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18 de Abril, 2005 Ricardo Alves

O «laicismo radical»

O texto reproduzido a seguir foi enviado para publicação ao jornal Público, em resposta a um artigo de Vital Moreira intitulado «Constituição europeia e religião». Nesse artigo, Vital Moreira acusara pessoas indeterminadas de serem «laicistas radicais» e «fundamentalistas» por defenderem a supressão do artigo I-52 da Constituição europeia, ou seja, por defenderem a laicidade da União Europeia. O Público entendeu não publicar esta carta de leitor. Fica aqui reproduzida.
«Senhor Director,
No Público de 12/4/2005, para minha perplexidade,Vital Moreira (VM) acusa os laicistas que se opõem à Constituição europeia de serem «radicais» e «fundamentalistas». VM defende, surpreendentemente, a institucionalização do diálogo europeu com as igrejas (estabelecido no artigo I-52), que apresenta como «condição da democracia participativa» (que prefere à democracia representativa?), mas não desmente que assim se institui um regime europeu semi-confessional distinto da separação das Igrejas do Estado que, felizmente, vigora em Portugal desde a Constituição (laicista «radical» e «fundamentalista»?) de 1976. VM nem sequer manifesta estranheza por a Constituição europeia separar o diálogo com as igrejas e organizações filosóficas do diálogo com as associações da sociedade civil, este já incluído no artigo I-47. Omite igualmente que o artigo I-52, ao também proteger contra a legislação europeia o estatuto de que gozam as igrejas ao nível nacional, evita que a legislação europeia contra a discriminação religiosa ou contra as sonegações de fundos afecte as igrejas, e perpetua os seus privilégios nacionais relativamente a outras associações, tornando assim o dito «diálogo» muito desigual.
Concordo no entanto com VM quando afirma que o Preâmbulo, na sua forma actual, confere à democracia e aos direitos fundamentais uma inspiração parcialmente religiosa inexacta, pois estas liberdades afirmaram-se, historicamente, em oposição ao poder das igrejas.
Tudo somado, espanta-me que VM não veja, mesmo perante o apoio das igrejas europeias ao Tratado Constitucional, que este não é laico. É caso para dizer que o europeísmo, como se diz do amor, pode cegar.
Ricardo Alves
13/4/2005»
17 de Abril, 2005 Palmira Silva

O próximo papa?

Amanhã começa no Vaticano o concílio que decidirá quem vai ser o novo papa e, mais importante ainda, indicará se serão concretizadas as esperanças dos católicos ditos moderados que almejam um papa mais próximo da modernidade, que não eleja a vivência medieval da fé como paradigma cristão.

Para mim e suponho que para os restantes ateístas que colaboram e seguem este diário, esta é igualmente uma ocasião que seguimos atentamente mas com apreensão. Porque quem for eleito neste conclave vai ser determinante na nossa acção futura. Porque se não me engano na minha análise dos factos vamos ver eleito um papa que será, se tal é possível, mais conservador que João Paulo II e mais determinado em anatematizar a laicidade e o ateísmo. A Igreja de Roma é uma organização política com centenas de anos de experiência e por mais que tentem «vender» o Espírito Santo como o inspirador da escolha, uma análise objectiva das eleições ao longo da História confirma que o vencedor é ditado pelos ventos da política. Interna, quando a Igreja tem assegurado o seu domínio temporal e política externa em tempos de crise. Foram apenas considerações de política externa que ditaram a eleição do doutra forma impossível João XXIII, numa altura em que era necessário lavar uma imagem muito chamuscada pela actuação dos pios Pios na segunda Guerra Mundial.

Nesta altura a imagem da Igreja, especialmente depois da mediatização da «bondade» de João Paulo II aquando da crónica da sua morte anunciada e desenvolvimentos, só é ensombrada para o grande público pelos inúmeros casos de pedofilia perpetrados por membros do clero. Um marketing subliminar em marcha há muito tempo tenta apontar como culpado o Concílio Vaticano II e os brandos costumes que permitiu, nomeadamente o abandonar das tradições (austeras) centenárias de celebração da missa. Muito vocal na condenação destas práticas modernistas litúrgicas é o «papável» que eu considero mais provável ser eleito, Joseph Ratzinger, que dirige, muito apropriadamente, a ex-Inquisição.

É o candidato mais provável porque a Igreja de Roma precisa afirmar o seu domínio numa área do globo que cada vez mais rejeita ser controlada por ela: a Europa. E a conjuntura actual é a ideal para um Papa que transmite, como Ratzinger no seu livro que viu estrategicamente a luz do prelo na passada quarta-feira, «Values in Times of Upheaval» (Valores em tempos de crise) as suas preocupações sobre o futuro de uma Europa que ele considera sob a ameaça da laicidade e do Islão e que manifesta publicamente o seu repúdio e desgosto pelos escândalos que abalam a santa Igreja.

