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Carlos Esperança

4 de Janeiro, 2008 Carlos Esperança

A crise do Osservatore Romano

O pasquim do Vaticano está em crise. Primeiro foram-se os leitores, fartos de notícias pias e informações duvidosas. Depois foram-se os compradores, convencidos de que há papel mais barato e higiénico. Finalmente, em desespero, o director do Osservatore Romano, sabendo do desprestígio da ICAR, afirma que «é o jornal do Papa, mas não um órgão oficial da Igreja», convencido de que o Papa merece maior credibilidade.

Por aqui se vê que o Papa não é a voz da Igreja, é um empresário em nome individual, um comerciante da fé por conta própria, um gestor com poder discricionário sobre os empregados.

Nas ditaduras é assim. Não há uma constituição, não há direitos individuais, não existe contabilidade organizada. No antro do Vaticano há um primata de camauro que diz que a religião católica é a única verdadeira e que cabe aos crentes o dever de evangelizar os outros, sejam eles crentes, agnósticos ou ateus.

Valha-nos que, depois de ter perdido o poder temporal, se lhe acabaram os métodos de persuasão cristã onde a tortura e o churrasco gozaram de enorme popularidade.

Há um aspecto em que o Papa, que tanto ulula contra o ateísmo, se aproxima dos ateus. Considera todas as outras religiões falsas, tal como qualquer ateu. Bastava-lhe incluir a sua para entrar no bom caminho, atingir a verdade e tornar-se uma criatura recta.

Claro que atingia o negócio, os sapatinhos vermelhos, a guarda Suiça, os vestidinhos de renda e seda, o segredo para transformar a água vulgar em benta, o comércio dos santos, das indulgências, dos sacramentos e de toda a gama de produtos pios com que embrulha os crédulos. 

3 de Janeiro, 2008 Carlos Esperança

Eu e os crentes

Conheço e aprecio quase todas as grandes catedrais católicas da Europa, bem como os templos protestantes e ortodoxos, alguns templos budistas e mesquitas.

Do Brasil ao Canadá, de Lisboa a Roma, de Atenas a Marrocos, de Efésio a Londres, da Tailândia aos EUA, nunca deixei de apreciar a arte sacra: a arquitectura, a escultura, a pintura e a música. O ateísmo que perfilho, há meio século, nunca me embotou a sensibilidade nem me levou a desequilíbrios psíquicos que me transtornassem em sítios onde os crentes cantam, rezam e se divertem em festejos místicos.

Nunca pensei entrar num templo para fazer a apologia do ateísmo, gozar os crentes que se ajoelham, rastejam e espojam ao som do latim, do grego, do árabe ou da língua autóctone.

Desprezo as crenças, aborrecem-me os sinais cabalísticos, condoo-me com os embustes com que o clero explora, aterroriza e torna infantis os crentes, mas não interfiro entre o clérigo quer vigariza e o crédulo que cai no conto do vigário.

Podia esperar a mesma postura dos avençados da fé que entram no Diário Ateísta como piolhos em costura. Vêm com surro no cérebro e ódio no coração, fartos de rezas e água benta, a cheirar a incenso e fumo de velas, com o mesmo fanatismo que leva os judeus a quererem derrubar o Muro das Lamentações à cabeçada e os muçulmanos que desejam abrir a porta do Paraíso com explosivos.

Eu sei que a fé os enlouquece, que as orações os embotam e os jejuns os debilitam, mas os padres podiam ensinar-lhes o tino que lhes falta e as maneiras que se usam em casa alheia. Mas vá lá alguém convencer um doido de que não é o Napoleão.

Alguns crentes prometem não regressar ao Diário Ateísta. Enquanto ruminam o acto de contrição prometem não voltar, mas voltam sempre. Garantem não voltar a pôr aqui os pés. Mas põem. TODOS.

3 de Janeiro, 2008 Carlos Esperança

Do Patriarcado ao Diário Ateísta

O patriarca Policarpo, num ataque de clericalismo, atribuiu ao ateísmo a paternidade dos piores males que grassam no mundo. Talvez o excesso de hóstias ou o esquecimento dos neurónios numa barrela de água benta o tenham levado a tal delírio e feito proferir tamanha aleivosia.

Comparar o ateísmo com o passado tenebroso da sua Igreja, a fúria assassina do Islão ou a intolerância dos judeus das trancinhas, é comparar o livre-pensamento com a alegada virgindade de Maria ou a infalibilidade papal de que Pio IX fez dogmas, num momento de desvario e raiva, por ter perdido o poder temporal.

