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8 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

A Igreja católica francesa entra no combate político

Nem o facto de ser uma promessa eleitoral do novo presidente, amplamente sufragado pelo eleitorado, demove a Igreja católica do combate contra a legalização do casamento entre indivíduos do mesmo sexo e o direito à adoção de crianças.

Da agenda da Igreja faz igualmente parte a luta contra o debate sobre a eutanásia, já anunciado pelo presidente François Hollande, mas sem qualquer intenção afirmada pelo Governo.

Num país onde a laicidade é uma realidade indiscutível desde 1905, o que tem evitado à França guerras religiosas, vêm agora os bispos entrar no campo da política e das leis da família com o proselitismo de que estavam arredados há mais de um século. A ameaça de uma missa nacional foi a primeira atitude do presidente da Conferência Episcopal, o cardeal André Vingt-Trois, que a marcou para 15 de agosto próximo, dia da Assunção da Virgem ao céu, evento de que se desconhece o meio de transporte, a data, o itinerário e os locais de partida e de chegada.

Espera-se que a guerra declarada não ultrapasse as orações e as homilias e que a liturgia não inclua fogueiras nem a crueldade com que a Igreja católica combateu os albigenses. A França, graças à laicidade, conseguiu terminar com os banhos de sangue provocados pelas guerras religiosas.

Manifestar a sua posição perante os paroquianos amigos da hóstia e da missa é o direito que a França assegura a todos os cidadãos mas incitar o povo contra o cumprimento de promessas eleitorais, num Estado que «não reconhece, não remunera nem subvenciona nenhum culto», é um provocação que remete para a intolerância islâmica que intoxica os crentes nas madraças e mesquitas que a França tem sabido conter.

A França não exige à exótica monarquia vaticana que se reja por regras democráticas mas não consentirá à única teocracia europeia que interfira na política da República.

8 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

Terrorismo católico e paraíso pentecostal

Ver quinto parágrafo:

A Obra entra em cena

Era preciso curar as feridas da economia católica, revidar contra a Teologia da Libertação e sua influência pela opção preferencial pelos pobres. Foi então que o fundador da Opus Dei, José María Balaguer, aparece com o milagre da multiplicação do dinheiro. Aliado de Francisco Franco e influente nos bancos e universidades espanholas, Balaguer tinha notoriedade e respeito financeiro. A Opus Dei paga a conta do Vaticano (a dívida tinha sido instituída na organização do concílio Vaticano II) e em contrapartida o papa canoniza Balaguer (morto em 2000) num período curto, dizem os vaticanistas, sem o advogado do diabo. João Paulo II faz então uma investida conservadora na América Latina para acabar com a igreja popular.

7 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

A MÁ FAMA DOS ATEUS (CONT.)

Por

ONOFRE VARELA

Na antiga Grécia os ateus eram considerados más pessoas, e em Portugal, ao longo de toda a Monarquia, no Estado Novo do fundamentalista católico António Oliveira Salazar em conluio com o cardeal Cerejeira, e até hoje, a coisa não é muito diferente…

Com o advento do 25 de Abril, Portugal abriu-se à Europa e a liberdade de expressão e de escolha foi instituída, permitindo à juventude que cresceu depois de 1974 uma educação escolar e científica mais abrangente.

Porém, nesta data (cerca de 40 anos depois) ainda não sei (de saber direitinho) do aproveitamento desses jovens perante os factos que fazem a História. Mas os rumores que me chegam, e os actos que testemunho, são cada vez mais preocupantes, com exemplos negativos de governos que lêem mais o catecismo católico do que a Constituição da República.

Ouço governantes e presidentes darem, demasiadas vezes, “graças a Deus”, ao estilo fundamentalista do Islão, o que não vaticina nada de bom para os seus actos de governantes de uma República que se afirma laica.

De facto, Deus foi a pior e a mais cruel invenção dos homens, e quando os políticos evocam o seu nome… temos fornicação social!

A bem dizer, a “Previdência Social” está a ser substituída pela “Santa Providência”!…

Os apelantes das graças de Deus são os nossos carrascos e coveiros… mas os ateus é que são os responsáveis do mal, naquelas cabeças meio ocas, onde se arrecadam velharias, mais o arquivo morto de conceitos desusados.

