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Carlos Esperança

3 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

A Igreja católica é pela vida

Não há dúvida de que a Igreja católica é pela vida. A fazer pela vida exterminou índios; a tratar da vida queimou hereges; na defesa da vida eterna eliminou ímpios.

A ICAR sempre foi uma referência na defesa da vida, fosse nas torturas que usava a Inquisição, procurando que as vítimas resistissem durante o máximo tempo, no esbulho de bens dos incrédulos para que a vida dos seus padres estivesse livre para Deus, ou na venda de indulgências aos pecadores para que a vida do clero fosse flauteada.

A vida sempre foi o objectivo. Quando grelhava réprobos era para lhes assegurar a vida eterna; quando fazia escravos era para os baptizar e livrar das trevas; se raptava crianças era para lhes assegurar a vida celestial.

Quem pode ser tão obstinado pela vida a ponto de garantir a eternidade a quem ame e obedeça ao único Deus verdadeiro?

O fundamentalismo levou o Papa, os bispos, padres e outros primatas pios a defenderem a vida desde o espermatozóide até ao óvulo, trajecto que acompanham com pias orações e devotado afecto.

Todos os primatas paramentados andam numa dobadoira a policiar vaginas e espreitar glandes para que não se percam na estrada da infertilidade os veículos da vida.

É esse grande desígnio que os leva a condenar as provetas e a reprodução medicamente assistida. Se os homens e as mulheres começarem a fazer filhos como se fazem tractores corre-se o risco de que o acto sexual se transforme em método para fabricar veículos, enquanto as almas, feitas doidas, se perdem no caminho.

2 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

Cristo e o cristianismo

Há quem confunda uma cultura com os mitos que lhe deram origem ou que ela própria criou. Há quem atribua a Deus os livros que se lhe referem como se a Pantera Cor-de-rosa passasse a existir pelas histórias a que deu origem.

Do Islão não vale a pena falar. Está no estertor uma civilização tribal onde o sagrado e o profano se plasmam sob a violência do clero e onde os constrangimentos sociais fazem da mulher um ser sem vontade, dignidade ou direitos. É um furúnculo místico na lepra de uma sociedade medieval. O Islão é cruel, misógino e troglodita.

Quanto ao cristianismo podemos dizer que foi o húmus da civilização, da liberdade, e da própria democracia, não por vontade própria mas porque gerou no seu seio a antítese dialéctica que conduziu à modernidade.

Resistem padres e o negócio. O Vaticano é o bazar que vende indulgências, cria santos e cardeais, intriga e destabiliza os países democráticos. O líder dos prosélitos é o Papa e distingue-se pelos sapatinhos vermelhos e vestidos de bom corte e pelo azedume que lhe provocam a progressiva secularização da Europa e a laicidade.

O Igreja ortodoxa, com exegetas ainda mais reaccionários, alapa-se aos Estados e vive como fungo que parasita o poder secular.

Os protestantes dividem-se em numerosas seitas e raramente descuram a influência no aparelho de Estado. Há-os tolerantes e exaltados, os que têm a mania que falam com Cristo e os que se limitam a escrever em notas de dólar que acreditam em Deus.

Cristo é, nos negócios da fé, o idiota útil. Apresentam-no como curandeiro e vendedor da banha da cobra, filho de uma pomba estúpida e de uma atrasada mental que precisou de um anjo para lhe dizer que estava grávida. Os pormenores vieram depois, à medida que o negócio prosperou, para estupefazer os simples e assombrar os crédulos.

É por isso que hoje encontramos a toponímia das cidades cheias de nomes de santos, os montes poluídos com capelas, as esquinas das ruas pejadas de nichos pios e o sinal mais a reproduzir-se nas paredes, enquanto o pobre Cristo, com ar de delinquente, exibe os cravos e as chagas à misericórdia dos devotos.

1 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

Bíblia para Crianças é um sucesso

A Bíblia para Crianças – Deus Fala aos Seus Filhos é uma recolha essencial dos Textos Bíblicos, realizada pela teóloga alemã Eleonore Beck, que recebeu em 2004 uma condecoração da Santa Sé por este trabalho.