Salvo no estalinismo, uma religião de outro tipo e igual fanatismo, as religiões do livro estão ligadas ao obscurantismo, aos interditos e à conivência com todas as ditaduras. É verdade que as religiões monoteístas se baseiam no Antigo Testamento um alfarrábio de embustes com um Deus que é doido e homens que eram primários.

Quem pode levar a sério um tal Abraão capaz de sacrificar um filho por vozes que, na sua demência, julgou serem divinas? Quem pode construir doutrinas sobre livros cuja historicidade é falsa, a moral xenófoba e os comparsas misóginos e racistas?

Quem leva a sério o Papa que cria santos como pintos em aviário e oferece indulgências aos clientes como os vendedores da banha da cobra garantem curas aos mirones? 

O ateísmo, ao contrário do que pensa o Sr. Patriarca de Lisboa, é a vacina contra a fé, a defesa da razão contra a superstição, a supremacia da dignidade sobre a genuflexão.

Nota: Este texto é dedicado a uma nonagenária ateísta, hoje falecida, exemplo impoluto de dignidade, coragem e coerência, com pêsames aos filhos que lhe honram a memória na coerência das ideias e na dignidade da postura cívica.

2 de Janeiro, 2008 Carlos Esperança

Totalitarismo da ICAR

As escolas Básicas e Secundárias vão deixar de ter santos ou santas na denominação oficial. A indicação partiu do Ministério da Educação, no âmbito da aplicação do Decreto de Lei n.º 299/2007, da Lei de Bases do Sistema Educativo.

Agitam-se as sotainas, bramem os bispos, ululam os beatos. Anda no ar um cheiro a incenso, que mais parece enxofre, vindo das profundezas dos paços episcopais e do bafio das sacristias.

Com a criação de beatos e santos há-de arranjar-se emprego aos taumaturgos, perpetuar-lhes o nome no granito ou no bronze, fazê-los patronos de escolas, ruas, avenidas e becos mal frequentados. A ICAR gosta de ver os santos, que passou a fabricar em série, a dar o nome a tudo o que é sítio e a designar hospitais, creches, escolas e lares.

A ICAR só isenta da beata devoção os bares de alterne e os cabarés. Talvez com medo do ridículo de aparecerem catedrais do prazer com nomes bizarros como, por exemplo: A Cova da Virgem, Cabaré do Divino Espírito Santo, Prazeres Celestes, Cave dos Três Pastorinhos ou Casa da Santíssima Trindade.

Já não se compreende a obsessão de dar nomes de santos a escolas, mas é a indicação de que devem ser evitados que leva os bispos, padres e assalariados do divino a insurgirem-se contra as determinações legais.

Nunca o Estado pretendeu intrometer-se na designação dos locais de culto. Não há igrejas que homenageiem o Marquês de Pombal, Antero de Quental ou Afonso Costa. E muito bem. Podem dar-lhes o nome de cadáveres pouco recomendáveis, mas isso é com os padres e só lá entra quem quer.

2 de Janeiro, 2008 Carlos Esperança

Ateísmo contra o proselitismo

Recentemente personalidades distintas do jornalismo, das ciências e da cultura sentiram necessidade de dar púbico testemunho das suas convicções ateias. Foram afectadas na sua tranquilidade e ganharam inimigos de estimação. Nada somaram ao seu bem-estar e ao prestígio, apenas correram riscos e despertaram críticas, ódios e vilipêndios.

Pode perguntar-se o que levou Christopher Hitchens, Sam Harris ou Richard Dawkins, por exemplo, a entrarem em polémicas com adversários poderosos e pouco leais, a enfrentarem o poder das sotainas e a legião de oportunistas que se promoveu à custa da piedade pública e da indiferença privada.

Creio que foi um sobressalto cívico que os impeliu para uma batalha que, não sendo fácil, pode evitar as guerras que o fanatismo promove, que as religiões preparam com a demência prosélita que católicos, protestantes evangélicos, cristãos ortodoxos, judeus sionistas e muçulmanos xiitas ou sunitas se esforçam por travar em nome de um Deus cuja existência é eliminada pela probabilidade estatística e pela razão.

A reflexão científica e filosófica arrasa os mitos da religião. As descobertas científicas cobrem de ridículo os livros sagrados, as novas gerações desprezam os mitos e os rituais que duraram séculos e, finalmente, a perda do poder temporal das Igrejas conduziu à progressiva secularização da sociedade, à indiferença religiosa e ao ateísmo.

