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Mês: Novembro 2006

15 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Vida para além da morte, mediunidades e outros disparates

A verdadeira face da suposta detective paranormal Sylvia Browne

James Randi denuncia Peter Popoff, um pastor evangélico que ganhava milhões de dólares com as aldrabices que supostamente «Deus» lhe confidenciava. Quase 10 anos depois de ter sido exposto como charlatão o devoto cristão está de volta em força…

Se há algo que me irrita são charlatães que exploram a ingenuidade e ignorância alheias como modo de vida. Explorem esses charlatães fraudes centenárias ou inventem novas fraudes. Isto é, sejam eles free lancers ou membros de uma igreja que encoraja a idolatria supersticiosa de «relíquias milagrosas» obviamente falsas, com o pretexto de que não há problemas morais «na continuação de um erro que foi transmitido em boa fé por muitos séculos», ou seja, de que não há qualquer imoralidade em encorajar a crença em fraudes centenárias!

Mas fico especialmente irritada quando esses ditos charlatães afirmam a alto e bom som que há «provas científicas» dos disparates que vendem aos mais incautos. Hoje refiro-me a Deepak Chopra, um dos gurus americanos da «espiritualidade» new age, que escreveu um conjunto de disparates agrupados num livro que dá pelo nome de «Life After Death: The Burden of Proof» em que Chopra afirma que «há conhecimento validado pela ciência» que permite provar como falsa a posição dos cientistas (uma óbvia contradição que passa ao lado do «iluminado» new ager) que sustentam serem matéria de fé, logo impossíveis de provar, todos os disparates sobre a vida para além da morte que abundam na maioria das mitologias.

A estrela das cretinices debitadas pelos especialistas do «sobrenatural» continua a mecânica quântica que se confirma exercer um fascínio especial em todos os charlatães! De facto, Chopra, numa prosa que considero uma elegia ao nonsense – como nonsense comparável ao melhor de Boris Vian – debita uma quantidade assombrosa de afirmações sobre assuntos dos quais obviamente não faz a mínima ideia o que sejam, por exemplo sobre aquilo a que chama «as unidades da Criação, como sejam quarks e a gravidade»! Mas os embevecidos seguidores do guru, tão ignorantes de quântica como o seu ídolo, afirmam na Amazon ser este livro o elo que faltava para reconciliar a física quântica com a crença na vida além da morte!

Estas e outras imbecilidades debitadas pelo especialista no paranormal, que assevera ter a «ciência» comprovado os dislates que reuniu no livro, são demolidas num post imperdível no meu blog de ciência favorito, o Pharyngula. Simplesmente a não perder!

15 de Novembro, 2006 jvasco

Ratros estará doido?

Ratros é um senhor feudal.
O seu feudo tem cerca de 300 habitantes, e ele quer que eles sejam livres.

Ratros também quer que cada um dos seus servos o adore. Em particular Ratros quer, por exemplo, que cada um deles tenha em casa um retrato seu, e que o abrace todas as noites.
Ratros pensou em dizer «cada um de vós é totalmente livre de ter ou não um retrato da minha pessoa na vossa casa. Mas terão de ser consequentes com os vossos actos: se não tiverem tal retrato, serão degolados», mas apercebeu-se que isso era absurdo. Essa situação, de lhes permitir ter ou não ter retratos nas respectivas casas, mas castigá-los severamente caso não tivessem seria indistinguível de uma proibição. Seria uma proibição. Seria uma limitação à liberdade dos habitantes do seu feudo.

Ratros reflectiu: caso ele se limitasse a castigar quem não tivesse tal retrato, todos teriam o retrato, mas por mero medo do castigo – não seriam livres. Mas se Ratros não fizesse nada, muitos poderiam nunca ter o seu retrato em suas casas e viver impunes. Então teve uma ideia.

