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18 de Outubro, 2013 José Moreira

Valha-nos a santa religião

Quando tudo parecia estar de acordo, eis que um cientista vem dizer que essa coisa de ter havido várias espécies de “Homo” talvez não seja bem assim. Para confirmar a sua teoria, apresenta-nos o “crânio 5”, que diz ter a linda idade de cerca de 1,8 milhões de anos.

Ora bem, nós sabemos como é a Ciência: hoje dizem uma coisa, amanhã dizem outra, nunca têm a certeza de nada, estes cientistas. Por isso é que nunca mais saímos do sítio. Ainda andam à procura da data do aparecimento do Homem.

Deixem-me, pois, dar uma ajuda: o Homem apareceu há cerca de 6013 anos, mais centímetro menos quilómetro, umas gerações antes da Idade do Ferro. E não é preciso consultar a Wikipédia, basta ler a Bíblia, mais exactamente Génesis 4.22: E Zilá também deu à luz Tubalcaim, mestre de toda a obra de de cobre e ferro. É só fazer as contas.

O problema é que os cientistas não lêem a Bíblia, e ficam-se ali a estudar, a estudar, quando está tudo explicado.

A religião é uma coisa boa, não é?

18 de Outubro, 2013 Ludwig Krippahl

Treta da semana (passada): Alexandrina de Balasar.

Domingo passado foi o dia da Alexandrina de Balasar, beata da Igreja Católica (1). Segundo a sua autobiografia (2), nasceu em 1904, aos quatro anos já rezava, aos sete anos começou os seus dezoito meses de escola, aos catorze adoeceu porque trabalhava para um vizinho que a obrigava «a trabalhar mais do que as forças que tinha» e depois saltou da janela da casa para fugir do vizinho e outros dois homens que vieram a casa dela não se sabe bem fazer o quê. Segundo a interpretação dos aficionados, a Alexandrina saltou da janela para «defender a sua pureza». Segundo o relato da própria, depois de saltar da janela «Cheia de coragem, peguei num pau e entrei pela porta do quintal para o eirado onde estava a minha irmã a discutir com os dois casados. A outra pequena estava na sala com o solteiro. Eu aproximei-me deles e chamei-lhes “cães”, e disse que ou deixavam vir a pequena, ou então gritava contra eles. Aceitaram a proposta e deixaram-na sair. […] Não lhes demos mais confiança; eles retiraram-se e nós continuámos a trabalhar.» Seja como for, após a queda a Alexandrina foi ficando gradualmente mais paralisada até que, cerca de 5 anos mais tarde, ficou acamada de vez. Não parece haver explicação para tão insólita progressão de sintomas, mas isto não conta como milagre porque é desagradável. Também não houve milagre de cura, apesar da Alexandrina e familiares fazerem várias promessas nesse sentido. «Alexandrina, com o tempo, foi aceitando a sua condição de doente, tomando uma rotina quotidiana de oração e oferecendo-se como vítima», e rezando «A Vossa bênção, Jesus! Eu quero ser santa! Ó meu Jesus, abençoai a Vossa filhinha que quer ser santa.» Mas a seguir veio um milagre, não fossem pensar que esta devoção excessiva era apenas uma forma que esta pobre rapariga tinha encontrado para lidar com o seu infortúnio.

«Alexandrina viveu, desde o dia 27 de março de 1942, mais de treze anos em jejum e anúria. O seu alimento foi exclusivamente a Eucaristia.» Para comprovar este feito assombroso, a Alexandrina passou 40 dias no “Refúgio da Paralisia Infantil”, na Foz do Douro, acompanhada pela irmã e o seu médico pessoal, Dias de Azevedo. Lá terá sido observada cuidadosamente por enfermeiras e pelo médico e psiquiatra Henrique Gomes de Araújo. Segundo cita um livro sobre a Alexandrina, Henrique Gomes de Araújo garantiu ser «inteiramente certo que, durante os quarenta dias de internamento, a doente não comeu nem bebeu; não urinou nem defecou, e esta circunstância leva-nos a crer que tais fenómenos possam vir a produzir-se de tempos anteriores». Mas o mais milagroso de tudo foi que, depois de comprovado o feito, o médico e a comunidade médica portuguesa tenham simplesmente ignorado o assunto. Um texto de homenagem ao Henrique Gomes de Araújo, pouco após a sua morte, descreve a sua carreira em medicina e psiquiatria, a sua personalidade, a sua obra filosófica, o prémio Abel Salazar que ganhou em 1975 pelo livro “Perspectivas Fenomenológicas na Análise da Existência”, a sua relação com os doentes e as pessoas com quem trabalhou, Mas nem uma palavra refere a maior descoberta na medicina dos últimos séculos: é possível uma pessoa viver sem comer nem beber (3).

