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Carlos Esperança

30 de Julho, 2006 Carlos Esperança

A procissão do Senhor

Os mordomos aprimoram-se a afiar os espinhos, a polir a coroa e a empurrá-la até ao lugar dos miolos do Senhor, com aquela fé dos néscios e a sanha dos crentes.

Ataviam-no com o vestido roxo, lavadinho e engomado por catequistas que proferem piadas brejeiras enquanto lhe retorcem o cordão da cintura.

A cruz há muito que o acompanha como prótese, mesmo nos períodos de ócio em que o desmontam da padiola que nas procissões se denomina andor por causa do movimento que lhe imprime o dorso dos devotos que se queixam do peso e da tradição.

As chagas são avivadas na cor depois de lhe passarem a escova de arame pelos sítios do martírio para melhor aderir a tinta, o verniz e a compaixão dos crentes.

Atrás, noutra padiola de tamanho menor, viaja a mãe, reduzida à condição de mulher, com ar infeliz de virgem, mãe e empregada doméstica.

Em lugar de destaque viaja o padre com a custódia sob o palio cujas varas têm cada vez menos voluntários. Só os foguetes, os bombeiros e os cavalos da Guarda Republicana dão a ilusão de festa na cerimónia gasta pelo tempo, repetitiva e fastidiosa, com música e itinerário inalterados, arrastando as pessoas que ainda vão porque sempre foram.

A procissão é um acto litúrgico destinado a arejar andores, a retirar o bolor dos guiões e estandartes, a reunir crentes e fazer a colecta para o padre. Os anjinhos da praxe vão-se reduzindo com o planeamento familiar e a devoção que esmorece.

As pessoas começam a sentir-se ridículas e com vergonha. Deus, por muito exótico que seja, não se diverte com o espectáculo. Se, ao menos, levassem sacos de cimento para as obras em vez do pesado andor, era mais útil o esforço e menos caricata a viagem.

29 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Fátima – palco da pantomina

Santuário promove iniciativas para assinalar 90 anos das aparições de Fátima

A vida está difícil para quem vive da fé. As pessoas trocam o santuário pelo restaurante, a eucaristia pela merenda e a procissão das velas por um arraial minhoto. Mas há crentes que resistem e se julgam em dívida com Deus.

O santuário de Fátima começou a promoção do 90.º aniversário das aparições. Sabe-se que a única aparição foi a mina do ouro que os crentes tiram do pescoço e das orelhas, pepitas de dor arremessadas com lágrimas à caixa de esmolas da ganância eclesiástica.

A ICAR lembra o aparecimento de um anjo e, se for preciso, arranja penas para provar a passagem do exótico personagem da fauna divina por aquelas terras áridas onde apenas germina a superstição.

A consideração pelas pessoas devia levar a Igreja católica a respeitar a gente simples e a ter pudor. Esbulhar pobres do cordão de ouro que esteve na família várias gerações, das arrecadas que foram da avó, do anel que um padrinho brasileiro ofereceu pelo crisma a um tio-avô, não é um acto de piedade, é um assalto com ave-marias e padres-nossos.

Explorar o sofrimento e a angústia, tirar aos que não têm para dar aos que não precisam, é o negócio que há quase 90 anos floresce em Fátima, aberto para combater a República e atacar o comunismo.

Esquecido o objectivo inicial, ficou a galinha dos ovos de oiro que as viagens papais alimentam e o clero aduba com procissões, terços e bênçãos. A virgem voadora que poisava nas azinheiras e ficava à conversa com a Lúcia, regressou ao Céu para fazer o serviço doméstico enquanto os padres exploram a fantasia do voo do anjo, da aparição da virgem e das cambalhotas do Sol.

28 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Os prosélitos da fé

No pântano da fé germinam com fulgor os fundamentalismos. À medida que Deus se esvai pela rede de saneamento do secularismo, uivam de raiva os crentes que sobram, ganem latim os padres que sobrevivem e ululam imprecações os bispos reunidos nos covis das Conferências episcopais.

Do antro do Vaticano, de sapatinhos vermelhos e camauro, o líder da seita ameaça as democracias e roda o vestidinho, de má catadura, vociferando contra a investigação de células estaminais, a interrupção da gravidez, o preservativo e a pílula do dia seguinte.

