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Carlos Esperança

26 de Março, 2009 Carlos Esperança

A Igreja católica abandona a Europa

É fácil perceber que o grande inimigo da religião, para além da concorrência, não é o ateísmo mas a liberdade. Quando o aparelho repressivo se desmantela ou deixa de estar ao seu serviço, pelo sucesso das armas ou força das ideias, desagrega-se a fé e o clero.

Na Europa, o último século foi desastroso para o cristianismo e, especialmente, para o catolicismo. O nazismo, sendo um fenómeno secular, nunca poderia ter levado tão longe a demência se o anti-semitismo não fosse apanágio do Novo Testamento e da formação de tantos prelados.

Durante e após a II Guerra Mundial, a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) excomungou todos os comunistas e nunca excomungou um único nazi. Entende-se, pois, como a derrota do nazismo e do fascismo abalou o seu prestígio.

A moral separou-se da religião e os valores já não estão reféns da vontade divina nem de quem reclama alvará para a interpretar. Para desespero do Vaticano, a crença, a descrença e a anti-crença fazem hoje parte dos direitos e liberdades que as democracias garantem.

Mas surpreende a forma como o Vaticano, sempre prudente, vai desistindo da Europa para apostar noutros continentes. Admira que um Papa romano, europeu, prefira as crucificações na Indonésia, o protectorado de Timor e o catolicismo do Opus Dei, na América do Sul, ao cristianismo saído do Vaticano II. Na Europa, de que Bento 16 parece desistir, restam a Polónia, Malta, Irlanda, Croácia e Eslovénia a praticar um catolicismo ao gosto do Vaticano e dos bispos de monsenhor Lefebvre. Resta a opção por África onde a diferença entre a feitiçaria e a transubstanciação do pão e do vinho será difícil de explicar.

A Igreja Católica sabia que, ao excomungar os médicos brasileiros que salvaram a vida de uma criança de nove anos, grávida de gémeos, violada pelo padrasto, desencadearia a ira do mundo civilizado; que a homofobia, comum às religiões do livro, é anacrónica; que a rejeição do preservativo, o meio mais eficaz de prevenir as doenças sexualmente transmissíveis, é moralmente injusta e cientificamente insustentável.

Ao defender dogmas religiosos, sem ponderar a tragédia humana que daí resulta, Bento 16 tornou-se responsável pelo agravamento da epidemia e pela sabotagem dos esforços dos organismos de combate à SIDA, inquietos com a perda do controlo epidemiológico.

A Igreja católica, refém da teologia do látex, é incapaz de abdicar da herança de Paulo VI. Este, contrariando a opinião da vasta comissão de peritos constituída pelo Vaticano e que recomendava que o uso de contraceptivos devia ser uma opção livre dos casais, preferiu avançar com a publicação da encíclica Humanae Vitae. E, assim, enquanto a Igreja acrescenta santos, bulas, encíclicas, excomunhões e dogmas, perde a capacidade de contribuir para o progresso, especialmente em África, onde poderia dar uma ajuda inestimável na luta contra o tribalismo, a corrupção, a fome e as epidemias.

O Papa deixou de ser referência moral e passou a motivo de troça. O que não augura nada de bom porque, no mercado da fé, há pior.

25 de Março, 2009 Carlos Esperança

O Sr. Duarte Pio e o opúsculo

Li no excelente blogue De Rerum Natura, num post de Carlos Fiolhais, o seguinte:

«De facto, o candidato a rei é autor de um opúsculo laudatório do Beato Nuno, onde se pode ler esta pérola: “Quando passava de Tomar a caminho de Aljubarrota, a 13 de Agosto de 1385, D. Nuno foi atraído a Cova da Iria, onde, na companhia dos seus cavaleiros, viu os cavalos do exército ajoelhar, no mesmo local onde, 532 anos mais tarde, durante as conhecidas Aparições Marianas, Deus operou o Milagre do Sol» (“D. Nuno de Santa Maria – O Santo”, ACD Editores, 2005).»

Fiquei maravilhado com o que li e, sobretudo, por saber que o Sr. Duarte Pio escreve.

O Sr. Duarte Pio, suíço alemão, da família Bourbon, imigrante nacionalizado português pela conivência de Salazar e pelo cumprimento do Serviço Militar Obrigatório, podia emprestar a imagem às revistas do coração mas precaver-se contra a ideia de publicar opúsculos.

Claro que não é necessário saber falar para escrever e, muito menos, saber escrever para publicar um opúsculo, mas a gramática, o tino e o decoro deviam criar numerus clausus.

