Loading

Carlos Esperança

7 de Agosto, 2007 Carlos Esperança

Ateísmo e tolerância

Face à deriva totalitária das religiões e à vocação fundamentalista, que não me cansarei de denunciar, é-me repetida com frequência a pergunta: «E não há fundamentalismo ateu»?

A resposta que tenho dado no Ponte Europa, o meu blog generalista, onde naturalmente mantenho a postura ateia, é afirmativa.

Claro que sou fundamentalista, tal como são fundamentalistas os vegetarianos ou os cientistas. Mas que mal vem daí ao mundo? Um ateu não quer que o Estado o seja e não prega o ateísmo. Já alguém assistiu à prédica de um ateu num púlpito, ao ensino ateísta numa madraça ou à convocação dos correligionários para rezarem pela conversão do mundo ao ateísmo? Seria imaginável que os ateus consagrassem Portugal ao ateísmo?

Do mesmo modo, um vegetariano não considera pecadores os que se babam de gozo com um bife, ovo a cavalo e molho tártaro. E não procuram converter os outros às delícias da soja e dos rebentos de bambu. Nem ameaçam com o inferno os assíduos comensais do leitão à Bairrada.

Também os cientistas não transigem sobre o estado da arte das ciências que dominam. Não aceitam que o Sol gire à volta da Terra, que cadáveres ressuscitem ou façam milagres, que uma rodela de pão ázimo contenha carne e sangue depois de consagrada ou que uma multiplicação possa ter vários resultados. São, pois, fundamentalistas.

E daí? Algum físico quis queimar quem nega a lei da gravidade? Algum astrónomo se enfureceu com quem nega o movimento de rotação da Terra ou quis condenar às penas perpétuas os que estão convencidos de que o Sol gira em torno da Terra?

Aliás, não é o fundamentalismo a lepra maior que corrói o coração dos crentes, é esse cancro maldito do proselitismo, a demência mística dos que querem promover a verdade única na única ideologia onde não há a mais leve suspeita de verdade – a religião.

A desfaçatez com que o ditador Rätzinger proclamou a religião católica como a única verdadeira é uma declaração de guerra a todas as outras pias mentiras que alimentam os parasitas de Deus com várias versões do mesmo embuste. É um convite à guerra santa.

6 de Agosto, 2007 Carlos Esperança

Ressurreição proibida

A China proíbe a ressurreição do Dalai Lama. Esperemos que não torne obrigatória a de biliões de chineses que se finaram.

Os países totalitários são os mais divertidos para quem vive em estados democráticos. Para os autóctones, como sabem os homens e mulheres da minha idade, é que as coisas se complicam e é grande o sofrimento. Portugal sofreu uma ditadura nacional-católica.

Proibir a ressurreição do Dalai Lama é como proibir os milagres obrados pelos santos criados por JP2 ou B16, o aparecimento da Virgem Maria nos locais destinados ao turismo religioso ou a aterragem do arcanjo Gabriel nos anjódromos da cristandade.

A ICAR proíbe o divórcio, o sexo fora do matrimónio, a apostasia, as uniões de facto, a homossexualidade e os preservativos, mas não se atreve a proibir a ressurreição de Jesus e, até, vive desse expediente. Quanto às proibições ninguém lhe liga nem lhe empresta lenha para novas fogueiras.

A legislação portuguesa proíbe a alteração da água em vinho e qualquer falsificação de alimentos, mas deixa viver o clero à custa de truques antigos e de embustes recentes.

Na China a ressurreição é levada mais a sério. Se nem o presidente Mao nem os mais ilustres mandarins têm a ressurreição autorizada, por que motivo havia de ser autorizada a do Dalai Lama?

Mas proibi-la???

5 de Agosto, 2007 Carlos Esperança

Religião sim, terrorismo não

A rede terrorista Al-Qaeda, por meio de um americano convertido ao islamismo, ameaçou em um vídeo divulgado na internet neste domingo atacar as embaixadas e consulados ocidentais de todo o mundo, particularmente na região do Golfo.

A alegada bondade das religiões e o espírito pacífico do Islão não resistem à letra e ao espírito dos livros sagrados nem ao historial sangrento das guerras religiosas. Não foi à clarividência dos exegetas que ficou a dever-se a interpretação benigna da Bíblia, foi à Reforma, ao Iluminismo e à Revolução Francesa. Onde o poder eclesiástico se consegue impor mantêm-se constrangimentos autoritários de sabor medieval, seja em Timor, nas Filipinas, na Polónia ou na América do Sul.

O proselitismo demente do protestantismo evangélico americano tanto pode conduzir ao assassínio de médicos e enfermeiros de clínicas de aborto como à invasão do Iraque.

