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José Freitas

22 de Outubro, 2026 José Freitas

A Ditadura do Dogma

Por: José Freitas

A recente carta aberta dirigida por Pedro Saraiva Ferreira ao humorista Bruno Nogueira, a propósito do sketch “Corpo de Cristo” transmitido no programa Ruído, na RTP, é um testemunho precioso para compreender como opera a retórica apologética contemporânea. Trata-se de um básico apelo à emoção (argumentum ad misericordiam), de vitimização teológica e de uma perigosa confusão entre o plano da fé pessoal e o plano dos direitos universais numa sociedade secular e humanista.

Camuflado de amabilidade e graciosidade linguística, a carta esconde uma exigência fundamentalista: a de que o espaço público, o serviço público de televisão e o debate artístico se devem vergar  perante os tabus e as manias de uma determinada confissão religiosa. O autor, para apelar à empatia do leitor, começa por propor um desafio: “Imagina-te crente por instantes…”, para que entendam a “dor” do católico perante o que ele considera a profanação do sacramento da Eucaristia. Contudo, esta afirmação assenta originalmente numa falácia, isto é, para quem está fora do dogma, a Eucaristia não é a “presença real de um deus”, mas sim apenas um ritual simbólico e antropológico, perfeitamente passível de sátira, crítica ou paródia. A sensibilidade do crente não pode, nem deve funcionar como um veto moral sobre o que os outros podem pensar, criar ou rir.

Como é óbvio, a empatia humana exige respeito pela integridade física e emocional das pessoas, não dá imunidade total às ideias, dogmas ou mitos à crítica e ao escárnio.

Numa sociedade livre, seja a religião, a ideologia política ou a filosofia de vida, não goza de proteção contra o humor. Se a fé do crente é assim tão profunda, transcendente e ancorada no poder “Criador do Universo”, não deveria ser tão vulnerável ou sensível, nem ficar tão ofendida por um sketch humorístico de televisão. O sofrimento alegado pelos crentes não resulta de uma “agressão”, mas sim apenas, da sua incapacidade em separar as suas convicções íntimas do debate e da livre expressão pública, basicamente falta de convicção plena nas suas crenças.

A carta chega ao ponto mais crítico, ao questionar a legitimidade da transmissão do programa pela televisão pública (RTP)! E, ao mesmo tempo insinua, que o silêncio perante a sátira, equivale a aceitar a sua “normalização”.

Ao exigir que a televisão pública se abstenha de emitir conteúdos que firam as suas suscetibilidades religiosas, o autor não está apenas a exercer o seu direito de resposta ou de crítica moral: está a advogar uma forma velada de censura prévia baseada no conceito medieval de “blasfémia”. Num Estado laico, o serviço público de televisão não existe para proteger dogmas de qualquer religião nem para zelar pela “pureza” dos sacramentos católicos, mas sim para garantir a pluralidade criativa, a liberdade artística e a diversidade de perspetivas. Exigir o contrário é querer transformar a RTP num canal de uma teocracia.

A parte mais significativa do texto, acontece quando o autor ataca os chamados “católicos fofinhos” ou moderados, acusando-os de frouxidão, e proclama orgulhosamente que Jesus “não era um moderador de pluralismos, era o portador da Verdade”.

Ao proclamar que Jesus é a “Verdade” absoluta, o autor assume uma posição de fundamentalismo religioso: se a sua verdade é a única válida, qualquer crítica ou sátira deixa de ser arte para passar a ser um “ataque à Verdade”. Esta é exatamente a mesma matriz lógica que, ao longo da história, justificou a intolerância, a Inquisição e a perseguição aos heréticos, ao melhor estilos dos Talibãs… Os cientistas e os livres pensadores, a democracia, a liberdade e a ciência prosperam precisamente porque recusam a existência de “verdades inquestionáveis” impostas por decreto divino ou guardadas por instituições dogmáticas, rejeitando sempre o argumento da autoridade!

Para terminar com drama, o autor cita Dante Alighieri para avisar que os “lugares mais quentes do inferno” estão reservados para os neutros em tempos de crise. O autor tenta criar uma vítima de uma suposta pseudo-guerra cultural…

Ora bem, um sketch de comédia não representa uma crise de injustiça social, uma guerra ou uma violação de direitos humanos. Tentar transformar o descontentamento com a sátira religiosa num combate de proporções cósmicas entre o Bem e o Mal é uma tentativa despropositada de inflacionar o estatuto de vítima do grupo religioso. Risos não são tiros; paródias não são perseguições.

Em última análise, a carta de Pedro Saraiva Ferreira a Bruno Nogueira é, um manifesto em defesa do privilégio religioso, a tese subjacente não é a procura de um respeito mútuo e equilibrado, mas sim a exigência de que a sociedade laica, as instituições públicas e os artistas curvem a sua liberdade, perante os tabus da Igreja Católica.

A resposta da sociedade secular deve ser firme e sem complexos:

Os crentes têm todo o direito de acreditar, de ir à missa e de venerar os seus sacramentos.

Os artistas em geral, sobretudo os humoristas bem como os cidadãos, têm o direito inalienável de ridicularizar, questionar e desconstruir esses mesmos símbolos e dogmas no espaço público. A dor moral ou ofensa percepcionada pelo crente perante a sátira é o preço inevitável de viver numa democracia pluralista, e onde, a liberdade de expressão não existe para proteger o que é sagrado para uns, mas para garantir que nada esteja imune ao escrutínio e ao riso de todos.