As implicações teológicas do milagre da Alexandrina também são profundas. Tragicamente, muita gente morre à fome. Isto, dizem os crentes, não é culpa de Deus porque Deus não intervém. Porquê, não é claro, visto que obviamente poderia intervir se quisesse. Mas não intervém, e regras são regras. Só que, se a Alexandrina pode viver treze anos sem comer nem beber por obra e graça do menino Jesus e da sua santíssima mamã, então as regras não são para todos. Afinal, não são todos filhos de Deus. Excepto uns poucos, quase todos são enteados.

Em 1944, a Alexandrina «inscreveu-se na União dos Cooperadores Salesianos» para «colaborar com o seu sofrimento e as suas orações para a salvação das almas, sobretudo juvenis. Rezou e sofreu pela santificação dos Cooperadores Salesianos de todo o mundo.» Foi assim que a sua vida foi «gasta exclusivamente para salvar as almas.»(1) Numa perspectiva ética, de justiça, ou mesmo de elementar bom senso, isto é absurdo. Sofrer é mau e sofrer por sofrer é uma maldade fútil. Se um deus qualquer quisesse que a Alexandrina ajudasse mesmo as outras pessoas, tinha-lhe ensinado a criar vacinas, antibióticos novos ou um sistema político que funcionasse bem. Fazer dela uma paralítica em sofrimento é, além de maldade, inútil para a maioria das pessoas. Excepto, mais uma vez, para uns poucos: aqueles que promovem a Alexandrina a beata como exemplo para outros fiéis seguirem. O exemplo de alguém que gasta a vida em sofrimento, que acredita que sofre porque um deus quer que sofra e que ainda assim agradece o que esse deus lhe faz. A metáfora do rebanho de fiéis a seguir os sacerdotes pastores, já de si uma imagem degradante da condição humana, é insuficiente para uma atitude destas. Nem uma ovelha agradeceria ao torturador uma vida de sofrimento inútil e injusto.

Já sei o que querem comentar. Para o ateu a vida não tem valor, somos todos só moléculas, nunca vai compreender exemplos destes que têm de ser vividos na religiosidade e essas tretas. Não é nada disso. Cada vida tem valor para quem a vive e para aqueles que essa vida toca. A vida de cada um é única, não há segunda volta e há que fazer dela o melhor que se puder. Mesmo sem crer em deuses ou planos divino, e sabendo que muito do que acontece simplesmente acontece, percebo perfeitamente a vantagem de ter alguém que dê um exemplo de como lidar com estas vicissitudes. Mesmo que seja um exemplo tão longe da nossa capacidade que só nos sirva de direcção e não de destino. Mas se querem um exemplo desses, então olhem para alguém como o Stephen Hawking e não para a coitada da Alexandrina, que dá muita pena mas não é exemplo para ninguém.

1- Senza, Dia da Beata Alexandrina de Balasar
2- Santuário Alexandrina de Balasar, História de uma vida
3- Carlos Mota Cardoso, À memória de Henrique Gomes de Araújo, “Morreu um médico” (pdf)

Em simultâneo no Que Treta!

18 de Outubro, 2013 Carlos Esperança

A viagem de negócios da Senhora de Fátima

Deslocação da imagem de Nossa Senhora de Fátima ao Vaticano “vigiada” por conservadoras do Politécnico

Antes de seguir viagem até ao Vaticano, onde esteve nos últimos dias 12 e 13 de Outubro, na Jornada Mariana promovida pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, a imagem de Nossa Senhora de Fátima foi observada com minúcia por uma equipa composta pela conservadora restauradora do Instituto Politécnico de Tomar (IPT), Carla Rego, 46 anos, e a sua estagiária Lígia Mateus.

