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Carlos Esperança

21 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

A fé e a liberdade

Herdeiro do Renascimento e do Humanismo, o Iluminismo fez do século XVIII o «século das luzes».

Foi o confronto dialéctico entre a cultura greco-romana, que os sábios do Renascimento retomaram, e a escolástica medieval, que o clero romano se esforçou por preservar, que fez germinar o Iluminismo.

O cepticismo de Hume, filósofo e historiador escocês, arrasou os dogmas religiosos e abriu as portas da modernidade.

Hoje, com a secularização e a razão a avançarem nos países europeus, assistimos à aflita revolta do clero ansioso pelo retorno à fé e aos valores medievais.

Os milagres da Igreja Católica são a mais demente manifestação de obscurantismo e a mais torpe tentativa de manipulação contra a ciência e o progresso. É o desespero da fé, que definha, contra a secularização que avança. O retorno aos dogmas e a chantagem sobre os Governos democráticos são uma obsessão das Igrejas cristãs que convocam o histerismo dos seus padres e o fanatismo dos crentes contra a modernidade.

Os mitos agradam aos crédulos enquanto a reflexão crítica é apanágio dos herdeiros do «século das luzes» que as religiões, em geral, e o Islão, em particular, se esforçam por apagar.

Os crentes exultam por viver de joelhos, os cépticos têm a coragem de se manter de pé.

20 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

Deus não é português

Quiseram os beatos espalhar o boato de que Deus teria pelejado na batalha de Ourique, disfarçado de lacaio de D. Afonso Henriques, ou em Aljubarrota, sob as ordens de Nuno Álvares Pereira.

No primeiro caso ninguém os levou a sério e, no segundo, a coisa complicou-se com os espanhóis, que têm influência no Vaticano e, mesmo assim, não conseguiram canonizar os reis católicos, tais os horrores que praticaram e, sobretudo, a divulgação que lhes foi dada.

De qualquer modo, Deus não é português. Das catedrais às casas de alterne nunca foi visto, na saúde e bem-estar dos portugueses nunca foi achado e nos momentos difíceis, quando os padres asseveravam a sua protecção, sofremos os piores vexames e as mais trágicas consequências.

Na guerra colonial onde, segundo o cardeal Cerejeira, os soldados portugueses estavam a defender a civilização cristã e ocidental, não foi visto, a menos que estivesse nos massacres e, para não o comprometer, a Igreja mantenha segredo. A irmã Lúcia, muito chegada às coisas do Paraíso, chegou a dizer ao Cardeal que Salazar fora enviado por Deus mas o ditador portou-se tão mal que o melhor é esquecer a divina patifaria.

Deus não é português. Se fosse, já tinha inscrição no Centro de Emprego para receber o subsídio, enquanto clandestinamente, sem fazer descontos, faria biscates no Patriarcado.

19 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

A golpada do Opus Dei

A vitória irrefutável do SIM no último referendo reduziu os vencedores à contemplação e desviou os vencidos para batalhas seculares, como se tivessem mudado de campo uns e outros e a sorte se pudesse inverter agora na secretaria, em sede parlamentar.

Não sei donde vem tanto dinheiro aos últimos para, antes de removerem os fetos dos cruzamentos das estradas, já estarem a querer subverter a lei que regulará a IVG até às dez semanas e a prosseguir com a dispendiosa campanha.

A pergunta era clara e não acrescentava: «depois de ouvir os conselhos da comissão de ética, ser esclarecida por um objector de consciência e aguardar a visita do capelão».

Os bispos atestam que os seus valores estão com baixa cotação, mas os manipuladores do NÃO invocam agora o carácter não vinculativo do referendo, como se o anterior o tivesse sido e apelam à «moderação da lei».

Não sei o que seria uma lei extremista, certamente a que tornasse obrigatório o aborto, crime que só tem precedentes na China e na Índia, mas sei o que pensam aqueles que perderam, o que defendem os exaltados extremistas Gentil Martins, Bagão Félix e César das Neves e o que pretende a poderosa seita «Opus Dei».

Talvez os leitores não saibam que as «Comissões de Ética» hospitalares estão nas mãos de activistas católicos e integram inevitavelmente o capelão – anacronismo que persiste ao arrepio da separação da Igreja e do Estado.

Estas comissões de ética têm sido um obstáculo à IVG em situações contempladas na lei (violação, risco de vida da mãe e violação). Casos dramáticos chegaram ao parto graças à insensibilidade e ao exacerbado proselitismo das referidas comissões.

É com gente assim que se pode desvirtuar o direito à IVG, solicitado pela mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimentos de saúde legalmente autorizados.

O julgamento dos tribunais judiciais não pode ser transferido para tribunais morais. O único tribunal é a consciência da mulher que toma a decisão. Foi esse o resultado do referendo.

Ponte Europa/Diário Ateísta

18 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

Espanha – A Virgem andou à solta

Religião – Crescem denúncias de raptos

Há semelhanças entre a vidente de Madrid, Luz Amparo Curvas, e a Irmã Lúcia mas é bom não esquecer as diferenças.