É verdade que famosos especialistas são frequentemente alheios ao mister que os celebriza. É o caso do Conde de Abranhos como ministro da Marinha ou de Bagão Félix nas Finanças. E Portugal é um país que resiste a tudo. Resistiu à dinastia de Bragança, ao salazarismo e a Santana Lopes.

O Sr. Duarte Pio há-de ter pensado, em seu pensamento, num esforço heróico, que um livro vinha a calhar para lhe dar o toque de erudição depois das saídas rústicas que lhe mereceu José Saramago a cuja leitura o pouparam a rudimentar cultura e ausência de sensibilidade.

Se o Bush e a Alexandra Solnado são capazes de falar com Deus, e da Alexandra não há razão para duvidar, por que motivo o Sr. Duarte não há-de ser capaz de escrever um livro ou, pelo menos, um opúsculo, ainda que com a ajuda de alguns vassalos?

Há quem, através do estudo e do trabalho, de altas classificações numa boa universidade e de grande tenacidade consiga um emprego ao balcão de uma loja de pronto a vestir mas não será fácil chegar a Grão Mestre da Ordem de N. Sra. da Conceição de Vila Viçosa, da Real Ordem de São Miguel da Ala, Juiz da Real Irmandade de São Miguel da Ala, Bailio Grã-Cruz da Ordem Soberana de Malta, membro do Concelho Científico da Fundação Príncipes de Arenberg e outras distinções guardadas para os descendentes de rainhas de Portugal.

Felizmente vivemos em República. Somos cidadãos e não súbditos. Quando nos cansamos dos titulares dos órgãos de soberania, votamos noutros. E ninguém, com juízo, votaria em quem acredita que Nuno Álvares curou o olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus, queimado com salpicos de óleo de fritar peixe.

24 de Março, 2009 Carlos Esperança

Fátima e a vocação totalitária da ICAR

25 anos depois
Consagração ao Imaculado Coração de Maria renovada em Fátima
Amanhã, 25 de Março, a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria será renovada no Santuário de Fátima

A consagração do mundo ao imaculado coração de Maria não deve causar piores danos do que a inscrição obrigatória num clube de bairro a qualquer pessoa que não saiba da existência do clube nem da vontade da direcção em fazê-lo sócio.

O que surpreende, neste desvario litúrgico, é o abuso de incluírem nessa cerimónia esotérica pessoas que não se revêem na religião que a promove e, sobretudo, aqueles que ignoram a  existência de Maria e o benefício da consagração ao coração em vez de ser aos rins, ao fígado, ao baço, aos intestinos ou a qualquer outra víscera não menos imaculada.

Depois fica a dúvida sobre o prazo de validade da consagração. Segundo a notícia, trata-se de uma renovação após 25 anos. Quanto ao tétano sabem-se os prazos e a razão do reforço da vacina mas quanto às consagrações canónicas não há ensaios clínicos nem comparações com o placebo.
Não virá mal ao mundo desta prepotência eclesiástica da ICAR. Entre o mau olhado de uma pobre bruxa que faz pela vida e a consagração em Fátima dos que ganham a vida há dois mil anos, não há grande diferença nem perigos acrescidos.

Recordo-me de ter sido obrigado a ir à missa de consagração do Curso da Escola do Magistério, sob pena de não me ser concedido o diploma, mas nessa altura a ditadura fascista só permitia que fosse professor quem desse garantias de prosseguir os superiores interesses do Estado. E, nesse tempo, o salazarismo e a ICAR dormiam na mesma cama, duas ditaduras inseparáveis num único sistema totalitário.

Talvez por isso ainda hoje reaja ao totalitarismo beato de quem, sem me consultar, me inclui em consagrações e outras cerimónias pias. À minha revelia.

24 de Março, 2009 Carlos Esperança

ICAR ensandeceu

BUENOS AIRES – Um bispo argentino está no centro de uma polêmica por ter dito que “a homossexualidade é uma doença que pode ser tratada e curada, durante uma homilia perante milhares de fiéis católicos, informou nesta segunda-feira, 23, a imprensa local.

Monsenhor Hugo Santiago, membro da Opus Dei e bispo da diocese de Santo Tomé, fez essas declarações na quinta-feira, 19, em uma missa celebrada em Paso de los Libres, no noroeste da Argentina na fronteira com o Brasil.

