Por
João Pedro Moura
O Chico papa é assim:
Entrou no papado, com um estilo marcante de afabilidade, simplicidade no trato, com um palavrório untado de “pobres”, pois sempre fica bem no retrato ancestral da Igreja, e procurando concitar amizades e simpatias, por esse mesmo estilo desempoeirado e desempenado…
… Mas, no âmago dos novelos de retórica balofa, para gáudio dos simples católicos de pacotilha e doutros apaniguados de religiosidade fútil e inútil, permanece a dogmática fundamental e a panóplia litúrgica de inépcias com que a ICAR emoldura tradicionalmente a sua prestação.
Da ordenação de mulheres ao casório eclesiástico, do homocasamento ao divórcio, dos contracetivos ao aborto, da taumaturgia ridícula à santificação suspeita, o papa nada mudou.
E nada mudará até ao Sínodo da Família, a realizar em outubro de 2014, e para o qual auscultou os “católicos”, através dum questionário com dezenas de quesitos, onde apenas se apurará a opinião desses “católicos”. Quesitos esses, eu li-os todos, em que nem 99% dos “católicos” conseguirão responder a todas as questões, porque não percebem o que lá está, em algumas delas. E não percebem porque são católicos de pacotilha, néscios e crédulos… e por causa disso é que são “católicos”…
Em Portugal, responderam cerca de 13 912 “católicos”, o que dá para imaginar o empenho desses pândegos de fancaria e o nível de catolicismo aqui vigente…
Lá para outubro, na reunião sinodal, sairá uma qualquer congeminação, mascarada de “a opinião dos católicos”…
… E assim prosseguirá o desligamento da realidade, por parte da Igreja, tudo devidamente publicitado pelos escribas de serviço jornaleiro, que, certamente, irão abordar até à exaustão as últimas ridicularias eclesiásticas, como se as pessoas normais quisessem saber disso…
O cavador, vergado ao peso da enxada e da fé, descansava ao domingo por imposição canónica e dos outros paroquianos. Choravam-lhe os filhos, com fome, e doía-lhe o silêncio da mulher. Vivia em aflição e, enquanto o padre transformava a água vulgar em benta e as rodelas de pão ázimo em hóstias consagradas, ia duvidando da fé.
Não o empolgava o latim, não se condoía do martírio do seu deus e descria da virtude do padre.
No domingo ansiava pela segunda-feira, esperando que um lavrador o chamasse para os trabalhos agrícolas, à espera de oito mil réis e da canada de vinho com que reunia forças para, com a côdea de pão e o escasso peguilho, aguentar a jorna e a família.
Já por várias vezes temera ter de vender as cabrinhas que os filhos apascentavam à beira dos caminhos. Sem leite, queijo e cabritos, que dali vinham, sem o toucinho que ficava da venda dos lombos e dos presuntos do porco que a mulher criava, como iria alimentar os seis filhos que ainda restavam dos dez que Deus quisera?
No Inverno não havia trabalho e era escassa a comida. Na panela fervia um coirato que acabaria repartido por todos para acompanhar as magras fatias do pão duro que restava da última fornada. O naco de toucinho, que saíra da salgadeira, escoltava o coirato para dar paladar às couves e batatas que ferviam na panela de ferro. Que raio de vida, a dos pobres. Era a vontade de Deus que, assim, se cumpria.
Uma tarde, a mocha, a cabra que dava mais leite, pareceu doente. De manhã acharam-na morta, barriga inchada, quem sabe o que comera. O cavador teve de carregar com ela e enterrá-la, nem a pele lhe aproveitou.
Dois dias depois os sinos da aldeia tocaram a sinais. Perguntei quem tinha morrido, foi o Zé da Catrina, menino, devia estar doido, com mulher e seis filhos, fazer uma coisa dessas, não andava bom da cabeça. Prendeu na trave da casa a corda que lhe ficou da cabra e, com ela, fez um laço. Subiu a um banco e meteu-lhe dentro o pescoço. Quando voltaram da missa, a mulher e os filhos foram dar com ele, com os olhos muito abertos, a língua de fora e o banco caído.
Ficou assim no dia seguinte, as moscas a poisarem nele, até chegarem as autoridades. Foi o maligno, murmurou-se na aldeia, só podia ser, o Zé era pouco devoto, abandonou Deus, entraram nele os espíritos.
O padre recusou fazer o enterro. A Catrina ajoelhou-se a implorar que o acompanhasse mas o sacerdote invocou o direito canónico. O coveiro abriu-lhe a cova longe dos outros mortos, num talhão ainda sem campas e por benzer, talvez para não atormentar os que morreram confortados com todos os sacramentos.
Já lá vão seis décadas. A terra tratou certamente o Zé da Catrina de forma igual aos que temeram a Deus e cumpriram os mandamentos.
Papa completa 77 anos e comemora data com mendigos no Vaticano
Francisco convidou quatro moradores de rua para tomar o café da manhã. Eles vivem no bairro romano vizinho ao Vaticano.
O Papa completou 77 anos nesta terça-feira (17). Na Casa Santa Marta, onde mora, Francisco rezou missa com a participação de funcionários. Em seguida, convidou quatro moradores de rua para tomar o café da manhã.
Há dias publiquei uma foto de Annette Kellerman (1886/1975) a promover o Direito das mulheres ao uso do maiô, em 1907. Era um fato de banho que apenas deixava o pescoço e os braços à mostra. Valeu-lhe a prisão.
