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Carlos Esperança

1 de Março, 2006 Carlos Esperança

Fátima – o antro do embuste

O documentário aqui anunciado é impressionante. Homens e mulheres, rostos doridos, corpos cansados, peles tisnadas pelo sol, pés inchados e chagados da caminhada, vão a Fátima expiar pecados e em busca de milagres que nunca acontecem.

Um pagador de promessas paga à Virgem o compromisso de um desconhecido. Em casa alguém espera uma graça, o alívio de uma aflição ou a cura de uma moléstia.

Em Fátima as azinheiras estão despidas de virgens, o Sol finge a caminhada diária no sentido inverso à rotação da Terra, sem cambalhotas patéticas nem embustes do clero.

No ar misturam-se os odores dos pés por lavar, da cera que arde e do incenso exigido pela liturgia. Na pira ex-votos ardem em devoção pirómana. No chão esfolam-se joelhos e arrastam-se infelizes em busca de refrigério.

A farsa é alimentada pelos padres e padecida pelos penitentes. O terceiro mundo está ali recriado pela ignorância, ampliado pela angústia, mantido pelo sofrimento.

Que raio de Deus que se rebola de gozo com a humilhação dos homens.

A quem se baixa mingua a estatura; a quem se ajoelha falta amor-próprio e a quem se prostra foge-lhe a dignidade.

Tenho pena dos desgraçados que dão o que não podem, sofrem o que não devem e acreditam no que não há, com a cupidez do clero, a cumplicidade do Vaticano e o desinteresse das associações de consumidores.

28 de Fevereiro, 2006 Carlos Esperança

RTP – 2 Informação

A quem possa interessar
Os leitores que estiverem acordados e interessados podem ver o Documentário «A Fé de Cada Um» de Neni Glock.

O Documentário vai passar na RTP2 (hoje ) terça-feira, dia 28 por volta das 24h (mais coisa menos coisa: http://programas.rtp.pt/EPG/epg-dia.php?datai=-0&dia=28-02-2006&sem=e&canal=8&gen=&time=) .

Este documentário foi galardoado com o Prémio Especial do Júri da XXXII Jornada Internacional de Cinema da Bahia (Salvador da Baía – Brasil).

«A FÉ DE CADA UM» – Um documentário polémico de fé e denúncia

O documentário acompanha alguns personagens em peregrinação a pé ao Santuário de Fátima, Portugal. Um deles é um «pagador de promessas», figura lendária da idade média, que cobrava uma taxa para pagar promessas de outras pessoas. Acompanha também os peregrinos habituais que normalmente movidos pela fé na santa, fazem-se as estradas todos os anos por estas datas de festejos.

Paralelamente acompanha a trajectória polémica de um padre católico, preso por 2 vezes pela antiga policia do regime de Salazar, por ser considerado subversivo, quando alegava estar apenas a seguir o evangelho de Jesus Cristo. Era um opositor as guerra coloniais e pregava a paz entre os soldados.
O padre acredita que Fátima é um embuste da Igreja Católica, um campo de concentração da dor e do paganismo onde se apregoa o culto a uma imagem morta .Os caminhos que percorrem acabam no santuário onde explodem a fé e a denúncia.

Origem: Portugal – 2005 Duração: 57M

28 de Fevereiro, 2006 Carlos Esperança

Adolfo Hitler – um bom cristão

Alguns pios visitantes do Diário Ateísta, devotos de qualquer biltre que use a tiara pontifícia, gostam de acoimar de ateu o carniceiro anti-semita Adolfo Hitler.

Curiosamente, a ICAR, tão lesta a excomungar o comunismo, nunca usou a mesma arma para o nazismo e o fascismo. O livro «A minha luta» e o seu autor nunca foram parar ao Índex onde jazem Sartre, Simone e o perigoso Larousse, autor da… demoníaca Enciclopédia, com o seu nome.

Pio XII, amigo de Hitler, foi com esse ateu que assinou mais uma concordata. A ICAR, com as concordatas, parece vendedora de enciclopédias ao domicílio, e a prestações, ansiosa de obter a assinatura do comprador.

Os militares nazis usavam nas fardas, como divisa, «Deus está connosco». O ateu Hitler obrigava as crianças das escolas a começarem o dia com uma oração ao bom Jesus.

Deve ao ateísmo, certamente, o facto de as suas tropas terem sido recebidas em festa na Áustria com o beneplácito da Conferência Episcopal, sem uma única abstenção.

Após a morte, a missa solene mandada rezar pela ICAR foi uma deferência para com o ateu e suicida.

O Diário Ateísta compreende que João Paulo II não lhe tenha encomendado um milagre nem tenha alvitrado o seu nome para a beatificação mas não esperava que os católicos chegassem tão longe ao ponto de o renegar e considerá-lo ateu.

Aliás, a ICAR, que canonizou duas mulas e um cão (por lapso, é certo), podia também consagrar o antigo menino de coro Adolfo Hitler. Não ficava mal no mesmo altar de Santo Escrivá.

27 de Fevereiro, 2006 Carlos Esperança

Deus e deuses

Gosto dos deuses gregos e do plágio que deles fizeram os romanos. Quando se tornam mitos os deuses ficam simpáticos, enquanto vivos são perigosos.

Os deuses, numerosos, tinham força, graça e beleza. Tinham sexo e reproduziam-se. Eram humanos e tornaram-se agradáveis, talvez por terem caído em desgraça.

O deus monoteísta, protector de tribos convencidas de serem o povo eleito, juntou em si o pior que os homens tinham e o mais execrável de que só deus é capaz.

Os homens, às vezes, são cruéis, deus é sempre e mantém-se eternamente vingativo. Os homens são machistas, prepotentes e arrogantes, deus é tudo isso, divinamente, e muito mais. É misógino e tem o culto da personalidade.