O problema não é Deus falar aos seus filhos (que os não tem), é evangelizar os filhos dos outros. As crianças são susceptíveis e facilmente influenciáveis. Podem fanatizar-se e ser levadas a cometer crimes. Os mártires do Islão e os da Igreja católica são inocentes vítimas de algozes semelhantes.

Não consta que Deus tenha filhos. Não há certidão de casamento nem vizinhos que atestem uma união de facto. Só se conhecem padres que semeiam na inocência das crianças a erva daninha da fé e o delírio místico.

A Bíblia para crianças, sendo a recolha de textos bíblicos, não é leitura recomendável para adultos e, muito menos, para crianças. Serve para atormentar as noites infantis e povoá-las de terrores do Inferno e castigos divinos.

Deus é o único ser filho de pais comprovadamente incógnitos e a síntese do que de pior os homens foram capazes nos piores tempos da humanidade.

O sucesso da Bíblia para crianças é uma ameaça ao desenvolvimento são e equilibrado da infância. Aliás, a condecoração da Santa Sé, pelo trabalho, é motivo de desconfiança.
O proselitismo em crianças é uma degeneração da pedofilia. Não é violência sexual mas é violência ideológica, doutrinação e constrangimento social sobre crianças.

30 de Janeiro, 2007 Carlos Esperança

Hospitais – Infecções religiosas

Os hospitais portugueses são a coutada predilecta do proselitismo com especial destaque para a religião católica.

A presença do capelão é paga pelo erário público a 100%, enquanto os medicamentos e os serviços médicos, cujo valor terapêutico não é inferior, têm taxa moderadora.

Nas enfermarias diz-se a missa e distribui-se a comunhão aos crentes, à hora das visitas, impedindo os amigos e familiares dos outros doentes, por respeito ou intimação, de falar com os acamados que foram visitar.

As paredes de algumas enfermarias parecem montras de quinquilharia sacra decoradas com cruzes, imagens pias e fotos da Irmã Lúcia, como se os micróbios se afastassem da iconografia santa como os administradores do Estado se afastam do cumprimento da lei.

Os Hospitais da Universidade de Coimbra previram um espaço para reflexão de crentes e não crentes, despojado de adereços pios e alfaias litúrgicas. Algum tempo depois apareceu uma enorme cruz sem que alguém tenha reclamado o milagre ou reparado o abuso.

Depois, chegou a Virgem, posteriormente a imagem do santo patrono do hospital, um hospital sem patrono é como um cão sem dono, e finalmente o lugar transformou-se na capela católica com o espaço público apropriado de forma permanente e definitiva (?) por uma confissão religiosa.

É este proselitismo provocatório, a mansa e beata penetração do incenso e da água benta pelos interstícios da nossa indiferença que vai minando a liberdade religiosa e impondo o totalitarismo católico.
Até os médicos do Opus Dei começam o dia de trabalho com uma oração naquele local. É uma forma de darem público testemunho da fé e justificarem a apropriação do espaço.

29 de Janeiro, 2007 Carlos Esperança

João César das Neves e a IVG

Sob o título «Dizer não à irresponsabilidade» João César das Neves (JCN) debita hoje a habitual homilia das segundas-feiras, no Diário de Notícias.
Perante o referendo que se aproxima, JCN chama «militantes histéricos» aos que não se revêem na sua concepção confessional, epíteto bem ao gosto dos talibãs romanos. É a atitude de quem não desiste de enviar para os tribunais quem interrompe a gravidez e procura remeter para a clandestinidade as mulheres que se encontram desesperadas.
JCN julga (ou falseia) que é a liberalização do aborto que está em causa quando é, apenas, a consequência penal que vai a votos.
JCN refere o Código Deontológico da Ordem dos Médicos, que proíbe aos médicos participar na IVG, e, perante a sua inevitável revisão, pergunta em jeito de chantagem: «Mas que devemos pensar de uma classe que muda as suas regras éticas ao sabor da votação e das modas culturais»?
Fazendo tábua rasa da legalidade democrática e omitindo o que se passa na maioria dos países europeus, JCN apenas pretende ser a voz laica do clero romano, o pecador que quer redimir os pecados com a fidelidade ao seu confessor, debitando uma homilia com a visão apocalíptica sobre a eventual vitória do Sim.
Perante as diatribes do virtuoso e pio articulista, vale a pena ler os seguintes artigos do mesmo DN, de hoje:

Editorial;

– “Tou? Dona Maria? Tenho aqui um problemazinho…” ;

29 de Janeiro, 2007 Carlos Esperança

A confissão é uma arma

O pasquim da paróquia do Vaticano, «L’Osservatore romano», classificou Sábado como «ultraje ao sentimento religioso» a reportagem publicada na revista italiana «L’Espresso» com as respostas de sacerdotes a falsas confissões sobre temas éticos e sociais da actualidade.