Em vez de anunciar perante todo o feudo que degolava quem não tivesse um retrato seu na sua casa, decidiu espalhar rumores. Primeiro apareceu a Josefias, que era pastor, e pediu-lhe que espalhasse tal regra. Mais tarde apareceu a Martins, o juíz, repetindo o que tinha dito, e dando instruções adicionais.

Os rumores sobre o que dissera foram-se espalhando, mas, à medida que a palavra se espalhava eles iam sendo distorcidos. Havia quem dissesse que era importante que o quadro fosse pintado a óleo, e quem jurasse a pés juntos que seria chicoteado quem não o tivesse pintado a cera. Pior de tudo, havia vários rumores a serem espalhados que diziam que era quem não tivesse o quadro de Dromodor (um outro senhor feudal de existência incerta) que seria degolado. E cada vez foram surgindo novos e diferentes rumores. Algumas pessoas sentiam-se perante tal confusão de rumores que preferiam não confiar em nenhum, e diziam «se Ratros quisesse que nós tivéssemos o seu quadro em nossas casas, ele dizia-o claramente, espalhando pergaminhos por si assinados por todos os recantos do seu domínio, não lhe custiaria nada fazê-lo, e espalhar rumores desta forma parece uma brincadeira absurda.»

Ratros decidiu entao enviar o seu próprio filho para falar com Joel e Abel, dois carpinteiros, para lhes transmitir com clareza todas as instruções. Joel e Abel ficaram tão convictos que foram extremamente persuasivos. Desta feita convenceram quase um terço das pessoas a respeito da importância do quadro de Ratros em cada lar, se bem que, com o passar do tempo, as discussões entre os que acreditavam na importância do óleo e da cera se mantivessem constantes, e por vezes bem agressivas. Quanto aos restantes, quase um terço mantinha nas suas casas um retrato de Dromodor. Havia quem dissesse que era parecido com Ratros, e quem considerasse que era totalmente diferente.

Esta história faz algum sentido?

Não.

Porque não?
Porque, como é óbvio, Ratros não tornou as pessoas mais livres por esconder delas o castigo que pretende aplicar. Porque não faz sentido querer esconder tal castigo, supondo que tal segredo é o garante da liberdade, e depois tentar passá-lo através de rumores, vivendo com toda a confusão que isso implica.
Porque assim Ratros nem sequer vai beneficiar necessariamente aqueles que potencialmente pudessem gostar mais dele, mas sim aqueles que tiveram a sorte de ouvir os rumores certos, ou a sorte de duvidarem dos errados e não dos certos – a sorte de não ter espírito crítico face a esses.
Esta atitude de Ratros seria totalmente absurda do princípio ao fim. Só um louco agiria desta forma.

Querem-nos convencer que Deus, alegadamente infinitamente justo e cheio de amor, age desta forma. Que o Deus omnipotente não envia um anjo seu para cada um de nós; ou pelo menos para a ONU em directo para as câmaras de todo o mundo; que não escreve a história de Jesus na Lua para todos vermos que é verdade; que se esconde de tantos de nós; por não querer que façamos a sua vontade apenas por medo do Inferno, a que alegadamente nos destina caso não o adoremos.
Isto é totalmente absurdo.

14 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Mudando o Chile

A eleição da ateísta Michelle Bachelet está a varrer as teias de aranha católicas do Chile, um dos países em que a manipulação social da Igreja de Roma se faz mais sentir mas em que lentamente a sociedade chilena se liberta dos condicionamentos sociais resultantes de uma ditadura sob os auspícios da Igreja Católica – Augusto Pinochet, o ditador chileno, crente devoto foi considerado um católico exemplar por João Paulo II.

O mesmo Pinochet que considera ir «Deus» perdoar-lhe todos os atropelos dos direitos humanos, incluindo o direito à vida, que cometeu durante os 17 anos da sua abençoada ditadura, já que «Tudo o que fiz, tudo o que levei a cabo, todos os problemas que tive, dedico-os a Deus».