Com larga experiência de celibato, o clero dá conselhos sobre a família; com séculos de repressão sexual determina a frequência, duração e intensidade das relações amorosas e decide sobre a finalidade das mesmas; habituado à indissolubilidade do celibato deseja estender a regra ao matrimónio.

Os parasitas de Deus vêem fugir-lhes o poder que já tiveram e têm ciúme dos dementes que julgam que Deus é grande e Maomé o seu profeta, pelo poder que conservam. A Al-qaeda está para os sunitas como o Hezbollah para os xiitas ou o Opus Dei para a ICAR. Só os métodos diferem de acordo com as sociedades onde se acoitam.

Os apaniguados da hóstia, crentes supersticiosos e tartufos em busca de benefícios que a ICAR confere, percorrem o ciberespaço à procura de réprobos a quem zurzir. Infiltram-se nas caixas de comentários, como as beatas outrora na sacristia, grunhem impropérios, crocitam e palram ameaças.

Tal como na Inquisição, para denunciar judeus, bruxas e sodomitas, usam o anonimato como prova da coragem que Deus lhes dá ou vergonha da religião que têm.

Os beatos esquecem-se de que, há séculos, Deus deixou de se transformar em cometa e viajar pelos céus para anunciar catástrofes, intimidar os simples e dar força aos padres.

Hoje, as catástrofes, cada vez mais perigosas e iminentes, são provocadas pela demência mística dos homens, na luta contra os infiéis, no desvario de quem pretende o Paraíso e quer levar consigo, à arreata, ateus de pituitária alérgica ao incenso e pele avessa à água benta.

27 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Se…

Se a virgem Maria, farta de roncos e do abandono a que a votara o carpinteiro de Nazaré, não tivesse o hábito de dormitar à soleira da porta, descomposta, a rezar a Jeová;

Se não fosse noite de lua cheia quando uma pomba suspeita (as outras voam de dia) por ali passou e olhou e viu o que não devia;

Se a dita pomba continuasse a trajectória do voo em vez de poisar e ficar ali a humilhar o humilde carpinteiro;

Se a natureza não tivesse seguido o seu curso como soía;

Não seria necessário que um anjo de nome Gabriel, alcoviteiro de serviço ao Paraíso, fizesse tão longa viagem para avisar Maria de que era prenhez o volume que sentia.

Se quem conta um conto não acrescentasse um ponto;

Se a criança, em vez de ajudar na oficina, não tivesse enveredado pela pregação e feito carreira no ramo dos milagres;

Não teria florescido um negócio que leva dois mil anos de prosperidade e igual tempo a divulgar as peripécias de um curandeiro que fazia milagres à beira do lago Tiberíades e falsificava vinho para casamentos.

26 de Julho, 2006 Carlos Esperança

O azedume dos crentes

O Diário Ateísta é um espaço predominantemente ateu onde os crentes podem vir dar testemunho da sua fé e agredir os ateus. Claro que não nos seria permitido frequentar em liberdade os actos litúrgicos das diversas religiões e contestar os rituais esotéricos, o cantochão e as ladainhas. Nem, ao menos, comentar os pios textos de acção de graças que eventualmente escrevam na blogosfera.

No Islão, com um Deus ainda mais arcaico e pusilânime, os dementes da fé gostam de se imolar com bombas à cintura, degolar infiéis, lapidar adúlteras e decepar membros. Têm um Deus que não é uma besta perfeita porque a perfeição é inatingível.

No judaísmo, apesar da secularização rápida dos descendentes dos que acreditaram em Jeová, há uns exemplares que exibem trancinhas com horror à água e ao sabão e que sofrem de pirose gástrica sempre que alguém desrespeita o velho que encontrou Moisés no Sinai.

No cristianismo, à míngua de fogueiras, caídas em desuso, prisões e torturas, usam a ameaça do Inferno para evitar a fuga dos que restam apegados ao dogma e tentarem irritar os ateus para agradarem ao padre da paróquia e à sogra.

Não compreendem os teodependentes que o direito que lhes assiste de difamar os ateus é o mesmo que exigimos para desmascarar o negócio da fé que dura há quase dois mil anos, que prosperou com Constantino cujos crimes lhe foram relevados e ainda lhe canonizaram a mãe.

