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12 de Janeiro, 2006 jvasco

A ICAR e a economia da homofobia

Vamos supor.

Vamos supor que a “contratação de Padres” pela Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) funciona de acordo com os pressupostos de Adam Smith, do mercado livre, de acordo com as leis da oferta e da procura. Que impacto teria a exigência de uma vida de celibato, nos ordenados e na quantidade de Padres?

A linha a vermelho representa a procura de Padres pela ICAR: o preço que pagaria, por Padre, para obter um determinado número de Padres. Obviamente que não se trata de uma decisão centralizada, mas sim no englobar das procuras das várias paróquias do país.

A linha a azul, de baixo, representa a oferta de Padres: relaciona o preço que a ICAR pagaria por um Padre com a quantidade de induvíduos dispostos a sê-lo. Isto assumindo que a ICAR não exigiria o celibato.

A linha azul, de cima, representa a oferta de Padres, desta vez tendo em conta o incómodo que representa o celibato para a maioria dos indivíduos.

Se este modelo estivesse razoavelmente adequado à realidade, poderíamos concluir que a exigência de celibato pela ICAR faria com que a quantidade de Padres no mercado fosse inferior (face à não exigência: de Q1 para Q2), e com que o valor pago a cada Padre fosse superior (de S1 para S2).

Vamos agora supor que existe um grupo da população masculina que, devido a preconceitos sociais, não poderia viver numa situação que preferissem francamente face ao celibato (chamemos ao grupo “homossexuais”, e ao preconceito “homofobia”).
Para esta camada da população, o celibato não seria uma grande desvantagem. Assim sendo, se esta população representasse uma percentagem razoável da população total (imaginemos que o palpite do Expresso dos 10% estava correcto), isso iria alterar a curva da oferta. De que maneira?

A linha vermelha e a linha azul continuam a representar a mesma coisa.
A novidade deste gráfico é a linha verde, que representa a oferta de Padres numa população mista e sujeita aos referidos preconceitos. Até à linha cinzenta horizontal, apenas membros deste grupo (homossexuais) aceitam o emprego que requer o celibato. A partir daí, pessoas de ambos os grupos decidem ser Padres.

Note-se que, nesta população mista, se não existisse qualquer preconceito quanto à orientação sexual, o celibato seria considerado desvantajoso para todos, independentemente da dita orientação. Assim sendo, a oferta global seria traduzida pela linha azul de cima.

Se este modelo fosse uma representação razoável da realidade poderíamos concluir que:

a) A homofobia seria um preconceito útil à ICAR, na medida em que a quantidade de Padres no mercado (Q3) seria superior aquela que existiria sem preconceito (Q2). Por outro lado, o dinheiro pago aos Padres aumentaria (de S1 para S2).

b) Assim sendo, à medida que as sociedade se fossem tornando mais tolerantes e menos homofóbicas, a quantidade de Padres diminuiria rapidamente, causando uma crise de vocações: a ICAR iria sentir falta de Padres.

c) Devido à existência de tal preconceito nas gerações anteriores, a ICAR contaria entre os seus elementos uma percentagem de homosexuais superior à da sociedade. Isto advém da proporção de homosexuais entre Q1 e Q3 ser a da sociedade, mas até Q1 todos os Padres serem homosexuais. Assim sendo, a proporção de homossexuais na ICAR (PHI) seria, em função da percentagem de homosexuais na sociedade (PH):

PHI = PH + (1-PH)Q1/Q3 > PH

Notas adicionais:

1- obviamente os gráficos são apenas ilustrativos. Este raciocínio apenas mostra as variações qualitativas nos rendimentos e nas quantidades de Padres no mercado. Para conhecer as proporções (e o significado) destes factores teríamos de conhecer os parâmetros das funções de oferta e de procura (em particular, as respectivas elasticidades)

2- sabe-se que para alguns Padres a exigência de celibato não terá representado grande incómodo. Mas, como é óbvio, para a maioria dos Padres representa.

3- este artigo também foi publicado no Banqueiro Anarquista.