“É uma imagem que é venerada em todo o mundo pelo que, sem dúvida, este é um marco na minha carreira. Arrepiei-me quando, no domingo, vi o Papa Francisco beijar a Imagem. Já estive tanto tempo com ela que o que significa para tanta gente toca-me”, conta Carla Rego a O MIRANTE, que vai publicar uma entrevista com a conservadora na próxima edição.

Diário de uns Ateus – A deriva da Igreja católica para a idolatria é irreversível.

17 de Outubro, 2013 Carlos Esperança

Curiosidades – O Papa e Cavaco

Tarcisio Bertone, de 78 anos, deixou o posto de secretário de Estado, o segundo mais elevado na hierarquia do Vaticano – uma espécie de primeiro-ministro – , depois de ter sido acusado de inépcia para evitar os escândalos morais e financeiros do pontificado de Bento XVI.

O arcebispo Pietro Parolin, de 58 anos, diplomata de carreira do Vaticano, será o seu substituto. Curiosamente, na sequência de uma operação cujo motivo se desconhece, Parolin não esteve presente na cerimónia da sua própria posse.

O Papa Francisco acabou por lhe dar posse apesar da ausência. Deve ter-se baseado no precedente aberto por Cavaco Silva que deu posse à atual ministra das Finanças em um Governo que não existia. Faltava Paulo Portas, irrevogavelmente demissionário, e todos os ministros do CDS.

Acaba por ser honroso para Cavaco ver o Papa a presidir a uma cerimónia igualmente vazia de conteúdo.

17 de Outubro, 2013 Carlos Esperança

A GUERRA CIVIL ESPANHOLA E A IGREJA CATÓLICA (2)

Por

João Pedro Moura

1- Em Tarragona, na Catalunha, no passado domingo, 13 de outubro de 2013, 522 “mártires da perseguição religiosa do século XX” – quase todos padres, freiras e seminaristas mortos durante a guerra civil espanhola – foram proclamados beatos.

Tal recenseamento denota um trabalho enorme, de muitos anos de investigação canónica e histórica, para se apurar tão grande número de pessoas, afectas à mesma conjuntura histórica.

Denota também um intuito pertinaz de valorizar certos padres e monges da Igreja espanhola de antanho, que se aliou à insurreição franquista contra a periclitante democracia republicana…

2- Primeiramente, convém assentar que a violência dum dos contendores poderá estar em proporção com a violência do outro…

Isto é, a violência duma libertação poderá suscitar-se dialeticamente consoante a violência duma opressão.

A Igreja Católica espanhola, desde sempre e, pelo menos, até à Guerra Civil, foi uma Igreja profundamente reacionária e fortemente mancomunada com os poderes monárquicos. A aliança entre o trono e o altar, por excelência…

Durante a vigência da Inquisição, mormente a do inquisidor-mor, o frade dominicano Tomás de Torquemada, pensa-se que teriam sido executados, em fogueiras e outros tormentos atrozes, cerca de 300 mil desgraçados, tornando tal inquisição a mais mortífera da cristandade.

3- No século XX, a Igreja espanhola tinha uma enorme quantidade de bens, nomeadamente terras (latifúndios), em regime equiparado ao dos latifundiários civis, e onde viviam camponeses pobres, intensamente explorados.

Era também da Igreja uma grande quantidade de colégios, em suma, de boa parte da educação pública, pela qual a Igreja procurava garantir e manter o domínio tradicionalista sobre as novas gerações, contra a progressiva secularização da sociedade.

Com a crescente politização das massas populares, decorrente da ascensão  republicana ao poder, em 1931, e o subsequente decreto sobre a separação entre o Estado e a Igreja, mais a lei agrária de 15 de Setembro de 1932, que expropria os latifundiários, entre os quais a Igreja, os ânimos começam a acirrar-se entre, por um lado, Igreja, monarquistas, fascistas e patronato, em geral, todos corporizados, politicamente, pela Falange e pelas JONS (Juntas de Ofensiva Nacional-Sindicalista), e, por outro lado,  o partido socialista, o comunista, os anarquistas e os trotsquistas.