7 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

Maniqueísmo e política internacional

 

O maniqueísmo não é um exclusivo das religiões e marca profundamente a política onde as ideologias raramente se preocupam com os factos, bastando-lhes os reflexos clubistas e os ressentimentos pessoais.

Agostinho de Hipona, elevado à santidade graças à conversão ao cristianismo, deixou marcas no pensamento

do que se costuma designar por ocidente, apesar de ter alterado os traços mais caraterísticos do seu pensamento inicial.

O braseiro político que percorre o planeta cria comentadores a quem o maniqueísmo serve de muleta. Se os

EUA estão de um lado, esse é o lado mau ainda que do outro se encontrem os facínoras mais cruéis ou os mais anacrónicos suicidas. Valha a verdade que a política externa dos Estados Unidos não prima pela clarividência nem pela defesa dos direitos humanos mas, ainda que imperfeita, serve uma das raras democracias que funcionam e um povo que, pouco dado a pensar, é capaz dos mais generosos atos de heroísmo e das mais cruéis manifestações de violência gratuita.

Hoje é a Síria o vespeiro mais perigoso onde se jogam as peças do xadrez internacional. A ideologia e os sentimentos humanitários estão ausentes do alinhamento com o Governo ou com os rebeldes. A Rússia e o Irão defendem o presidente Bachar el Asad enquanto os Estados Unidos e a Arábia Saudita apoiam o

Exército Livre da Síria (ELS). Hoje, em Alepo, a segunda cidade síria, não há lugar a um módico de humanidade, a um resquício de complacência. No teatro de guerra civil o ódio xiita e o sunita aumentam a violência sectária enquanto a população procura fugir e os generais do regime hesitam entre o combate e a deserção segundo a perceção da correlação de forças.

Em Damasco, por ora, depois de cruentos combates, o regime controla o poder. De um lado e do outro são todos tão maus que apenas apetece retirar-lhes o povo que é imolado pela demência da fé e os interesses das grandes potências.O primeiro-ministro desapareceu, os rebeldes agridem e torturam os adversários entre os quais 48 milicianos do Irão que ali foram em busca das 72 virgens e de rios de mel doce e aguardam que a morte os liberte da tortura, de que Alá se alheia, ou que sirvam de moeda de troca. Nos dois lados da barricada a religião é um detonador do ódio. A sharia já funciona no seio do ELS para mostrar que Alá é grande e Maomé o seu único profeta.

Seja qual for o desfecho da tragédia não há futuro que compense o sangue derramado.

7 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

A MÁ FAMA DOS ATEUS

Por

ONOFRE VARELA

Um dos meus amigos, sacerdote católico, afirma que eu não sou ateu.
No seu entender os ateus são más pessoas porque serão destituídos de sentimentos fraternos e incapazes de atitudes altruístas. E como me conhece bem, sabe dos meus afectos, interesses culturais, atitudes cívicas e respeito pelo próximo (incluindo as suas motivações religiosas) e por isso considera que eu não posso ser ateu!

É um preconceito que não lhe pertence em exclusivo. Há imensa gente a pensar assim, e se calhar sem fazerem ideia de onde brotou esse quisto cerebral que alimentam como sendo uma verdade absoluta. Mas tudo terá a ver com a formatação das suas cabeças de religiosos, em tenra idade, que lhes transformou o crânio num sótão de velharias
guardadas como relíquias de valor incalculável, incontornável e insubstituível.

A desacreditação dos ateus pertence ao filósofo Platão que declarou ser Deus a medida de todas as coisas, e puniu os adeptos do Ateísmo decretando-lhes três penas: para os “ateus inofensivos”, cinco anos de internamento numa casa de correcção, onde os membros do “Conselho Nocturno” os visitavam, reflectindo com eles acerca da incorrecção das suas condutas. Os ateus que praticassem heresias mais graves tinham
pena maior, e aos reincidentes era aplicada a pena capital.