12 de Janeiro, 2006 Palmira Silva

Tiro no pé do Senhor dos dislates

O governo de Israel fez saber que não assinará o contrato que permitiria a construção do Galilee World Heritage Park, um parque temático cristão que os teocratas evangélicos americanos liderados por Pat Robertson pretendiam construir nas margens do mar da Galileia (na realidade um lago), em terrenos oferecidos pelo governo de Israel.

Tradicionalmente os teocratas evangélicos norte-americanos são os maiores apoiantes e defensores de Israel nos Estados Unidos. A razão para tal, como não poderia deixar de ser, encontra-se na Bíblia, mais concretamente no Antigo Testamento, que indica que Israel foi dado aos judeus por Deus e, segundo estes fundamentalistas cristãos, para se efectivar o regresso de Jesus é necessário que os judeus controlem Israel e que estes se convertam ao cristianismo.

O projecto deste parque temático tinha merecido algumas críticas exactamente pela segunda condição que os fanáticos cristãos consideram necessária para o regresso do mito, nomeadamente Yossi Sarid, um antigo ministro e membro do Knesset (o Parlamento israelita), afirmou ter algumas reservas em relação aos «religious right» americanos e em relação a este projecto já que «Não estou entusiasmado com esta colaboração porque não tenho desejo de ser carne para canhão para os evangelistas. Como judeu, eles acreditam que eu tenho de desaparecer antes de Jesus fazer a sua segunda aparição. Como não tenho planos de me converter, como um israelita e um judeu, considero que isto é uma provocação».

O ministro do Turismo israelita, que afirmou anteriormente não ser um teólogo e como tal não estar interessado na agenda dos turistas mas sim na sua presença (e nos dólares que certamente deixariam no país), declarou através do seu porta voz, Ido Hartuv, que o governo de Israel considera inaceitáveis as declarações recentes de Pat Robertson sobre o castigo divino de Ariel Sharon por este ter devolvido territórios aos palestinos e como tal não assinaria o contrato, prestes a ser fechado, com Pat Robertson.

12 de Janeiro, 2006 Carlos Esperança

Escondam as crianças

A ICAR não pára na sua ânsia de proselitismo. Depois da pastoral do embrião e da teologia da pílula do dia seguinte, a associação de sotainas, representada pelo reverendo padre João Eleutério, procura «mostrar que é possível o despertar religioso nas crianças desde os recém-nascidos até aos cinco anos».

Uma Igreja que condena experiências em embriões propõe-se, ela própria, usar recém-nascidos. Não é inovadora, apenas se limita a ultrapassar os limites simbólicos dos borrifos baptismais e entrar na manipulação ideológica dos lactentes. O desvario do islão, cujas crianças fanatizadas aprendem a apedrejar judeus antes dos cinco anos, contaminou definitivamente a ICAR.

«De pequenino se torce o pepino», que é como quem diz: apropria-te da vontade de uma criança e faz dela um beato. Não deixar crescer sem inocular o veneno da fé é o objectivo da Faculdade de Teologia da Universidade Católica do Porto em parceria com a Fundação Maria Ulrich e a Escola Superior de Educadores de Infância.

Perante a incúria da sociedade e a conivência dos meios mais obscurantistas, educadores, catequistas, pais e avós propõem-se participar numa torpe acção de proselitismo contra crianças até aos cinco anos de idade, os primeiros por maldade e os últimos por ignorância.

Não há lei que defenda as crianças indefesas?

Escondam as crianças, há padres à espera.

