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4 de Março, 2009 Ludwig Krippahl

Treta da Semana: os Mamadus.

Esta semana celebro a promoção do Professor Mamadu (1), anteriormente Mestre Mamadu (2). Ou, se calhar, é outro Mamadu que sempre foi professor (3). Ou outro (4). As moradas são todas diferentes. Não sei se é um a fugir dos maus olhados (ou dos antigos clientes), se é uma invasão de Mamadus ou se é a versão vidente-astrológica do jogo da vermelhinha.

Mas nota-se um franco progresso. Enquanto Mestre, Mamadu era «especialista em destruição de trabalhos de bruxaria e especialista em retorno de afecção, mesmo casos muito complicados». Quanto aos «problemas de amor, dinheiro, saúde entre outros», ajudava a resolvê-los, mas não era sua especialidade (2). Agora está muito melhor. «Especialidade de todos os trabalhos ocultos»(1). É raro encontrar um especialista em tudo, mesmo entre os professores, por isso o esforço de se especializar em todos os trabalhos ocultos fá-lo merecer o novo título.

Alguns podem questionar como é que ele pode ser especialista em tudo se o termo denota uma dedicação especial a alguma parte. Ou como é que ele sabe ser especialista em todos os trabalhos ocultos se os trabalhos são ocultos. Não terá escapado algum, mais escondido? Infelizmente, muitos há que não questionam nem isto nem o resto dos disparates que esta gente vende.

A culpa, em parte, é da reverência excessiva com que lidamos com as crenças. A nossa sociedade enaltece, favorece e protege quem acredita em disparates. Seja que disparate for. Que uma virgem deu à luz, que um condutor de carroças falava com o criador do universo, que este criou o universo em meia dúzia de dias. Acreditar ou, especialmente, representar uma crença, dá estatuto social. Dizer que uma crença é disparatada é visto como uma ofensa ou agressão. E até se considera um direito dos pais treinar os filhos a crer no que quer que os avós tenham impingdo aos pais pelo mesmo processo.

O problema não é só a ignorância. É certo que é mais fácil enganar quem está menos informado, mas mesmo um analfabeto tem relutância em aceitar que o Mamadu resolve tudo e mais alguma coisa só por se dizer «Dotado de Dom hereditário». Mas se uma pessoa é treinada desde cedo a desligar o cérebro quando lida com certas afirmações está muito mais vulnerável. Mesmo que seja formada e informada.

Todos os pais deviam pensar nisto quando transmitem crenças injustificadas aos seus filhos. Pode não parecer nada demais ensinar a criança a acreditar que a hóstia se torna no corpo de um deus ou que o sacerdote merece respeito especial porque sim. Salvo raras excepções, crenças como essas são inofensivas. Mas não é inofensivo treinar alguém a aceitar crenças desta maneira, sem considerar os porquês. É isto que o torna vulnerável aos Mamadus. E Mamadus há muitos, com muitos nomes e profissões. Há Mamadus Alexandra Solnado, Cristina Candeias e Paulo Cardoso. Há Mamadus Jim Jones, David Koresh e Shoko Asahara. Há Mamadus Joseph Ratzinger, Ali Khamenei e Tenzin Gyatso. São muito diferentes, para todos os gostos e feitios, mas são todos Mamadus. São todos especialistas no negócio, pouco oculto, de explorar a credulidade dos outros.

1- Classificados Lisboa, Astrólogo – Grande Medium Vidente
2- Páginas Amarelas, Mestre Mamadu
3- Directório IOL, Professor Mamadu (em Lisboa).
4- Directório IOL, Professor Mamadu (no Porto).

Publicado também no Que Treta!

4 de Março, 2009 Carlos Esperança

Desumanidade beata

O caso da menina de 9 anos, grávida de gémeos, que teria sido estuprada pelo padrasto, teve novo desdobramento no fim da noite de ontem, e foi parar no Palácio dos Manguinhos.