Os crentes usam pseudónimos, salvo raras excepções, julgam verdadeiro o Deus que adoram e insultam os ateus às escâncaras. São bem o fruto do cruzamento da estupidez dos evangelhos com a boçalidade do clero que os instruiu.

O que amofina os devotos não é tanto a descrença dos ateus, é a emancipação imparável dos códigos morais que o clero quer ver obedecidos.

25 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Viagem à teosfera

Há dias pus-me a navegar por blogues nunca dantes visitados e encontrei abundantes referências ao Diário Ateísta, com numerosos insultos e um santo ódio de amigos da missa e da hóstia, clonados nas sacristias da Igreja católica.

Julgá-los-ia suicidas islâmicos à cata de virgens e rios de mel se não fossem femininos alguns nomes e vernáculos os erros ortográficos e as derrapagens na sintaxe.

Perdoe-se a imodéstia, mas senti-me animado com o número de citações que me cabem e a aversão cristã que lhes mereço. Na origem dos despautérios só pode estar a ressaca da hóstia ou a pesada penitência de uma confissão.

Da subserviência ao Papa não me admirei, é a postura rastejante de quem julga que o pastor alemão é o vendedor de bilhetes para o Paraíso. O que me surpreendeu foi o ar bovino de quem critica e alvitra sobre o ateísmo que o Diário Ateísta devia defender.

Jamais me permitiria dizer como deve ser o cristianismo, o islão ou o judaísmo. Não tomo partido sobre as patranhas da fé nem pretendo melhorar a forma como os créus exploram o cadáver de Cristo e os versículos do livro único adoptado.

Pela minha formação humanista há muito que teria aliviado o Cristo da penosa coroa de espinhos e o tinha apeado da cruz, mas esse é um problema dos padres que exploram o sofrimento e acham apelativa a iconografia do calvário.

Quanto às ameaças expressas, não as levo a sério, são de catequistas de libido recalcada. Pretendem imitar o divino mestre quando entrou no templo, com excesso de alcalóides, e expulsou a golpes de azorrague os fariseus que, dando-se conta do estado de agitação do desordeiro, prescindiram de lhe partir as trombas.

23 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Associação Protectora das Almas

Não sei como se sentem os protectores de embriões, óvulos e células correlativas, clonados nas madraças da ICAR, quando uma alma por erro de navegação ou capricho da natureza se encavalita num feto estacionado fora do parque, em sítio proibido.

Refiro-me às gravidezes ectópicas. Trata-se de asneira de Deus ou produto do acaso mas, para quem tudo o que de bom acontece é obra de Deus e o mal fruto do Diabo, deve ser um problema que perturba o entendimento e os neurónios.

Para os pios, a ejaculação é genocídio e o aborto uma alma que migra para a sanita. Só assim se percebe a sanha com que os protectores das almas encaram o sexo e a irritação que lhes causa a reprodução medicamente assistida.

Há neste negócio das almas obscuros interesses e perturbações mentais.

Dos caminhos rurais abalaram as caixas de esmolas para as alminhas do Purgatório e, lentamente, vão acabando as missas de sufrágio, os lucrativos trintários, combustível etéreo usado para aumentar a velocidade do veículo que ligava o Purgatório ao Paraíso.

As almas estão à guarda de Deus que as manda em correio azul aos espermatozóides capazes de atingir os óvulos. Não sei se envia várias para a hipótese de falharem o alvo ou se disponibiliza apenas uma para não irritar os padres.

Após a morte, a alma viaja para os destinos do costume: Limbo, Purgatório, Inferno ou Paraíso. Só não percebo a obsessão dos padres com a alma dos que se desinteressam do seu destino e desprezam Deus. Deve ser a vocação totalitária que os consome.

22 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Gianmario Roveraro, membro do Opus Dei, encontrado morto em Parma

Gianmario Roveraro é o primeiro banqueiro encontrado morto, em situação misteriosa, depois do escândalo do Banco Ambrosiano.

O banqueiro italiano era membro do Opus Dei e esteve envolvido no maior escândalo financeiro europeu – a falência da Parmalat -, que deixou um défice de 14 biliões de euros e estava a ser investigado pela justiça de Parma por « formação de quadrilha com fins de falência fraudulenta».