Ambas viram a Virgem, é certo, uma em Fátima, outra no Escorial. Nos dois casos a Igreja católica admite as visões sendo, na matéria, a única autoridade para passar certificados de garantia.

Em Espanha, em Junho de 1994 a igreja reconheceu a Fundação Pía Virgen de los Dolores e a Associação Reparadores de Nuestra Señora Virgen de los Dolores, ambas ligadas ao movimento. Em Portugal, reconheceu a Cova da Iria, certificou a azinheira onde arvorou a Virgem e nomeou o padre Luciano Guerra para dirigir o negócio. Em ambos os casos a Igreja católica não reconheceu o tráfico no princípio mas ajudou à divulgação dos milagres.

Em Espanha um padre católico já disse a missa dos 25 anos da primeira aparição.

Vejamos as diferenças:

Em Portugal a Igreja encarcera freiras mas as famílias não reclamam; apropria-se do património dos peregrinos mas ninguém apresenta queixa; Fátima está no mercado da fé há 90 anos e não há 25; os directores-gerais já visitaram Fátima (Paulo VI e JP2) várias vezes, enquanto em Espanha aguardam que o volume de crentes aumente. A comunicação social está mais atenta e os milagres tornaram-se mais difíceis.

Claro que Luz Amparo Curvas também vai ser canonizada mas não terá o ministro da Defesa na missa de corpo presente nem o primeiro-ministro decretará 1 dia de luto nacional. Pelo menos em Espanha haverá a dignidade do Estado que faltou em Portugal.

Quanto à Virgem, com tantas saídas do Céu, corre o risco de deixar de ser.

17 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

Bispos evitam abortos – tomam a pílula

Andava a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) dedicada à oração e aos negócios, sem se dar conta de que milhares de mulheres recorriam ao aborto clandestino, com sequelas irreversíveis, risco de vida e perseguições policiais.

Deviam estar a treinar hóquei em campo com os báculos e a jogar ao anel de ametista com as mitras, enquanto a operária com medo do despedimento interrompia a gravidez com uma agulha de renda, uma adolescente filha de pai católico entrava em pânico e se entregava à curiosa que lhe perfurava o útero ou uma mãe desempregada empenhava o cordão que herdara da avó para evitar mais uma criança que não poderia alimentar.

Os bispos, a quem a idade e o múnus tornou castos, têm pela sexualidade um sentimento de culpa e aversão que o medo e o recalcamento refinaram.

Vêm agora, quais virgens que desconhecem o mundo, dar sentenças sobre a forma de evitar o recurso ao aborto. Não desejam mais do que os ateus que essa praga possa ser eliminada, que os filhos desejados possam nascer, que o sexo seguro possa ter lugar.

Se os bispos soubessem o que é amar, se tivessem um corpo para viajar e uma boca húmida para beijar, se soubessem como é bom amar e ser amado, sentir a loucura de um desejo satisfeito, apaziguar a ansiedade na sofreguidão do amor, certamente não seriam os intolerantes misóginos, empregados de um Deus que obriga os crentes a renunciar à felicidade e os prefere de joelhos, ciliciados e embrutecidos com as orações.

16 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

A Senhora de Fátima entrou de baixa

Conhecidos os resultados do último referendo, a Senhora de Fátima entrou de baixa e está internada na enfermaria do Paraíso, misturada com beatas de segunda, catequistas rurais e outras almas alérgicas ao pecado e ao banho.

O seu divino filho arremessou-lhe com a coroa de espinhos e desancou-a com a cruz quando a viu chegar ao Céu em pior estado do que os forcados de Santarém quando fazem uma pega a um touro mais inteligente do que eles, o que não é difícil.

Quando a Virgem chegou já lá estavam os jornais que davam conta do desastre da Igreja Católica, humilhada nas urnas, expulsa das cidades e desprezada por jovens de um país que lhe foi consagrado várias vezes.

Levou, na bagagem, orações, terços, novenas, missas, romagens e outros pios subornos que lhe foram adjudicados para inverter a vontade popular. Foi tudo para a reciclagem por estar esgotado o prazo de validade e a inutilidade comprovada.

As 2.238.053 almas afastadas do redil foram uma humilhação para quem saltitou, há 90 anos, de azinheira em azinheira, fez truques com o Sol e encheu o parque de diversões místicas de Fátima todos os dias 13.

Sabe-se que as lágrimas de sangue saíram com água oxigenada e foi aconselhada pelo Dr. Gentil Martins a mudar de cosméticos que estragam o verniz e repelem crentes.

Também o Dr. Bagão Félix, que não sabe de Finanças, apertou mais um furo no cilício e aguarda as clínicas espanholas para investir, vestido de cruzado e de crucifixo afiado, contra médicos, enfermeiros e as mulheres que ele queria pôr a lavar escadas e sanitas, em alternativa à prisão, desactivadas que foram as fogueiras do Santo Ofício.

As Senhoras Donas Teté, Matilde, Isilda e outras, receando que a Senhora de Fátima tenha fugido com um pastor de vinte anos, dedicam-se à pastoral da castidade e juram que as hormonas são invenção de ateus, comunistas, mações e judeus, à semelhança da teoria evolucionista.