A palavra “ateu” é muitas vezes usada como sinónimo de “mal comportado”, na convicção de que todos os crentes praticantes de credos religiosos são bondosas pessoas incapazes de uma ofensa ao próximo e que distribuem amor a torto e a direito…
Até há sacerdotes que entendem o termo “amor” como “fornicação” e abusam sexualmente de crianças e de deficientes mentais, transformando as sacristias, ou os seus quartos sacerdotais, em autênticos prostíbulos.

Relativamente a comportamento cívico, o ateu é tão bem (ou tão mal) comportado, quanto o crente e temente a Deus. Simplesmente, o ateu considera-se um mamífero primata, um ser gregário que precisa de viver em comunidade, e assume as suas acções perante os homens da sociedade em que vive, pois só a eles deve respeito, e só a eles prestará contas das suas acções. Depois da morte o ateu fina-se como se fina qualquer
ser vivente, animal ou vegetal. A palavra morte tem o significado de morte autêntica, que é o fim total, radical e perene daquela vida.

O crente na divindade considera-se filho de Deus, acredita ter sido feito por Deus à Sua imagem e semelhança (e afirma-se humilde?!…), que deve respeitar “e temer” Deus antes do respeito devido ao próximo, e crê que depois de morrer será confrontado com Deus, a quem vai prestar contas pelos actos praticados em vida, sendo, então, premiado com uma vida eterna e doce, ou condenado a um sofrimento atroz e perpétuo até ao fim dos tempos. Mitologia no estado mais puro!

Para os ateus, este derradeiro prémio ou castigo denuncia um pensamento débil. A realidade e a fantasia faz a diferença entre os pensamentos ateu e teísta.

O menino que nós fomos habita-nos para toda a vida, para o bem ou para o mal. E aquilo que nos é ensinado em idade tenra condiciona o raciocínio e os actos do adulto que somos.

6 de Agosto, 2012 Ludwig Krippahl

Treta da semana (passada): a posição oficial.

Há duas semanas mencionei o caso de Sanal Edamaruku, escrevendo apenas que «mostrou que a água milagrosa que brotava de uma estátua de Jesus não vinha de Deus mas sim de um cano entupido. Como a lei de lá pune quem “magoa sentimentos religiosos”, os bispos católicos querem mandá-lo já para a prisão enquanto aguarda julgamento»(1). Sem dar exemplos concretos, o Alfredo Dinis acusou «Os ateus de língua portuguesa» de relatar este episódio «pelo processo de copy-paste, sem […] confirmar a verdade do que copiam.»(2) Segundo o Alfredo, o exemplo de «incorrecções e inverdades que [os ateus] apresentam acriticamente como verdades» é, desta vez, dizermos que «De uma imagem de Cristo Crucificado saiam gotas de água, o que logo foi considerado como milagre pela Igreja Católica. Demonstrado porém por Sanal que se tratava de um fenómeno natural de infiltração de águas na estátua, logo a Igreja Católica o levou a tribunal.» O Alfredo dedica-se então a demonstrar que a Igreja Católica não tinha proclamado oficialmente o milagre. Para nada, porque nem vi alegarem que a Igreja Católica tinha oficializado o milagre nem é isso que importa.

Várias associações católicas acusam Sanal de «ferir deliberadamente sentimentos religiosos e tentar actos maliciosos visando ultrajar os sentimentos religiosos de uma classe ou comunidade», o que é crime na Índia(3). A posição oficial da Igreja Católica acerca do milagre é irrelevante. O que importa é quererem meter o homem na prisão por isto. Mas isso não vem nem no post do Alfredo nem na declaração do Bispo de Bombaim acerca do sucedido.

O Alfredo transcreve essa declaração do Bispo Agnelo Gracias. Explica que a Igreja não se pronunciou acerca do milagre, por isso é possível que a água gotejante tenha explicação natural, mas o Sanal fez três alegações que o Bispo considera falsas e pretende corrigir assim: primeiro, a Igreja não defende a veneração de imagens porque, segundo o Bispo, há uma grande diferença entre honrar e venerar; segundo, a Igreja não fez aquela estátua para ganhar dinheiro; finalmente, nem a Igreja nem o Papa são contra a ciência. Como o Sanal afirmou o contrário, escreve o Bispo, então tem de pedir desculpa.