11 de Janeiro, 2006 Ricardo Alves

A próxima campanha política da ICAR

O Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa divulgou hoje a prometida «Nota sobre a procriação medicamente assistida», através da qual Jorge Ortiga, José Policarpo e os restantes bispos católicos tentam ansiosamente intervir num debate legislativo em curso na Assembleia da República. Sumarizo e comento em seguida as exigências políticas apresentadas pelos dirigentes clericais nessa «Nota…».
  1. A CEP exige que a legislação restrinja a casais heterossexuais o direito à procriação medicamente assistida. Segundo os bispos, é mesmo um «dever ético» impedir as pessoas sozinhas ou os casais homossexuais de terem filhos por fecundação assistida. Depreende-se que será também um «dever ético» impedir essas pessoas de procurarem a felicidade de qualquer outra forma que os bispos católicos não aprovem.
  2. A CEP exige que se interdite a doação de esperma ou óvulos, para que não haja «dissociação entre paternidade genética e social». Registe-se que tão desastrado é o argumento que a CEP encontrou para repudiar a generosidade de quem ajuda outrem a ter filhos que, se fosse levado a sério, implicaria a proibição da adopção!
  3. A CEP exige que se proíba o «recurso a mães portadoras», devido ao potencial de «conflito» que esta situação demonstrou «noutros países». Neste ponto, os bispos católicos voltam a rejeitar liminarmente as práticas potencialmente generosas que não compreendem.
  4. A CEP exige ainda que se «[evite] a existência de embriões excedentários» e, se existirem, que se proíba a investigação científica nestes. Curiosamente, os bispos católicos nada dizem quanto à possibilidade de a investigação em embriões vir a melhorar vidas. Não é, nitidamente, a qualidade de vida das pessoas que preocupa estes clericais.
Que a ICAR portuguesa se empenharia na luta contra o direito de ter filhos por fecundação assistida, já fora anunciado por José Policarpo na homilia de ano novo, que foi invulgarmente politizada, mesmo para os padrões habituais da ICAR. Como expliquei na altura, não discuto o direito da ICAR a falar de política, tal como não discuto o direito às liberdades de associação e de expressão da Associação Portuguesa de Satanismo ou da Federação Espírita Portuguesa, mas assinalo que a postura clerical de quem se acha patrono da ética e consultor permanente obrigatório do poder legislativo é perigosa para a democracia. E é perigosa porque a ICAR é uma organização autoritária (ninguém elegeu Ortiga e Policarpo: foram nomeados por um ditador estrangeiro), totalitária (pretende limitar a liberdade em assuntos íntimos que só dizem respeito aos próprios) e com princípios éticos duvidosos (veja-se a leveza com que os bispos condenam a procura de felicidade e a generosidade daqueles que não compreendem). Em vez de opinarem sobre assuntos éticos complexos, os bispos fariam melhor em dedicar-se, por exemplo, à missa.
11 de Janeiro, 2006 Carlos Esperança

Os bispos e a procriação

Certamente preocupada com os baixos índices de natalidade, pelo menos entre o clero, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) ameaçou publicar nos próximos dias uma nota sobre a procriação medicamente assistida.

Compreende-se a preocupação dos prelados pois no Vaticano, a sede da sua Empresa, o Estado de que se sentem cidadãos, há muito que não nasce uma criança. É, aliás, o único Estado do mundo sem maternidade.

Os bispos compreendem, como ninguém, a ansiedade de um filho desejado, os esforços de um casal que, por mais que tente, a mulher não alcança, e o declínio demográfico do País apesar das orações, novenas e promessas não cumpridas por falta de graças.

As frequentes e reiteradas consagrações à Virgem não inverteram a curva demográfica descendente. Talvez por ser à Virgem. Deviam virar-se para Maria Madalena ou para a canonização de Messalina e Lucrécia Bórgia a quem consagrariam, depois, o país como estímulo à procriação.

Mas é de crer que seja sobre os embriões excedentários que as reverendas criaturas se vão pronunciar pois por cada embrião fabrica-se uma alma e com os excedentários fica a dúvida se sobra a alma ou falta a criança. É este problema que dilacera os bispos que, com a sua experiência, querem contribuir para a teologia da procriação.

10 de Janeiro, 2006 Palmira Silva

Tudo bons rapazes

Jack Abramoff e os seus comparsas teocratas expressam a sua «perspectiva bíblica» ludibriando tribos índias e subornando legisladores. De facto, os caminhos do «Senhor» são misteriosos.

Os teocratas que fomentam (ou inventam) as «guerras culturais» nos Estados Unidos tinham em devotos republicanos como Tom DeLay os seus grandes aliados. A insistência do antigo líder republicano no Congresso numa «perspectiva bíblica» da política já que «Apenas o cristianismo permite uma forma de perceber as fronteiras morais e físicas» do «sentido da vida» e «apenas o cristianismo fornece uma forma de viver em resposta às realidades que vivemos neste mundo» tinha perdido um pouco de credibilidade com o caso envolvendo financiamento ilegal da campanha republicana de 2002.