Mas a sociedade totalitária, completamente dominada pelos dogmas e hipocrisias católicas, está em vias de extinção no Chile. Assim, o desaparecimento da censura que garantia o pensamento único católico permitiu que o Chile já não seja considerado uma nação de 16 milhões de fundamentalistas católicos.

Uma sondagem levada a cabo pela MORI Chile indica que entre 1990 e 2006, num país em que o divórcio é apenas permitido há dois anos e a homossexualidade apenas deixou de ser crime há 8 anos, 60 e 49% da população aceitam, respectivamente, o divórcio e a homossexualidade.

Para além disso, e não obstante as ululações em contrário da Igreja de Roma, cerca de 90% da população considera que as mulheres devem ser livres de controlar a sua fertilidade, escolhendo o método contraceptivo que entenderem.

A misoginia da Igreja Católica que se traduz não só na oposição a qualquer forma de contracepção mas igualmente na consideração que a vida de uma mulher tem menos valor que qualquer óvulo fertilizado – e a lei actual do Chile segue estritamente os ditames do Vaticano em relação ao aborto: é proibido mesmo para salvar a vida da mulher – está na base das últimas guerras abertas da delegação local dos ditadores de Roma com o governo de Bachelet.

Assim, a Igreja Católica chilena ulula contra a última campanha de Michelle Bachelet, que visa prevenir a infecção com o HIV promovendo o uso do preservativo – no Chile mais de metade da população nunca usou um preservativo e apenas 35,4% dos jovens o utilizam na primeira experiência sexual.

De igual forma, a Igreja Católica carpiu a decisão recente de um Tribunal chileno que confirmou uma directiva de Setembro que permitia a venda livre da pílula do dia seguinte.

Por outro lado, não obstante a homossexualidade já não ser crime, não há qualquer disposição legal que reconheça ou proteja os direitos de homossexuais, situação que Bachelet pretende mudar.

De facto, fazem parte do programa que a elegeu, «pontos totalmente inaceitáveis para a consciência cristã» de acordo com «os reiterados ensinamentos dos Papas». Nomeadamente, Bachelet pretende que o Chile assine um anti-católico protocolo de 1979 da ONU que defende os direitos das mulheres – a ICAR não reconhece direitos, a que chama «exigências ‘para ela mesma’», à mulher.

Para além disso Bachelet pretende oferecer «estabilidade legal» às uniões de facto «independentemente da sua composição», um duplo pecado mortal já que implicitamente admite vir a reconhecer uniões homossexuais.

Marta Lagos, directora da MORI Chile afirmou recentemente em relação a esta abertura da sociedade chilena à modernidade, lenta para os padrões ocidentais mas impensável há uns escassos 15 anos:

«A mudança de valores é enorme se olharmos para ela da perspectiva que … sobre estes temas [aborto, divórcio, homossexualidade, contracepção, etc.] nos tornámos numa sociedade que tolera alguns deles e começa a falar sobre os restantes».

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13 de Novembro, 2006 Ricardo Alves

Anselmo sem fogo

Tenho alguma ambivalência face aos «religiosos moderados». Simpatizo com o facto de não seguirem à risca os preceitos religiosos, o que é sinal de carácter e exercício de liberdade. Por outro lado, fico perplexo com a insistência em quererem salvar sistemas de ideias e tradições que, mesmo reinterpretados, só podem merecer o repúdio das pessoas de bem.

Consideremos o caso de Anselmo Borges, um sacerdote católico moderado que escreve no Diário de Notícias ao domingo, e que assume o ónus das guerras de religião, da repressão religiosamente ordenada da sexualidade, e dos crimes cometidos pelas igrejas ou justificados pelas religiões. Conclusão:
  • «Estes factos obrigam a ter constantemente presentes, com temor e tremor, os perigos patológicos das religiões. Talvez nunca se tenha meditado suficientemente na grandeza heróica daqueles que preferiram o ateísmo a ficar presos de um deus que humilha, escraviza e anula o Homem

É claro que é uma apreciação simpática para nós, ateus (embora o «heroísmo» me pareça um exagero). Mas, depois de ter batido no peito e confessado pecados ao ponto de reconhecer alguma razão aos ateus, Anselmo Borges deita ao mar a rede de pesca:

  • «No entanto, o Homem é por natureza religioso, no sentido de estar constitutivamente aberto à questão de Deus enquanto questão. Essa abertura, independentemente da resposta, positiva ou negativa, que se lhe dê, é que é o fundamento último da dignidade humana. Precisamente porque é abertura ao infinito.»