O que modera a agressividade dos desvarios da fé é o Estado de direito e a laicidade. No dia em que a religião, qualquer religião, dominar o aparelho de Estado, a democracia vai de férias e instala-se a teocracia. Não se pode esquecer que os Estados modernos foram erguidos contra o poder da Igreja. A Itália só existe porque os patriotas não temeram a excomunhão nem os exércitos papais.

O Islão não teve, infelizmente, a sua reforma. Nas madraças começa a fanatização das crianças e nas mesquitas apela-se ao ódio e à guerra santa, com os crentes de joelhos e virados para Meca.

Não há no Islão lugar para o agnosticismo e a vida, a laicidade e o pescoço, a liberdade de pensamento e o direito de existir. O medo, o constrangimento social e o aviltamento da mulher acompanham a decapitação, as vergastadas públicas e a lapidação que os clérigos imaginam extasiar o Profeta e cumprir a vontade de Deus.

Os países de mais sólidas raízes democráticas são herdeiros do direito romano que tem características civilistas, enquanto o direito helénico é de natureza política e o árabe de raiz teocrática.

As repetidas ameaças da rede terrorista Al-Qaeda são incompatíveis com a benevolência com que a Europa assiste à pregação do ódio nas mesquitas.

Respeitar e defender o direito à religiosidade, à arreligiosidade e, mesmo à anti-religiosidade é igual ao dever de vigiar, deter e fazer julgar pelos tribunais quem incite ao ódio, à violência e à xenofobia. Trata-se de fazer cumprir a lei e as constituições dos países democráticos, a começar pelas religiões que se julgam com direitos especiais.

5 de Agosto, 2007 Carlos Esperança

O medo e a religião

A religião nasceu do medo do desconhecido e da ignorância da ciência. Os homens criaram Deus à sua imagem e semelhança na infância de tempos cruéis e de práticas mais bárbaras.

Assim, Deus é o reflexo do pior que os homens sonharam, com uma esperança de vida reduzida e a sobrevivência diariamente comprometida. O Deus monoteísta, vingativo e apocalíptico, é uma elaboração a partir do medo e da incapacidade de explicar o mundo.

O homem fez-se escravo do mito e confundiu o criador e a criatura, a danação própria e a perversão divina, a violência atávica e o furor celeste. Depois, à medida que domou os animais ferozes, domesticou Deus e entregou a trela aos clérigos.

O que passa hoje é um exercício parecido com o dos treinadores de cães de guerra. Os padres açulam Deus às canelas dos ímpios e ameaçam com ele os crentes, tal como os polícias de choque fazem com os pastores alemães aos recalcitrantes que se manifestam contra a ordem estabelecida ou os exércitos com os inimigos que se aproximam.

A única diferença, e não é pequena, é que em democracia pode existir legitimidade na repressão, mas em questões de fé só existe a demência cega de quem não concorda com a mudança nem admite que se ponha em causa a tradição.

O crente é a vítima que teme que os padres lhe larguem Deus e lhe ferre o cachaço se não pagar o dízimo, rezar as orações e cumprir os mandamentos. E não basta esfolar os joelhos e arriscar a cólera clerical, se não fizer tudo como Deus manda tem a eternidade como horizonte temporal do sofrimento.

Os ateus, apóstatas e crentes da concorrência têm o cutelo para a degola, a pedra para a lapidação e o chicote para a correcção das imperfeições da fé. Basta que a fé dominante detenha o poder e solte os clérigos. Até as fogueiras voltam se a teocracia romana voltar.

No circo da religião maltratam-se as pessoas por vontade divina, mas por tradição e por desejo dos profetas são as mulheres as vítimas predilectas. Decorrem séculos e Deus mantém-se vivo nas alfurjas das sacristias onde germina o ódio e se conserva o espírito misógino.

3 de Agosto, 2007 Carlos Esperança

Reflexões sobre a moderação

Em economia podemos falar de um socialismo ou de um liberalismo moderados. A distância que separa o moderado do radical encontra-se no grau que cada um quer imprimir à sua aplicação.

Um socialista moderado contenta-se com um certo controlo do poder económico por parte do Estado de modo a impedir a economia privada de confiscar o poder político e transformá-lo numa oligarquia. De resto, deixa à iniciativa privada tudo o que não lhe permita dominar o aparelho do Estado. Também o liberal moderado reconhece que, para além da Defesa, Segurança e Justiça, cabe ao Estado um papel importante nas áreas da saúde, educação e segurança social. Um e outro podem aproximar-se tanto que não se distinguem.