23 de Março, 2009 Carlos Esperança

Hospitais da Universidade de Coimbra

Convite para andar de joelhos

Gabinete de Comunicação, Informação e Relações Públicas

Hospitais da Universidade de Coimbra, EPE

Avª Bissaya Barreto e Praceta Prof. Mota Pinto 3000-075 Coimbra

telef. 239.400.472-ext 15144 fax 239. 483.255

23 de Março, 2009 Carlos Esperança

Ratzinger e o proselitismo

O porta-voz do Vaticano, Frederico Lombardi, disse que a morte por esmagamento dos dois jovens angolanos no Estádio dos Coqueiros, em Luanda, causou “dor e desconcerto” ao papa Bento 16 e à comitiva papal.

Não é legítimo pôr em causa o pio sofrimento do Papa, indiferente à sorte de 23 milhões de infectados pela sida, mas sensibilizado pela legião de fãs. Certamente que a forma exótica como se veste, os adereços que usa em palco e a coreografia da missa, destinada a centenas de milhares de curiosos, o convertem numa estrela Pop capaz de provocar a histeria colectiva que produziu os acidentes. Ainda assim, foram em menor número dos que habitualmente são atropelados a caminho de Fátima nos dias das peregrinações.

Uma só morte, em particular de um jovem, é motivo de compungimento mas não podemos exagerar na tristeza.

No dia em que, em Luanda, morreram dois jovens que desejavam ver um exótico artista a fazer sinais cabalísticos, faleceram em África centenas de jovens vítimas da fome, da sida e do paludismo, sem missa, incenso ou água benta.

O Papa, depois de solicitar aos africanos para que deixassem a bruxaria e se tornassem católicos, transformou, à sua frente, no Estádio dos Coqueiros, água de Luanda em benta e rodelas de pão ázimo em corpo e sangue de um deus que foi homem há dois mil anos e era filho biológico de uma pomba e de uma mulher virgem.

Não há pessoas normais que seja capazes de descobrir a diferença. A aldrabice dos outros é um excelente pretexto para incitar à mudança de fornecedor.

23 de Março, 2009 Carlos Esperança

Hipócritas

Luanda, 21 Mar (EFE).- O Vaticano não condena o aborto quando a cura da grávida doente for, inevitavelmente, a morte do filho, afirmou hoje o porta-voz vaticano, Federico Lombardi.

Comentário: Alguém se lembra da posição da Igreja católica, em Portugal, e dos partidos próximos na primeira votação da lei sobre a IVG na AR, relativamente à mesma situação?

22 de Março, 2009 Carlos Esperança

O Papa e a visita a África

O Pe. Lombardi agradeceu a hospitalidade do povo angolano e referiu que o Papa está a resistir bem ao calor que se faz sentir actualmente no país.

B16 reage bem ao calor porque não lhe faltam mordomias, por mais pobres que sejam os países onde se desloca.

Podem faltar a água, o pão e as vacinas aos autóctones mas não faltam ao Papa o ar condicionado, o carro à prova de bala, as iguarias e os banhos de multidão organizados pelo exército de freiras, padres e políticos interessados na sua bênção.

Bento XVI resiste bem às condições meteorológicas mas reage mal aos meios de comunicação social. Dá-se bem com o latim, mas tem dificuldades com o preservativo; aprecia as multidões que se ajoelham, mas teme as pessoas que se erguem; adora a crença na sua bondade, mas detesta os argumentos que o condenam pela sua desumanidade.

B16 não é um troglodita que se inocente pela ignorância e estupidez, é um intelectual que deve ser julgado pela sua intransigência e maldade.

Quem sabe que a sida mata milhões de pessoas e que o preservativo é a arma para debelar o flagelo; quando conhece a violência do sofrimento dos infectados e aconselha a que não se protejam; quando tem a noção de que a sua mentira pode ser acreditada, não está a divulgar uma crença, está a cometer um crime contra a humanidade.

É este perigoso propagandista da fé, que mente em relação à sida, que anda à solta por África a destruir o trabalho das ONG’s, a fomentar o contágio do HIV entre milhões de pessoas, a prescrever a castidade numa região onde a baixíssima esperança de vida torna precoce a reprodução e a morte.

Quando um futuro Papa vier pedir perdão pelo mal que este fez, as pessoas devem lembrar-lhe as Cruzadas e a Inquisição. Foi há muito tempo? – Pois foi, mas a maldade está na natureza das funções e nas crenças de que vivem estes parasitas da fé.

Um Papa que pede para combaterem a bruxaria, amaldiçoando a ciência, só pode querer que as pessoas troquem os outros bruxos por ele.

Esta visita do Papa pode provocar mais mortes do que o paludismo.