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Carlos Esperança

23 de Março, 2006 Carlos Esperança

Concurso sobre o Anjo de Fátima

Quase 2 mil trabalhos foram enviados
Andava o País convencido de que o logro de Fátima se resumia às piruetas solares e à metamorfose de azinheiras em campo de aterragem de virgens, com apelos lancinantes à reza do terço e à conversão da Rússia e, afinal, anos antes, já ali tinha aterrado um anjo.

Aquela zona é um aeroporto celeste, um interface para a fauna divina fazer escala. Com um anjo e uma virgem, dois Papas e uma multidão de bispos, cónegos, cardeais e outros parasitas do divino, só falta o próprio Cristo para transformar a zona num Zoo celestial.

Se os negócios o justificarem, veremos Cristo dar um piparote na coroa de espinhos, pôr a cruz de lado e descer em voo picado sobre a capelinha das aparições. Se o negócio se complicar, até Jeová virá fazer a homilia sobre o dia do Juízo Final e deixará miniaturas de trombetas como recordação aos peregrinos.

Pelos vistos as escolas oficiais transformaram-se em madraças onde meninos e meninas desenharam anjos numa altura que a gripe das aves, por razões sanitárias, aconselhava o abate.

Não sei como vêem os meninos o anjo de Fátima, quantos pares de asas lhe pregaram, qual o modelo que os padres lhes impingiram nem o combustível que lhe puseram no depósito.

A farsa, a burla, o proselitismo e a conivência dos professores de um Estado laico, são o paradigma de um país do terceiro mundo onde o catolicismo prepara o regresso à Idade Média.

22 de Março, 2006 Carlos Esperança

A Igreja católica e o nazismo

A frequência com que os devotos propagandeiam as virtudes do Vaticano e desafiam que o D.A. prove a mais leve nódoa caída no pano pontifício, indicia que são grandes os pecados que os apoquentam e é pesada a penitência que os espera.

Desde Constantino que o Vaticano é um alfobre de pecados, um antro onde se praticam crimes inomináveis, um centro de conspiração política internacional e, desde os acordos de Latrão, negociados com o amigo Mussolini, um Estado cujo perigo varia na razão inversa da dimensão territorial.

Compreendo os amigos do Papa e da missa e o efeito deletério que a falsificação do pão ázimo, com sinais cabalísticos, pode induzir na percepção da realidade. Quem sabe se a bênção não transforma em alcalóides as moléculas de farinha!

Começa a ultrapassar o limite razoável o reiterado desafio feito por um ou mais devotos, com diversos heterónimos, a insistir em provas tantas vezes apresentadas, da conivência da ICAR com o nazi/fascismo e do seu anti-semitismo genético:

Aqui ficam alguns livros para quem tenha outras curiosidades intelectuais para além da leitura do breviário e encíclicas papais, algumas a fazer corar de vergonha os crentes:

– O Papa de Hitler, John Cornwel – Ed. Terramar
– O Vigário, Rolf Hochhuth
– A Igreja católica e o Holocausto – Uma dívida moral, Daniel Jonah Goldhagen – Ed. Notícias
– Los pecados de la Iglésia, Juan G. Atienza – Ed. Martinez Roca

21 de Março, 2006 Carlos Esperança

B 16 não é santo mas é o Santo Padre

Há quem julgue B16 um biltre, um nazi que afaga o corpo com os finos paramentos pontifícios, um ditador que tem na agenda evangelizar o mundo e preparar o confronto final entre o cristianismo tridentino e o islão actual.

A primeira asserção não está provada. Procedeu discretamente à exclusão dos teólogos progressistas e deixou os louros para JP2, indicou cardeais reaccionários sem alardear a influência, sofreu a vergonha da criação de santos e o ridículo dos milagres sem tugir, assistiu dilacerado à excomunhão do bispo Lefèbvre convicto de que era a opção certa naquele momento. Enfim, foi o dedicado Cireneu do Papa polaco.

Sabendo-se como desejava ser Papa tem de elogiar-se a paciência com que aguardou o falecimento natural do antecessor, prescindindo da experiência ancestral do Vaticano em soluções expeditas.

Finalmente, desvanece o desvelo com que procedeu à fusão da Fraternidade S. Pio X com a ICAR, a ampla comunhão com os excomungados, a alegria do reencontro entre cruzados para partilharem as hóstias e se empanturrarem com o corpo e o sangue do fundador da seita.

No fundo é uma orgia mística entre inquisidores, que sabem que Deus é uma criação humana, e que a excomunhão é a arma para assustar timoratos ou anunciar fogueiras.

20 de Março, 2006 Carlos Esperança

Momento Zen da segunda-feira

João César das Neves (JCN), quiçá por algum pecado a necessitar de penitência urgente, reincidiu hoje no proselitismo.

JCN tem domingos que se adivinham difíceis: missas, hóstias, orações, genuflexões, contas de terços para dedilhar, leitura de obras pias e esmolas. Calcula-se a dificuldade de escrever a homilia para o Diário de Notícias, apesar das indulgências que abicha e da penitência de que se exonera.