Já não se pode falar de moderados com ideias totalitárias. É impossível imaginar nazis ou estalinistas moderados. É por isso que quando uma doutrina política ou religiosa se julga a única verdadeira não deixa lugar à moderação, cai no fundamentalismo e torna-se totalitária e perigosa.

Até hoje não percebi o que era um islamita moderado. É alguém que repudia a sharia, que aceita a igualdade dos sexos, que tolera os apóstatas, que combate a lapidação, a decapitação e outros crimes que agradam ao Profeta? Há gente assim?

Faço a mesma pergunta para os judeus e cristãos. Há-os moderados? Há quem renuncie ao que a Tora e a Bíblia determinam? Aceitam que se mude ou não se tenha religião? Não basta faltar-lhes força para impedirem o divórcio a quem o decide; não é suficiente que aceitem uniões de facto porque o direito penal ignora o canónico; não lhes confere a aura de moderados o facto de terem sido derrotados pela Reforma, o Iluminismo, a Revolução Francesa e o Secularismo. Moderados seriam se afirmassem a sua moral sem constrangerem os outros a cumpri-la. Doutro modo são fanáticos reprimidos.

Não há crentes moderados, há os que acreditam vagamente e os que se revêem na fé conforme as conveniências e as circunstâncias. Há, de facto cristãos moderados mas renegam quase tudo o que é dogma e o que vem nos livros sagrados. Não são crentes, são sócios de um clube de que não leram os estatutos e de que rejeitam os regulamentos.

É a vocação totalitária das crenças e o perigo da conquista do aparelho do Estado pelos seus próceres que obrigam as democracias a exigir o respeito pela laicidade, condição sine qua non para que o pluralismo seja possível, as diferenças não se convertam em divergências e estas em violência.

DA/Ponte Europa

3 de Agosto, 2007 Carlos Esperança

Millennium – bcp. Escândalo à portuguesa?

Joe Berardo diz que o banco continua a pagar seguranças a Jardim Gonçalves, furando o acordado. E diz que Jardim teme pela integridade física, deve dizê-lo.

Joe Berardo maltrata a língua portuguesa com a mesma desenvoltura com que agride as pessoas.

Todavia, as declarações sobre Jardim Gonçalves não podem, se se confirmarem, deixar de ser averiguadas. Se é verdade que o pio banqueiro dispõe de 40 seguranças e carros blindados, sabendo-se que, para os membros do Opus Dei, a vida é uma mera passagem para a glória eterna, então é porque a sua vale muito para a Prelatura.

A comparação que Joe Berardo faz com o Banco Ambrosiano, cuja falência sujeitou o Vaticano a enorme vexame e chorudas indemnizações, deve ser verificada. João Paulo II não deixou averiguar os crimes, impedindo que o arcebispo Marcinkus, o «banqueiro de Deus» fosse extraditado para Roma, onde os juízes queriam julgá-lo, mas Portugal não é o Vaticano. Portugal é um Estado de Direito.

As suspeitas levantadas pelo exótico comendador não podem ser ignoradas. E os factos referidos são suficientemente suspeitos. Quarenta seguranças e carros blindados!!!

2 de Agosto, 2007 Carlos Esperança

A ICAR e o sistema educativo português

A ICAR é uma multinacional da fé que, à semelhança da concorrência, só lhe interessa o poder. É por isso que a assistência e a educação, sobretudo de crianças de tenra idade, estão na primeira linha das suas atenções.

Para o Papa, a virgindade de Maria é uma patranha que mantém para não desautorizar Pio IX; as pessoas da Santíssima Trindade podem ser trezentas se ninguém questionar a sua autoridade; o reconhecimento de milagres e criação de santos são a mera gestão de expectativas de gente simples ou de oportunistas encartados.

A ICAR viu, com mágoa, a extinção das monarquias absolutas que continuam a ser o seu paradigma preferido. É curioso que o Cristo Rei e a mãezinha, Rainha dos Céus, são imaginados de acordo com o paradigma que as sociedades modernas e democráticas tornaram arcaico e deitaram para o caixote do lixo da História.

Apagaram-se as fogueiras, as pessoas deixaram de temer o inferno, envergonham-se os jovens de ir para o seminário e Deus é cada vez mais a referência mitológica, sem traços de beleza ou simpatia que deixaram muitos dos deuses da mitologia greco-romana.

É neste estado de desespero que o bando da sotaina se enerva e vocifera contra o Estado laico. Veja-se como o Sr. Maurílio de Gouveia lamenta saída das Irmãs Salesianas e condena manifestações de «autoritarismo» do Estado.

