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Carlos Esperança

15 de Julho, 2007 Carlos Esperança

Opus Dei & B16

A deriva reaccionária de Bento 16 em direcção aos excomungados bispos e padres da Fraternidade Sacerdotal de S. Pio X (FSSPX) não provoca um terramoto na Igreja católica domesticada por JP2, que lhe devolveu a superstição e a pompa, mas cria ondas de choque entre alguns padres adeptos do Concílio Vaticano II.

A ICAR fica agora mais autêntica: retrógrada, ritual, intolerante e evangelizadora. B16 já decidiu que é a única Igreja cristã verdadeira como se só as restantes fossem falsas. O velho ditador, com o camauro enfiado até às orelhas, já devolveu ao latim o carácter de língua sagrada como os mullahs fazem em relação ao árabe.

A ICAR estava há muito infiltrada pelos sequazes de Santo Escrivá, um perverso adepto do ditador Franco a quem numerosas famílias deram os seus bens e JP2 a santidade. O fanático, além do cilício com que se consolava, escreveu o «Camiño» um livro com 999 «considerações espirituais». Sendo o n.º 999 a inversão do n.º 666 (o número da besta, segundo o apocalipse) fácil é concluir que o n.º 999 é Monsenhor Escrivã a fazer o pino.

Como se o Opus Dei não fosse já uma seita perigosa que esteve sempre por detrás de JP2, um Papa tão supersticioso que acreditava em Deus, B16 recorreu à FSSPX para juntar meio milhar de padres, guerrilheiros da fé, capazes de transformar a decadente ICAR numa religião com a energia e o ódio do Islão. Os membros das duas seitas, bem treinados, são capazes dos mesmos actos de fé e sacrifício que os suicidas islâmicos.

O báculo, a mitra e a cruz são adereços folclóricos que não fidelizam clientes. Só as fogueiras, o medo e as perseguições fazem devotos capazes de reproduzir a violência tradicional e de restituir aos padres o poder e influência perdidos com o Iluminismo, a Revolução Francesa e o secularismo.

B16 vai no bom caminho mas é preciso travar-lhe o passo.

13 de Julho, 2007 Carlos Esperança

Audiência com Sócrates – ICAR mais satisfeita

A satisfação do patriarca Policarpo foi a campainha de alarme de que a reunião com o primeiro-ministro tinha corrido mal ao País. O que é bom para a Conferência Episcopal é mau para a democracia.

A derrota no referendo sobre a IVG está vingada. A penitência cumpre-se em euros.

A Concordata é uma espécie de Tratado de Tordesilhas que divide o poder entre a Igreja católica e o Governo, democrático ou não, que para a Igreja tanto faz. A de 1940 foi assinada com o ditador Salazar e este tinha o direito de veto sobre os bispos nomeados. Foi por isso que, com a excepção do honrado bispo do Porto, Portugal teve os báculos e as mitras entregues a um bando de fascistas.

Não pode haver liberdade religiosa sem igualdade de tratamento para todas as religiões nem respeito pela Constituição quando o Estado abdica da neutralidade a que está obrigado e se ajoelha perante quem exibe mais força ou poder de influência.

Recordo a magnífica conferência de Antero «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares» e o passado histórico em que o poder da Igreja foi o travão do desenvolvimento e da liberdade.

Na cerimónia de despedida do núncio apostólico em Lisboa, em Outubro de 2002, o MNE de Durão Barroso, Martins da Cruz, que se demitiria na sequência de um vergonhoso processo de nepotismo para favorecer a entrada da filha em Medicina, afirmou: “Como católico considero um privilégio ocupar a pasta dos Negócios Estrangeiros no momento desta importante negociação”. Foi um acto de capitulação e desonra.

Agora foi Sócrates que se ajoelhou. Uma nódoa para o Estado laico.

DA/Ponte Europa

13 de Julho, 2007 Carlos Esperança

O Velório do Botas

Foi em Agosto de 1968 que uma cadeira, no Forte de S. Julião da Barra, aliviou os portugueses. O ditador tinha a censura a defender-lhe a privacidade e a PIDE/DGS a aprisionar os adversários, mas já se debatia com um bravo hematoma que viria a ser saudado como herói.

