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14 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Brasil – Padre Cícero a caminho da santidade

Em Juazeiro do Norte, a 520 quilómetros de Fortaleza, no Ceará, anualmente quase três milhões de fiéis chegam em massa para reverenciar um padre banido das hostes da Igreja Católica. Para toda essa gente, mesmo considerado maldito pelo Vaticano e proibido de entrar nos altares oficiais, o padre Cícero Romão Batista, ou simplesmente Padim Cícero, é um santo milagreiro. Santo e político.

Comentário: O Vaticano nunca perde uma boa oportunidade de negócio.

14 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Congresso dos médicos católicos

Por

A H P

Informa o Diário de Coimbra de hoje que está a realizar-se (tendo começado ontem e acabando hoje) um “Congresso Nacional dos Médicos Católicos Portugueses”, no auditório da Fundação Bissaya Barreto.

A ajuizar pela fotografia que ilustrava o texto, que mostrava uma sala com mais lugares vagos do que ocupados, os médicos católicos ou são muito poucos ou não se interessaram por tão importante evento.

Ontem a estrela do dia (ou da noite) foi o inevitável Dr. Daniel Serrão, que entre outras coisas disse que “o Serviço Nacional de Saúde é uma ilusão”, ao que parece porque “mais de dois milhões de pessoas da classe alta e média alta estarem a pagar do seu bolso cuidados de saúde que poderiam obter gratuitamente através do SNS”. Coitados dos ricos, que têm de pagar os cuidados de saúde do seu bolso para não se verem misturados com a ralé!

Outro dos temas discutidos foi “Teremos direito à saùde?”, problema que pelos vistos continua a preocupar os católicos. Os laicos representantes eleitos pelo Povo para redigir a Constituição já tomaram posição sobre ele há mais de 30 anos, proclamando no artigo 64 da nossa Lei Fundamental que “todos têm direito à protecção da saúde”.

13 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Carta de editora

Vamos lançar as duas obras de Tomás da Fonseca, por nós editadas, no próximo dia 14, sábado, às 16h, na Fnac Chiado.

A apresentação está a cargo de João Macdonald, que prefaciou O Santo Condestável.

Seria também interessante que estivesse alguém da V. Associação na mesa. Será possível?

Um cordial abraço,

Luís Oliveira

(editor)

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P. S. A AAP far-se-á representar

12 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Casamentos homossexuais e direitos individuais (Crónica)

Recordo-me bem dos tempos do liceu, quando as hormonas nos impeliram para o bordel da cidade e estreámos a vida sexual pela mão, e o resto, da saudosa e experiente Libânia ou de alguma recém-chegada. O ritual iniciático era feito com medo da polícia. A nossa menoridade podia conduzir a meretriz à prisão e levar-lhe a multa as parcas economias.

Depois era o gozo da transgressão, mais pelo prazer de que os outros soubessem onde já íamos do que pelo deleite fruído onde fôramos.

Lembro o orgulho das prostitutas, com a caderneta que as creditava como profissionais, depois de o Dr. Pereira da Silva, Subdelegado de Saúde, confirmar na revista semanal a ausência de doenças que lhes impedissem o exercício do múnus nas casas da Rua Poço do Gado, a poucos metros do Largo de S. Vicente, na pia cidade da Guarda.

Não me recordo de coimas mas lembro-me de saltos atléticos pela janela das traseiras ao som do assobio do voluntário que ficava de plantão à polícia, normalmente um magala, atento à ronda militar e, por solidariedade com os estudantes, à PSP.

Era um tempo em que o amor era proibido, o puritanismo era indulgente para os rapazes e ferozmente repressivo para raparigas. As aulas de Religião e Moral eram um arremedo de educação sexual onde o padre Cabral e o padre Inácio alertavam para a cegueira e a tuberculose provocadas pela masturbação, para a virtude da castidade e o perigo da leitura dos livros interditos, referidos no «O Index Librorum Prohibitorum», catálogo de livros actualizado pelo Vaticano, e cuja leitura garantia as profundas do Inferno.

De todos os interditos, da moral que nascia na sacristia e desaguava na sarjeta das aulas de Moral, dos preconceitos e superstições, da violência do tempo e das gentes, recordo a sanha feroz contra os homossexuais, então chamados paneleiros, por ódio e por não ser ainda popular a palavra gay.

Na Guarda havia um que era conhecido, um homem amável e tímido, assustado, sempre à espera do perigo iminente, o Sr. Agostinho, de quem as pessoas se afastavam ou que bandos de energúmenos procuravam, para lhe dar uma sova. Às vezes aparecia com o corpo dorido e a face cheia de nódoas enquanto os delinquentes se gabavam da façanha num intervalo de aulas, no liceu. Nunca assisti a um gesto de censura ou a uma única palavra de piedade em defesa da pobre vítima dos fanáticos que lhe esmurravam a cara e o faziam sangrar por dentro.

Algumas vezes assisti à combinação de sovas a um ou outro condiscípulo acusado de tão infamante comportamento sexual e se nunca participei em tão bárbaras expedições punitivas devo-o mais ao medo às sanções domésticas e ao reitor do que aos escrúpulos morais, mas cresci a ruminar uma explicação para tal violência, para tão ignóbil insulto à liberdade individual, apesar de os tempos não serem favoráveis a quaisquer liberdades.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948, era ainda recente e ignorada em Portugal. As diferenças eram aberrações a merecer castigo e anomalias a esconjurar.

Foi longo o caminho andado mas, algures, num recanto de Portugal há ainda resquícios do Antigo Testamento que passaram de geração em geração e levaram à dissimulação da orientação sexual de muitos infelizes aterrados com a fúria dos guardiões da moral. A vontade divina foi sempre a desculpa dos que fazem da intolerância profissão de fé e dos que temem tornar-se naquilo que odeiam.