A perda de poder, aliada à forte competição religiosa pelo mercado da fé, assanhou o clero e enraiveceu fanáticos, ansiosos por fazerem regressar a humanidade à Idade Média.

Foi a consciência desse perigo que levou vários intelectuais a manifestarem-se contra a superstição e a agressividade dos vários credos em confronto. «Deus não é Grande», «O Fim da Fé» e a «Desilusão de Deus» são alguns dos mais recentes livros com as mais consistentes denúncias do perigo que as religiões representam para a paz e o progresso.

Desmascarar as mentiras pias é mais do que um dever, é um serviço público prestado à humanidade. 

1 de Janeiro, 2008 Carlos Esperança

Diário Ateísta deseja a paz para 2008

Os anos passam, envelhecem as pessoas e envilecem os clérigos. Os votos de paz que se formulam em noites de passagem de ano, por entre beijos quentes e húmidos, quebram-se no início do novo ano na demência prosélita das religiões que, a troco da miragem do Paraíso, semeiam ódios e colhem guerras.

As religiões monoteístas iam no bom caminho quando começaram a eliminar os deuses. Deixaram um, para comprometerem a felicidade humana, e fizeram da sobra o carrasco da felicidade. Quase chegaram à verdade. Bastava terem deixado no caixote do lixo da História o que restou para desgraça.

Não haverá paz enquanto os parasitas de Deus se esforçarem por impor as suas crenças aos que as não têm e aos que as têm diferentes. A burla da fé corrói as consciências e amolece o carácter, arruína a compaixão e exacerba a raiva. Só a razão e a ciência se podem opor à fé e à superstição, mas são poderosos os interesses, os constrangimentos sociais e os hábitos.

Não são os crédulos que ameaçam a paz e semeiam a cizânia entre os povos, são as religiões, e os que vivem à custa delas, que lutam por um mercado onde a dignidade se perde de joelhos e a honra fica de rastos. São os bandos de sotainas que fanatizam as crianças. São os costumes tribais e o clero que transformam as crianças em crentes e as diferenças em divergências.

O ano que ora nasce podia ser um ano de paz. Bastava que fizessem greve os parasitas que convocam para as orações, os dementes que se afirmam detentores do único Deus verdadeiro e os trogloditas que acirram os crentes para combaterem o livre-pensamento ou o pensamento de quem não pensa como eles.

Em 2008 os talibãs dos três monoteísmos, os defensores do livro único, das cópias com erros de tradução e fraudes históricas, vão continuar a fúria evangelizadora e os ataques aos estados laicos. São os Rottweilers de Deus, sedentos de sangue, na paranóia de que a guerra santa lhes reserva uma centelha de eternidade.

31 de Dezembro, 2007 Carlos Esperança

Espanha – ICAR e a democracia

 Ontem, na Praça de Colombo, em Madrid, centenas de milhares de pessoas reuniram-se para contestar o Governo, sob o lema «Pela família cristã». Bandos de padres e bispos dinamizaram a manifestação e vociferaram contra os casamentos homossexuais, contra o divórcio e contra a nova disciplina «educação para a cidadania».

 Havia bispos, cardeais e cerca de trinta organizações católicas, num desafio ao Governo a dois meses de eleições legislativas. O bispo de Valência chegou a culpar o Governo de pôr em perigo a democracia. O presidente da Conferencia Episcopal Espanhola, Ricardo Blázquez, afirmou que «A família está fundada sobre o matrimónio, que é a união de um homem e uma mulher para transmitir a vida». 

Celibatários, estes primatas de báculo, mitra e anelão não se limitam a defender os seus princípios para os católicos, querem obrigar os que os desprezam a submeter-se à sua moral e aos seus caprichos. São detritos do franquismo a adejar as sotainas pelas praças de Espanha numa cruzada raivosa contra a modernidade. 

O cardeal de Barcelona, Lluís Martínez Sistach, retido pela gripe humana, enviou uma mensagem a justificar a ausência na manifestação e para recordar que havia dedicado a sua última pastoral à defesa da vida, «perante o horror do cifra de 110.000 abortos em Espanha, em 2006, e das clínicas abortistas».

31 de Dezembro, 2007 Carlos Esperança

Mudam-se os tempos

Tal como o circo, também o Vaticano regista queda no número de fiéis que foram ver o Papa em 2007. O primeiro era o fascínio da minha infância, extasiado com os palhaços, os contorcionistas e os amestradores de animais. No declínio inexorável da actividade circense vejo o desaparecimento do que me foi querido, referências que o tempo leva.