A confissão foi sempre uma arma da ICAR, às vezes como solução dos recalcamentos sexuais dos padres, outras como instrumento privilegiado de espionagem ao serviço do Vaticano.

O crime de devassa da intimidade dos crentes foi elevado à categoria de sacramento e a fragilidade psicológica dos supersticiosos recompensada com o perdão dos pecados que os sinais cabalísticos dos confessores e a penitência se encarregam de conceder.

A diversidade das respostas às perguntas feitas nas «confissões» dos jornalistas sobre assuntos como o preservativo, a SIDA, a homossexualidade e as células embrionárias provaram que a ICAR não tem princípios, basta-lhe a manutenção do poder.

Os padres não são ungidos para preservar a moral, ainda que obsoleta e, eventualmente, perversa. Levam com um sacramento – a Ordem – para os tornar guerreiros de Cristo e embusteiros da fé. O Vaticano é um antro onde o poder vive da informação que os seus núncios recolhem nas chancelarias e os padres nesse local de devassidão que são os confessionários.

O Deus do Papa é indiferente à fé de quem se ajoelha aos pés dos padres. Umas vezes são devotos à procura de perdão, agora foram jornalistas em busca da verdade.

27 de Janeiro, 2007 Carlos Esperança

As sotainas saíram à rua

O próximo referendo sobre a IVG destina-se somente a saber quem é a favor da prisão das mulheres que interrompem a gravidez, até às dez semanas de gestação, e quem é contra. Os primeiros votam Não, os últimos votarão Sim.

Mas o que devia ser um caso de consciência individual, alheio às convicções políticas e, sobretudo, partidárias, transformou-se numa batalha campal entre a fé e a liberdade de escolha.

As sotainas invadiram as ruas, depois da missa. Saem a ranger os dentes e a vociferar imprecações, a ameaçar com a privação da hóstia e do latim, a prometer o inferno para a alma e a excomunhão para o corpo, a negar a água benta e os óleos com que besuntam os moribundos.

Os bispos ululam inanidades, o Papa dos sapatinhos vermelhos fala de terrorismo, com a experiência de vinte séculos, e os padres desgastam-se em terços e afastam tentações da carne na pastoral da castidade. Organizam procissões e viagens a santuários, exibem virgens de louça em adiantado estado de gravidez, e inventam lágrimas vermelhas nas estátuas de gesso com que macaqueiam a mãe de Jesus.

A ICAR e o Islão unem-se sempre que lhes cheire a uma boa perseguição. As Cruzadas e as Intifadas, enquanto não se digladiam, juntam-se na sanha contra as mulheres, no desvario misógino da sua matriz genética comum.

O resultado do próximo referendo deixou de ser o confronto entre posições respeitáveis e tornou-se a aposta do clube da hóstia na escalada clerical com que pretende inverter a correlação de forças e partir para a cruzada conta a laicidade e o secularismo.

24 de Janeiro, 2007 Carlos Esperança

A Polónia e a ICAR

O Ricardo Alves e a Palmira Silva já se referiram à obsessão de quarenta e seis deputados que propuseram uma moção para eleger «Jesus Cristo» rei da Polónia, uma república onde a Virgem Maria já é Rainha honorária há 350 anos.

A piedosa decisão parlamentar transforma a Polónia numa república para lamentar. Aquilo não é um País, é um santuário; não é uma república é um sucursal do Vaticano; as pessoas não vivem de pé, viajam de joelhos; os deputados não legislam, rezam; não procuram resolver os problemas do país, procuram a salvação da alma.

Há anos o sol nascia em Moscovo, agora a luz vem do Vaticano. Há pouco adoravam Lenine, agora veneram JP2, um taumaturgo autóctone que o Opus Dei fez Papa. Nunca mais aprendem os pontos cardeais, vivem do que os cardeais católicos lhes impigem.

