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Mês: Abril 2006

8 de Abril, 2006 Palmira Silva

Fundamentalismo em alta no sistema educativo britânico

O sindicato que representa o maior número de professores na Grã-Bretanha, o National Union of Teachers, avisou na quinta-feira que os fundamentalistas religiosos estão a ganhar controle das escolas nomeadamente através dos curricula aprovados pelo governo.

Uma moção a ser debatida na conferência anual do National Union of Teachers pede o fim do financiamento público de escolas confessionais e pede legislação «para prevenir a influência crescente das organizações religiosas na educação e ensino e o ensino de criacionismo ou desenho inteligente como uma alternativa válida à evolução».

De facto, como já tinha referido, a introdução, a verificar-se no próximo ano lectivo, do criacionismo nos curricula de ciências britânicos é extremamante preocupante.

Igualmente preocupante, especialmente quando consideramos que o Reino Unido, a par dos Estados Unidos, é um dos dois países ocidentais líderes no desastroso campeonato da gravidez adolescente e doenças sexualmente transmissíveis nesta faixa etária, são as notícias que as escolas católicas vão substituir os programas de educação sexual por programas de abstinência.

O programa, igualmente a ser introduzido no próximo ano lectivo, pretende seguir à letra as posições dos celibatários do Vaticano em matéria de sexo e relações pessoais. Embora sejam omissos em relação às recomendações de Ratzinger de que «é um dever cortar qualquer comunicação com pessoas que tenham se afastado da doutrina católica», o que certamente contribuirá para uma integração social muito católica dos jovens, os dignitários católicos informaram que se restringirão estritamente aos ditames do Vaticano no restante. Para isso, estão a preparar a formação dos professores encarregues de tal aberração, uma suposta educação sexual nas escolas católicas que consistirá em lavagens cerebrais destinadas a incutir nos jovens a sacralidade de óvulos e espermatozóides e que sexo só no casamento.

Como diz Michael McGrath, director do Scottish Catholic Education Service, «Nós daremos informação sobre o que é a contracepção … mas não iremos promover qualquer forma de contracepção artificial. O aborto não faz parte da educação sexual, mas claramente todas as escolas católicas irão promover a santidade da vida humana e não irão promover o aborto».

Como indica um artigo publicado no British Medical Journal os programas de abstinência «associam-se a um aumento do número de gravidez entre os casais dos jovens que os seguiram». De igual forma, a UNICEF é bastante inequívoca nas suas recomendações. Usando como exemplo a Suécia, que mudou a sua política de educação sexual de forma radical em 1975, explica a diminuição drástica de doenças sexualmente transmitidas e gravidez na adolescência neste país: «Abandonaram-se as recomendações de abstinência e de praticar o sexo exclusivamente no casamento, a educação contraceptiva tornou-se explícita e criou-se uma rede nacional de clínicas para jovens, concretamente para fornecer de forma confidencial orientação aos jovens sobre métodos e tratamentos contraceptivos… Durante as duas décadas seguintes, o índice de nascimentos em adolescentes baixou em 80%». As doenças sexualmente transmitidas, em contraste com os crescentes índices do RU e EU, baixaram neste país cerca de 40% nos anos 90.

Esperemos, a bem dos jovens que tenham a infelicidade de frequentarem estas escolas e da paz e integração sociais, que a moção do National Union of Teachers seja aprovada e seguida pelo governo britânico, ou seja, que tenha finalmente fim o financiamento público de escolas confessionais.

8 de Abril, 2006 Carlos Esperança

Centenário de S. Francisco Xavier (2)

(Foto do enviado do Diário Ateísta a Goa)

O 5.º centenário do nascimento de Francisco Xavier foi assinalado ontem, em Espanha, pelo cardeal mais reaccionário da Península Ibérica, Antonio María Rouco Varela, representante de B16 (déspota vitalício da ICAR), com a presença do rei.

Hoje, na Cordoaria Nacional, em cerimónia presidida por Freitas do Amaral, celebra-se em Portugal, com um dia de atraso, o nascimento do jesuíta.

