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3 de Janeiro, 2013 Carlos Esperança

Teste ao humor islâmico

Revista francesa publica biografia cómica de Maomé

Uma revista satírica francesa publicou uma biografia cómica do profeta Maomé. O editor do semanário Charlie Hebdo, Stephane Charbonnier, afirmou que o novo livro, intitulado “A Vida de Maomé”, é um trabalho educacional resultante de pesquisas adequadas feitas por um sociólogo franco-tunísio.

“É uma biografia autorizada pelo Islão porque foi editada por muçulmanos”, disse Charbonnier, que também ilustrou o livro, cuja capa mostra o profeta levando um camelo pelo deserto. “Não acho que mentes muçulmanas elevadas podem encontrar qualquer coisa inapropriada”, declarou o editor à agência AFP na semana passada.

2 de Janeiro, 2013 Carlos Esperança

DE NATURA DEORUM* (1 de 3)

Por

JOÃO PEDRO MOURA

– A BASE

* “Da Natureza dos Deuses”, é o título duma trilogia que o escritor romano Marcus Tullius Cícero, escreveu em 45, antes da nossa era, explanando sobre a teologia grega e romana, mormente a estoica e epicurista.

Aproveitando o título, explano eu, agora e aqui, 2058 anos depois, sobre a natureza de deus: o conceito, a “obra” escrita e a “obra”… final…

A CAUSA PRIMEIRA

            1-Os crédulos da coisa divina, para convencerem os incréus, ou quem quer que seja, da necessidade de deus, costumam enunciar o seguinte silogismo:

– Tudo tem uma causa

– O Universo teve uma causa

– Logo, a causa é deus

2- Examinemos a validade deste silogismo. “Tudo tem uma causa”? Geralmente é verdade, para aquilo que nós conhecemos, objetos, pessoas, qualquer coisa teve uma causa, mais ou menos conhecida, independentemente da sequência de causas que originam uma sucessão de coisas.

3- “O universo teve uma causa”? Aqui nós não sabemos nada. Apenas saberemos remontar a vida atual e a matéria inanimada a uma sucessão retrógrada, que culmina na teoria do Big-Bang, superexplosão primordial, donde teria decorrido toda a matéria, em processo dinâmico de evolução. Não podemos adiantar mais nada, a não ser registar as fases e os momentos cruciais, plausíveis, da História Natural.

Mas insistem os crédulos que tinha de haver uma causa para o universo, neste caso, para o próprio “Big-Bang”, uma vez que tudo teria uma causa e o universo não poderia aparecer sozinho…

…Mas nós não sabemos se houve uma primeira causa! Para que serve especular?! É aqui que entram as religiões…

Aliás, nós só conhecemos a matéria, e como esta nunca poderia ter aparecido do nada (“ex nihilo, nihil”), deveremos concluir que a matéria é eterna, portanto, nunca foi criada.

4- “Logo, a causa é deus”? Em primeiro lugar, para alguém introduzir “deus” num silogismo, teria que justificar a sua existência, para poder operá-lo num raciocínio silogístico; em segundo lugar, como não conseguem demonstrar a existência de deus, impedindo, assim, a configuração duma hipótese divina, introduzem-no meramente como conceito especulativo… e acham ter resolvido o magno problema da origem primordial das coisas…

5- … Mas realmente não está resolvido…

Até porque, pegando no argumento da “causa divina”, como “causa primeira”, opugnaríamos logo este argumento da “causa primeira”, agora aplicado a deus:

– E quem criou deus???!!!

6 – De novo, os recalcitrantes crédulos tratam logo de arranjar uma réplica argumentativa, arengando com a suposta impossibilidade de haver uma causa para deus…

… E por que é que, então, teria que haver uma “causa primeira” para a matéria???!!!

Então, para o seu deus, não haveria uma causa primeira, mas para a matéria tinha que haver?!…

Isto é uma contradição antitética da credulidade religiosa!

