Loading

Mês: Junho 2007

22 de Junho, 2007 Ricardo Alves

O mundo das religiões (22/6/2007)

  1. Os protestos, sobretudo no Paquistão, contra a atribuição de uma condecoração ao ateu anticlerical Salman Rushdie, que nasceu no Estado indiano de Caxemira, parecem começar a ter sucesso: Margaret Beckett, ministra dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, disse ontem que tinha «pena» que os muçulmanos estivessem ofendidos. O ministro dos Assuntos Religiosos do Paquistão já chegou a afirmar publicamente que o suicídio seria justificável para matar Salman Rushdie.
  2. A parada gay de Jerusalém acabou por ter lugar, embora os seus dois mil participantes tenham sido que ser escoltados por sete mil polícias. Centenas de judeus ortodoxos aproveitaram a ocasião para demonstrar os seus sentimentos de amor e fraternidade pelos seus semelhantes, incendiando caixotes do lixo e gritando insultos. Dezanove judeus fundamentalistas foram detidos pela polícia, um deles por planear atacar à bomba a manifestação.
  3. Mais de vinte e quatro mil pessoas assistiram ontem às cerimónias neo-pagãs que assinalaram o solestício em Stonehenge, no Reino Unido, um dos países do mundo onde o retorno a religiões pré-cristãs é mais significativo. Note-se que não existe qualquer continuidade histórica e sociológica entre as comunidades pré-celtas e os actuais neo-pagãos. Veja as fotografias.
  4. Um hacker identicado como «Gabriel» colocou na internete uma cópia do último capítulo do próximo livro da série Harry Potter, que estará à venda em Julho. «Gabriel» escreveu, no fórum onde deixou a cópia, que o seu acto de pirataria informática foi motivado pelas palavras de Ratzinger, que afirmou em tempos que «Harry Potter [arrasta] os jovens para o neopaganismo».
21 de Junho, 2007 Ricardo Alves

Abandonar o Islão

É hoje apresentado em Londres o Conselho dos Ex-Muçulmanos da Grã-Bretanha. A nova organização, liderada pela iraniana Maryam Namazie, apoiará todos aqueles que abandonem publicamente o Islão, e soma-se ao Conselho Central dos Ex-Muçulmanos da Alemanha, lançado em Março passado, e a movimentos de apóstatas do Islão na Escandinávia. Está prevista para Setembro a fundação de uma organização de apóstatas do Islão na Holanda. Todas estas organizações criticam implacavelmente os políticos e os media que escolhem como interlocutores, nas comunidades imigrantes, os dignitários religiosos. Tal como acontece com os outros europeus, a maioria dos cidadãos de origem muçulmana não se sentem representados por fundamentalistas religiosos. Como se pode ler no início do manifesto dos apóstatas de Londres:
  • «Nós, descrentes, ateus, e Ex-Muçulmanos, estamos a fundar e a juntar-nos ao Conselho dos Ex-Muçulmanos da Grã-Bretanha para insistir que ninguém seja estereotipado como um Muçulmano com direitos culturalmente relativos, e para que não se considere que somos representados por organizações islâmicas retrógradas e pelos “líderes da comunidade muçulmana”.
  • Aqueles de entre nós que se têm apresentado publicamente com os seus nomes e fotografias representam muitos outros que não podem ou não querem fazê-lo por causa das ameaças encaradas pelos que são considerados “apóstatas” – algo punido pela morte nos países sob a lei islâmica. Fazendo-o, estamos a quebrar o tabu de renunciar ao Islão e também a tomar uma posição pela razão, por direitos e valores universais, e pelo laicismo.
  • Embora ter ou não ter religião seja um assunto privado, a crescente intervenção e devastação causada pela religião e em particular pelo Islão na sociedade contemporânea suscitou a nossa declaração pública de renúncia. Nós representamos a maioria na Europa e um vasto movimento laico e humanista de protesto em países como o Irão
Recorde-se que, na religião islâmica, a apostasia é castigada com a pena de morte. Neste dia de tristeza para Alá e Maomé, o Diário Ateísta saúda todos os apóstatas.
21 de Junho, 2007 jvasco

Ateísmo na Blogosfera

  1. «Temos que partir daquilo em que concordamos. Por exemplo, que Odin não é um deus de verdade. Não é irrefutável, não é dogma, não é algo que eu não pretenda demonstrar ou não possa justificar. Mas é uma opinião que partilho com o Bernardo e com muitos outros crentes. É um bom ponto de partida para um diálogo porque não precisamos perder tempo a discuti-lo. Outra premissa útil é que uma longa tradição religiosa considerou Odin um deus de verdade. Não é axioma, mas é outra premissa aceitável. E destas premissas deduz-se que a tradição religiosa não justifica a crença num deus.