Este argumento é daqueles que me faz sorrir. O homem é «naturalmente religioso» porque inventou a religião? Então também seria «naturalmente científico» porque inventou a ciência, ou «naturalmente ideológico» porque inventou as ideologias, ou «naturalmente jogador de xadrez» porque inventou esse jogo. Evidentemente, Anselmo Borges responderá que a ciência e o xadrez não fundamentam a «dignidade humana». É uma opinião, mas mais atrás Anselmo já reconhecera implicitamente que a religião, historicamente, sempre foi a maior inimiga da «dignidade humana», e que foi até o principal instrumento da humilhação e escravização da humanidade… Em que ficamos?

Mas continuemos com Anselmo Borges:

  • «A religião enquanto fé no Deus infinito e pessoal foi mediadora da tomada de consciência da infinita dignidade de ser Homem. Esta é a intuição e a parte de verdade da tese de Feuerbach ao querer reduzir a teologia a antropologia

Novamente, mais um jogo de palavras vazio de sentido. Acrescenta-se o adjectivo «infinito» a duas abstracções («Deus» e «dignidade») e postula-se uma associação espúria. Infelizmente, a maior parte do pensamento religioso actual está reduzido a jogos de palavras deste género, o que poderá ser um sinal de que já nem os sacerdotes têm fé. Mas, assim, também não serão eles a ajudar-nos a compreender como a humanidade criou a religião. (Aparentemente, foi a seguir à linguagem e à música…)

13 de Novembro, 2006 Carlos Esperança

Terrorismo religioso

O terrorismo violento e persistente, que torna reféns as democracias, ameaça a liberdade e compromete os direitos individuais, tem a marca genética da religião, inspira-se nos livros sagrados e é acirrada pelo clero.

A mais ameaçadora das taras é o proselitismo.

A evangelização cristã foi a desgraça que levou a tortura, a humilhação e o genocídio aos povos que submetia à obediência papal. Livrou-nos da tragédia o laicismo e a progressiva secularização das sociedades apesar da nostalgia da Cúria romana e do azedume do clero.

Hoje, criam-se bandos de fanáticos em países que não reconhecem os direitos humanos, a igualdade dos sexos e a modernidade. São países dominados por clérigos, que manipulam os crentes, instilam o ódio nas crianças e condicionam a opinião pública.

As democracias, em vez de exigirem o respeito pelos direitos humanos, fizeram negócios milionários com os cleptocratas beatos e ignoraram a violência e os crimes em nome de um Deus cruel e apocalíptico.

As teocracias têm legiões de suicidas dementes, ansiosos por destruir a civilização e pôr em risco a sobrevivência da Humanidade, confiantes no prémio de 70 virgens e rios de mel em que o delírio místico os faz acreditar.

Em nome da liberdade religiosa, aceita-se o Corão e os clérigos que o debitam e sonham com um califado mundial, sob os auspícios do Profeta Maomé e desenvolve-se o racismo contra os árabes, como se fossem criminosos, sem punir os responsáveis pelas madraças onde se recrutam e formam os suicidas assassinos.

Se os cristãos levassem a sério a Bíblia e os padres prometessem o Paraíso a troco do seu cumprimento, permitiríamos a catequese e homilias que incitassem ao crime, ao racismo, à xenofobia e ao anti-semitismo, para que alguns trogloditas ganhassem o Paraíso?