OMNISCIÊNCIA, OMNIPOTÊNCIA E OMNIPRESENÇA

7- Omnisciência, omnipotência, omnipresença: estes são os poderes lógicos e indeclináveis de deus, enquanto conceito.

Mas a sua aplicação prática vai levar a situações tais, que invalidam tais poderes…

Deus sabe tudo, pode tudo e está em toda a parte, desde há biliões de séculos, portanto, no passado, no presente e… no futuro.

Ora, tudo aconteceu, acontece e acontecerá no mundo: desastres naturais, acidentes de todo o tipo, assassinatos de “culpados” e inocentes, atos cruéis e virtuosos, vidas boas e más, sofrimento e ventura, etc.

Pelo que, o quesito emerge com todo o vigor:

– Que fez deus para evitar o mal e promover o bem???!!!

Nada!!! As coisas vão, simplesmente, acontecendo…

8- Dizem os crédulos que deus criou, mas deu liberdade às pessoas, para fazerem o que entendessem, mal ou bem…

Mas este argumento é intrinsecamente falso:

O que distingue um ato criativo divino, e consequente e suposta atribuição de “liberdade” ao objeto criado, duma criação humana, é que esta não domina absolutamente a matéria, e, por isso, as criações humanas têm falibilidade.

Um produtor de computadores e outro de automóveis até os podem criar a funcionar bem, mas não podem garantir uma perpétua funcionalidade, sem problemas.

Os objetos criados pelo ser humano têm, de vez em quando, avarias, falhas, degradações, e a manutenção permanente pode obviar a uma parte desses problemas, mas não sempre, nem todos…

9- Agora, o que é que um colosso absoluto tem a ver com seres humanos???!!!

Como é que tal entidade absoluta poderia criar seres humanos, sem saber o que eles iriam fazer a seguir???!!! Então, deus não é omnisciente???!!! E não é omnipotente???!!!

Quando uma pessoa dá liberdade a outra pessoa, aquela não saberá necessariamente o que esta vai fazer. É o que acontece com os pais relativamente aos filhos: aqueles não sabem o que estes irão exatamente fazer, com a obtenção de liberdade.

Uns filhos poderão “triunfar” na vida; outros enveredarem pela marginalidade; uns seguirão caminhos imprevistos; outros previstos, etc.

Estou certo que, se dependesse dos pais, conseguir o melhor para os filhos, com a liberdade que estes alcançaram, viveríamos num mundo virtuoso e venturoso…

Mas o ser humano não é assim…

Agora, deus, que tudo sabe e tudo pode e em todos os lugares está presente, como é que pode “dar liberdade” a criaturas programadas e determinadas apenas e só para aquilo que deus quis???!!!

Por isso é que os crédulos até têm um bordão, “Se deus quiser”, que contraria, exatamente, a suposta “liberdade” que os humanos teriam recebido de deus…

Dizer que deus criou os humanos e lhes deu liberdade, além de ridículo e absurdo, é o mesmo que dizer que deus não sabe o que cada um vai fazer com essa “liberdade”, tal-qualmente, um pai ou uma mãe ou um produtor de transformadores elétricos ou de galinhas também não sabem exatamente se as suas produções vão funcionar corretamente e sempre sem problemas…

Se um indivíduo se tornou criminoso, outro cirurgião, outro ateu e outro crédulo, então, o “nosso” plenipotenciário deus não só sabe isso tudo, previamente, como programou as pessoas para isso, pois que facilimamente as poderia programar para outras coisas…

… Pois que toda a constituição físico-química dos indivíduos e suas interações e suas qualidades genéticas e sociais, que o propendem para o “mal” ou para o “bem”, foram determinadas por deus.

10- Dar liberdade a alguém é torná-lo capaz de fazer o que entender… sem previsibilidade.

Como é que um deus, que sabe sempre o que cada um vai fazer, poderia “dar liberdade”???!!!