Do programa, consta uma conferência sobre «A vida e a obra de S. Francisco Xavier» e um espectáculo de música e danças tradicionais de Goa, pelo grupo Ekvât, que encerra a sessão cultural e musical.

O cadáver de Francisco Xavier (na foto) é a metáfora de uma igreja que jaz morta e apodrece.

7 de Abril, 2006 Carlos Esperança

O centenário de S. Francisco Xavier

(Foto do enviado do Diário Ateísta a Goa)

Francisco Xavier nasceu em Navarra, faz hoje 500 anos, numa região espanhola onde o Opus Dei tem hoje uma Universidade, um hospital e imenso património financeiro e imobiliário. O Opus Dei é actualmente o que foi a Companhia de Jesus nos seus tempos áureos – uma ordem religiosa poderosa, prosélita, rica e temida.

Francisco Xavier entrou na Companhia de Jesus, alfobre de santos, apóstolos e mártires que evangelizaram o mundo. Como o deus antropomórfico dos cristãos era verdadeiro, coube a Francisco Xavier levá-lo ao domicílio a Goa, Molucas, Temate, ilha de Moro, Malaca e Japão, ao serviço do rei D. João III.

Escapou a China à sua evangelização porque Deus, carecido de almas, o chamou à sua divina presença antes de lhe arrebanhar mais fiéis.

Francisco Xavier continua morto desde Dezembro de 1552, mas é um dos santos mais prestigiados da ICAR. JP2 considerou-o «o apóstolo mundial dos tempos modernos» e apontou-o como exemplo para os missionários e para a acção evangelizadora da Igreja.

Apóstolo do Oriente e Padroeiro das Missões são alguns epítetos do taumaturgo cujo prestígio resistiu à perda do Estado Português da Índia, designação que o salazarismo atribuiu aos restos de um império onde Portugal semeava a fé e recolhia especiarias.

As comemorações do 5.º centenário do nascimento de Francisco Xavier são de grande importância para o marketing da ICAR.

Em nota pastoral, os bispos portugueses garantiram que «celebrar o V Centenário de Francisco Xavier, ilustre fundador da Companhia de Jesus, renovará nas comunidades cristãs a busca confiante da vontade do Pai, o zelo apaixonado pelo Reino inaugurado por Cristo e a responsabilidade de todos na actual largueza da missão impulsionada pelo Espírito Santo» – informou a agência Ecclesia.


Os CTT colaboraram com a emissão de dois selos comemorativos mas a falta de fé, em Goa, fez com que o corpo de Francisco Xavier, que se manteve em excelente estado de conservação durante séculos, apodrecesse nos últimos anos.

Deus esqueceu-se dele ou a ICAR perdeu a receita.

7 de Abril, 2006 Palmira Silva

Evolucionismo: mais um elo encontrado

A revista Nature desta semana dá mais uma machadada nas pretensões neo-criacionistas ou IDiotas dos fundamentalistas cristãos que pretendem que um misterioso «designer», isto é Deus, criou a vida na Terra não exactamente como a conhecemos mas com uma reduzida margem de manobra que contempla apenas a micro-evolução ou evolução dentro de uma espécie.

Os grupos de investigação de Edward Daeschler da Academy of Natural Sciences em Filadélfia, Farish Jenkins da Harvard University e Neil H. Shubin da Universidade de Chicago descrevem em dois artigos a sua descoberta de um fóssil de uma espécie (quasi) tetrápode, a que chamaram Tiktaalik roseae do nome Inuit para um peixe de águas pouco profundas. Este fóssil com 375 milhões de anos foi encontrado nos sedimentos de um antigo leito de um rio, no Ártico canadiano, a cerca de 1000 km do Pólo Norte.

Os cientistas afirmam que esta espécie é um elo na evolução de alguns peixes para animais terrestres. O Tiktaalik apresenta escamas ósseas e barbatanas mas as barbatanas dianteiras estão no processo de transformação em membros; o seu esqueleto interno apresenta a estrutura de um braço, incluindo ombro, cotovelo e pulso com barbatanas em vez de dedos. A equipa procura ainda no local um exemplar mais completo que permita avaliar o parte posterior do esqueleto da espécie.