Como o perdão pelos «pecados» de pobres humanos (se crentes, claro) e a notória tendência para minimizar o que de mal fazem outros membros do «rebanho» é uma característica indissociável dos cristãos, DeLay tencionava retomar o seu anterior lugar de «chefe» das hostes teocratas republicanas no Senado.

Mas o grande defensor de óvulos e espermatozóides, conhecido por «O Martelo» entre os autodenominados pró-vida, foi obrigado a desistir da sua intenção devido ao escândalo que abala os Estados Unidos neste momento, uma teia de corrupção e extorsão conhecida como o caso Jack Abramoff e que envolve para além de DeLay (e família) uma série de devotos republicanos e destacados membros da Coligação Cristã, especialmente o seu primeiro director-executivo, Ralph Reed. As dimensões do caso são tais que até a Casa Branca se prepara para possíveis repercussões deste…

Especialmente chocantes são uma série de mensagens electrónicas trocadas entre estes bons rapazes, de cariz marcadamente racista, em que estes se referiam aos nativos americanos que ludibriavam em milhões de dólares como «macacos», «trogloditas» e «idiotas».

Acho igualmente signiticativas as notícias vindas recentemente a lume que mostram como o estridente defensor de óvulos e espermatozóides parou o processo legislativo a correr no Congresso que visava pôr cobro aos abusos aos direitos humanos verificados em Saipan, um território americano no Pacífico, onde vigora legislação laboral desumana e medieval e onde as operárias das sweatshops das grandes marcas americanas são obrigadas a abortar se engravidarem. O caso foi revelado em 1988, e Jack Abramoff era o homem de mão de Saipan, encarregue de garantir que tudo ficava na mesma, e Tom DeLay era o grande «defensor» da ilha em Capitol Hill. A legislação que pretendia introduzir o código laboral americano na ilha não passou devido aos bons esforços de ambos…

No passado dia 4 Abramoff declarou-se culpado de fraude, evasão fiscal e conspiração para subornar funcionários públicos, num acordo com o ministério público americano que implica que este testemunhe contra os membros do Congresso que subornou. Vamos ver se os desenvolvimentos do caso travam a pretendida transformação dos Estados Unidos numa teocracia. O primeiro sinal será ver se Alito passa

10 de Janeiro, 2006 Carlos Esperança

A fé esclarecida e o ateísmo ignorante

«Não existem apenas fundamentalistas religiosos. Também existem fundamentalistas ateus e sem religião. Também existem ateus sem religião que combatem o fundamentalismo de um ateísmo ignorante». Frei Bento Domingues, Público (LIDO – DN, 09-01-2005)

Ateus sem religião deve ser o oposto de crentes com religião. Os crentes sem religião são supersticiosos não filiados.

Os ateus não têm livros sagrados nem são incitados a combater os fiéis. Ao contrário dos crentes, não têm o Paraíso à espera. Não os aguardam setenta virgens nem rios de mel em recompensa de actos terroristas; não ascendem aos Céus por participarem em cruzadas; não comprazem Deus a carrear lenha para queimar hereges.

É verdade que os ateus se livram do Purgatório, sítio mal frequentado, com aposentos despojados de qualquer electrodoméstico, sem divertimentos nem conforto, donde se sai à custa de missas de quem tem cabedais e devoção para mandar rezar.

Também o Inferno é reservado aos crentes que discordam da teologia do latex, comem carne de porco à sexta-feira, faltam à santa missa e amam sem intuitos exclusivamente reprodutivos.
O ateísmo pode ser ignorante, ao contrário da fé. Fr. Bento lê o Diário Ateísta e tem-nos em má conta. Mas pensar que a fé é esclarecida e que a devoção não é ignara, é miopia ou necessidade de preservar o futuro da ICAR, os seus activos financeiros e o fausto do «Sapatinhos Vermelhos» B16.

9 de Janeiro, 2006 Palmira Silva

Consagração clandestina

Na edição de quinta feira do periódico The Wall Street Journal podemos apreciar uma notícia algo insólita: uma consagração clandestina da sala de audiências onde começou hoje a ser ouvido Samuel Alito, o Opus Dei nomeado por Bush para o Supremo Tribunal.