O bem-aventurado sabe que tem leitores beatos e, sobretudo, inveterados ateus a quem hilaria com a prosa que debita enquanto lambe o palato à procura do último resquício de hóstia consagrada, debita a moral católica e faz o frete ao Papa.

Para salvar a alma ao que este homem se sujeita, que inanidades debita, que aleivosias profere!

Refreindo-se ao aborto, diz que o primeiro-ministro «se prepara para legalizar uma prática vergonhosa que até os selvagens mais boçais sempre consideraram infame». Lá isso é verdade, é a posição do Papa, dos bispos e dos católicos mais reaccionários. Mas escusava de os adjectivar de forma tão violenta e de uma autocrítica tão demolidora.

Quanto à aprovação da lei da Procriação Medicamente Assistida que «regulará as práticas mais abjectas do Admirável Mundo Novo» não lhe terá ocorrido que, à semelhança do que acontece nos países civilizados, é matéria que necessita de enquadramento legal?

JCN termina a homilia com o habitual embuste cristão, comparando o aborto e a reprodução medicamente assistida ao nazismo: «Nos anos 30 os alemães viam bem as vantagens da ordem que Hitler garantia, em troca de uma ?pequena? dose de violência».

Esqueceu o devoto que o nazismo foi filho do cristianismo, teve missas, lausperenes, orações, bênçãos, apoio activo do episcopado católico e o silêncio cúmplice de Pio XII.

Bendigamos este arauto da teologia da demência: «Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos Céus» (Mat. 5:3).

19 de Março, 2006 Carlos Esperança

Bento 16 rendeu-se ao bando de Lefèbvre

(cartoon de Zédalmeida)
Bento 16 programou metodicamente a sua «eleição» para Papa. Não se resignou a ser o gato-pingado que dirigia as exéquias fúnebres do pobre diabo do seu antecessor.

Ao contrário de JP2, que cria em milagres, como os garotos em cegonhas que trazem os meninos de Paris, que era ingénuo e acreditava em Deus, e tão dogmático que mandou calar os teólogos progressistas, este Papa é um intelectual.

Sabe que Deus é uma rentável mistificação que aguenta o negócio e alimenta milhares de parasitas em todo o mundo, onde os santos, mártires, missionários e outros piedosos embusteiros dilataram a fé pela violência e pelo medo.

Bento 16 não é o almocreve de Deus, é um parasita que gosta de paramentos suaves e confortáveis, de luxo, pompa, prestígio e, sobretudo, do poder que um Papa tem.

Graças ao Opus Dei – a seita que manda no Espírito Santo -, e aos cardeais que temem o fim da religião a que devem o bem-estar e a ostentação, B16 é Papa apesar da passagem pelas fileiras nazis que para ICAR da época era honra mas hoje se considera vergonha.

O regresso do bando reaccionário dos adeptos de Lefèbre à Mafia de Roma é sinal claro de que a excomunhão de JP2, em 1988, se destinou a apaziguar alguns católicos fiéis ao Vaticano II seduzidos pela modernidade e espírito democrático.

B16 não é apenas o coveiro do Vaticano II, é o algoz da liberdade, o Torquemada dos novos tempos que traz de volta o concílio de Trento e o Vaticano I.

A integração dos excomungados é o corolário lógico de um sucessor de Pio IX que execrou a democracia, a liberdade e o livre-pensamento.

A Cúria romana é um ninho de talibãs. A Fraternidade S. Pio X, do defunto Lefèbvre, que morreu excomungado por Roma, acaba de obter sucesso na OPA (Oferta Pública de Aquisição) lançada sobre o Vaticano, Estado totalitário cujo déspota vitalício é um correligionário.
17 de Março, 2006 Carlos Esperança

Os pés de S. Francisco Xavier

(Foto de E.O. – enviado do Diário Ateísta, em Goa)
O mórbido desvelo da Igreja católica pelos cadáveres devia levá-la a criar um piquete de urgência para reparar as mazelas que corroem os corpos dos santos defuntos, como faz a Brisa com os buracos das auto-estradas.

O bom senso devia levá-la a privilegiar os ossos, fáceis de substituir e mais resistentes ao tempo e à humidade, sem perda da santidade do bem-aventurado referido na etiqueta.

A Capela dos Ossos, em Évora, hediondo culto do tétrico e lucrativo apelo à devoção, é a prova de que os ossos resistem e a carne é fraca, como a própria ICAR ensina.

Em Itália – já aqui referi no D. A. – uma guia turística debitava um ror de milagres junto do esqueleto de um virtuoso e excelente santo que continuava a obrá-los. A seu lado um esqueleto pequeno passava despercebido por entre uma panóplia de ossos pios que mais pareciam amostras de um laboratório anatómico.

Tendo um turista perguntado a que santo pertencera o pequeno esqueleto, logo a guia o atribuiu ao mesmo santo… quando era mais novo.