Já o declínio das excursões para ver o Papa me parece saudável. Santo por profissão e déspota por tradição, o pontífice romano é a síntese de um fundamentalista evangélico e de um mullah islâmico, colocado no vértice da pirâmide teocrática pelos cardiais iluminados por uma pomba que ultimamente tem sido substituída pelo Opus Dei, igualmente de forma invisível.

Houve papas que não levaram a sério o emprego e se fartaram de folgar mas os últimos têm sido discretos nos vícios, soturnos no comportamento e sorridentes nas fotografias. O actual procura sorrir, como é hábito e útil à função, mas só consegue esgares de um misto de Drácula e Frankenstein.

Vá lá que os bandos de peregrinos ansiosos por verem um primata de camauro, uns sapatinhos vermelhos e um vestidinho exótico, começam a minguar. Pode ser que a mudança de hábitos traga de novo o circo e eu volte a ver os prestidigitadores e os equilibristas que, ao contrário do Papa, nunca enganaram e só queriam divertir os clientes.

29 de Dezembro, 2007 Carlos Esperança

Satanás existe

Satanás existe.

Há muito que eu julgava que o Inferno tivesse sido abolido pela imparável subida dos combustíveis fósseis e por medo do ridículo.

Sabe-se que as dioceses católicas ainda mantêm alguns padres exorcistas no activo mas julguei que era mais um título académico do que um ramo de especialização teológica. Não tenho conhecimento, com a concorrência da psiquiatria, de um padre chamado para expulsar o demo do corpo de uma desgraçada a quem a depressão tenha batido à porta.

Talvez por distracção das pias actividades católicas, só conhecia o P.e Humberto Gama a fazer exorcismos para a TVI à semelhança dos truques do ilusionista Luís de Matos para diversão dos telespectadores.

Afinal, com este Papa, o demónio dos medos com que se arrebanham fiéis e fidelizam os simples, existe para gáudio das sotainas e arrepio dos pecadores. Não há artifício ou burla a que a ICAR renuncie para fazer de cidadãos um bando de beatos, tímidos e idiotas.

O professor Ratzinger é um charlatão de alto coturno. Se uma organização de defesa dos consumidores entrar no antro do Vaticano vai fechar a chafarica por burla e atentado aos bons costumes.

Afinal é preciso rentabilizar os cursos de exorcista que têm sido ministrados no bairro das sotainas.

28 de Dezembro, 2007 Carlos Esperança

Extremistas hindus atacam cristãos

Extremistas hindus atacam cristãos e queimam igrejas na véspera de Natal.

Com a mesma clareza com que denuncio as interferências políticas e o proselitismo do Vaticano, a infiltração e influência dos protestantes evangélicos na Administração dos EUA, a exegese reaccionária do cristianismo ortodoxo ou o demente fascismo islâmico dos suicidas assassinos, também repudio com firmeza a intolerância hindu para com os cristãos.

Parece que o racionalismo e o iluminismo foram esquecidos, que à secularização que enfraqueceu o espírito prosélito e a justiça eclesiástica sucede, de novo, uma ânsia de impor um só Deus a todos os homens e eliminar os que o não aceitem. É a exaltação da fé pelos que não toleram a liberdade. É a exacerbação da violência em nome de Deus.

Estamos a assistir ao agravar dos radicalismos religiosos e, em vez de se pugnar por um laicismo profiláctico, beatos de todos os quadrantes defendem maior influência das suas religiões na esfera pública. É o regresso à Idade Média em que havia indulgências para quem convertesse os outros, a bem ou a mal.

É este erro fatal que leva à limpeza da fé e ao totalitarismo religioso de acordo com a geopolítica. O Islão, que já foi tolerante no fim do primeiro milénio da era actual, há muito que entrou na paranóia prosélita que dilacera o mundo.

Dos EUA os protestantes evangélicos aguardam a vinda do novo Messias e envolvem-se em cruzadas de sabor medieval. Do Vaticano saem instruções para evangelizar os outros e convertê-los à religião verdadeira – a do Papa.

Só faltavam os hindus a queimar igrejas e a perseguir cristãos. Em nome do pluralismo e da liberdade religiosa temos de exigir aos estados civilizados que a natureza religiosa dos crimes seja um factor de agravamento de pena.

A Humanidade precisa de paz e o pluralismo é condição indispensável. À semelhança do que acontece na política, onde a pluralidade partidária é uma exigência democrática, também as religiões se deverão submeter às normas que impeçam o totalitarismo que as devora.