11- Se os crédulos, na sua estupidez infinita e fatal, insistem que o “mal” decorre da dádiva divinal de liberdade aos humanos, e que estes fariam o que entendessem, de bem ou de mal, e que o mal estaria, então, nesse desvio de alguns das virtudes preconizadas por deus, então, por que é que acontecem males naturais, como sismos, furacões, tsunamis, tempestades, secas, inundações, causadores de milhares de mortos?!…

… Será que são consequências de deus ter dado “liberdade” à geomorfologia e aos outros elementos inanimados terrestres???!!!…

… E as crianças que morrem, alguns pouco depois de nascerem, de doenças graves???!!! Também serão consequência de se “desviarem” dos “retos caminhos divinos”???!!!

As perguntas multiplicar-se-iam, mas a resposta é só uma: o deus das religiões, tal como no-las apresentam, não criou nada…

…Os crédulos é que acham que há deus!…

CRIADOR, GOVERNADOR E JUSTICEIRO

12- Deus criador???!!! Mas para que é que um colosso absoluto daqueles criaria???!!!

Alguém consegue imaginar, mesmo que vagamente, um motivo para tal deus criar???!!!

Imaginemos o conceito de deus: é imutável, porque não precisa de tomar decisões, nem de ir para aqui nem para acolá, também não tem qualquer vislumbre de tristeza ou alegria, nem vontade de se satisfazer ou o quer que seja, que nos caracteriza a nós, humanos.

Deus criaria, para quê???!!! Para brincar aos computadores realistas, num jogo chamável de Human Games???!!! Para ver o que acontece???!!! Para se entreter???!!! Para brincar, simplesmente???!!!

A ideia dum deus criador ainda é mais absurda do que a sua mera imaginação!

Além de que um deus criador, de coisas, pessoas, animais, massa, energia, invalida, concomitantemente, a ideia dum ser imutável, pois que decidiu criar, transmutando-se duas vezes: ter a ideia (???!!!…) e praticá-la…

… Pelo que não seria eternamente ativo e necessário, manifestando-se, apenas, a partir dum momento.

Então, que teria feito antes das criações???!!!

13- Deus governador???!!! Isto é, um deus que intervém, respondendo favoravelmente a preces (é para isso que servem as orações, não é, crédulos?!…), praticando milagres, portanto, corrigindo falhas…

… Mas tudo isto contraria a perfeição do criador, pois que um criador, como deus, nunca poderia intervir posteriormente para alterar o curso das coisas, sob pena de invalidar a perfeição da obra que fez…

… Já para não questionar por que é que deus só intervém umas vezes, nesta ou naquela pessoa, neste ou naquele evento, e pretere as(os) demais…

14- Deus justiceiro???!!! Sim, sim! O deus judio-cristão, mais o colega islâmico, tem duas sentenças, no Dia do Juízo Final: a sentença paradisíaca e a pena infernal, ambas perpétuas…

Na primeira, os religionários da igreja vencedora (qual será?) seguem, em excursão recreativo-cultural, a caminho do jardim da celeste corte, para não fazerem mais nada durante a eternidade: nem trabalhar, nem andar, nem comer, nem fornicar, nem beber, nada, porque nada precisam de fazer…

Os malvados, como ateus, indiferentes, religionários doutras casas e demais cambada seguirão, em sofrimento atroz, para o inferno, onde serão assados “ad eternum”, mas sem morrerem, que é para o suplício ser permanente e satisfazer, assim, deus… que os criou com esse defeito…

Engraçado, não é?!

Eu não terei razão, quando digo que a religião é a coisa mais estúpida do mundo e… arredores?!

2 de Janeiro, 2013 Carlos Esperança

Influência cristã

A Hungria lidera a vanguarda do retorno ao nazismo, com o populismo e a demagogia a cevarem a extrema-direita. A Polónia e a Roménia seguem-lhe os passos. O Holocausto foi esquecido e os povos não têm memória.

1 de Janeiro, 2013 José Moreira

A coerência papal

Hoje ouvi uma notícia que me agradou, vinda dos lados do Vaticano. B16 apelou para que seja menor o fosso entre ricos e pobres, estou a citar de memória, que já não é grande coisa.