    Partindo de premissas aceites por todos e seguindo um raciocínio que todos considerem válido garante-se que todos irão concordar com a conclusão, seja qual for a sua opinião inicial. Assumindo que estão honestamente interessados no diálogo. Quem admite que A é verdade e que A implica B mas mantém a sua fé que B é falso não quer dialogar. E se cada um se limita a proferir os dogmas que considera irrefutáveis ninguém se entende. Como exemplo, aponto mil e quinhentos anos de animado diálogo entre o Cristianismo, o Judaísmo e o Islão.»(«Diálogo difícil, parte 1.», no Que Treta!)

  2. «Os mitos de destruição escatológica, que se traduzem na crença num apocalipse seguido de um julgamento final para alguns, são característicos de religiões sortidas, dos Maias aos Hindus. A ideia de que uma força maior efectivará a vingança das provações dos «justos», que aqueles que vemos como os nossos opressores sofrerão horrores inimagináveis, nem que seja no fim dos tempos, tem um apelo evidente para muitos.»Apocalipse Now», no De Rerum Natura)
  3. «Tal como acontecia na ocasião, também agora os sunitas e os shiitas continuam a lutar no Médio Oriente, os muçulmanos e os hindus na Caxemira, os budistas e os hindus no Sri Lanka, e os muçulmanos e os judeus em Israel.
    Mas duas coisas acontecem agora nesta nossa época pós-moderna e pós-Guerra Fria: a religião, frequentemente disfarçada de pressupostos ou fundamentos étnicos regressou à arena política; e as religiões continuam sem saber como conviver em paz umas com as outras.»
    Será que é realmente possível aprendermos a gostar das pessoas que não são como nós?», no Random Precision)
20 de Junho, 2007 Carlos Esperança

Eutanásia

O respeito pelos direitos individuais e pela dignidade humana estão a mudar as pessoas. É um processo lento que não acompanha a rápida secularização, umas vezes por cálculo político dos partidos, outras por preconceito e hipocrisia.

A eutanásia é uma palavra que, tal como a morte, parece ser do domínio do obsceno. É preciso que haja coragem para as trazer para a discussão pública, para fazer reflectir os que nunca têm dúvidas e gostam de verdades imutáveis.

Mal se avança num interdito beato e logo o apodo de assassinos carimba os que ousam pôr à discussão assuntos dolorosos ou dramáticos. Invocam Deus, em vão, à espera de que a Idade Média refulja em apoteose por entre fogueiras, torturas e banimentos.

É neste caldo de cultura que ganha relevância a afirmação de João Lobo Antunes, neurologista, membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida e mandatário nacional de Cavaco Silva na última candidatura presidencial: «Há situações em que acho que a devia ter feito [eutanásia]».

Não admira, pois, que – segundo um inquérito – 24% dos médicos oncologistas fariam eutanásia e 39% defendem a sua legalização. Estes médicos portugueses são os que melhor conhecem o paroxismo da dor e a crueldade de prolongar o sofrimento inútil.

Claro que aparecem os ressentidos do costume, incapazes de respeitar a vontade alheia, possessos de uma pulsão totalitária que pretendem impor a todos os outros as legítimas convicções que os outros lhes respeitam.

A eutanásia já se encontra legislada em países civilizados que têm pela vida e bem-estar das pessoas mais respeito do que aqueles que se opõem à discussão e que confundem o eventual direito com a imposição da obrigação.

A experiência holandesa é um bom ponto de partida para a reflexão serena e urgente.

20 de Junho, 2007 Helder Sanches

A Europa e o Criacionismo na Educação

Há dias felizes em que parece que, afinal, ainda existem políticos razoáveis.

Alguns membros da Assembleia Parlamentar do Concelho Europeu avançaram com uma moção para recomendação intitulada “The dangers of creationism in education“. Fica aqui a sua transcrição:

1. The Assembly asserts the standard setting role of the Council of Europe and is aware of its own responsibility in re-assessing the basis on which our societies are to be built. It recognises science as part of this basis.

2. The advance of scientific knowledge through the process of rational enquiry is thousands of years old. Ancient civilisations around the World made valuable contributions. Modern science started in Europe with the scientific revolution of the 15th and 16th centuries. This was followed by the Age of Enlightenment in the 18th and has continued to the present. New theories were seldom easily accepted by the establishment, as was the case for instance with Lamarck and Darwin’s work on evolution in the 19th century.

3. However, in recent years we have witnessed attempts to reconcile the biblical account of creation with modern science and outlaw the theory of evolution. “Creationists” pretend that “intelligent design” by a supreme entity is the scientific explanation for the universe.