Deus gosta de orações, sacrifícios e jejuns. Adora liturgias idiotas em hebraico, árabe ou latim. Deseja ver pessoas de joelhos ou de rastos. É um déspota de baixo nível e egoísta de alto coturno.

De tanto assustar os homens foram-se estes cansando dele e deixam-no morrer, devagar, como quem esquece o algoz, se emancipa do opressor e prefere a liberdade à obediência e a felicidade de um só dia à glória da eternidade.

Progressivamente, os homens sobrepõem os seus direitos aos caprichos divinos, trocam a teocracia pela democracia e a vontade individual prevalece sobre a de deus. Este não vive sem o clero, a sua guarda pretoriana que lhe interpreta a vontade e a impõe à força.

A única desculpa de deus são os homens que o criaram e os parasitas que vivem dele.

26 de Fevereiro, 2006 Carlos Esperança

Ainda os negócios de Deus

Paul Marcinkus[BE1] , o enorme arcebispo de 1,94 metros e cem quilos de peso, responsável dezoito anos pelas finanças do Vaticano, não foi apenas o infeliz «banqueiro de Deus» que ajudou à falência do Banco Ambrosiano.

Ele dizia que «não se pode gerir a igreja a poder de Ave-Marias» e foi coerente com esta verdade comprovada desde a mercearia até à Microsoft.

Quando aceitou a presidência do IOR (banco do Vaticano) que tinha implícito o barrete cardinalício, uma mordomia substituta da comparticipação de lucros, declarou que, até aí, só tinha como experiência de gestão financeira a colecta dominical a seguir à missa.

Os desfalques foram em nome de Deus mas o Vaticano perdeu 500 milhões de dólares e enlameou-se. Não se soube o destino dos 1.300 milhões de dólares que levaram o Banco Ambrosiano à falência. O director, Roberto Calvi, foi encontrado enforcado numa ponte de Londres e Michele Sindona, outro amigo do arcebispo, foi envenenado na prisão.

Mas o pio bispo, amigo de vários papas, impedido de ser julgado por JP2 (os subsídios ao sindicato Solidariedade não caíram do Céu) recolheu aos EUA em 1990, reformado.

Foi pai solteiro. Deixou um filho único e um escândalo do tamanho da ICAR.

[BE1]Expresso de 25/2/2006 pg. 22

25 de Fevereiro, 2006 Carlos Esperança

O perigo está na fé

As religiões são o cimento que aglutina impérios e exacerba a demência tribal. Foram sempre pretexto para o expansionismo e a xenofobia.

As religiões abraâmicas plagiaram-se sucessivamente e tornaram-se cada vez piores.

Deus, fugindo ao desprezo e tédio, rumou um dia ao Monte Sinai para chatear Moisés e, depois disso, não mais largou a humanidade nem esta deixou de o promover em feiras místicas, simpósios litúrgicos e peregrinações beatas.

O judaísmo degenerou em cristianismo e as metástases deste conduziram ao islamismo. As religiões necessitam de açaime. Sabe-se o que sofre a humanidade quando se deixam à solta.

Deus tornou-se saprófita dos homens, espécie de micróbio intestinal, alçado a criador do Céu e da Terra. Ficou-se por aí porque o medo não conhecia mais mundo para lá do seu habitat e da sua imaginação.

O cristianismo passou de seita a religião graças a Constantino, que se proclamou o 13.º apóstolo. Foi infanticida, assassino e uxoricida, ninharias que não impediram o clero de lhe confiar plenos poderes no concílio de Niceia em 325.

A isenção de impostos para bens imobiliários do clero, as prebendas e a construção de igrejas justificaram o pio silêncio. O Paraíso não tem preço mas paga-se caro.

Dezassete séculos depois, o comportamento do clero mantém-se. Em todas as religiões.

21 de Fevereiro, 2006 Carlos Esperança

Morreu o banqueiro de Deus

Corria o Ano da Graça de 1978 quando João Paulo I ascendeu ao trono pontifício e anunciou uma investigação ao Instituto das Obras Religiosas (IOR) também conhecido por Banco do Vaticano cujas fraudes eram objecto de rumores.

Um jornalista comentou então: «Não anda cá muito tempo». E Deus assim o quis. João Paulo I foi Papa durante 33 dias e não verificou a contabilidade do IOR. Esqueceu-se de respirar durante a noite de 28 de Setembro.

Nunca se saberá se foi Deus que o chamou ou a Cúria que o enviou naquela madrugada de 1978. O Vaticano recusou a autópsia.

No consistório seguinte o Espírito Santo foi mais sensato e inspirou melhor os cardeais. JP2 foi o resultado do bom entendimento entre cardeais, Espírito Santo e Opus Dei.

Começou então a ascensão do arcebispo Paul Marcinkus, banqueiro e guarda-costas de JP2. Presidiu durante onze anos ao IOR, o principal accionista do Banco Ambrosiano, uma respeitada instituição financeira onde o Vaticano, a Mafia, o Opus Dei e outras pias instituições faziam os seus depósitos.

A duplicação fraudulenta das acções do Banco foi o expediente encontrado para cobrir um «buraco» provocado pela dupla Marcinkus/Roberto Calvi (este, um funcionário que o Vaticano fez Director).

Roberto Calvi foi encontrado enforcado num pilar de uma ponte de Londres. Marcinkus foi chamado a depor pela polícia de Roma mas o bondoso Papa JP2 nunca permitiu a extradição.

Morreu hoje, aos 84 anos, o antigo banqueiro da Santa Sé, protagonista de um dos maiores escândalos do Vaticano. Morreu em Phoenix, Arizona, sem barrete cardinalício.