Gostei. A sério. Porque desde que me lembre, o papa falou acerca de um assunto de que tem pleno conhecimento. De facto, e tanto quanto sei, se há mendigos no Vaticano eles não nasceram lá. No Vaticano não nascem pobres. Nem ricos, acho eu, mas isso é outra conversa. Os mendigos que, eventualmente, existam no Vaticano, são estrangeiros. Nesse aspecto, o Vaticano deve ser dos países exemplares, no mundo: não há actividade produtiva, e não há desemprego. Quanto ao fosso entre ricos e pobres, logicamente não existe. Pois se nem há pobres…

1 de Janeiro, 2013 José Moreira

Deus e deuses (II)

Confesso que não li Sebastien Faure. Por várias razões, algumas das quais não me coíbo de apontar: alguma falta de tempo, muita preguiça, essa coisa deliciosa de que os crentes não podem usufruir, e, finalmente, porque me parece impossível provar a inexistência… do que não existe. Não existe, ponto final. Se eu afirmar que tenho um papagaio azul invisível pousado no meu ombro direito (ou será no esquerdo?), sou eu que tenho de provar a sua existência, nunca me passaria pela cabeça desafiar fosse quem fosse a provar que tal animal não existe.

No entanto, o primeiro artigo serviu para várias coisas: para provar que se pode discutir com elevação, e que há crentes exímios em argumentação balofa, mas que tentam, desesperadamente, justificar o injustificável. Mesmo o inverosímil. Defendem a asneira com unhas e dentes, virtude que admiro.

Deus não existe, mas é pena; porque mesmo não existindo, tem mais maleabilidade do que a mais requintada plasticina. Qualquer crente consegue moldar o seu deus da forma que mais lhe convier. Nem Tertuliano, com o seu “credo quia absurdum”! Há dias, uma Testemunha de Jeová garantia-me que Deus era de carne e osso, como o Homem, já que este foi criado à imagem e semelhança daquele. Imagem e semelhança, pois claro. Só podia!

Um dos argumentos apresentados nos comentários ao artigo anterior concerne à liberdade dada ao homem pelo criador. A liberdade, diz o comentador que eu cito de memória, consiste em, livremente, o homem escolher entre o Mal e o Bem. Julgo poder inferir que o Homem, fruto da criação, nasce perfeito, mas que vai adquirindo maldade (ou não) ao longo da vida. Não sei se estou a seguir o raciocínio do comentador mas, caso afirmativo, se assim fosse a educação não seria precisa para nada. Nem a educação nem a aquisição de valores. Faça o comentador uma experiência: coloque quatro ou cinco crianças, de idade em que ainda não adquiriram o Mal, suponhamos, dois ou três a nos de idade. Depois, coloque junto a elas um brinquedo atraente. A seguir, verifique com que altruísmo essas crianças passam o brinquedo para o colega, prescindindo dele. Ou como se esgadanham para apanhar o brinquedo.

Selvagem, meu caro. O Homem, como diz a canção, nasce selvagem. Por isso é que é preciso educá-lo.

Argumenta-se que Adão, perante a tentação da serpente, escolheu desobedecer a Deus. E que, por isso, se tornou imperfeito. Balelas! Se fosse perfeito podia, com a liberdade que Deus lhe tinha dado, escolher a obediência, sem que isso implicasse “escravidão”.

Aliás, a bondade divina está patente nessa armadilha, que nem a Maquiavel lembraria: plantar uma árvore, e proibir de comer o respectivo fruto. Sabendo, como tinha obrigação de saber, que Adão iria lá direitinho, acho que foi a Eva, não interessa, Deus sabia o que iria acontecer. Plantou a árvore, para quê? Liberdade? Poupem-me.