No passado dia 5, após uma reunião do Opus Dei, em que participou, desapareceu misteriosamente a caminho de casa e foi encontrado morto esta sexta-feira.

A imprensa anunciou que, antes do desaparecimento, telefonou à esposa e depois à secretária para pedir que procedessem à transferência de um milhão de euros para «fechar um assunto na Áustria».

21 de Julho, 2006 Carlos Esperança

As religiões ainda resistem

As religiões vivem, no estertor, uma orgia de ódio conduzida pela demência do clero. Deus anda por aí, em sonhos místicos dos crentes e na raiva que a liberdade acorda.

Há um velho demente a quem chamam Jeová à espera de ser internado numa clínica do Paraíso, um Cristo ressuscitado, em corpo e alma, a precisar de casa e da companhia de Madalena e um defunto pastor de camelos a aguardar que lhe montem a tenda e que os proxenetas se ocupem de lhe fornecer virgens em vez de se dedicarem ao suicídio.

Os livros sagrados são excelentes para equilibrar uma mesa a que se partiu a perna, para nivelar um sofá em chão oblíquo ou fornecer folhas para acudir a um incréu que as salmonelas puseram em apuros. Também os salmos e os versículos podem ser úteis para introduzir nos sapatos, durante o Verão, para evitar que se deformem.

Infelizmente há profissionais que têm por missão, ler, divulgar e impor aqueles textos, que podiam ter feito o prestígio de uma pitonisa ou inspirado romances de cavalaria, como se fossem verdade reveladas por entes superiores.

Nas igrejas poisam virgens de porcelana, ricamente ataviadas e com coroas de ouro a segurar-lhe a testa, como aros nas aduelas em barris de vinho. Os santos jazem em peanhas nos templos desertos onde abundam Cristos dependurados em cruzes de ferro ou de madeira com ar de terem pertencido à Máfia. As velas dão um ar lúgubre ao local e os templos parecem salas de anatomia de uma universidade extinta.

É deprimente o abandono dos ícones, que passaram de objectos de adoração em imponentes catedrais para mercadorias em saldo, abandonadas em amplos espaços que parecem lojas dos trezentos. Cada vez há menos gente a entrar nas igrejas, substituídas pelas discotecas onde a piedade dá lugar à música, à dança e ao despertar dos sentidos.

No Islão, Deus ainda vive, ligado à máquina da fé pela violência dos clérigos e o medo dos crentes, alimentado pela miséria e a ociosidade que a explosão demográfica produz, perpetuado pelo nacionalismo e pelo ódio.

Deus é uma herança a que urge renunciar para que a paz seja possível.

19 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Conventos ou campos de concentração?

Os maníacos de Deus nunca deixaram de o procurar. Em tempos recuados, convencidos de que Deus era como o lince da Malcata, que fugia da civilização e do urbanismo, os anacoretas procuravam a solidão dos montes, viviam em grutas e dedicavam-se à contemplação mística.

Nunca se soube se Deus ficava maravilhado com a demência dos créus e o exotismo da resposta às depressões. Os trogloditas insistiam no silêncio e no abandono do mundo. Era, sobretudo, a luxúria que procuravam esconjurar. Alguns viraram santos por bizarra decisão pontifícia, outros morreram sós, sem terem visto Deus nem um simples anjo que lhes levasse um pouco de juízo.

Mais tarde a seita organizou-se e o poder era exercido pelo clero secular enquanto os frades e freiras, em conventos separados, que acidentalmente comunicavam por túneis, se dedicavam ao ócio e à oração.

Não haveria objecções se a livre vontade estivesse na origem de tão insólitos modos de vida. Muitas vezes, porém, foi o regime de propriedade e o direito sucessório que empurrou para as pias grilhetas jovens na flor da idade e do desejo, entregues a Deus para as poupar ao amor e ao incómodo da divisão de heranças.

A perversidade religiosa encontrou sempre na privação da liberdade a forma de agradar a Deus e na renúncia ao prazer o caminho para o Paraíso.

Os Estados, pusilânimes, receosos da força do clero, nunca verificaram se os conventos eram supermercados da fé ou cárceres privados para salvação das almas.