Dizendo estar preocupado com o assassinato de dois “inocentes”, o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, encontrou-se com o director do Imip, onde a menina estava internada, e até com o presidente do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), para tentar impedir o aborto, marcado para as 8h de ontem.

Apesar da pressão da Igreja, a criança foi levada pela mãe para outra unidade de saúde ainda na noite de ontem. O Diário localizou as duas e tentou falar com a mãe no novo local de internamento, mas a mulher preferiu não se pronunciar.

– Notícia enviada por Stefano.

4 de Março, 2009 Miguel Duarte

Encontro Ateísta e Humanista de Março

Já está marcado para o dia 28 de Março, Sábado, o próximo Encontro Ateísta e Humanista em Lisboa. Com alguma ironia, o local do encontro é na Alameda Cardeal Cerejeira, junto ao Parque Eduardo VII.

Se está a pensar participar neste 2º encontro, ou, se gostaria de participar num próximo e ser informado do mesmo, pode confirmar o seu interesse aqui e juntar-se assim aos restantes 23 ateus/humanistas já inscritos.

4 de Março, 2009 Carlos Esperança

O PR e a canonização de D. Nuno

“O Presidente da República congratula-se, em nome de Portugal, pela notícia da decisão tomada hoje no processo de canonização de D. Nuno Álvares Pereira, figura maior da nossa História, que, no passado como no presente, deve inspirar os Portugueses na busca de um futuro melhor”, refere a Presidência da República numa nota enviada à agência Lusa.

Eu sabia da rapidez com que Cavaco Silva se congratulara com a canonização do Santo Pereira, mas desconhecia os termos em que o fez. Julguei que era  a posição individual do devoto enfraquecido por jejuns e receoso das penas do Inferno, a procurar a remissão dos pecados.  Acreditei que era a posição do paroquiano perante o director espiritual, a postura de crente face aos amigos do peito e da hóstia. Admiti que fosse o tributo pago ao Vaticano porque o papa de turno deixou que a D. Maria se lhe ajoelhasse aos pés.

Afinal, foi na qualidade de Presidente da República que ofendeu e humilhou todos os que desconfiam do mérito do Condestável na cura do olho esquerdo da D. Guilhermina. Como crente tem direito à felicidade com o milagre encomendado, mas o Presidente da República deve respeitar todos os portugueses, independentemente das suas crenças, descrenças ou anti-crenças.

O PR, ao afirmar «que, no passado como no presente, [Nuno Álvares] deve inspirar os Portugueses na busca de um futuro melhor», usou um português rudimentar e de difícil entendimento, mas percebe-se que aponta o bem-aventurado como fonte de inspiração na busca de um futuro melhor.

A dúvida que fica é se o PR pensou nos castelhanos que D. Nuno matou nos Atoleiros, em Aljubarrota e Valverde, método obsoleto para a busca de um futuro melhor, ou se teve em mente a vida monástica do novo santo cujo exemplo certamente será o único economista a apontar como solução para superar a crise que nos aflige.

De qualquer modo é lamentável que, num país com séculos de ignorância e superstição, o Presidente da República seja tão célere a celebrar a cura de uma “úlcera na córnea” por um cadáver com 577 anos de defunção e, mais lamentável ainda, que o faça em nome de Portugal, país laico e democrático.

3 de Março, 2009 Carlos Esperança

Associação Ateísta Portuguesa – Correio recebido

de     Instituto da Democracia Portuguesa <[email protected]>
para     [email protected]
data     3 de março de 2009 18:04
assunto     Mensagem de D. Duarte de Braganca ao Pais (3/3/2009)

ocultar detalhes 18:04 (20 minutos atrás)          Responder

A AAP recebeu hoje esta mensagem.