4- A coisa começa a descambar a partir de Fevereiro de 1936, com a vitória eleitoral da Frente Popular (coligação republicana de socialistas, comunistas e uma facção colaboracionista anarquista).

A laicização aumenta e desencadeiam-se ocupações ilegais de grandes propriedades agrícolas, em tumulto imparável e incontrolável pelo governo. No meio da confusão, 170 igrejas foram incendiadas.

Em toda esta movimentação tumultuosa, destacaram-se os anarquistas, que tinham uma enorme força (a Espanha tinha mais anarquistas que o resto do mundo todo junto!) e controlavam a CNT, Central Nacional dos Trabalhadores.

Os anarquistas, com as suas depredações, foram dos maiores responsáveis pela avançada franquista e clericalista, que, com o “pronunciamiento” de 18 de Julho de 1936, marca o início da guerra civil.

5- É claro que, durante uma guerra, há exageros de ambos os lados…

Em Cádis, em 8 de Março de 1936, foram incendiados 5 conventos, devido a tiros que foram disparados do seu interior contra manifestantes…

Mais tarde, em plena guerra civil, os insurretos franquistas estabeleceram-se em 4 conventos de Barcelona, bem situados estrategicamente, em 1936.

Aqui, na Catalunha, região dominada pelos anarquistas, ocorreu a maior atrocidade feita contra a Igreja católica, durante a guerra civil espanhola, quando, no castelo de Montjuic, num convento sobranceiro a Barcelona, foram disparados tiros de canhão contra posições anarquistas.

A reação destes foi brutal.

Com a conquista destes conventos pela tropa anarquista, que dominava Barcelona, e com a descoberta doutros arsenais em várias igrejas e conventos, esses anarquistas incendiaram tudo o que puderam de igrejas e mosteiros, na Catalunha, causando também uma grande mortandade entre os clérigos, traduzida por massacres consecutivos da generalidade do pessoal religioso na região, padres, frades e freiras. Devem ter sido uns milhares…

Por toda a Espanha, havia pequenos arsenais em numerosos edifícios religiosos, e, dalguns desses edifícios, foram disparados tiros contra os soldados republicanos e a multidão, por parte de padres e monges de armas na mão, propiciando um agastamento mortal do povo republicano contra os membros da Igreja.

Também houve bastantes padres, sobretudo, bascos e catalães, dizimados pela tropa franquista, devido a revoltas anticentralistas e veleidades regionalistas.

6- Querer realçar a beatificação de domingo, como sendo aplicada necessariamente a pessoas impolutas, que teriam vivido um martírio sem nexo e como vítimas duma suposta sanha anticlerical, apenas odienta e cruenta, sem motivação válida, é querer ofuscar e ratificar todo o apoio que a Igreja Católica espanhola deu aos insurretos e, antes, aos opositores do regime republicano democrático e laico.

Termino com esta citação do dramaturgo alemão Bertold Brecht:

“Todos chamam caudaloso e violento ao rio que tudo arrasta, mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.”

16 de Outubro, 2013 Carlos Esperança

A indústria da santidade ao serviço do fascismo

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Para vergonha da Igreja católica, descontados os crimes de eras recuadas, que podem sempre ser atribuídos aos costumes bárbaros da época, mas comprometem a inspiração divina de que se reclama, bastava a cumplicidade e o silêncio perante um dos maiores genocidas da Humanidade – Francisco Franco –, para exigir o pedido de perdão sincero de quem herdou o ferrete da ignomínia.

Todos sabemos que a violência atingiu na Guerra Civil espanhola limites inauditos de crueldade dos dois lados da barricada. Não houve bons e maus, só maus. Não podemos esquecer a violência cruel do anticlericalismo dos anarquistas e liberais e, em menor medida, dos marxistas, cujo ódio à Igreja, implicada com a pior direita, rivalizou com o empenhamento do clero nos crimes mais perversos.

Há, no entanto, duas diferenças capitais entre os que se bateram de um e de outro lado da barricada. Do lado da República, o facto de ter resultado de eleições livres sufragadas pelo povo, e, do lado dos sediciosos, a intenção de derrubar o Governo legal e instalar a ditadura. A segunda diferença, assaz sinistra, resulta do facto de, vencida a guerra, insistirem nas execuções sumárias, perseguições cruéis, assassinatos programados e nas valas comuns, cujos vestígios querem apagar, para onde atiraram as vítimas, fuziladas por divertimento sádico e violência sectária.