Finalmente temem que o arcanjo Gabriel tenha contraído a gripe das aves e que, como medida profiláctica, deva ser abatido o bando todo.

15 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

Memórias da Irmã Lúcia no teatro

Baseada nas «Memórias da Irmã Lúcia», está a ser preparada, pelo Santuário de Fátima, e com encenação de Norberto Barroca, uma peça de teatro que procurará retratar algumas cenas da vida familiar dos Pastorinhos Videntes de Fátima, antes, durante e depois das aparições da Virgem, tendo sempre como base os escritos da Irmã Lúcia.

No princípio foi a burla. Três inocentes crianças, fanatizadas pela catequese terrorista da época, viram azinheiras que davam virgens, o Sol às cambalhotas no horizonte e ouviam vozes que pediam para rezar o terço e converter a Rússia.

Lúcia era dotada para ouvir vozes e ter visões. Instrumento de uma burla monumental, pagou com a clausura a viagem que fez ao Inferno, antes de ter sido fechado para obras por JP2, embora convencido de que o Diabo existe, como, na sua superstição, julgava.

Os três infelizes pastorinhos faltavam à escola para rezar, uma virtude cristã segundo a cartilha salazarista e a do patriarca Cerejeira.

Aterrorizaram as populações rurais e as crianças da catequese com os três segredos que a Senhora de Fátima confiou à Lúcia. Era o País beato, supersticioso e analfabeto, que viajava de joelhos para Fátima, estendia a língua à rodela de pão ázimo e rezava terços como os mullahs islamitas debitam o Corão.

Agora, 90 anos após a encenação dos milagres, depois das cartas da Lúcia a Marcelo para proibir a mini-saia e o divórcio, depois de ter sido visitada, em Tuy, por Cristo, ele próprio, vai à cena a peça «Memórias de Lúcia», a farsa promocional do santuário, com uma só virgem, três pastorinhos e muitos supersticiosos.

É o embuste místico no seu máximo delírio.

14 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

A hipocrisia do bispo

Vitória do «Sim» não soluciona problema
D. José Pedreira, Bispo de Viana do Castelo, sugere a revisão da actual Lei penal
Aqui está o indício de que, de forma beata, um bispo pretende subverter o Referendo do dia 11. O Sr. José Pedreira, com falas mansas de tartufo, vem propor que se ignorem os resultados… porque não são vinculativos.

O Sr. Pedreira esqueceu-se da ameaça de excomunhão feita pelo clero da sua Igreja, do clima de terror para os crédulos, dos fetos de 10 semanas (tinham mais) que nos pediam com ar infeliz para que os não matássemos?

Vem agora de mitra na mão e báculo em riste repetir a ignomínia que o grandessíssimo filho de Deus, Bagão Félix, propunha – substituir a prisão das mulheres por um serviço à comunidade, talvez a lavagem de escadas e de sanitas, tarefas que as pobres conhecem?

Este bispo usa o anelão para dar a beijar aos beatos ajoelhados, os dedos para desenhar cruzes com óleo rançoso na testa dos confirmados e a inteligência para subverter os resultados eleitorais.

O Sr. Pedreira é agente do Vaticano, uma ditadura teocrática que não integra os Estados democráticos da União Europeia, membro da seita que impede a interrupção voluntária do celibato aos padres e freiras e o divórcio aos casados em Malta.

Este ungido considera pecado tudo o que for contra os ensinamentos que um velho senil ditou no Monte Sinai a um desgraçado que tinha visões e dava pelo nome de Moisés.

13 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

Referendo – IVR

O 11 de Fevereiro de 2007 ficará na história como o dia em que os portugueses deram público testemunho da Interrupção Voluntária da Religião (IVR).

O Cânone 1331 do Direito Canónico – o Código Penal das Almas -, determina que os que votaram SIM no referendo «não podem casar, baptizar-se e nem poderão ter um funeral religioso» como explicou pacientemente o compassivo cónego Tarcísio Alves.

A Conferência Episcopal Portuguesa, perdido o medo do Inferno, arrisca-se a ter de indemnizar os crentes pelo tempo perdido em missas, novenas, terços, orações e outros pios devaneios.

Esta excomunhão automática, tão grave que nem os padres a podem retirar, alienou ao santo rebanho 2.338.053 ovelhas com as quais deixaram de poder argumentar nas transacções com o Estado e na chantagem dos números.

Deus deve ter ficado muito zangado com os portugueses, como assevera o clero. Mas, que pode um mito contra a força do voto, o exercício da democracia e a libertação do dogma?

A Senhora de Fátima, que chorava lágrimas de sangue em muitos panfletos, nas caixas do correio, esvaiu-se com os resultados, entrou em estado de choque e teve de fazer uma curetagem ao saco lacrimal.

Por algum tempo a Igreja vai deixar de atirar placentas aos olhos dos crentes e de arremessar fetos às mochilas das crianças dos colégios religiosos.