4. Such an approach has no credibility among the scientific community but has succeeded in raising doubts in less informed minds, including persons with high political responsibilities, mainly in the USA but also in Europe. Some schools are now forced to teach creationism. The middle path of providing equal time for both merely offers a middle way between truth and falsehood.

5. Support for the scientific theory of evolution is almost universal among those with religious beliefs in Europe and nothing in this motion is intended as disrespect for any religion.

6. However, the Assembly is concerned at the possible negative consequences of the promotion of creationism through education and recommends that the Committee of Ministers assess the situation in the Council of Europe member countries and propose adequate counter-measures.

(Publicação simultânea: Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)

19 de Junho, 2007 jvasco

Ateísmo na Blogosfera

  1. «Em casos como o João César das Neves a verborreia sempre limita a densidade de disparates, com a palha a roubar espaço à treta nos interstícios. Mas, em geral, incomoda-me a falta de consideração pelo leitor ou ouvinte. As palavras desnecessárias só dão trabalho a ler e fazem perder tempo. As frases mal estruturadas mostram que o importante era pôr as palavras cá fora e não quem as quer pôr de novo lá dentro. Termos confusos e ambíguos proclamam “não tenho nada de jeito a dizer mas ouçam-me à mesma”.»(«Treta da Semana: A verborreia.», no Que Treta!)
  2. «O Museu da Criação perverte assim tudo o que sabemos sobre a História Natural. Os Museus de História Natural desenvolveram-se com o espírito iluminista, tentando abrir e mostrar a todos colecções enciclopédicas de objectos naturais abertos a investigação e organização. A evolução darwiniana trouxe a primeira teoria a esta massa de dados mais ou menos caótica. E a moderna genética proporcionou à evolução a sua base teórica num contexto bioquímico. Cada vez que tomamos vacinas anti-gripe confiamos implicitamente na teoria da evolução e selecção natural feita em tubos de ensaio.

    Do ponto de vista do Museu da Criação, a catástrofe é recente: tudo começou quando a autoridade literal da Bíblia foi abandonada pelos filósofos da Igreja que a começaram a tomar em sentido apenas figurado e não literal, bem como pelos filósofos do Iliminismo. Para o Museu e seus ideólogos, foi o plano inclinado que levou à crise actual do livre pensamento, do qual Deus nos guarde.»A CRIAÇÃO ESTÁ PRÓXIMA!», no De Rerum Natura)

  3. «Mas a mecânica quântica, a física nuclear e a relatividade geral também merecem as atenções dos «cientistas» com senso comum. Assim, consideram que a mecânica quântica, a relatividade e a física nuclear são anti-ciência e anti-biblícas. Consideram ainda que o atomismo “é incompatível com os princípios judaico-cristãos porque o atomismo apresenta a matéria independente de Deus, seja porque existe por toda a eternidade e nega a criação por um Desenhador Inteligente seja porque os seus movimentos e acontecimentos são independentes do controle por um Ser Soberano”.»Física Bíblica», no De Rerum Natura)
18 de Junho, 2007 Carlos Esperança

Momento Zen de segunda

Apesar de já referida pelo Ricardo Alves não resisto a comentar também a prosa do beato JCN.

João César das Neves (JCN) parece um clérigo saído do Concílio de Trento a defender a pureza da fé e a zurzir os infiéis. É a versão romana dos talibãs, um mullah para quem a verdade é um detalhe que não deve atrapalhar o proselitismo.

Ao acusar a República portuguesa de perseguição religiosa, por ignorância ou má fé, esquece os caceteiros de Paiva Couceiro e o clero ultramontano que nunca perdoaram ao regime a lei do divórcio, a do Registo Civil obrigatório e, sobretudo, a da separação da Igreja e do Estado.

JCN pensa que os portugueses são cegos. Ao afirmar na sua homilia de hoje que, em Portugal, «a expressão religiosa é possível, mas deve ser privada, e as manifestações da civilização cristã são silenciadas ou distorcidas», vê-se que não assiste à missa dominical pela televisão pública, perde as cerimónias de Fátima em directo, não acompanha o terço na rádio Renascença e não vê as reportagens das viagens papais nem ouve a mensagem de Natal do patriarca Policarpo.

A RTP, na sua dedicação à causa da fé, tem um sacerdote católico avençado na RTP1, de manhã, onde é presença regular. Haverá, pois, alguma honestidade na queixa de JCN?

Há uma justificação plausível para o delírio mitómano – as suas próprias palavras:
«Quem se afunda no deboche e sofre as suas dramáticas consequências sente a necessidade de descarregar os remorsos».