As crianças roubadas a mulheres, que assassinavam após o parto, foram distribuídas por casais inférteis de sequazes do fascismo espanhol. Não houve ignomínia, crueldade ou sadismo que os franquistas não cometessem, depois da guerra onde Hitler experimentou o armamento com os aviões da Legião Condor, Mussolini colaborou com submarinos e avões, a Igreja católica concedeu o estatuto de Cruzada aos revoltosos e Salazar apoiou a retaguarda, permitindo o recrutamento dos Viriatos, o abastecimento aos franquistas e impedindo o refúgio das populações leais ao Governo.

Franco teve o apoio entusiasta do Opus Dei, que nunca lhe faltou com bênçãos, missas e ministros para o Governo. Balaguer, além de ter colaborado na guerra, ainda o felicitava entusiasticamente, quase duas décadas depois, em carta de 25 de maio de 1958, carta que a filha do ditador conservou extasiada com a veneração do futuro santo ao déspota.

Depois da dolorosa memória que dilacera Espanha, depois de mais de 400 mil mortos e centenas de milhares de exilados, impede-se a exumação das vítimas do franquismo e exonera-se um juiz corajoso, Baltasar Garzón, que quis identificá-las e reparar a sua humilhação e esquecimento, exumando as valas comuns. Para trás fica o horror galego onde o franquismo instaurou, depois da guerra, o método dos “passeios” , ir às casas das pessoas, buscá-las para as “passear”, isto é, fuzilá-las à noite e deixá-las nas valetas.

Através dos sinistros “passeios”, dos conselhos de guerra contra civis, dos fuzilamentos maciços de prisioneiros e de confrontos armados com a guerrilha, morreram, só na Galiza, 197.000 galegos (fonte “La Guerra Civil en Galicia” edic. La Voz) durante o regime franquista, continuando a grande maioria em valas comuns. Nesse período, cerca de 200 mil galegos exilaram-se noutros países, sorte que não tiveram os que escolheram Portugal e foram entregues, para fuzilamento, pelas polícia de Salazar.

João Paulo II beatificou 233 vítimas religiosas da repressão republicana, ignorando o sofrimento coletivo dos espanhóis e Bento XVI reincidiria com nova beatificação de outras 498 vítimas, a maior beatificação da história da Igreja católica.

A decisão destes dois papas, profundamente reacionários, comprometidos com o Opus Dei, não surpreendeu, apenas indignou os familiares das vítimas republicanas e todos os que ansiavam pelo esbatimento do ódio que dilacerou Espanha.

Com mais de duas mil valas comuns por abrir, surpreende que o Papa atual, de quem se cria que não deitasse mais ácido nas feridas por sarar, eleve cerca de quinhentos beatos ao altar do franquismo, numa manifestação de demência episcopal da Espanha que não perdoa e que não se deixa julgar.

Este Papa, depois da lixivia gasta a limpar as nódoas do Vaticano, maculou as vestes e acabou por recordar as boas relações que manteve com Videla.

16 de Outubro, 2013 Carlos Esperança

A indústria da santidade ao serviço do fascismo

Para vergonha da Igreja católica, descontados os crimes de eras recuadas, que podem sempre ser atribuídos aos costumes bárbaros da época, mas comprometem a inspiração divina de que se reclama, bastava a cumplicidade e o silêncio perante um dos maiores genocidas da Humanidade – Francisco Franco –, para exigir o pedido de perdão sincero de quem herdou o ferrete da ignomínia.

Todos sabemos que a violência atingiu na Guerra Civil espanhola limites inauditos de crueldade dos dois lados da barricada. Não houve bons e maus, só maus. Não podemos esquecer a violência cruel do anticlericalismo dos anarquistas e liberais e, em menor medida, dos marxistas, cujo ódio à Igreja, implicada com a pior direita, rivalizou com o empenhamento do clero nos crimes mais perversos.