A ICAR vive do cadáver de J. Cristo que, por lhe ter perdido o rasto, o domicilia no Céu para onde terá emigrado três dias após a morte. Exibe-o agora, esculpido e chagado, só ou dependurado em cruzes mas não despreza as aparas do santo lenho onde o fundador da seita – segundo a propaganda – terá agonizado.

À falta de corpo não há milagres. Cristo é um mero logotipo para identificar a religião e facilitar a venda de indulgências, liturgias, sacramentos e artigos pios.

Por isso, os santos têm elevada cotação no mercado da fé e provocam muita emoção no bazar católico. Mas há desleixo dos inspectores de relíquias e incúria nos zeladores dos mortos.

Falta aos santos cadáveres um código de barras, inspecção sanitária e prazo de validade, para advertir os funcionários de Deus a quem cabe a manutenção da mercadoria.

Com algum zelo a ICAR nunca mais permitirá que um santo tão exaltado – S. Francisco Xavier – deixe chegar os pés ao estado deplorável que a imagem documenta.
16 de Março, 2006 Carlos Esperança

S. Francisco Xavier – Apóstolo das Índias

(Fotografia recente, amavelmente cedida por E. O.)

Desacreditada com a última leva de santos que JP2 criou em doses industriais, como nos aviários se produzem frangos, e descoroçoada com a falta de originalidade dos milagres, virou-se a ICAR para santos antigos, de sólido prestígio, reconhecimento público e clientela fiel.

Francisco Xavier é uma dessas reputações sem mácula, um jesuíta da primeira hora, nascido em Espanha, amigo e discípulo de Loiola, que estudou em França e partiu, ao serviço de D. João III (o Piedoso), para o Oriente.

Evangelizou na Índia, Malaca, Molucas e Japão, ímpios que converteu à única religião verdadeira e, assim, os resgatou do limbo, dando-lhes o passaporte para o Paraíso onde certamente ainda residem as almas por falta de acordos bilaterais de extradição com o Inferno.

Francisco Xavier era tão santo que o corpo ficou incorrupto, prova de santidade e fonte de receitas para a Igreja cujo culto mórbido por cadáveres é uma verdadeira obsessão.

Há cerca de cinquenta anos as relíquias (fragmentos de cadáver em bom estado de conservação) vieram de Goa e viajaram por este velho Portugal para gáudio e pasmo das populações rurais que acorriam a ver a mão do santo, tendo como brinde a missa, um sermão do padre Pinto Carneiro e uma procissão.

A mão comoveu crentes e resistiu à viagem, às homilias e às procissões, dentro de um relicário cujo vidro a defendia dos devotos que a contemplavam com ar bovino.

Perdido o Império colonial, que começou a ruir na Índia, lá ficou o cadáver na velha Goa, na Basílica do Bom Jesus, onde o santo jaz morto e apodrecido.

Um cadáver que gozou de excelente estado de conservação durante séculos está agora, por falta de orações, no estado deplorável que a imagem documenta.

Faz no próximo dia 7 de Abril 500 anos que nasceu o santo. A ICAR prepara a festa, mas deixou apodrecer as relíquias.

15 de Março, 2006 Carlos Esperança

A ICAR e a liturgia

Um bispo que abdique do Palácio Episcopal, dispa a mitra e a capa de asperges, pendure o báculo e arrecade o anelão com ametista, prescinda dos fâmulos, reverências e beija-mão, venda a custódia e leve ao prego a cruz de diamantes, pode tornar-se um cidadão.

Se o clero desistir do processo alquímico que transforma a água normal em benta, o pão ázimo em corpo e sangue de Jesus e as orações em modo de pagamento de apartamentos no Paraíso, pode recuperar a honestidade que o charlatanismo comprometeu.

Se renunciar às novenas, missas e procissões, ao lausperene e ao te deum, pode reservar as energias para o bem público.

Se a confissão, a terrível arma que viola a intimidade dos casais, a honra dos crentes e a confiança da sociedade, for abolida, deixando ao deus que dizem omnisciente a devassa dos pecados e o sigilo, o mundo fica mais tranquilo.

As religiões são especialistas em idolatrar o passado e mitificá-lo. Fazem piedosas falsificações, inventam documentos e fazem relíquias para embevecer os carentes do divino em busca de uma assoalhada no Paraíso.

O incenso e os sinais cabalísticos prejudicam a reflexão e o livre-pensamento.

14 de Março, 2006 Carlos Esperança

A Cúria Romana pode abandonar o Vaticano

«Bento XVI afirmou que a África deve ser uma prioridade para a Igreja Católica.

Num encontro de oração com jovens universitários da Europa e do continente africano, que decorreu no último sábado, o Papa sublinhou a necessidade de impulsionar o humanismo cristão como via de cooperação entre o continente europeu e o africano» – afirma a Agência Ecclesia, órgão oficial da seita.

Há grande euforia nos meios ateístas europeus, com a possibilidade de a Cúria Romana se transferir para o Burkina Faso, um país da região do Sahel, para contrariar aí a influência do islão telecomandado da Arábia Saudita.

Se a auspiciosa previsão se confirmar, a Bielorússia ficará como a derradeira ditadura do espaço europeu