O Sr. Maurílio, bispo de Évora, reage como se houvesse monopólio do Estado ou tenha a ICAR o direito divino de substituir educadoras de infância e assistentes sociais por freiras. Os bispos ainda não compreenderam que é legítimo substituir uma sociedade de beatos por um País de cidadãos.

E nunca admitem a violência e maus-tratos que os estabelecimentos de ensino religioso prodigalizam às crianças.

30 de Julho, 2007 Carlos Esperança

Momento Zen de segunda

João César das Neves (JCN) debita homilias semanais cuja finalidade é a conversão dos réprobos mas não ultrapassa a penitência do beato. Vejamos a homilia de hoje.

Referindo-se à baixa natalidade – um facto indiscutível e preocupante -, responsabiliza o Governo em vez de apelar aos católicos para aceitarem os filhos que Deus lhes mandar, embora entre em contradição com os apelos à castidade que é frequente fazer.

Eis a débil argumentação do fundamentalista religioso: «Foi este Executivo que fechou maternidades, liberalizou e subsidia o aborto, impôs a educação sexual laxista. Ele é o herdeiro dos que facilitaram o divórcio, promoveram uniões de facto, promiscuidade, homossexualidade».

Este veredicto é deveras pungente e parece saído de quem, mergulhado em água benta, entrou em anóxia. Não é verdade que os países com mais alta taxa de natalidade são aqueles onde não há assistência médica e que os períodos históricos mais férteis foram os de mais pobreza e maiores carências alimentares, higiénicas e culturais?

Bem sabemos que o que dói ao pio colunista do DN é a legalização do aborto. Mas não saberá o devoto que a raiva que nutre pelo facto de não poderem ser presas as mulheres que abortem nos termos da lei, será vingada pelo castigo do seu Deus?

É arrasadora e comovente a acusação retroactiva ao primeiro-ministro: «Ele é o herdeiro dos que facilitaram o divórcio, promoveram uniões de facto, promiscuidade, homossexualidade».

JCN, na sua vocação totalitária, quer impor aos outros o seu catecismo? Quer ilegalizar o divórcio, proibir as uniões de facto, a promiscuidade (seja isso o que for) e prender os homossexuais? JCN não é apenas o beato que agrada aos padres, é o sacristão que quer abolir os direitos individuais e restaurar a polícia dos costumes.

Imagine-se a mentalidade de um fanático através da censura ao programa do Governo:
JCN abomina: “Combate à violência doméstica”, “Igualdade de género”, “Uma política de verdade para a interrupção voluntária da gravidez” e “Política de não discriminação”.

Eis um crente medieval, defensor dos bons costumes e, paradoxalmente, da castidade e da reprodução, sabendo que esta se faz, ainda, na forma mais popular – pelo método tradicional.

29 de Julho, 2007 Carlos Esperança

A santidade do Opus Dei

O Opus Dei é uma instituição que busca a perfeição espiritual dos seus membros e a satisfação da vontade divina.

Acontece, às vezes, que a vocação para a política e para o sector financeiro extravase a necessidade de salvação da alma e comprometa a imagem dos seus membros.

Os jejuns, as orações e os cilícios não ocupam todo o tempo destinado à santidade. Foi isso que permitiu ao virtuoso Escrivá apoiar o franquismo sem se esquecer, certamente, de rezar por mais de 900 mil espanhóis assassinados ou deportados pela ditadura.

O virtuoso monsenhor, que já em vida revelou odor a santidade, sentido por pituitárias pias, seria canonizado por João Paulo II, o Papa com maior faro para milagres e o mais dedicado a criar santos.

Claro que o Opus Dei teve percalços. Os casos Rumasa e Matesa são nódoas que caíram no pano impoluto da Obra, falências fraudulentas que os inimigos de Deus aproveitaram para denegrir a santa prelatura. Mais tarde a falência fraudulenta do Banco Ambrosiano salpicaria o Opus Dei e as autoridades italianas quiseram julgar o arcebispo Marcinkus, valendo a bondade de JP2 que não consentiu a extradição e impediu a investigação dos crimes.

Era o que faltava, enxovalhar nos tribunais a Obra que subsidiou o Solidariedade e que a única coisa que não consegue do Céu é que lhe mande dinheiro.

O Supremo Tribunal Suíço, localizado em Lausana, caracterizou, numa sentença, o Opus Dei como «associação secreta» que actua «ocultamente» com um máximo de opacidade nos seus assuntos.*

Coisas de juízes terrenos, que desconhecem a transparência do Opus Dei erm relação a Deus.

* O Mundo Secreto do Opus Dei – Robert Hutchison (pg. 450)

Portugal – Um falhanço da Opus Dei