Insistindo que Deus «necessita ser envolvido», certamente para diminuir as hipóteses de Alito ser «chumbado» pelos democratas, não obstante toda a pressão exercida pelos teocratas republicanos, que veêm na ascensão de Alito ao Supremo a crónica da morte anunciada da laicidade consagrada pelos Pais Fundadores e do «pecaminoso» aborto legal, três cristãos fundamentalistas abençoaram quinta-feira as portas da sala onde decorrem as audiências.

Quando os guardas os impediram de entrar na sala os devotos católicos informaram-nos que já tinham «consagrado» (clandestinamente, claro) a sala na véspera, num ritual completo com todos os hocus-pocus considerados necessários. Que incluiram rezas por todos os membros da comissão que vai ouvir Alito e a unção de cada um dos lugares da sala com óleo «sagrado».

A operação foi levada a cabo por três dos mais destacados fundamentalistas das chamadas guerras culturais (na realidade guerras religiosas) que assolam os Estados Unidos: Rob Schenck, presidente do National Clergy Council, Patrick Mahoney, director da Christian Defense Coalition e Grace Nwachukwuand, secretária-geral da Faith and Action . Os três devotos foram identificados como pertencendo a organizações diferentes mas na realidade são apenas três frentes (para parecerem muitos e angariarem mais dinheiro) do mesmo exército, que operaram conjuntamente em várias operações de guerrilha como sejam a «Operação Natividade», um ponto alto da inventada «Guerra ao Natal», passando pelos psicodramas montados em torno de Terri Schiavo, ou das várias contestações à presença dos Dez Mandamentos em salas de tribunais americanos, para além de, claro, terem sido igualmente vocais na defesa de Roberts, a mais recente adição ao Supremo.

9 de Janeiro, 2006 Carlos Esperança

Escândalo na Guarda

Há cerca de cinco anos houve na Guarda um pio escândalo, humano e divertido. Só surpreende que a comunicação social, tão ávida a espreitar pelo buraco da fechadura dos políticos, não se atrevesse a explorar um escândalo religioso.

Junto ao antigo Hospital Distrital e, até há pouco, local das Urgências, havia, e há, um lar de idosos. Ali esteva internada D. Márcia, depois de enviuvar, carregada de anos e de haveres, até Deus ser servido de a chamar à sua divina presença, como soe dizer-se.

No início dormia no excelente apartamento que comprara, ali próximo, e passava o dia no lar, onde comia, com pessoas da sua idade. Depois passou a pernoitar e ocupou um óptimo quarto que o os rendimentos lhe permitiam pagar.

D. Márcia não teve filhos. Era muito devota, temente a Deus, amiga da missa, confissão e eucaristia. Rezava o terço desde o tempo em que a irmã Lúcia o recomendou contra o comunismo a rogo da Virgem que poisava na azinheira.

No lar, além do tratamento esmerado, tinha a solicitude cristã de piedosas freiras que a assistiam nas rezas e nos caprichos – lindas moças cuja beleza o hábito encobria, mulheres espantosas a quem a fé não destruiu a natureza.

A solidariedade cristã levou D. Márcia a emprestar-lhes a chave do apartamento para pias reuniões que as esposas do Senhor certamente fariam ad majorem Dei gloriam.

Uma noite D. Márcia foi a casa e, estupefacta, escutou suspiros cuja origem a idade não lhe permitia recordar. Sentiu alegria no ar, risos, satisfação, quiçá, gemidos do êxtase.

Perante a dúvida, primeiro, e a indignação, depois, não era uma cerimónia litúrgica, o calvário recriado aos pulos ou o mês de Maria, com coreografia, o que D. Márcia viu. Eram as freiras e mancebos desnudos, numa cerimónia colectiva a evocar Adão e Eva no Paraíso e a folgarem.

D. Márcia achou perdido o mundo e exigiu a chave, o provedor da Misericórdia e a diocese transferiram as freiras para parte incerta, a cidade murmurou, exultaram os ímpios e cochichou-se pelos becos.

O escândalo foi abafado, certamente para evitar aos homens casados perturbações familiares e às freiras um despedimento sem justa causa.