«Para sobreviver a Europa precisa de uma aceitação crítica da sua cultura cristã» podemos ler no seu livro assim como «Na hora do seu maior sucesso a Europa parece ter ficado vazia interiormente, paralizada por uma crise que lhe ameaça a vida e dependente de transplantes», referindo-se à baixa taxa de natalidade europeia e à necessidade de mão de obra imigrante.

Numa homília escassos dias antes da morte de João Paulo II afirmou, e fez questão de tal ser reproduzido nos media, que «Senhor, muitas vezes a tua Igreja parece estar prestes a afundar e a parecer um barco cheio de buracos… A face e roupagem da tua Igreja chocam-nos. Mas somos nós que a conspurcamos» numa clara alusão ao escândalo da pedofilia que tem abalado a Igreja católica por todo o Mundo.

Todas estas «coincidências» e mais algumas que seria fastidioso enumerar conjugadas com o facto de Ratzinger ter sido escolhido para proferir a missa no funeral de João Paulo II, elegia que serviu para realçar a sua ligação muito próxima ao finado para além de o ter feito aparecer com uma face humanizada até aí desconhecida, me fazem considerar ser muito provável que o novo Papa seja o actual Cardeal Ratzinger. De qualquer forma é expectável que o próximo Papa saia da ala mais retrógrada do Vaticano e que seja um europeu!

Para a semana veremos se a minha análise se revelou correcta! E devo confessar, para bem dos meus escassos tempos livres, que gostaria que não… E certamente não assinei a petição aos membros do Conclave para que elejam Ratzinger rapidamente!

17 de Abril, 2005 Mariana de Oliveira

B. D.

Foi lançado, no passado dia 13, o primeiro livro da série «The Atheist», escrito por Phil Hester, desenhado por John McCrea e publicado pela Desperado Publishings através da Image Comics.

Segundo o criador da banda desenhada, «Antoine Sharpe é apelidado de Ateísta pelos seus colegas de trabalho do gabinete do sub-secretário de Estado de Defesa para a Tecnologia Emergente, uma equipa de desmistificadores. Ele não se importa com a fé ou com a falta dela, mas os seus colegas não conseguem lidar com o seu cepticismo e não o aceitam por causa disso».

O primeiro livro, «Incarnate», conta a história como Sharpe reage ao primeiro caso que não é capaz de desmistificar, um caso sobre possessão em que as almas dos falecidos querem apenas dar mais umas voltas com os corpos dos vivos. Basicamente, os mortos querem festa e regressam aos milhares.

Algo a descobrir pelos aficionados da banda desenhada.

17 de Abril, 2005 Mariana de Oliveira

Ecografia abençoada

Depois de uma tosta de queijo com a cara de Jesus e de uma tartaruga demoníaca, aparece uma ecografia com a cara de Cristo.

Paula Holmes, do Ohio, nos Estados Unidos da América, afirma que teve a ecografia da sua neta pendurada num placard durante anos e que, recentemente, fez esta descoberta.
Não se sabe ainda se a ecografia será vendida em leilão a algum coleccionador destas raridades, mas suponho que, pelo preço certo, a senhora estará disposta a ceder a sua recordação abençoada.

16 de Abril, 2005 Carlos Esperança

A religião e a liberdade

Os ateus não reivindicam superioridade moral. Não é a crença que faz alguém melhor nem o ateísmo que torna qualquer um pior. A influência do meio ambiente, a educação recebida, a instrução que se adquire e a matriz genética fazem os homens. Os homens são eles próprios e a sua circunstância, como disse Ortega y Gasset.

Há crentes que visitam o Diário Ateísta e que demonstram tolerância, espírito de diálogo, sentido crítico e respeito pelos valores humanos. Mas isso não faz respeitável a sua religião nem universais os seus valores e, muito menos, acrescenta provas da existência de Deus. Apenas faz deles cidadãos respeitáveis ou mesmo exemplares.

O Diário Ateísta esforça-se por preservar alguns valores que as religiões combatem – a liberdade individual, a laicidade do Estado e o tratamento igual de todos os cidadãos, independentemente do sexo, da religião ou da raça. É surpreendente que os crentes não se interroguem sobre a geografia das religiões e não reflictam sobre a distribuição dos credos pelo planeta e à custa de quanto sangue.