Esta descoberta está a provocar alguma agitação nas hostes criacionistas americanas, que pretendem falsamente não existirem espécies transicionais. Nomeadamente multiplicam-se em acusações de «cientifismo», disparates sortidos e citações biblícas no post sobre o tema do blog da Nature.

6 de Abril, 2006 lrodrigues

A Tentação

Era, na realidade, uma mulher muito bonita.

Procurara-me porque pretendia divorciar-se do marido.
Casada há pouco mais de seis anos e com um filho de cinco, a decisão do divórcio era irredutível e, disse-me, tomada há já longo tempo.
As negociações com o advogado do marido foram até invulgarmente simples, e em muito pouco tempo tínhamos conseguido o divórcio por mútuo consentimento.

No final, embora ela não tivesse de o fazer, penso que adivinhou a minha curiosidade e acabou por me contar o que tinha conduzido à ruptura do seu casamento.

Como o marido era um fervoroso católico, casara-se pela igreja muito nova e ainda virgem, numa cerimónia muito bonita e cheia de gente bem.
Ela e o marido tinham combinado “mandar vir” um filho logo após o casamento e, de facto, menos de um ano depois nascera o único filho do casal.

Só que, logo pouco depois do nascimento do filho, começou a notar um notório afastamento do marido. O sexo desapareceu subitamente das suas vidas e o marido passou até a dormir no sofá da sala.
A primeira coisa que pensou foi que o marido era afinal homossexual; mas o problema não era esse.

Ao fim de muitas insistências, repetidas até ao logo de vários anos, o marido acabou um belo dia por lhe contar toda a verdade:
Não só era um piedoso católico como era até membro da Opus Dei.
Ora, como tinha combinado com a mulher não terem por enquanto mais filhos, o marido não queria manter com ela um relacionamento sexual como uma frequência tal que pudesse ser interpretada como pecado ou que não tivesse a procriação como objectivo primordial.
A pílula, o preservativo ou qualquer outro método anticoncepcional estavam absolutamente fora de questão, porque, como é bom de ver, constituíam um pecado e estavam proibidos pela Igreja.

A sua decisão de dormir no sofá da sala tinha uma explicação muito mais simples: como reconhecia que a mulher era muito bonita, não queria dormir com ela para não cair em tentação.

Durante algum tempo a mulher tentou ainda lutar pelo seu casamento, mas há já um bom par de anos acabara por desistir, face à intransigente persistência do marido.

Pois é:
Estou absolutamente convicto que este piedoso e fervoroso católico, ainda por cima membro da Opus Dei e tão fiel às suas convicções, quando morrer vai entrar direitinho para o Céu.

Mas, pelo que a mulher me contou ainda, sei também que vai entrar, sim, mas com um grande par de cornos…

(Publicado simultaneamente no «Random Precision»)

6 de Abril, 2006 Carlos Esperança

Pastor alemão com raiva

É perigoso conviver com pessoas que deixaram a igreja – diz o papa

B16, o últimos déspota vitalício da Europa, para lá do ódio, a que o múnus o estimula, cultiva a vingança que a Bíblia ensina.

O Sapatinhos Vermelhos é estudante de teologia, aliás, um professor. Sob a tiara e os paramentos de fino corte, movimenta-se o tirano com vocação totalitária a consumi-lo.

Não manda decapitar apóstatas que os tempos vão maus para a profilaxia radical. Não ateia fogueiras aos incréus porque a Europa tem défice de combustíveis e de fé. E não manda propinar veneno aos ateus porque os hábitos ancestrais podem denunciar a origem.

B16 limita-se a alertar os católicos contra as pessoas que deixam a ICAR. Ontem, na habitual audiência das quartas-feiras, perante 30 mil clientes, ganiu este anátema:

«Quando o perigo de perder a fé é latente, é um dever cortar qualquer comunicação com pessoas que se tenham afastado da doutrina católica».