8 de Janeiro, 2006 Palmira Silva

Pseudofilosofia

A minha opinião pessoal é que a filosofia é o conjunto de considerações de índole especulativa que se fazem acerca de assuntos sobre os quais ainda não é possível ter um conhecimento exacto Bertrand Russel, A Minha Concepção do Mundo

Uma filosofia definitiva, feita e assente uma vez para todo o sempre, implicaria a imobilidade do pensamento humano: o absoluto anestesiá-lo-ia. Essa tal verdade, aspiração ingénua de espíritos incultos, pode animar os crentes e exaltar os entusiastas: no domínio do puro pensamento nunca produzirá senão ilusão e vertigem Antero de Quental, Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX.

Diz a tradição que foi Pitágoras quem usou pela primeira vez o termo filosofia, por volta do século V aC, ao responder a um dos seus discípulos que não era um «sábio», mas apenas alguém que amava a Sabedoria (philia, que significa amizade, amor e sophia, que significa sabedoria, conhecimento).

Mais de 2500 anos depois, este conceito, aparentemente tão simples de entender, não penetrou alguns dos crentes que comentam no Diário Ateísta que, à falta de argumentação, afirmam que a nossa ignorância de filosofia (?) e a falta de argumentário «filosófico» para justificar o nosso ateísmo implica que somos «dogmaticamente» ateus.

Historicamente é fácil de entender porque alguém em Portugal, um país que não é exactamente conhecido pelos seus filósofos, pode demonstrar este total desconhecimento do que é de facto a filosofia. Não só em Portugal durante muitos anos filosofia foi confundida com teologia (que exige por definição uma atitude anti-filosófica) como nas nossas Universidades predominam, para além de teólogos, historiadores da filosofia.

Assim, é perfeitamente possível ter conhecimentos de História da Filosofia, do pensamento dos filósofos, saber os eventos que marcaram a produção do pensamento humano, etc., sem nunca desenvolver uma postura de questionamento próprio sobre a realidade. Ou seja, há uma diferença abissal entre ter uma postura filosófica e deter conhecimentos de Filosofia. Por outro lado, todos os que, como Sócrates em Atenas, começam a fazer perguntas, a indagar sobre factos e pessoas, coisas e situações, a exigir explicações, a exigir liberdade de pensamento e de conhecimento, enfim que não aceitam as certezas e crenças estabelecidas e tentam interpretar ab initio a realidade que nos rodeia, são filósofos em potencial, ainda que não possuam instrução formal na área.

Uma educação formal em Filosofia é útil para evitar cair nos erros do passado ou tentar «reinventar» a roda mas não é necessária para uma atitude filosófica. Para tal é necessário desconfiar, como todos os filósofos de facto, de qualquer dogmatismo ou seja, não aceitar verdades dogmáticas. A atitude dogmática é assim não só a antítese da atitude filosófica, e daí a minha classificação como tal da teologia, mas é também conservadora e obscurantista. Conservadora porque precisa da segurança de «verdades absolutas» e teme as novidades, o inesperado, o desconhecido e tudo o que possa abalar essas «verdades absolutas». Conservadorismo que se transforma em preconceito e em obscurantismo quando se tenta impedir o contacto e a discussão de ideias que refutem essas «verdades absolutas».

E dogmatismo especialmente nefasto quando professado pelos que estão convictos que essas «verdades absolutas» emanam de uma fonte sagrada, de uma revelação divina incontestável e incontestada, de tal modo que situações que contestem tais crenças são afastadas como inaceitáveis e perigosas. Ao longo da História aqueles que ousaram enfrentar essas crenças e opiniões foram perseguidos como criminosos, blasfemos e heréticos. Hoje em dia, como ilustram as nossas caixas de comentários, a persistência na postura filosófica a que se chamou ateísmo é refutada pomposamente com recurso à pseudofilosofia por aqueles para quem uma verdade revelada por Deus é a única verdade e tudo quanto pensam os humanos, se for contrário à «verdade divina», é loucura, erro e falsidade!

Pseudofilosofia que consiste «em elucubrações que se apresentam como filosóficas mas que são ineptas, incompetentes, que carecem de seriedade intelectual e que reflectem um compromisso insuficiente com a procura da verdade».

Porque essencialmente a filosofia é a procura da verdade, tema a que dedicarei outro post, quem se considera detentor de «verdades absolutas» reveladas não pode, por conseguinte, ter uma atitude filosófica!