Há, no entanto, duas diferenças capitais entre os que se bateram de um e de outro lado da barricada. Do lado da República, o facto de ter resultado de eleições livres sufragadas pelo povo, e, do lado dos sediciosos, a intenção de derrubar o Governo legal e instalar a ditadura. A segunda diferença, assaz sinistra, resulta do facto de, vencida a guerra, insistirem nas execuções sumárias, perseguições cruéis, assassinatos programados e nas valas comuns, cujos vestígios querem apagar, para onde atiraram as vítimas, fuziladas por divertimento sádico e violência sectária.

As crianças roubadas a mulheres, que assassinavam após o parto, foram distribuídas por casais inférteis de sequazes do fascismo espanhol. Não houve ignomínia, crueldade ou sadismo que os franquistas não cometessem, depois da guerra onde Hitler experimentou o armamento com os aviões da Legião Condor, Mussolini colaborou com submarinos e avões, a Igreja católica concedeu o estatuto de Cruzada aos revoltosos e Salazar apoiou a retaguarda, permitindo o recrutamento dos Viriatos, o abastecimento aos franquistas e impedindo o refúgio das populações leais ao Governo.

Franco teve o apoio entusiasta do Opus Dei, que nunca lhe faltou com bênçãos, missas e ministros para o Governo. Balaguer, além de ter colaborado na guerra, ainda o felicitava entusiasticamente, quase duas décadas depois, em carta de 25 de maio de 1958, carta que a filha do ditador conservou extasiada com a veneração do futuro santo ao déspota.

Depois da dolorosa memória que dilacera Espanha, depois de mais de 400 mil mortos e centenas de milhares de exilados, impede-se a exumação das vítimas do franquismo e exonera-se um juiz corajoso, Baltasar Garzón, que quis identificá-las e reparar a sua humilhação e esquecimento, exumando as valas comuns. Para trás fica o horror galego onde o franquismo instaurou, depois da guerra, o método dos “passeios” , ir às casas das pessoas, buscá-las para as “passear”, isto é, fuzilá-las à noite e deixá-las nas valetas.

Através dos sinistros “passeios”, dos conselhos de guerra contra civis, dos fuzilamentos maciços de prisioneiros e de confrontos armados com a guerrilha, morreram, só na Galiza, 197.000 galegos (fonte “La Guerra Civil en Galicia” edic. La Voz) durante o regime franquista, continuando a grande maioria em valas comuns. Nesse período, cerca de 200 mil galegos exilaram-se noutros países, sorte que não tiveram os que escolheram Portugal e foram entregues, para fuzilamento, pelas polícia de Salazar.

João Paulo II beatificou 233 vítimas religiosas da repressão republicana, ignorando o sofrimento coletivo dos espanhóis e Bento XVI reincidiria com nova beatificação de outras 498 vítimas, a maior beatificação da história da Igreja católica.

A decisão destes dois papas, profundamente reacionários, comprometidos com o Opus Dei, não surpreendeu, apenas indignou os familiares das vítimas republicanas e todos os que ansiavam pelo esbatimento do ódio que dilacerou Espanha.

Com mais de duas mil valas comuns por abrir, surpreende que o Papa atual, de quem se cria que não deitasse mais ácido nas feridas por sarar, eleve cerca de quinhentos beatos ao altar do franquismo, numa manifestação de demência episcopal da Espanha que não perdoa e que não se deixa julgar.

Este Papa, depois da lixivia gasta a limpar as nódoas do Vaticano, maculou as vestes e acabou por recordar as boas relações que manteve com Videla.

15 de Outubro, 2013 Carlos Esperança

A sharia é a lei islâmica

Islamismo é religião oficial

O Estado de S.Paulo

Os muçulmanos são cerca de 65% da população da Malásia. Cristãos, budistas e hinduístas são, na maioria, de origem chinesa ou indiana. A Constituição preserva a liberdade de culto, mas diz que “o Islão é a religião do Estado” e determina que o indivíduo etnicamente malaio é muçulmano – abdicar da religião significa abrir mão da condição de malaio. Como o país foi colonizado pelos britânicos, porém, há uma jurisprudência, com base no direito consuetudinário, de que a sharia (lei islâmica) é restrita aos muçulmanos e sua esfera familiar.