Mas há uma afirmação que me deixou desqueixelado: “Pode não acreditar na doutrina, mas segundo a mesma Jesus é tão eterno quanto o Pai.” Importa-se de repetir? Um filho tem a mesma idade do pai? Bom, aqui não se tratará de idade, mas de eternidade. Então são dois??? Gémeos, sócios, ou o quê? Por definição, um filho é um descendente, é fruto de, é criação, concepção, geração, o que quiserem. O comentador está a afirmar que há duas entidades. Há quanto tempo não vai à missa? Tem ouvido o credo católico, principalmente nesta parte “Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Único de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos:” Nascido do pai. Se nasceu, não existia. Se não existia, não é eterno. Se não é eterno, não é deus.

Aliás, só o passou a ser depois do Concílio de Niceia.

 

 

 

1 de Janeiro, 2013 Carlos Esperança

Ano Novo (2013) – Na morte do capitão de Abril Marques Júnior

Sob os escombros do ano que ora findou jazem os votos que formulámos no início. Onde se encontram a almejada paz, o amor jurado, a fraternidade anunciada? Pelo contrário, irromperam das trevas da intolerância fundamentalismos torpes, ódios obscenos e ajustes de contas.

Por todo o mundo lambem-se feridas de catástrofes naturais e conflitos provocados. A explosão demográfica, a pobreza e a guerra deram as mãos à intolerância e à vingança. O racismo e a xenofobia atingiram proporções dementes que terminam na orgia de sangue em que os homens se atolam. Foram frágeis os desejos e efémeras as expectativas.

Ano Novo, vida nova. Estes são os votos que repetimos no dealbar de cada ano. E suplica-se que o Ano Novo seja o paradigma dos nossos sonhos e não a consequência dos nossos atos ou o fruto de circunstâncias que nos escapam.

Após as doze badaladas e outras tantas passas, o champanhe e os abraços, por entre beijos húmidos e corpos que se fundem numa sofreguidão de amor, com o brilho das luzes e o som da música, recomeça um novo ano com votos repetidos de ser diferente e ser melhor.

Os anos nascem ruidosamente e vivem-se em silêncio. Começam com ilusões e acabam em pesadelo.

Há em cada um de nós uma força que nos impele para a mudança, que nos dá ânimo para desbravar novos caminhos e assumir novos riscos enquanto o conservadorismo e o medo do desconhecido nos tolhem os passos, nos intimidam e levam a recusar a novidade.

Eu acredito que no coração dos homens mora um genuíno desejo de paz. Os mísseis que cruzam os ares, as bombas que perfuram o solo ou os efeitos colaterais da artilharia que erra o alvo e destrói povoações inteiras não são mais do que um breve pesadelo.

O futuro constrói-se. A felicidade é um estado de alma que devemos procurar e a alegria o caminho a seguir.

É em cada um de nós, no espírito de tolerância, na aceitação da diferença, na solidariedade, que podemos começar a construir o mundo mais justo, fraterno e pacífico para o qual julgávamos bastarem os desejos formulados de olhos fechados na última noite de Dezembro.

Que o delírio do amor e a embriaguez do sonho se mantenham vivos durante o ano que aí vem. E que, por entre nuvens que pairam carregadas de incerteza, resplandeça o sol da esperança.

O ano de 2012 terminou com a morte do capitão de Abril, Marques Júnior. Foi um cravo perdido no jardim da liberdade, a pétala de rosa que murchou, a folha caída da árvore que plantou.

E esta lágrima teimosa a lembrar-me que com ele morre também um pouco de mim e dos sonhos que todos os dias nos roubam. É preciso recomeçar para que Abril seja mês todo o ano e 25 permaneça o dia de todos os sonhos mesmo quando um sonhador nos deixa.

31 de Dezembro, 2012 Luís Grave Rodrigues

Um Bom Ano de 2013

«Um carabineiro com um martelo de madeira dá-me um forte golpe nos dedos mindinhos de ambas as mãos.
«A seguir, com um alicate, começa a arrancar-me as unhas.
«Nesse momento entra o sargento, que lhe tira o alicate para o utilizar a arrancar-me o bigode. Em dada altura, como resultado da grande dor e do desespero, consigo morder-lhe a mão, o que faz com que um carabineiro me dê uma coronhada na cara.
«Perco a consciência e, ao despertar, dou-me conta que sangro muito da cabeça, do nariz, da boca, e que me faltam oito dentes. Tinham-mos arrancado com o alicate ou com golpes. Não sei».