Que a cadeira, uma simples cadeira corroída pelo caruncho, ousasse, na coragem dos corpos inertes, antecipar o fim do déspota, foi um acto de afoiteza que lhe valeu um lugar na História e ao caruncho a aura de santidade, ainda que a verdade possa ter sido outra e ter a cadeira, graças à censura, fruído os louros devidos a um acidente cerebral.

Soube-se lentamente que Salazar era mortal, dúvida metódica que muitas décadas de medo se tinham encarregado de acentuar, receio que remetia para as confidências da Irmã Lúcia ao cardeal Cerejeira, que o frio ditador fora escolhido pela Providência para governar Portugal, maldade que ameaçou eternizar-se em divina afronta.

No Hospital da Cruz Vermelha reuniam-se conselhos de ministros a fingir para dar ao tirano a ilusão de que ainda dirigia o país, que rezava, a mando dos padres, a implorar a cura. O desejo dos suplicantes aturdia o País urbano que temia a cura que devolvesse o enfermo à governanta, às galinhas que ambos criavam e a S. Bento.

Os boletins médicos descreviam o «homem providencial» como apirético e em risco de cura. Viveram-se momentos de pânico nos primeiros tempos em que Marcelo o revezou até sucumbir com o ar fresco de uma madrugada de Abril.

No Verão de 1970 fervilhavam boatos enquanto os jovens continuavam a morrer nas colónias e os portugueses aumentavam o ódio à ditadura e a coragem de afrontá-la, nas deserções da tropa ou enfrentando-a nas universidades, nas fábricas e nas ruas.

Em 27 de Julho desse ano a música fúnebre das emissões de rádio e de televisão soou aos ouvidos de muitos como um hino à liberdade. A notícia soube-se primeiro pelo ar feliz dos transeuntes – a informação ia passando de boca em boca – e pelos noticiários, depois. Morta a peçonha esboroar-se-ia o regime.

Na tertúlia do Café Nova York duvidou-se da veracidade da notícia. Ninguém tinha a confirmação de fontes estrangeiras e a credibilidade das portuguesas era igual à do regime.

O António Queirós e o Magalhães dispuseram-se a ir aos Jerónimos a confirmar o óbito. Ver para crer. Para o António era um acto de humor do antifascista de sempre. Para o Magalhães era a companhia do amigo e a decisão de quem sofria já de uma esquizofrenia que não mais deixou de apoquentá-lo. Só o testemunho deles faria fé para os amigos. Partiram, a pé, desde Entrecampos, tendo a peregrinação e o sacrifício um valor simbólico que valorizava o testemunho e o gesto picaresco.

Quando os dois entraram nos Jerónimos – confirmou o António -, havia mais polícias do que pessoas, apesar da multidão que exibia o último acto de servilismo, gratidão ou, sabe-se lá, de alívio. Integraram a fila, com o Magalhães, vestindo esmeradamente como sempre, e de preto, atrás do António. Foram avançando lentamente, ao compasso da fila, e logo reconheceram, junto à urna, Gabriel Monjane, o Gigante de Manjacaze, um amável negro moçambicano cuja desregulação hormonal o fizera crescer até aos 2,45 metros, com os horríveis padecimentos da acromegalia. Nessa altura ainda eles não podiam ver, nem adivinhavam, que junto do gigante se encontrava o anão de Arcozelo, seu companheiro num circo que os explorava como «o homem mais alto do mundo e o mais baixo». Nunca se soube quem foi o prócere do regime que abrilhantou o velório com o número de circo que sublinhava a tragicomédia da cerimónia fúnebre.

O António progredia na fila, calmamente, com semblante adequado à circunstância, mas evocando os camaradas mortos a seu lado, na Guiné, conhecidos que desertaram, compatriotas emigrados e amigos presos, tudo por causa do tirano que jazia a curta distância com honras de Estado e sem honra. Em contraste, o Magalhães impacientava-se. Perturbava-o a doença e não o acalmava a serenidade do António.