É preciso alterar a estratégia no combate ao terrorismo que tem a assinatura de Deus. Os crentes são as vítimas dos sacerdotes. A origem dos crimes está nos livros sagrados e no clero que os debita.

Os democratas têm o dever indeclinável de combater ideologias totalitárias e o clero que as promove. Os crimes de uma religião não se previnem com a violência de outra, anulam-se com a laicidade e o secularismo.

13 de Novembro, 2006 jvasco

Sam Harris e os crentes «moderados»

Sam Harris contradiz imensas imensas afirmações que oiço repetidas acriticamente. Ele fá-lo com bons argumentos, que importa reter. No último vídeo do youtube que coloquei no meu anterior artigo, Sam Harris começa por criticar o facto dos crentes moderados darem cobro à crença fundamentalista, visto que estes criam um tabu no que respeita a creiticar crenças alheias, tabu esse que é totalmente injustificado e patético. Sam Harris também alega que as justificações que os crentes moderados dão para a crença, baseando as suas razões em desejos e anseios, são um flagrante Non Sequitur, que torna tal crença frágil do ponto de vista da consistência intelectual. E continua:

«Outro problema da crença religiosa moderada é que ela não é apenas inconsistente do ponto de vista intelectual, mas também do ponto de vista teológico. É que os fundamentalistas leram os respectivos livros sagrados, e estão certos a seu respeito: eles são tão intolerantes, divisivos, como os Osamas deste mundo sugerem.

Uma vez dignificada a alegação de que a Bíblia ou o Corão são fundamentalmente diferentes de outros livros – sejam as peças de Shakespeare, seja a Ilíada – que estes livros não são literatura, são os melhores livros de que dispomos em termos morais; uma vez dignificada tal alegação, ficamos reféns do conteúdo de tais livros.
O criador do Universo realmente odeia homossexuais.
Se lerem a Bíblia, lerão que, no mínimo, o sexo homossexual é uma abominação aos olhos de Deus – é dito com todas as letras em Levítico, é rectificado em Romanos.

Muitos cristãos imaginam que o Novo Testamento fundamentalmente repudia toda a barbárie que pode ser encontrada no Antigo Testamento: livros como Levítico, Deuteronimo, Samuel II, Éxodo, etc. Isso não é verdade. Podemos apanhar Jesus em metade das suas disposições e podemos deparar com belas palavras e conselhos eticamente válidos, como a regra de ouro.
Mas o mesmo Jesus também disse coisas como, em Lucas 19, ‘Tragam aqui os meus inimigos, que não aceitam minha autoridade, e matem-nos à minha frente’.

Eu garanto-vos que os inquisidores da idade média, que quiemaram hereges vivos ao longo de 5 séculos, tinham lido todo o Novo Testamento – leram o sermão da montanha – eles encontraram uma forma de enquadrar o seu comportamento com o exemplo de Jesus.

Não é acidental que as referências teológicas da Igreja, S. Tomás de Aquino, S. Agostinho […] fossem a favor da morte e tortura de hereges. […]
Nós olhamos para trás, pessoas a serem queimadas vivas, académicos a serem torturados até à loucura por especularem acerca da natureza das estrelas, da nossa perspectiva enviesada do XXI século e pensamos ‘eram lunáticos’.
Não é verdade. Este era um comportamento perfeitamente razoável, tendo em conta aquilo em que se acreditava.
[…]

Outro problema com a crença religiosa moderada é que estes crentes tendem a ser cegados pela sua própria moderação.
É muito difícil para os moderados acreditar que as pessoas acreditam realmente nestas coisas. Quando vemos nas notícias um Jihadista a dizer coisas como ‘amamos mais a morte que o infiel ama a vida’ e então rebenta consigo, os religiosos moderados (não os fundamentalistas) tendem a não acreditar que a crença foi a razão pela qual ele se fez rebentar. ‘Não tem nada a ver com religião: há causas económicas e sociais, a questão da educação, …’

Não sei quantos engenheiros e arquitectos têm de se fazer rebentar para nós entendermos que as causas não são só económicos-sociais. É muito mais sinistro.