*

«Estava grávida de cinco meses.
«Obrigaram-me a ficar nua e a ter relações sexuais com a promessa de uma pronta libertação.
«Apalparam-me os seios, deram-me choques eléctricos nas costas, na vagina, no ânus.«Arrancaram-me as unhas dos pés e das mãos. Agrediram-me com bastões de plástico e com a coronha de espingardas. Drogaram-me. Simularam fuzilar-me.
«Deitada no chão, com as pernas abertas, introduziram-me ratos e aranhas na vagina e no ânus. Sentia que era mordida e acordava banhada no meu próprio sangue.
«Conduzida a lugares onde era violada vezes sem conta, chegaram a obrigar-me a engolir o sémen dos violadores.
«Enquanto me agrediam na cabeça, no pescoço, na cintura, obrigavam-me a comer excrementos».

*

Entre 35.686 testemunhas, estes são apenas dois depoimentos de vítimas de tortura da Junta Militar do Chile durante o regime de Pinochet que voluntariamente se dirigiram à “Comissão Nacional sobre Prisão Política e Tortura”.
Esta comissão foi criada no Chile em 2003 para dar a conhecer em toda a sua extensão, aos chilenos e ao mundo, os horrores praticados pela ditadura militar e pela adopção da tortura e do horror como uma política de Estado no período compreendido entre 1973 e 1990.

*

Um terror absolutamente indescritível foi o rasto deixado ao longo da História pelos Tribunais da Inquisição.

Nem sequer é fácil imaginar as masmorras imundas onde em nome de Deus reinaram durante séculos o ódio e a insensibilidade perante o sofrimento alheio e que mais pareciam «fábricas» com os mais tenebrosos instrumentos que a imaginação humana é capaz de inventar: cadeiras com pregos afiados, ferros incandescentes, pinças, roldanas, pesados blocos de pedra, correntes, garfos enormes, chicotes com pontas de ferro, cordas, machados afiadíssimos, guilhotinas, troncos, máscaras de ferro, forquilhas, garrotes, serrotes, esmagadores de joelhos, de cabeça, de polegares e de seios; cavaletes, e outros utensílios de “trabalho”.

Com a «Roda de Despedaçar» colocava-se o herege de costas sobre uma roda de ferro, sob a qual se colocavam brasas. De seguida, a roda era girada lentamente. A vítima morria depois de longas horas de dor indescritível, com queimaduras do mais alto grau. Não havia pressa para a morte do supliciado. Pelo contrário, havia o cuidado de prolongar ao máximo a sua agonia.

A «Mesa de Evisceração» destinava-se a extrair aos poucos, mecanicamente, as vísceras dos condenados. Após a abertura da região abdominal, as vísceras eram puxadas, uma por uma, por pequenos ganchos presos a uma roldana, girada por um carrasco.

Tentemos por um momento imaginar os rostos pálidos dos torturados.
Muitos imploram para morrer; muitos dizem “peçam-me qualquer coisa e eu farei”.
Outros, que passaram para a galeria dos «heróis da fé», enfrentam a dor com resignação. Não passam de cadáveres ambulantes.

Muitos estão na terceira, quarta ou quinta sessão de tortura. Se não resistem, os seus corpos são queimados e as cinzas lançadas algures.

E as suas memórias esquecidas.

Os Inquisidores conhecem bem o limite humano à dor. Quando algum desgraçado, acusado de heresia ou simplesmente de professar a religião errada, chega ao limite do sofrimento, é entregue aos cuidados do médico cirurgião que cuidará de suas feridas e dos ossos quebrados ou deslocados. A alegação é que a tortura não foi concluída, mas suspensa.
Após algumas semanas, são trazidos para novos interrogatórios.
Os que forem condenados à morte na fogueira terão as suas línguas arrancadas para que ninguém ouça as suas últimas “blasfémias”, e por elas não fiquem contaminados.