Ter à frente do país um pregador de feiras e mercados, morto há dois mil anos e pregado num sinal mais, não é fruto de uma eleição é o resultado de uma alucinação. Não é um caso político é um problema de psiquiatria.

Um país com dois irmãos gémeos, um presidente da República, outro primeiro-ministro, dois nacionalistas, ambos amigos do peito e da hóstia de todos os bispos, não é um sítio salubre para se viver, é um local mal frequentado para se morrer de riso.

21 de Janeiro, 2007 Carlos Esperança

Deus, lei e família

Quando um militar, de baixa patente, habituado à disciplina e condicionado pela obediência, afronta um tribunal;

Quando um «pai» põe em risco a profissão e a subsistência, por amor à filha que não fez;

Quando um homem, por amor a uma criança, arrosta com seis anos de prisão e arrasta na aventura a sua mulher;

Esse homem está cego. Ou a lei. Ou a sua aplicação. Algo é um absurdo que viola a sensibilidade e desafia a inteligência.

Quando um indivíduo descobre acidentalmente que o teste de DNA, que não pediu, lhe adjudica o espermatozóide que deu origem a uma criança que desconhece e a reclama com o amor que nasce de uma análise laboratorial que lhe é comunicada,

Manda a prudência que, antes, se averigúem os sentimentos de uma criança de cinco anos (por quem saiba fazê-lo).

Parecem postergados os interesses e a vontade própria de uma menina que aguarda um drama que ainda não sonha e um destino que pode terminar em tragédia.

É grave que ao juízo dos tribunais se sobreponha o julgamento da rua, mas é igualmente grave que os tribunais percam a sensibilidade, sentimento que, salvo o devido respeito, parece ter estado ausente da, aliás, douta sentença.

E a Igreja católica, tão vigorosa na defesa dos embriões, não tem um padre com opinião neste caso. Os bispos andam a organizar comícios dos movimentos pró prisão e o Opus Dei a recolher fundos para a publicidade.

Quem pagará a novela da SIC para fazer propaganda subliminar para que julgamentos como os da Maia, Aveiro, Setúbal e Lisboa se repitam e se persigam mulheres pobres e desesperadas?!

20 de Janeiro, 2007 Carlos Esperança

A ICAR e a IVG

O piedoso cónego Tarcísio Alves pegou no Código de Direito Canónico – o Código Penal das almas católicas -, percorreu o menu dos pecados capitais e arremessou aos paroquianos o Cânone 1331: os que votarem Sim, no próximo referendo, «não podem casar, baptizar-se e nem poderão ter um funeral religioso».

Lá está, na mancha impressa, a pena que soturnas criaturas imputaram a quem votasse «Sim» no referendo da República.

Aliás, o direito de voto e a própria democracia já foram considerados pecados mortais por infalíveis Papas que acharam a liberdade uma abominação e excomungaram os livres-pensadores.

Eis, pois, a pena a que automaticamente se expõem os pios eleitores de Castelo de Vide se não seguirem no voto o reverendo cónego.

Hoje deprecia-se a pena porque deixou de ser acompanhada do churrasco do corpo, esse invólucro imundo que compromete o destino da alma. Os réprobos que desobedecerem aos funcionários de Deus já não padecem as torturas a que os antepassados se expunham para purificar a alma. Nem a GNR lhes dá uns safanões no Posto. Nem existe PIDE para os arrecadar na enxovia.

O método expedito de amaldiçoar os créus que votarem «Sim» no dia 11 de Fevereiro, corre o risco de transformar Portugal no país com maior densidade de excomungados e a ICAR, obsoleta e chantagista, torna-se a cloaca da fé, a bolçar inanidades pela boca piedosa dos seus padres.

Por sua vez, João César das Neves, um frasco de água benta revestido a pão ázimo, diz que o aborto vai ser «tão normal como o telemóvel», numa previsão de que ambos os sexos possam praticá-lo. Finalmente, a igualdade entre os sexos que tanto abespinha o espírito misógino dos beatos.

Deus, na sua infinita insignificância, torna-se mero pretexto para esportular os últimos óbolos dos derradeiros créus de uma religião em estado comatoso.