É realmente possível ser tão instruído que se saiba fabricar uma bomba nuclear, e ainda assim acreditar nas 72 virgens.»

12 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Exorcismo em vez de contracepção

Uma médica inglesa que trabalha em várias clínicas de planeamento familiar em Londres aconselhou uma paciente que pretendia uma injecção contraceptiva a procurar um padre católico na catedral de Westminster para ser exorcizada.

A médica em questão, Joyce Pratt, por uma razão que o Fitness to Practise Panel do General Medical Council pretendeu em vão descortinar qual seja – a médica não compareceu no primeiro de três dias de audição pelo painel – determinou que as queixas da jovem K. se deviam a «magia negra» e, para além do exorcismo, recomendou-lhe crucifixos e água benta como «cura».

12 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Freira católica condenada por genocídio

Theophister Mukakibibi, uma freira católica, foi condenada a 30 anos de prisão pelo seu papel na chacina que desabou em 1994 no Ruanda, país maioritariamente católico, quatro anos depois de uma visita de João Paulo II.

A freira foi condenada por ter contribuído para o massacre de centenas de Tutsis que se refugiaram no hospital em que Theophister trabalhava. De acordo com dezenas de testemunhas «Ela foi responsável por seleccionar Tutsis e expulsá-los do hospital e as milícias matavam-nos. Esta freira organizava pessoas para serem mortas». A freira, que negava comida aos Tutsis que se refugiaram no hospital, mantinha reuniões regulares com as milícias Hutu.

Theophister Mukakibibi junta-se a duas outras freiras, Gertrude Mukangango e Maria Kisito, condenadas em 2001 pelo seu envolvimento no massacre de 7000 Tutsis que se tinham refugiado no convento Sovu em Butare, no sul da Ruanda. Os refugiados foram reunidos num dos estábulos do convento e incinerados vivos com combustível fornecido pelas duas freiras.

Ainda não se concluiu o julgamento do padre Athanase Seromba no International Criminal Tribunal for Rwanda (ICTR) em Arusha, Tanzânia. O padre Seromba é um dos membros da ICAR envolvidos no genocídio que ocorreu há 12 anos no Ruanda. Genocídio de quasi um milhão de Tutsis e hutus moderados conduzido sob o olhar indiferente e muitas vezes colaborante da ICAR. O padre é acusado de ter promovido o assassínio de milhares de Tutsis que se tinham refugiado na sua igreja de Nyange, onde os trancou. A igreja foi depois arrasada por bulldozers com os refugiados lá dentro. Aliás, incontáveis milhares de Tutsis foram assassinados em igrejas

Continuam igualmente à espera de julgamento por genocídio outros «homens de Deus» como os padres Hormisdas Nsengimana, reitor do colégio Christ-Roi em Butare, e Emmanuel Rukundo, capelão do exército ruandês.

O padre Guy Theunis, acusado de incitar ao genocídio nas páginas da revista «católica, o «Diálogo», que dirigia, conseguiu que o seu julgamento fosse transferido para o seu país de origem, a Bélgica, onde para já continua em liberdade, recebendo de instituições católicas prémios … pelo seu esforço de paz (!?), e não há notícias se e quando será julgado.

O padre Wenceslas Munyeshyaka, neste momento sob protecção da Igreja Católica francesa, está a ser julgado in absentia pelo Tribunal Militar de Kigali pelo seu papel nos massacres levados a cabo sob sua supervisão na catedral desta cidade. A sentença deve ser conhecida no próximo dia 16 de Novembro. Os acusadores pedem prisão perpétua para o padre…

12 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Elton John: Religiões deveriam ser proibidas

Numa entrevista conjunta com Jake Shears dos Scissor Sisters à edição dominical do Guardian, The Observer, Elton John afirma que as religiões deveriam ser proibidas devido à sua falta de compaixão em geral e em particular devido ao ódio em relação aos homossexuais que acirram.