Quantos criminosos não nasceram do medo e da violência de que foram vítimas? Hoje, nas escolas, os professores estão atentos a um fenómeno que sempre existiu mas deixou marcas indeléveis em muitas vítimas – a violência física ou psicológica, intencional e reiterada, praticada por um ou mais alunos, com o objectivo de assustar ou agredir outros alunos, incapazes de se defenderem. Há até um termo técnico para designar esse fenómeno – bullying – mas enquanto não houver percepção da violência homofóbica, previnem-se agressões físicas e verbais por outras razões e deixa-se à solta o bullying homofóbico que destrói a felicidade e o amor-próprio de todos os jovens que têm uma orientação sexual minoritária.

Por isso é tão importante eliminar a discriminação sexual com uma medida legislativa que devolva aos homossexuais o direito à felicidade sem constrangimentos e o escárnio que os persegue.

À memória do Sr. Agostinho, afável e honrado zelador do museu da Guarda, à guisa de reparação da vergonha e das tareias, das dores do corpo e do espírito, a legalização do casamento de indivíduos do mesmo sexo é a justiça póstuma à vítima com a qual não tive a coragem de me solidarizar.

11 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Saramago, crenças e crispação

O tempo passa e a tensão aumenta entre os crentes que usam uma linguagem cada vez mais crispada e intolerante para com o escritor que deu a Portugal um Nobel e enorme prestígio à literatura portuguesa. Basta ver o correio dos leitores de vários jornais e as ameaças e insultos que lhe dirigem.

Os bispos, padres e outros avençados do divino usam uma linguagem mais sonsa e dissimulada mas é igual o ódio que os devora e o ressentimento que manifestam.

Seria interessante, se não fosse perigosa, esta excitação dos católicos com Saramago. Este tem o direito de dizer tudo o que disse e o mais que lhe aprouver e aqueles gozam de igual direito em relação a Saramago e ao ateísmo. Não assustando já as penas do Inferno, uma lucrativa invenção pia que rendeu grossos cabedais, ameaçam agora com a situação de Salman Rushdie, vítima da demência de um aiatola que o condenou à morte por ter criticado o Islão. O que está em causa é a intolerância que em certas latitudes foi contida pelas democracias e em outras ainda anda à solta.

A ICAR abomina o direito ao riso e à felicidade mas é uma fonte de um e de outra. Torna felizes os que acreditam e diverte quem não a leva a sério.

Entre as fogueiras índias e as novenas católicas não há dados que indiciem a supremacia de umas sobre as outras quanto à eficácia na pluviosidade. As penas do chefe índio e o camauro do papa só diferem na estética. Os vestidinhos de seda do pontífice  não se distinguem das vestes dos feiticeiros pelo ridículo, apenas pelo luxo e conforto.

A cigana que lê a sina não é menos eficaz a espantar os maus olhados do que o padre a esconjurar os espíritos malignos e a garantir o Paraíso. Às vezes a clientela é a mesma e procura na água benta o sinergismo das mezinhas e rezas ciganas.

O feiticeiro que prescreve a poção com corno de rinoceronte moído só é mais criticável do que o padre que celebra uma missa de acção de graças e ministra a comunhão porque põe em perigo a extinção da espécie animal, mas a eficácia sobre a convalescença dos doentes ilustres não é diferente, embora faltem estudos comparativos.

O baptismo com água benta é mais inócuo do que a circuncisão, que deixa marcas, ou a excisão que põe em risco a vida e destrói de forma irreversível a felicidade sexual mas todos são rituais iniciáticos.

Não há motivo para não nos rirmos dos rituais religiosos. Poucas encenações são tão hilariantes.

10 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

A ICAR e a febre do referendo

Por

José Moreira

A Constituição da República Portuguesa diz claramente que a Igreja está separada do Estado – por muitos engulhos que isso possa fazer quer ao Sr. Aníbal Cavaco Silva quer ao actual presidente da República. Eu admito que aprendi a ler há muitos anos e que posso estar um bocado esquecido; mas se bem me lembro, isso quer dizer, em português decente e escorreito, “cada macaco no seu galho”.

Ou seja, tipo “não te metas na minha vida, que eu não me meto na tua”.

Mas a Igreja não se convence. E vai daí, toca a meter o bedelho eu tudo o que não lhe diga respeito. Faz-me lembrar aqueles tipos baixinhos que se colocam em bicos de pés, para serem vistos, ou aqueles parolos que, às vezes, aparecem na televisão com os letreiros “mãe, estou aqui”.

Concorde-se ou não, o Governo pretende legalizar, pelo casamento, as uniões de facto entre pessoas do mesmo sexo. Para quem ainda não percebeu, e parece que a turba sotainada demora a perceber, o Governo quer permitir casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Sim, eu escrevi casamento civil, porque não me passa pela cabeça que o Governo vá exigir casamento religioso. Era absurdo e completamente estúpido. Tão absurdo e tão estúpido como a Igreja querer forçar o referendo às intenções do Governo. Pela simples razão de que a democracia, palavra que os senhores clérigos desconhecem, implica reciprocidade. E não me recordo de o Governo ter querido referendar a canonização do guerreiro Nuno Álvares Pereira, oportuna e escandalosamente transformado em oftalmologista pela ICAR, por ter curado o olho esquerdo da D. Guilhermina de Jesus, que se queimou com um salpico de azeite ao fritar peixe.

Que a Igreja queira proibir os casamentos religiosos entre pessoas do mesmo sexo, é um direito que legitimamente lhe assiste. Tal como como é legítimo o direito de o Governo português pretender legalizar contratualmente (há quem lhe chame casamento) essa mesma união.

Haja decoro, se faz favor.