O Sr. Duarte, por alcunha Duque de Bragança, seguramente Bourbon mas dificilmente Bragança, usa enviar mensagens e dizer inanidades. Ninguém lhe diz, nenhum dos vassalos o informa, que há quase um século que Portugal deixou de ter família real e que os poucos monárquicos que sobraram se comprometeram com a ditadura fascista de um monárquico de Santa Comba Dão depois de terem tentado atrelar-se à do Sidónio.

O Sr. Duarte desconhece que um rei pouco recomendável de quem se julga descendente, apesar da forte improbabilidade, um tal D. Miguel, caceteiro e absolutista, abdicou em Evoramonte de qualquer veleidade ao trono português, quando ainda existia.

O Sr. Duarte ignora que a República extinguiu os títulos nobiliárquicos do mesmo modo que a vacina erradicou a varíola e a sífilis e a esterilidade puseram fim à família de Bragança.

Claro que tem muita graça o ornamento que usa a preceder o nome que o bom senso e o espírito democrático deviam prevenir do ridículo.

Não admira que o Sr. Duarte Pio se considere rei de Portugal. Houve quem se julgasse Napoleão ou D. Afonso Henriques. Surpreende que haja quem o leve a sério e ignore que Portugal é uma República onde os monárquicos são uma reserva ecológica que os republicanos protegem em nome da biodiversidade.

Não há privilégios de sangue que devam manter-se ainda que o sangue, ao contrário do actual caso, não precisasse de provas de ADN.

3 de Março, 2009 Carlos Esperança

Cinema – Retrato do Opus Dei

A crítica da Espanha se rendeu ao retrato cru da Opus Dei realizado por Javier Fesser em “Camino”, filme que venceu no domingo (2) seis indicações na 23ª edição do prêmio Goya – o Oscar espanhol.

Duas estrelas que podem levar um Oscar protagonizaram a grande noite do cinema espanhol. Por um lado, o ator porto-riquenho Benicio del Toro saiu como melhor ator por “Che”. Penélope Cruz conseguiu o Goya de melhor atriz coadjuvante por “Vicky Cristina Barcelona” – o terceiro de sua carreira – por um papel oferecido a ela por Woody Allen.

2 de Março, 2009 Carlos Esperança

Podiam demorar o ano inteiro

Bento XVI encontra-se, desde Domingo, nos exercícios espirituais quaresmais, juntamente com os seus colaboradores da Cúria Romana. Durante esta semana, estão suspensas todas as actividades do Papa, incluindo a audiência geral de Quarta-feira.

2 de Março, 2009 Carlos Esperança

B16 acossado no seu labirinto

O Papa Bento XVI aceitou o pedido de renúncia do prelado ultra-conservador austríaco Gerhard Maria Wagner, de 54 anos, ao cargo de bispo auxiliar de Linz, informou o Vaticano.

Nota: Já não tem força para manter a sua agenda ultra-reaccionária.

2 de Março, 2009 Carlos Esperança

Indústria dos milagres

Uma das mais singulares peregrinações ao Santuário de Fátima, a Peregrinação das Crianças, sempre em 9 e 10 de Junho, propõe neste ano de 2009, o exemplo de vida do pequeno vidente de Fátima, Francisco Marto, às crianças de todo o mundo.

Comentário: O Francisco e a Jacinta prestaram provas para beatos com a cura da D. Emília de Jesus que estava entrevada. Um deve ter curado a perna esquerda e a outra a direita. Ou vice-versa.

A D. Emília morreu, a seguir, completamente curada.

Adenda – O milagre foi confirmado por três médicos diferentes: Dr. Felizardo Prezado dos Santos, a Esposa e a filha.

2 de Março, 2009 Carlos Esperança

Autocarro ateu

Por

Onofre Varela

Foi notícia-sensação o facto de Londres ter a circular, no sistema de transportes públicos, um autocarro decorado com esta mensagem de teor ateísta: “Provavelmente Deus não existe. Deixa de te preocupar e goza a vida”. A ideia de tal propaganda pertence ao escritor britânico Richard Dawkins, autor do livro “A Desilusão de Deus” — neste momento em segunda edição em Portugal e no top de vendas em todo o mundo —, já ameaçado de morte por fundamentalistas islâmicos.