De facto, embora considerando que existem coisas boas na religião, Elton John, um humanitário que criou em 1992 uma fundação de combate à SIDA, tida como a maior do mundo no género, afirma que na prática as religiões organizadas apenas transformam as pessoas em lemmings (ratos) cheios de ódio.

Por outro lado, considerando que a religião está na origem dos conflitos da actualidade – que segundo Elton John podem escalar para uma III Guerra Mundial -, o cantor interroga-se porque razão os líderes religiosos mundiais não se reunem, discutem o problema e apelam à paz. Porque razão a paz parece não estar na agenda dos líderes religiosos enquanto o ódio aos homossexuais merece tanto destaque, isto é, porque razão estão apenas unidos pelo ódio e não por um desejo de paz…

Elton John queixou-se ainda do facto de muita gente se ter de certa forma demitido da cidadania, e aquelas que não o fizeram protestam apenas na Internet, em blogs e afins, em vez de irem para as ruas protestar, destacando a eficácia das manifestações de Fevereiro de 2003 contra a invasão do Iraque, que mobilizaram milhões de pessoas ao redor do Globo.

Em relação à sua homossexualidade, o cantor, que se casou em Dezembro passado com o companheiro de 11 anos, David Furnish, comentou o facto de aparentemente ser considerado a «face aceitável da homossexualidade», circunstância que aproveita para tentar lutar em prol da causa gay, destacando o facto de dentro de duas semanas se deslocar à Polónia, em que a homofobia, instigada pelos mui católicos gémeos Kaczynski, eleitos com base na «retórica do ódio», atingiu dimensões inaceitáveis num país da UE.

Para Elton John a situação na Polónia e outros países dominados pelo catolicismo, inseparável do ódio cristão à homossexualidade, não se trata de uma questão homossexual mas sim de uma questão de direitos humanos.

«Eu vou lutar por eles, quer o faça em silêncio fora das luzes da ribalta quer o faça vocalmente e seja preso. Não posso simplesmente cruzar os braços. Além disso, não é essa a minha natureza. Tenho quase 60 anos. Não posso cruzar os braços e ignorar o que se passa e não o farei».

11 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Cidade do México reconhece uniões homossexuais

Os legisladores da Cidade do México, com 9 milhões de habitantes, aprovaram na quinta-feira uma resolução que reconhece as uniões de facto, independentemente da composição do casal. A lei, aprovada com 43 votos favoráveis, 17 contra e 5 abstenções, foi apoiada pelo Partido Democrático Revolucionário(PRD)enquanto os conservadores do Partido de Acção Nacional, PAN, com fortes ligações à Igreja Católica, se opoem à lei.

A resolução precisa ainda ser ratificada pelo presidente da Câmara Alejandro Encinas, do PRD, para entrar em vigor (num prazo de 120 dias).

Como seria expectável, a lei mereceu veemente oposição da Igreja Católica. Um dos opositores à concessão de quaisquer direitos aos pecadores homossexuais afirmou mesmo à Reuters que a homossexualidade induz decadência, mais concretamente: «As sociedades desde sempre entram em decadência quando há homossexualidade».

De igual forma, na África do Sul está em discussão uma lei que a ser aprovada reconhecerá o casamento homossexual neste país, tornando a África do Sul pioneira no reconhecimento dos direitos dos homossexuais num continente onde as religiões do livro, cristianismo e islamismo, têm um peso político muito importante. Peso político que se traduz na criminalização da homossexualidade no Zimbabwe, Quénia, Uganda, Nigéria, Tanzânia e Gana.

Também neste país a oposição à lei tem essencialmente motivações religiosas, nomeadamente dos sectores ligados às igrejas cristãs, como seja o Partido da Democracia Cristã Africana, que declara «inaceitável» a nova proposta de lei.