Antes de abordar as alegações do Bispo, queria reiterar que o problema não é quererem que ele peça desculpa. Se este fosse apenas mais um caso de crentes a queixarem-se de ofendidos não teria a gravidade que tem. O problema, que gostava que o Alfredo abordasse, é quererem mandar o Sanal para a prisão por causa disto. É um problema que me toca pessoalmente.

Tal como o Sanal, eu também defendo que a religião é incompatível com a ciência. A fé, os argumentos de autoridade, as alegadas revelações por processos misteriosos e irreprodutíveis e a mitologia sobrenatural são tudo coisas que a ciência rejeita com boas razões. A distinção entre “honrar” e “venerar”, no contexto de ir uma carrada de gente em procissão atrás da estátua de Maria, fazer fila para beijar o Jesus na cruz ou rezar à figura do santinho, não passa de demagogia. Certamente que os doutos teólogos terão muito a apontar sobre a etimologia destas palavras e as várias interpretações filosóficas dos termos mas, para a massa associativa que suporta a religião, esta é uma distinção sem diferença. E eu também critico a atitude da Igreja Católica, e todo o complexo politico-económico da superstição, por se aproveitarem da credulidade de milhões acerca de milagres, aparições, santos e afins.

Por isso preocupa-me esta atitude do Alfredo. Eu defendo o direito do Alfredo dizer mal dos ateus sempre que quiser, mesmo achando que ele não tem razão. E se algum ateu se ofender será a infantilidade do ateu que criticarei. Mas, apesar do Alfredo me parecer uma pessoa decente, se a lei aqui me prendesse por dizer o mesmo que o Sanal disse, suspeito que o Alfredo não se iria preocupar com os meus direitos. Temo que a sua indignação se reduzisse a apontar alguma confusão acerca de uma “posição oficial”, mesmo que a alegada confusão fosse inventada na altura. Esta é uma grande diferença entre a crença pessoal e a religião.

As crenças pessoais são um direito e, normalmente, são inofensivas. Seja no Jesus, no Joseph Smith, no SLB ou no pastel de Belém, uma pessoa boa e decente, deixada à vontade com as suas crenças, naturalmente as adapta aos seus valores e continua boa e decente. Mas o empacotamento de crenças em religiões, regulamentadas por autoridade e burocracia, tem este efeito perverso que o Alfredo, inadvertidamente, ilustra. A indignação que uma pessoa decente como o Alfredo devia sentir perante esta injustiça que é condenar o Sanal à prisão morre soterrada em dogmas, autoridade e “posição oficial”.

As atrocidades da Igreja Católica estão no passado. Hoje é mais o Islão que maltrata, tortura e mata quem discordar. Mas todas as religiões tentam recuperar a velha glória porque, ao contrário do que alguns julgam, o problema não é haver gente pérfida a deturpar a religião. A maior parte das pessoas é decente, se as deixarem com a sua consciência. É a institucionalização das crenças em “posições oficiais” que leva milhões de pessoas, de outra forma decentes, a cometer ou permitir tanta barbaridade.

«Religion is an insult to human dignity. With or without it you would have good people doing good things and evil people doing evil things. But for good people to do evil things, that takes religion.» (Steven Weinberg)

1- Treta da semana: o que eles querem sei eu.
2- Alfredo Dinis, Ateísmo (em) português (2)
3- Change.org, We call on the Catholic Archdiocese of Bombay to encourage the withdrawal of complaints against Indian Rationalist Sanal Edamaruku

Em simultâneo no Que Treta!

6 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

O Vaticano e os negócios

O Banco do Vaticano é o principal acionista da maior indústria de armamentos do mundo, a Pietro Beretta

Talvez poucas pessoas saibam que a fábrica de armas Pietro Beretta Ltda. (a maior indústria de armas no mundo) é controlada pela Holding SpA Beretta e que o acionista majoritário da Holding SpA Beretta, depois de Gussalli Ugo Beretta, é o IOR (Instituto para Obras de Religião) [comumente conhecido como Banco do Vaticano], instituição privada, fundada em 1942 pelo Papa Pio XII e com sede na Cidade do Vaticano.