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Mês: Junho 2026

30 de Junho, 2026 Onofre Varela

VALOR CRISTÃO LEMBRADO PELO PAPA E PELA CARICATURA

Por Onofre Varela

Jesus Cristo (JC), tal como os Evangelhos o retratam, é mais fruto de uma narrativa de fé do que de uma resenha histórica baseada nas experiências de um homem concreto. A sua dimensão terrena é a única que interessa num estudo que se pretenda sério sob o ponto de vista biográfico e histórico. A figura mítica do “Homem-Deus” pertence à fé e não à História.

Porém, na sua dimensão histórica, há uma verdade inquestionável no respeito devido a cada homem pelos outros homens, que JC referia por “igualdade”, incompatibilizando qualquer líder político do nosso tempo com o “espírito cristão”.

Lembrei-me deste tema ao ler a notícia da visita do Papa Leão XIV a Espanha. Numa homilia chamou a atenção para “a escuta, o diálogo e o respeito” (atitudes que hoje se desprezam). Lembrou que os valores cristãos são incompatíveis com algumas posições políticas. “Ninguém pode ajoelhar-se perante o Senhor e ao mesmo tempo desprezar o irmão”.

Discurso que parece nunca ser dito, até, pelos próprios católicos mais seguidores. Os cristãos têm mais inclinação para a leitura dos Evangelhos do que para o Velho Testamento, e encontramos neles a exaltação das boas práticas sociais baseadas na fraternidade.

Não tenho dúvidas de que os ensinamentos atribuídos a JC fazem parte da aspiração da maioria de nós. Nesse sentido obrigo-me a revisitar Lucas (já aqui referido há algum tempo) no Sermão da Montanha (6; 27-39), onde se enaltece todos os modos de bem viver em comunidade. Vejamos o que nos diz ele (que percorre o mesmo caminho já feito por Mateus [5; 1-12]): “A vós que me escutais digo o seguinte: amai os vossos inimigos e fazei bem aos que vos odeiam; a quem te bater numa face oferece-lhe a outra; a quem te roubar a capa dá-lhe também a túnica; dá a todo aquele que te pede, e quando levarem o que é teu, não reclames; tal como queres que as pessoas procedam contigo, procede com elas da mesma maneira”.

Estes ensinamentos não passam de caricaturas pelo exagero neles contido, mas ajuda a memorizar o conceito do amor (do respeito) que se quer apregoar. O exagero é a chave que faz prender a atenção e memorizar o conceito. Com o mesmo espírito caricatural, Lucas sublinha o exagero com estas perguntas para aclarar propósitos: “Se amais aqueles que vos amam, que agradecimentos mereceis? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestais àqueles de quem esperais receber, que agradecimento mereceis? Também os pecadores emprestam aos pecadores a fim de receberem o equivalente. Amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem nada esperar em troca (…); não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados; dai, e ser-vos-á dado”.

Talvez não me engane se disser que nenhum dos meus leitores conhece algum católico (ou crente de um qualquer outro formato de fé) que proceda assim. Quantos são os que emprestam dinheiro sem cobrar juros? Conheceis um banco, sequer, que tenha uma acção social e fraterna para com os seus clientes?

A História e a Mitologia são duas dimensões que se juntam nas narrativas da vida de JC. Sublinha-se o racional quando se faz a interpretação factual da História, mas ao mesmo tempo enaltece-se o mito tecido com a hipotética proveniência divina de Jesus como operador de milagres. 

Se nos ficarmos pela História e a tomarmos como exemplo para nela basearmos as nossas acções, agimos cerebralmente sem necessidade de recorrer à fé religiosa e às fantasias que ela alimenta. 

 OV

28 de Junho, 2026 Onofre Varela

A “dificuldade” de se ser ateu

Por Onofre Varela

O Ateísmo foi lançado à sarjeta mais imunda pelos religiosos fundamentalistas que não lêem, nem pensam, nada mais que não seja literatura usada na sua religião ou seita, e discursos do “bispo”.

Estou a lembrar-me da mulher de um amigo meu, com idade ligeiramente superior à minha, que quando o marido a informou de eu ser ateu, olhou-me com espanto e perguntou à queima-roupa, com um olhar misto de incredulidade e esperteza, de quem julga saber o que diz, querendo apanhar-me numa curva da minha ignorância: “Ai Deus não existe?!… Ai não?!… Então quem foi que nos criou?!…” (Heim?… Ora toma lá que é para aprenderes!).

Esta pergunta pertence ao rol das que não têm resposta imediata, porque quem a formula está a sublinhar a sua imensa ignorância… e esclarecê-la não é fácil. Responder-lhe de modo a que ela perceba o que se lhe quer dizer, obriga a começar pelo B+A=BA… o que demora um tempo inexistente nestes casos, e não sabemos se a nossa informação será entendida, sendo que o mais certo é não. Por isso a coisa tem de ficar pela pergunta sem resposta. Habitualmente dou um sorriso e digo: “Boa questão!… Um dia vamos falar sobre isso…” com a certeza de que jamais falaremos.

O mesmo aconteceu, há cerca de três décadas, no programa de televisão Você na TV, que ocupava as manhãs na programação da TVI. Fui entrevistado como ateu e havia a possibilidade (que eu desconhecia até ao momento crucial) de os telespectadores colocarem questões, em directo, ao entrevistado.

A clientela dos programas das manhãs e das tardes televisivas é composta por donas de casa, idosos, doentes acamados, crianças em idade pré-escolar e jovens em férias… e desde a investida da economia globalizada, também por um imenso número de desempregados. Digamos que, maioritariamente, não será a nata da inteligência nacional que está de olhos pregados nos ecrãs de televisão a essas horas (e nas outras também não…).

Manuel Luís Goucha, o apresentador do programa, já me conhecia de outras participações que tive nos estúdios da RTP do Porto, no programa da manhã do Canal 1 no final da década de 1980, e apresentou-me não só como ateu, mas também como artista plástico. Uma das poucas participações telefónicas no programa (penso que a única), foi a de uma senhora com voz chorosa que disse, entre soluços, que eu não era crente mas tinha umas mãos “que Deus me deu para desenhar” e por isso deveria dar graças a Deus por essa dádiva, e que Deus queira não me viesse a acontecer como a ela, a quem a vida reservou o pior. E chorou por força das amarguras que lhe infernizavam a vida.

Perante isto, Manuel Luís Goucha perguntou-me: “E agora, Onofre, o que tens para dizer a esta senhora?”. Respondi: “Minha senhora, nunca deixe de crer. Peça ajuda a Deus e não desespere. Deus vai ajudá-la”.

Que outra coisa podia eu ter dito enquanto cidadão responsável e respeitador do semelhante? Dizer-lhe o contrário disto era magoá-la por não respeitar o seu profundo sentimento religioso e o seu sofrimento, dos quais estava impossibilitada de se distanciar. A sua religiosidade era ela própria. Contrariá-la era o pior serviço que lhe podia prestar naquele momento em que demonstrava fragilidade. Não tenho formação que me permitisse debitar outro discurso que a apaziguasse.

Isto sublinha o quão difícil é dizer às pessoas crentes, de modo a que compreendam sem se sentirem ofendidas nas suas convicções religiosas, que entregaram a vida e a consciência a um engano. 

É minha convicção de que entre os devotos religiosos assistentes de missas que vão à igreja com a mesma necessidade de quem toma refeições, se encontram, maioritariamente, os mais débeis e subservientes cidadãos que são meras vítimas, impedidas, por educação, de usar melhor raciocínio, seja qual for o grau académico que detenham… 

OV