Outro aspecto inquietante é o facto de todas as religiões defenderem um tratamento igual quando são minoritárias e afirmarem que «não de deve tratar de forma igual o que é desigual» quando são maioritárias – argumento usado até à náusea em Portugal, pela ICAR, na negociação da Concordata.

A religião só não é mais repressiva porque não tem força suficiente. A cada conquista exige sempre mais. Não dispensa os baptismos em crianças de tenra idade, não desiste de tornar obrigatório o ensino religioso na escola oficial, interfere através das Associações que domina nos conteúdos e programas escolares e no comportamento social dos que não são crentes, condiciona o aparelho de Estado e interfere nas leis.

A possibilidade do divórcio entre casais que contraíram matrimónio católico só foi possível depois do saudoso ministro da Justiça Salgado Zenha ter ameaçado com a denúncia da Concordata. As Escolas do Magistério Primário, até ao 25 de Abril, tinham uma cadeira de Religião Católica, igual a qualquer outra, que exigia nota positiva para a obtenção do diploma de professor. Ninguém era dispensado da missa de consagração do curso, da bênção da pasta e da fotografia com o bispo da diocese. Ninguém podia ser professor do ensino primário sem professar a religião católica, embora a lei fosse omissa a esse respeito.

A admissão nas Escolas de Enfermagem exigia um certificado de baptismo católico e o atestado de bom comportamento passado pelo padre da paróquia de nascimento. Eram documentos necessários. E, no fim do curso, lá vinha a bênção, a missa da consagração e outras pias violências a que tinha de sujeitar-se quem precisava de ganhar a vida.

Para que a violência clerical se contenha é preciso uma vigilância constante. O combate às religiões e o exercício da blasfémia são necessários à preservação da liberdade de pensamento que as igrejas se esforçam por pôr permanentemente em causa.

16 de Abril, 2005 pfontela

Bastiões da fé II: o caso grego

Outro reduto da fé radical e abusiva é sem dúvida a Grécia onde a Igreja Ortodoxa Grega se insinuou de tal modo no Estado e nas vidas dos seus cidadãos que durante muito tempo foi impossível promulgar qualquer legislação que ameaçasse a ortodoxia.

Mas os tempos mudaram. Recentemente o público grego tem sido sistematicamente confrontado com escândalos dentro da Igreja. Desde traficantes de droga que se fazem passar por monges para fugir às autoridades (com a aparente cumplicidade da hierarquia da Igreja Ortodoxa Grega – IOG) a altos representantes da mesma Igreja que são acusados de corrupção (subornos a juizes e outros funcionários).

Tudo isto mais a inevitável mudança de mentalidade causou um verdadeiro colapso no apoio à Igreja e à sua posição privilegiada dentro da sociedade grega (cerca de 65% dos gregos são a favor da separação da Igreja e do estado). Pela primeira vez em muitos anos há uma oposição clara ao posicionamento do Estado face à Igreja. Até o parlamento grego partilha este sentimento, no mês passado na tomada de posse do novo presidente muitos deputados saíram da sala ou recusaram-se a levantar-se à entrada do arcebispo Christodoulos (representante máximo da IOG).

Ventos de mudança chegaram à Grécia, parecendo provável que os dias de religião forçada nas escolas gregas (ensinada como é óbvio pela IOG) e salários clericais pagos pelo governo estão a chegar ao fim.

16 de Abril, 2005 Mariana de Oliveira

Pecado corredor

Há uma semana, no Paquistão, homens munidos com bastões divertiram-se a queimar carros e atirar bombas incendiárias numa mini-maratona em Gujranwala, a sul de Islamabad. A corrida, uma das primeira a permitir a participação de mulheres, acabou com a polícia a disparar gás lacrimogénio e a deter mais de cinquenta pessoas.

Este incidente fez com que, no passado dia 11, um grupo de mulheres se manifestasse à frente do parlamento nacional paquistanês contra a «talibanização» do país.

Ao contrário do que muitos comentaristas do Diário Ateísta possam pensar, os autores desta publicação não se limitam a estar atentos (para eles, atacar) às relações da Igreja Católica com a sociedade portuguesa e europeia. Pelo contrário, nós, como ateus e democratas, queremos que todo o mundo se liberte da perniciosa influência das correntes religiosas que defendem a submissão inconstestável a dogmas medievos incompatíveis com a Liberdade e com a Igualdade.

15 de Abril, 2005 Carlos Esperança

Eu ateísta me confesso

Andam por aqui alguns crentes à espera da penitência pelos pecados cometidos. Vêm cheios de proselitismo, ansiosos por agradar a Deus. Não sei se é o desejo de mortificação que os atrai, se a inútil vontade de nos converter. Podiam ser mais originais no que escrevem, mas limitam-se a manifestações de subserviência para com o defunto Papa e a debitar louvores a um defunto mais antigo – Jesus Cristo. Depois, repetem até à náusea a prosa e a convicção.