Votar ao ostracismo, formar um cordão sanitário e perseguir, quando a correlação de forças o permitir, todos os que se borrifem na ICAR, é a palavra de ordem do inquisidor que o Opus Dei, os cardeais e o Espírito Santo (deste não há provas) fizeram Papa.

O carrasco diz ainda que «É preciso reconhecer o perigo e aceitar que não se pode comunicar com os que se distanciaram de Deus». Nota-se o desânimo em não poder usar os meios expeditos dos seus antecessores e a inveja que sente dos Ayatollahs.

6 de Abril, 2006 Carlos Esperança

A libertação de Abdul Rahman


O islamismo, à semelhança das outras religiões monoteístas, entende que um apóstata deve perder o Paraíso e a cabeça, enquanto os que abandonam a concorrência merecem os altares e a bem-aventurança eterna.

Execram-se os primeiros, incensam-se os segundos.

O proselitismo é a tara comum, a obsessão que empurra os crentes para a evangelização e a guerra, a demência que exige a oração e os sacramentos, o terror de Deus que admite o domínio dos padres.

Abdul Rahman é um desses infelizes que, à semelhança de outros drogados do divino, resolveu mudar de droga sem deixar o vício. Trocou o árabe pelo latim, Maomé por Cristo e as rezas orientadas pelos mujaidines pelas missas de um pastor.

O devoto, cuja decisão é um dever de todos os homens e mulheres livres preservar-lhe, ao trocar de Deus, substituir as orações e intoxicar-se com sacramentos diferentes, virou apóstata para os mullahs e convertido para os cristãos. É um traidor para os primeiros e um herói para os segundos.

No mercado da fé é um troféu a exibir, um activo a explorar, o exemplo a agitar pelos conquistadores e uma cabeça a decepar, o ímpio a abater e um exemplo a deplorar pelo mercado de origem.

Não se sabe ainda a que seita aderiu o neófito cristão e já todas reclamam o troféu.

6 de Abril, 2006 Palmira Silva

Curas «milagrosas» mais fáceis

Face aos avanços da ciência que desviaram a fé em curas milagrosas da intervenção divina para a intervenção médica e à pressão crescente da concorrência, nomeadamente das Igrejas evangélicas, Monsenhor Jacques Perrier, bispo de Tarbes e Lourdes e o dignitário mais sénior do santuário de Lourdes, anunciou a semana passada uma reforma no reconhecimento das «curas milagrosas» que o referido local é suposto operar, criando novas categorias de «milagres».

De facto, não obstante os milhões de peregrinos que visitam o local anualmente e os muitos litros de água «milagrosa» vendidos àqueles que não podem usufruir dos seus «benefícios» in situ, apenas 67 curas «milagrosas» foram reconhecidas desde 1858, data em que uma pastorinha de 14 anos, de seu nome Bernadette (não Lúcia) afirmou ter visto a Virgem numa gruta. Destas apenas 4 supostamente ocorreram desde 1978, a mais recente o ano passado, uma mera cura de … reumatismo!

Esta escassez de «milages» e a pouca espectacularidade dos mesmos motivou o preocupado bispo a propôr ao Vaticano novas categorias de milagres, que não necessitam obedecer às regras estabelecidas há quase 300 anos pelo Cardeal Prospero Lambertini, os milagres «lite», que incluem «curas inesperadas», «curas confirmadas» e «curas excepcionais». Nesta versão lite, qualquer devoto frequentador de Lourdes e consumidor da sua água milagrosa que seja operado a um cancro, faça quimio ou radioterapia e se cure, pode anunciar ao mundo que foi curado por «milagre».

Numa manobra de marketing magistral Perrier propõe ainda que estes «milagres lite», indispensáveis para fazer face às ofertas da concorrência nos chamados «hipermercados de milagres», como sejam a IURD, Igreja Maná e afins, sejam imediatamente publicitados mal ocorram.