*

Como pode isto acontecer?
Como podem tantos seres humanos, seja em nome de um Deus seja em nome de um líder qualquer, praticar actos desta indescritível barbárie?

*

Stanley Milgram, professor de psicologia social na Universidade de Yale, levou a cabo em 1974 uma experiência com o objectivo de estudar a «Obediência à Autoridade»:

Entre pessoas comuns (operários, estudantes, secretárias, empresários, lojistas, etc.) foram recrutados voluntários a quem foi atribuído o papel de “professores”.

Esses “professores” foram instruídos a aplicar choques eléctricos de intensidade crescente (de 15 a 450 Volts) num outro indivíduo (que estava amarrado a uma cadeira com eléctrodos numa sala adjacente), e que era designado “estudante”.

Os choques seriam administrados todas as vezes que o “estudante” errava uma resposta a um questionário previamente determinado.

Milgram tinha explicado aos “professores” recrutados que o objecto daquele estudo residia precisamente nos efeitos da punição sobre a memória e sobre aprendizagem.

Como é óbvio, o “professor” não sabia que o “estudante” da pesquisa era afinal um actor, que convincentemente interpretava e manifestava desconforto e dor a cada aumento da potência dos “choques eléctricos” que lhe eram pretensamente infligidos.

O resultado da experiência foi absolutamente perturbador e mais “chocante” que qualquer voltagem aplicada:

– Nada menos do que 65% das pessoas envolvidas – os “professores” – chegaram mesmo, e sem qualquer hesitação, a administrar ao “estudante”, sob ordens do cientista (que na experiência representava a “autoridade”) os choques mais potentes, dolorosos (de 450 volts) e claramente identificados como perigosos e… potencialmente mortais!

E todos os “professores” – mas todos eles – administraram pelo menos 300 Volts!
Em muitos casos houve “professores” que a determinada altura da aplicação dos choques eléctricos se preocuparam com o bem-estar do “estudante” e até perguntaram ao cientista quem se responsabilizaria caso algum dano viesse a ocorrer.

Mas quando o cientista os descansou, afiançando-lhes que assumiria toda e qualquer responsabilidade do que acontecesse e os encorajou a continuar, todos os “professores” persistiram na aplicação dos choques com as voltagens mais elevadas, mesmo enquanto ouviam gritos de dor e súplicas dos “estudantes” para que os parassem.

*

Entretanto, foi feita uma experiência laboratorial semelhante, desta vez com macacos-rhesus.

Nessa experiência (sem dúvida absolutamente tenebrosa, diga-se de passagem), os macacos eram colocados em jaulas próprias onde só recebiam alimento se puxassem uma determinada corrente.

Contudo, sempre que puxavam essa corrente era-lhes proporcionada comida, mas simultaneamente era infligido um violento choque eléctrico a outro macaco-rhesus, cujo sofrimento poderiam então observar através de um vidro espelhado.

Passado muito pouco tempo todos os macacos se aperceberam de como tudo funcionava e de que era precisamente o seu gesto de puxar a corrente que, enquanto lhes garantia a comida que pretendiam, era também ao mesmo tempo a causa do sofrimento do outro macaco.

Acontece que logo que faziam essa associação praticamente todos os macacos deixaram de puxar a corrente e preferiam passar fome a fazer sofrer um outro macaco, com quem nem sequer estavam familiarizados e que pertencia até a uma tribo diferente.

Numa ocasião e mesmo ao fim de um longo tempo de fome, os cientistas observaram que, no máximo, somente 13% dos macacos acabavam por puxar a corrente.

Alguns chegaram ao ponto de quase morrer de fome; mas nunca mais puxaram a corrente!

*

É, de facto, perturbadora a comparação entre as duas experiências.

Porque, para já, ela demonstra que as mais básicas noções de ética são conaturais aos indivíduos, mesmo aos animais, ainda que sejam nossos «primos».