Lá chegaram, finalmente, junto do féretro. O gigante e o anão ali estavam integrando e acentuando o espectáculo pífio a que os destinaram. Cavalheiros de óculos escuros escrutinavam os passantes enquanto as fardas militares e as vestes talares coloriam a cerimónia. Umas carpideiras, por devoção ou encomenda, quem saberá dizê-lo, estacionadas junto ao cadáver, completavam o quadro mórbido.

Mal chegaram junto do caixão, o Magalhães, cansado da demora e à beira de um ataque de esquizofrenia, encara de frente os homens de óculos escuros, olha com tédio as carpideiras, baixa o queixo, sacode a cabeça com vigor e, acto contínuo, vários desses vigilantes precipitaram-se sobre as mulheres e afastaram-nas.

O António apanhou um susto enorme e pôs o ar compungido que a ocasião e o pânico lhe impuseram e só voltou a encarar o Magalhães depois de há muito terem deixado o mosteiro e os gorilas, cujos constrangimentos autoritários os levaram a obedecer prontamente ao primeiro gesto decidido de um doente psíquico, bem integrado, aliás, na esquizofrenia colectiva em que o regime mergulhara.

Jornal do Fundão/Ponte Europa – Publicado em 12-07-2007

12 de Julho, 2007 Carlos Esperança

Deus estará internado?

A idade e o reumático, a caquexia e o mau humor, fizeram ensandecer Deus. São más as companhias que escolhe para esbater o tédio e pôr-se á conversa. Bush e Bin Laden são as pessoas com quem costuma falar – dito por eles – e são as menos recomendáveis. Mal por mal, antes o Papa católico que, por enquanto, é menos perigoso.

Quanto à Alexandra Solnado são devaneios de velho que ainda vê nela uma jovem e lhe avalia a sanidade mental pela sua.

Deus, nas suas infinitas solicitações, acabou por se desinteressar da religião verdadeira – a única -, a católica apostólica romana; esqueceu-se do Rätzinger ou tem vergonha dele; não se abeira do bando de bispos e padres que ainda se arrastam com o missal numa das mãos e o breviário na outra; e, finalmente, já não tem vagas no Paraíso sobrelotado com os mártires das Cruzadas desde finais do século XIII.

A Irmã Lúcia, por falta de espaço, dorme com os primos nuns aposentos abandonados no Purgatório, depois de ter sido íntima da Senhora de Fátima, ter visitado o Inferno onde ardia o Administrador do concelho de Ourém, que não ia à missa, e de ter visto um anjo que andava à solta na Cova da Iria.

O Papa Rätzinger nunca falou com Deus nem com ninguém da família, apenas com os jovens soldados nazis e, depois, com o exército das sotainas. Nas relações com o divino está em desvantagem com a Alexandra Solnado e com o antecessor que era danado para visões e milagres e estava convencido da existência de Deus.

B16 é o guardião da fé verdadeira, sem que Deus, um parente, a Senhora de Fátima ou o Santo Escrivá lhe anunciem que dirige uma empresa, com vastíssimos bens, cujo dono morreu e de que ele, Papa católico, é o único herdeiro.

11 de Julho, 2007 Carlos Esperança

O pesadelo da Mesquita Vermelha

Enquanto a al-Qaeda ameaça Salman Rushdie e a Grã-Bretanha e um ataque talibã mata 12 crianças no Afeganistão, termina de forma cruenta a resistência de radicais islamitas na Mesquita Vermelha de Islamabad.

Só na última noite foram mortos mais de cinquenta crentes cujo fanatismo os levou a procurar o martírio: uns por medo de Deus, outros por temor ainda maior dos clérigos.

O líder rebelde, Rashid Ghazi morreu em combate como lhe exigia a fé e o desvario. Ele apenas tirou bilhete de ida para o Paraíso onde 70 virgens o aguardavam nas margens de um rio de mel à sombra de árvores frondosas. Mas também perderam a vida dezenas de vítimas fanatizadas e pessoas aterradas pela crueldade de Deus e a violência do clero.