Os créus têm as Igrejas, os órgãos de comunicação social, a Concordata, os padres, a água benta, o incenso, as orações e a eucaristia para ruminarem a fé numa posição de privilégio. Todavia arribam a este espaço de incréus onde não se apela ao terço, não se recomendam as orações, não se reconhecem os milagres nem a bondade do Papa milagreiro.

Aqui é um espaço de liberdade onde a Declaração Universal dos Direitos do Homem é a Bíblia que nos une, onde a igualdade dos sexos e a não discriminação por questões de raça, religião ou cor são o único credo. Aqui, no Diário Ateísta, consideramos que não há a mais leve suspeita da existência de Deus nem o menor motivo para pôr pessoas de joelhos e aliená-las com orações. Não reconhecemos à água benta mais valor do que à outra, nem à hóstia, depois de consagrada, mais calorias do que antes.

Os valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade, que a Revolução Francesa nos legou, são incompatíveis com o direito divino que as religiões defendem e com as ameaças e castigos com que os seus padres assustam. O Inferno somos nós que o fazemos, aliás, sois vós, os crentes. O Vosso Senhor, que se zanga com os homens que procuram a felicidade, que tem uma multidão de clérigos a administrar uma treta a que chamam sacramentos, que aliena as pessoas com ladainhas e orações, é uma ficção perigosa de raiz totalitária.

O Vosso Senhor, o Deus que as religiões do livro vendem, com atributos pouco recomendáveis e mau feitio, é uma invenção muito antiga, adaptada ao longo dos séculos e imposta com a barbaridade de que só os clérigos são capazes.

Nós sabemos que Deus vos ama. Não deixem que vos troque por nós, ateus, que apenas queremos que nos deixe em paz.

15 de Abril, 2005 Carlos Esperança

Um taumaturgo em vida

João Paulo II tornou-se intocável para o bando de beatos que lhe exaltam as virtudes que poucos notaram e lhe escondem os defeitos que todos viram.
O Papa retrógrado que se opôs ao planeamento familiar, que contribuiu para o avanço da Sida com a paranóica obsessão contra o preservativo, que odiou o sexo com o mesmo vigor com que Maomé perseguiu o toucinho, que ajudou a derrubar o muro de Berlim mas protegeu ditaduras de direita, esse Papa é hoje um santo proclamado por multidões histéricas à procura do sobrenatural.

O Papa que condenou a invasão do Iraque (o Papa da Paz, como é alcunhado), não condenou os Governos que a apoiaram onde se contavam os seus mais fiéis admiradores (Portugal, Espanha, Itália e Polónia). Não terá sido um caso de dupla personalidade ou mais uma manifestação da duplicidade habitual do Vaticano?

O Papa que discriminou as mulheres, silenciou teólogos, foi autoritário e absolutista, que procurou impor os seus preconceitos à humanidade, que combateu a laicidade, chamou loucos aos ateus e passou o pontificado em fanático proselitismo, defendeu sempre os seus bispos mais fanáticos e ostracizou os mais liberais.

Nestes dias que correm, entre os cardeais conciliares circulam mais intrigas do que hóstias, sussurram-se mais calúnias do que orações, nota-se mais a pesada mão do cardeal Ratzinger do que a leveza do voo do Espírito Santo.

Cada um dos cardeais está ansioso para que lhe saia o prémio que dará direito ao poder absoluto vitalício, aos permanentes microfones, aos banhos de multidão e a um enterro com milhões de pessoas a chorarem por contágio e desequilíbrio emocional.

A tiara pontifícia tem um estranho brilho e constitui uma obsessão cardinalícia mas os interesses políticos da seita pesam muito na escolha do premiado.

Para os mais beatos, que ficaram embevecidos com os cinco milhões de fiéis que foram a Roma certificar-se se JP2 tinha efectivamente deixado arrefecer o céu da boca, é bom lembrar que outros ditadores tiveram um enterro igualmente apoteótico:

José Estaline – 5 milhões; Ayatollah Khomeini – 5 milhões; Gamal Abdel Nasser – 5 milhões, enquanto Gandhi «só» teve 2 milhões e a lady Di se ficou por 1,5 milhões.
Fonte: Visão de 14-04-2005.

Claro que dos outros não há notícias de milagres, enquanto de JP2 há imensos, feitos à mão, com a hóstia ou com o simples olhar. Um taumaturgo dos diabos.