Demonstra ainda que essa ética é racional, porquanto decorre de princípios de civilização e de necessidades práticas de convívio social e também de interacção individual.

Demonstra, finalmente, que essa ética, que é racional, prática e civilizacional só cede perante princípios de irracionalidade, sejam de ordem religiosa ou de ordem política e que, quantas vezes mascarados de princípios de ordem “moral”, acabam por ser acatados e aceites por tantas pessoas, que acriticamente lhes passam a obedecer cegamente, pugnando até pela sua imposição aos demais cidadãos.

É esta “obediência”, firmada em primeiro lugar na ausência de uma consciência individual, e que é irracional e cega a qualquer noção de ética e até à mais básica dignidade humana, que leva às barbaridades praticadas pelos Homens.
Seja nas ditaduras latino americanas, na União Soviética, na Alemanha de Hitler, ou noutro país qualquer, até mesmo em Portugal.

Seja em nome de uma ideologia, de uma política ou de uma religião;
Seja em nome de abstrusas concepções de autêntico «relativismo moral» ou da cretinice de considera-ções como a que afirma que não se deve ser «demasiado racionalista».

E que, todas, acabam por conduzir ao Holocausto ou aos Gulags e ao extermínio de milhões de pessoas.
Que conduzem a uma Inquisição tenebrosa ou a um terrorismo frio e sem rosto que torturam e matam em nome de Deus.

As ditaduras podem ser instituídas por uma “Junta Militar”, por uma religião, ou por um qualquer punhado de indivíduos que assumiram num país uma tal concentração de poderes que lhes permite a prática impune de tudo o que lhes vem à ideia.

Mas isso só é possível – sejamos claros – com a inexplicável complacência e com a injustificável tolerância para com os mais imbecis critérios de irracionalidade, que mais não significam do que uma autêntica cumplicidade de toda a estrutura da sociedade.

De todos nós!

De facto, Stanley Milgram repetiu a sua famosa experiência em mais de uma dezena de outros países, de todos os continentes, sempre com resultados absolutamente idênticos.

Do Chile de Pinochet ao Cambodja de Pol Pot, passando pelo Portugal da Pide e dos Tribunais Plenários, será talvez a “obediência”, a “falta de sentido crítico” e a irracionalidade com que acatam determinações políticas ou religiosas, que explicam por que motivo pessoas comuns, colocadas em determinadas circunstâncias e sob a influência de uma autoridade – política, ideológica ou religiosa – que nem sequer se lembram de questionar (e que antes procuram até impor aos outros), sejam capazes de cometer os crimes mais hediondos.

No entanto, ouve-se dizer de alguém que se quer elogiar que é «uma pessoa de muita fé» ou que ao longo da sua vida sempre foi «coerente com os seus princípios», embora nem sequer cuidemos de saber quais foram tais… «princípios».

Mas a partir de que altura da História da Humanidade é que o prestígio e até o bom senso de uma pessoa passou a ser sinónimo ou a ser proporcional à irracionalidade que lhe é atribuída?

É até irónico que virtudes humanas como a lealdade, a solidariedade, o sacrifício próprio, a disciplina ou o amor ao próximo, e que tanto valorizamos, sejam as mesmas propriedades que também criam pessoas homofóbicas, misóginas, racistas ou xenófobas ou que as transformam em autênticas máquinas destrutivas de ódio, de guerra, de corrupção e morte, e ligam homens e mulheres a princípios, ideologias ou religiões repulsivos e perversos.

Ideologias e princípios, quer políticos quer também religiosos que são, ainda hoje, cega, acrítica e incondicionalmente apoiados e irracionalmente seguidos por tantas e tantas pessoas que da forma mais indigna e abjecta nem a si próprias se respeitam.

É pois a este planeta, habitado pelos humanos, que desejo:

– Um bom ano de 2013!

                            

31 de Dezembro, 2012 Carlos Esperança

A política do Vaticano

Findou o usual apoio eleitoral a Berlusconi, através de milhares de púlpitos italianos. L’Osservatore Romano optou agora por Mário Monti, mais casto.