Uma associação ateísta espanhola importou a ideia e pôs dois autocarros de Madrid a circular com a mesma mensagem. Não tardou, grupos de religiosos (quiçá a própria Igreja Católica), pagaram a decoração de seis autocarros — seis!!! — com mensagens contraditórias, afirmando a existência e a bondade de Deus, em resposta à mensagem dos ateus. Uma guerra teológica sobre rodas, perfeitamente ridícula!

Esta atitude de contradizer a primeira mensagem, enquadra-se no mesmo tipo de reacção que motivou islamitas a promoverem um concurso de caricaturas criticando o Cristianismo e negando o holocausto, em resposta às caricaturas de Maomé publicadas no jornal dinamarquês Jyllands-Posten em Setembro de 2005. Se as caricaturas tinham um fundamento de verdade, porque, efectivamente, existe um fundamentalismo islâmico terrorista testemunhado por todos nós, a resposta islamita, negando factos históricos e a humanidade que é possível encontrar na filosofia cristã, só veio sublinhar a agressividade dos grupos extremistas que mancham o Islão.

A reacção Católica à mensagem de Richard Dawkins, recorrendo ao mesmo suporte publicitário para macaquear a mensagem ateia, segue a mesma linha das atitudes fundamentalistas islâmicas. Os católicos teriam muito mais a ganhar se não respondessem à provocação ateia. Aliás, aquilo nem pode ser considerado provocação!… É, apenas, a manifestação pública de uma opinião perfeitamente legítima.

O que acontece é que a Igreja Católica habituou-se a ser poder total desde o século XII, quando o papa Gregório VII obrigou todos os reis e imperadores ao totalitarismo de Roma. A Igreja dominou o pensamento europeu até à Revolução Francesa, e ainda não conseguiu digerir o direito que todos nós temos à nossa própria opinião e de nos expressarmos livremente. O Catolicismo é semelhante ao islamismo na atitude de querer impor as suas ideias nas sociedades onde é religião maioritária. E o terror que a “Santa Inquisição” semeou no pensamento colectivo, ainda hoje permanece em alguns meios rurais deste nosso lindo país. Já vivi a experiência de, ao dizer-me ateu, o meu interlocutor olhar para os lados, garantindo a confidencialidade da conversa!

Todos nós somos donos das nossas consciências, e somos livres de afirmar ou de negar a existência de um deus. O próprio papa Paulo VI, no Concílio Vaticano II, reconheceu “a liberdade de consciência a que todas as pessoas têm direito, a qual não deve ser coarctada nem pelo Estado nem pela Igreja”. As crenças valem o que valem, e quem se sente feliz vivendo a ilusão de Deus, deve continuar a vivê-la… o importante é que seja feliz, como felizes conseguem ser aqueles que dispensam divindades.

De resto, parece-me irrelevante dizer que Deus não existe e não interessa discutir tal inexistência. É como contestar a existência de fadas. Não faz qualquer sentido e é uma perda de tempo. Deus e o Diabo estão ao mesmo nível das fadas boas e das bruxas más. São figuras mitológicas, emparceiram com as fábulas e estão inseridos na mesma categoria que constrói o mundo da fantasia. Todos nós temos direito à fantasia, mas não devemos perder a noção da realidade não atribuindo valor real a tão oníricos pensamentos.

Aquilo que é verdadeiramente inquietante e merecedor de toda a preocupação é haver tanta gente a acreditar em Deus a duzentos anos da promissora época da Ilustração!

E é realmente alarmante porque os crentes não nasceram crentes…foram feitos crentes nas lojas de fé:

catequeses católicas, madrassas islâmicas e outros grupos ou seitas de religiosos, para atenderem, pela vida fora, à voz de quem os controla.