cidade a cidade, país a país, a tolerante Europa comece a proibir os símbolos identitários que atingem sobretudo as comunidades muçulmanas. Várias vezes discuti o assunto, quando ainda não tinha o actual grau de premência, com o meu velho amigo e condiscípulo no liceu, Vital Moreira.

Os seus argumentos contra a proibição tinham o brilho da inteligência e da convicção e nunca me persuadiu, apesar de ambos defendermos a laicidade como uma exigência da democracia.

É difícil convencer alguém de que os crentes podem ser tolerantes mas as crenças não o são e de que há uma evidente afinidade entre crenças e acção. Os islamitas podem ser pacíficos, e geralmente são, mas não o são o livro que os intoxica nem os pregadores que os fanatizam.

Os cristãos já não queimam judeus mas quando eu frequentei a catequese gostava que eles morressem. Muitas décadas depois de pensar que deus foi uma perigosa invenção dos homens e um instrumento do poder ao serviço das classes dominantes, aprendi que os quatro Evangelhos (Marcos, Lucas, Mateus e João) e os Actos dos Apóstolos têm cerca de 450 versículos abertamente anti-semitas.

O sionismo não seria o que é se não fosse a crença no Armagedão e a demência da fé que devora aqueles crentes com trancinhas que se julgam o povo eleito com uma escritura no notariado celeste que lhes outorga a Palestina.

Quanto ao Corão e aos horrores que Alá reserva aos infiéis basta uma leitura na diagonal para nos apercebermos do fascismo islâmico contido nos versículos que são debitados nas pregações das mesquitas e recitados nas madraças. Não vale a pena esconder que mais de cento e cinquenta versículos do Corão são dedicados à jihad.

As Cruzadas, a Inquisição, a Evangelização, o imperialismo sionista e o terrorismo islâmico não seriam possíveis sem o livro horroroso que Saramago chamou, e bem, manual dos maus costumes.

O facto de hoje os cristãos se comportarem de forma humanista deve-se mais à repressão política sobre as Igrejas, desde o Iluminismo, do que à bondade dos textos sagrados. O Papa actual, tal como o anterior, sente a nostalgia do Concílio de Trento.

Em nome da liberdade defendo a interdição da burka e do niqab, sinais de submissão da mulher e instrumentos de provocação contra a sociedade laica. Por cada mulher que quer usar livremente tais adereços há milhares que são obrigadas.

Provem-me que a Tora, a Bíblia e o Corão só defendem o bem, apesar dos intérpretes encartados que querem convencer-nos, quando lhes convém, que tais livros não afirmam o que lá vem.

Qualquer religião, filosofia ou ideologia política que não respeite a igualdade entre homens e mulheres, não merece a menor consideração. E nenhuma religião respeita.

15 de Junho, 2010 Carlos Esperança

Campanha de Apostasia 2010 – Exposição ao Núncio Apostólico

Exmo. Senhor
Núncio Apostólico Rino Passigato

Nunciatura Apostólica

Avenida Luís Bívar 18
Lisboa 1069-147 LISBOA

Exmo. Senhor Embaixador:

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP), indignada com o abusivo número de crentes que a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) reivindica e com os privilégios de que goza em Portugal, tomou a iniciativa de lançar, no dia em que o Papa Bento XVI aterrou em Lisboa, uma “Campanha de Apostasia 2010“, a nível nacional, para que todos aqueles que foram baptizados, e que hoje em dia não se consideram católicos, possam agir em conformidade e deixar de ser contabilizados pela ICAR para efeitos estatísticos e usados como instrumento de pressão sobre o poder político.

Sabe-se que apenas cerca de 18 por cento dos portugueses se afirmam como “católicos praticantes”, um número que tem vindo a diminuir de forma consistente ao longo dos anos e que, desde 2007, existem por ano mais casamentos civis do que religiosos.

Esta situação ilustra uma clara e progressiva secularização da sociedade portuguesa, de todo incompa-tível com a encenação pia levada a efeito durante a visita papal e, sobretudo, com os privilégios injustos e injustificáveis usufruídos e reclamados com base em números fictícios.

Correspondendo ao apelo da “Campanha de Apostasia 2010“, os interessados têm acedido ao site oficial da AAP e seguido as instruções lá indicadas na convicção de que neste ano de centenário, todos juntos poderemos contribuir para uma República mais justa, sempre fiel aos seus princípios laicos.

Acontece, porém, que os párocos ignoram ou iludem os pedidos de apostasia  recusando certificar que os cidadãos interessados deixaram de pertencer à religião com cujos princípios não se identificam.

Assim, solicitamos a V. Ex.ª que, por intermédio da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) ou pelos canais que julgue mais apropriados, sejam dadas instruções aos párocos para que certifiquem o aver-bamento da apostasia nos registos de baptismo a quem o reclamar.

Pedimos ainda a V. Ex.ª que nos mande informar  como proceder no caso de duas ateias baptizadas em países estrangeiros:

a)    M. A. F. – Fui baptizada em 1958 em Marrocos – Tetuan (Marrocos Espanhol), por isso numa igreja católica espanhola. A quem me posso dirigir para renunciar ao baptismo?

b)    S. C. – Certificado requerido ao Padre Pedro (Paróquia du Sacré-Coeur de Gentilly) que, embora prometendo ir esclarecer as dúvidas que o assaltam, não se coibiu de lhe dizer:
«Actualmente e desde que tem consciência nunca esteve em comunhão com a Igreja, como reconhece. Por isso me pergunto se faz sentido pedir a defecção não havendo nunca antes uma comunhão efectiva e consciente da sua parte», como se o que o senhor pároco pensa tivesse relevância para o que a requerente reclama.

Esperando resposta tão breve quanto possível da parte de V. Excelência,

Apresentamos-lhe os nossos cumprimentos.

Associação Ateísta Portuguesa, 15 de Junho de 2010

15 de Junho, 2010 Carlos Esperança

Literatura ateísta

Deus o Homem e a Verdade

Editora: Argusnauta

Este livro, do sócio da Associação Ateísta Portuguesa (AAP), mereceu de Vítor Fonseca este comentário:

Acompanhei, entre duas bicas, a feitura de ‘Deus, o Homem e a Verdade’, do meu amigo Manuel Sousa Figueiredo.

Apercebi-me haver matéria para um livro capaz de abrir novos horizontes a uma temática de todos os tempos: Deus, a sua eventual existência e a sua obra máxima: a criação do Homem.

As expectativas foram ultrapassadas: utilizando um raciocínio frio e objectivo, utilizando fundamentalmente como fontes textos da Igreja de Roma, ou da sua hierarquia, analisa e critica a publicitada actuação de Deus como Criador do Universo, e a actuação do Homem no mundo que compartilha com os outros animais.

São apontadas em pormenor as contradições existentes na doutrina da Igreja, bem como dissecada a actuação dos seus representantes ao longo dos dois últimos milénios.

É uma obra com originalidade, porque quase exclusivamente utilizando factos, aos quais é aplicado um raciocínio baseado na lógica, fundamentando conclusões que, como tal, o autor entende irrefutáveis.
É um enorme abanão numa instituição entendida como decadente, utilizada para fins que em nada correspondem à imagem dos ensinamentos de Cristo, a qual considera condenada a desaparecer, em termos históricos, num curto prazo de tempo.

A minha opinião? É uma obra imperdível. A inteligência deve ser ouvida.