A nadadora australiana, atriz e escritora, foi presa por atentado ao pudor. Não podia ser o que descobria a causa de tão cruel punição, era o medo da emancipação, da igualdade de género que, durante milénios, justificou a violência das instituições contra a mulher, como se a humanidade pudesse existir sem ela, como se cada um de nós pudesse nascer, sem ser asfixiado, de pernas atadas, como os homens a queriam.
No Concílio de Niceia (séc. IV), discutiu-se com “seriedade” e “pureza de intenções” a questão de saber se as mulheres tinham alma, e hoje, quando cada vez menos pessoas se interessam pela existência da alma, a mesma Igreja discute a alma do zigoto.
Almas do diabo!
Maria Montessori (1870/1952), pedagogista e pedagoga, mulher que estudei por dever profissional, foi das primeiras educadoras de crianças deficientes e a primeira médica italiana. As dificuldades que teve de vencer, as provocações e o assédio de que foi alvo!
A frequência de classes com homens, na presença de um corpo nu, era inadequada. Foi obrigada a realizar as dissecações de cadáveres sozinha, depois do horário dos colegas. Aos 18 anos, esta mulher era a minha heroína. O seu currículo na pedagogia científica e na filosofia educacional rivalizam com a coragem cívica. A sua biografia e bibliografia equivalem-se.
Na ditadura clerical-fascista de Salazar a mulher só podia ausentar-se para o estrangeiro com autorização do marido. Este administrava-lhe os bens, abria-lhe a correspondência, exercia um direito. A violação não era crime.
Quem tem medo da mulher não tem confiança em si. Quem quer aprisionar-lhe a alma não sabe ser livre. Ninguém é livre se exercer a escravatura. Temos sido um mundo de escravos na ilusão de que a violência é uma forma de liberdade e uma manifestação de poder, desconhecendo que na desigualdade de géneros se encontram as amarras que nos tolhem, a desonra que nos diminui, o opróbrio que nos envenena.
As religiões são as principais responsáveis e guardiãs das posições misóginas.
…ou é só este padre?
Depois de ler esta notícia, muitas perguntas me acorrem à mente, mas todas elas vão desaguar no mesmo mar: por que raio quer, esta gente, “outro padre”? Ou antes, querem afastá-lo, porquê? Mas será que esta, ou outra criatura de igual jaez, faz alguma falta seja onde for? Porque “afastá-lo” significa substituí-lo por outro, certo? E pergunto: para quê, se para fazer o funeral basta um cangalheiro devidamente habilitado? E se nunca foi demonstrada a utilidade de missas e outras actividades religiosas?
Sinceramente, não tenho palavras para descrever a atitude deste energúmeno que, ao que parece, está zangado com o mundo em geral, e com as mulheres e crianças em particular. Ou o bispo tem um lampejo de lucidez, ou as simpáticas malaguenhas não tardarão a vestir burca. Quanto às crianças, em breve passarão da catequese para a madrassa.
Não sei se é maior o nojo ou a perplexidade perante a violência misógina, a demência clerical e a injustiça que causa danos irreparáveis a metade do género humano.
| As autoridades eclesiásticas mexicanas culpam as mulheres das agressões sexuais que sofrem, devido à roupa “provocativa” que vestem. A culpa é sempre de Eva, pensam as obtusas criaturas na mentalidade de quem vê o mundo pelos versículos do Levítico. |
«Com decotes pronunciados e minissaias “estão provocando ao homem”, disse o arcebispo de Santo Domingo, México, Nicolás de Jesús López Rodríguez, durante o sexto Encontro Mundial das Famílias. Maldita alegoria da maçã colhida no Paraíso inventado na Idade do Bronze.
– “As mulheres expõem-se a violações, a que as usem, que as tratem como um trapo velho, porque estão desvalorizando a sua pessoa e sua dignidade”, disse por sua vez o bispo auxiliar de Tegucigalpa, Darwin Rudy Andino.
As informações são de 2009 e 2012. Pode-se dizer que são velhas como notícias, mas são recentes e reincidentes na violência contra a mulher, no incitamento à discriminação e no empedernido ódio que move velhos celibatários contra a libertação feminina. Dar tréguas é permitir-lhes reacender velhas fogueiras e novas perseguições alimentadas pelo ódio demente de antigos preconceitos. É absolver os agressores e culpar as vítimas, relevar os crimes e responsabilizar quem os sofre.
Que raio der moral de sentido único, onde a liberdade é um crime para a mulher e uma bênção para os predadores masculinos!
Recebido de Armindo Silva:
E não só na Índia …
Temos que fazer contas aos milhões de mulheres que, ao longo de toda a história, foram barbaramente violadas ou assassinadas em nome e por culpa de ideais “muito santos”…
Aconteceu há bem pouco tempo e foi grande noticia, o caso da turista violada e que faleceu pouco tempo depois. Devido ao qual o quadro legal indiano foi alterado e o julgamento mais mediático condenou à morte, os quatro violadores.
Isto é tudo uma condenação à emancipação da mulher, perpetrada por os quatro jovens agressores.
E o Francisco, que exemplos é que ele dá !..? “Lava os pés a doze humanos, (dez homens e duas mulheres )…”
Esta é a proporcionalidade que Ele julga certa. Ele não achou que lavando os pés a dez mulheres e a dois homens, daria uma GRANDE lição à sua comunidade. E isto do lava-pés não é mais do que uma encenação, pois para limpar a “casa”, Ele e a mentalidade dos seus seguidores, terá que fazer muito mais.
Um dia, as pessoas irão perceber, que a religiões são uma invenção de uns tantos retardados mentais, que ao longo dos séculos se entretém a dizerem asneiras.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.