Acontece nas sociedades tribais e nas religiões um eterno desejo de retorno às origens. É difícil erradicar a violência sectária sem estabilizar Estados laicos e fazer a pedagogia dos Direitos do Homem.

A que a população islâmica mais aprecia no Ocidente, contrariamente ao que se julga, é a liberdade religiosa, embora não saiba quanto custou a liberdade do jugo clerical e do seu poder totalitário. A democracia não foi um milagre da Providência, tem uma longa história de mártires que não ascenderam aos altares nem à perpétua glória do Paraíso.

Sem a separação da Igreja e do Estado não há liberdade, não existe democracia, não se defendem os Direitos do Homem nem a mulher deixará de ser um objecto vítimas de quem detém o poder e domina a sociedade. E a teocracia é a antítese da democracia.

11 de Julho, 2007 Carlos Esperança

Bispos chantageiam o Governo

O Conselho Permanente da CEP, piquete de prevenção do episcopado, disponível para se atirar às canelas de quem ponha em causa a hegemonia da ICAR, que tanto sangue derramou ao longo da história, atirou-se ao laicismo, como gato a bofes, e ao Governo que lhe alimenta a gula.

Para o episcopado «a educação, a solidariedade social, o sector da comunicação social, o acompanhamento espiritual dos doentes e dos presos, o apoio à família e à natalidade» são áreas de que querem o exclusivo, apesar da alegada castidade que se impõem.

É difícil saber o que, se pudessem, deixariam para a sociedade. A vocação totalitária está bem viva sob as sotainas. O Inferno é uma projecção dos seus desejos íntimos para quem despreze a religião e se ria da liturgia.

Se estas santas alimárias pudessem rachar cabeças com o báculo e meter-lhes dentro o veneno da fé não haveria heresia a que não pusessem cobro, livre-pensamento que não erradicassem, direitos humanos que não abolissem.

Sob a mitra fervilha o ódio à liberdade, a gula pelo poder e o proselitismo católico. Se nos deixarmos reduzir a um bando de beatos e tímidos os bispos impõem ao ar que respiramos uma percentagem de incenso e à água que bebemos o ritual cabalístico que a torna benta.

O Diário Ateísta é uma trincheira da luta contra todos os totalitarismos pelo que não podemos permitir que das igrejas, mesquitas ou sinagogas sopre o vento da opressão e da violência.

10 de Julho, 2007 Carlos Esperança

O fundamentalismo católico

O Papa B16 não é só o monarca absoluto cuja vocação autoritária arredou da comunhão os teólogos progressistas, é o autocrata que abraçou os sucessores de Lefebvre e se conluiou com o Opus Dei com os quais sempre partilhou a fé e a intolerância.

Bento 16, apesar dos tempos maus para o pensamento único, entende que há um só Deus verdadeiro – o seu, uma só língua sagrada – o latim e um só representante legítimo – ele próprio.

O velho autocrata sangra o Vaticano II como os magarefes os porcos, até à última gota. Era previsível um Papa que vingasse a tentativa de acertar o passo com a modernidade, que combatesse o pluralismo e declarasse guerra à democracia.

Ninguém seria melhor do que o antigo e inflexível Prefeito da Sagrada Congregação da Fé, herdeiro espiritual das fogueiras do Santo Ofício e da tortura, para ressuscitar a Igreja medieval, fábrica de heróis, santos e mártires, capaz de espalhar a fé e a peçonha pelos quatro cantos do mundo.

O Vaticano reafirma a «exclusividade» católica, isto é, declara que há uma só Igreja verdadeira, donde se conclui que todas as religiões são falsas, excepto a católica, na melhor das hipóteses. Provavelmente são todas.

Eis o fundamentalismo católico em todo o seu esplendor, a demência da verdade única, a visão simétrica do Islão, a cruzada contra a tolerância, o ódio à liberdade, o requiem pela democracia. O Papa fez tábua rasa da Reforma. É a Contra-Reforma que volta. Não são apenas as mesquitas que semeiam o ódio e a exclusão. O catolicismo pede meças.