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8 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

Tolerância e ecumenismo

O arcebispo de Canterbury, Rowan Willians, líder espiritual dos anglicanos de todo o mundo, sugeriu ontem a adopção de alguns aspectos da lei islâmica, a sharia, no Reino Unido.

Quando o mais alto dignitário da Igreja anglicana apela à derrogação do Código Penal do seu País, para o deixar substituir, ainda que parcialmente, pelo exercício da violência teocrática para um grupo étnico específico, não é o respeito pelas culturas alheias que o move, é a vontade de restaurar o direito canónico da sua Igreja.

O Iluminismo e a revolução Francesa substituíram o direito divino pela vontade popular e criaram o Estado de direito contra os costumes ancestrais. Hoje, nas democracias, vale mais a Declaração Universal dos Direitos do Homem do que as verdades reveladas cuja aplicação faria as delícias dos trogloditas da fé.

O arcebispo de Canterbury não é uma piedosa alimária a quem os jejuns perturbem a mente, um beato analfabeto que saia da missa dominical aterrorizado com o juízo final, um solípede alucinado com a falta da ração. A sua insólita sugestão, que fez exultar os mullahs, é mais uma ameaça nascida nas alfurjas das sacristias onde germina a raiva à modernidade e floresce o ódio à liberdade.

Os líderes muçulmanos vieram logo dizer que não apoiam as decapitações, enforcamentos e lapidações, EM PÚBLICO, tão do agrado do Profeta. Contentam-se com a aplicação discreta e com a abolição desse modernismo hediondo que exige a igualdade entre homens e mulheres, uma conquista civilizacional de que Maomé nunca ouviu falar ao arcanjo Gabriel ao longo dos vinte anos que viajaram juntos entre Meca e Medina, até aprender de cor o Corão.

A tolerância manifestada pelo arcebispo anglicano é o mais violento ataque aos direitos, liberdades e garantias que as sociedades democráticas conquistaram. No ano passado o Reino Unido removeu o Holocausto dos currículos escolares porque ofendia os muçulmanos, que afirmam que o Holocausto nunca aconteceu.

Os ataques orquestrados à laicidade debilitam a democracia e comprometem o futuro da paz, perante a cobardia face à escalada da violência religiosa.

8 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

Notícia pia

Faleceu esta Quarta-feira na Espanha o fundador dos Cursilhos de Cristandade, Eduardo Bonnín, de 90 anos. O funeral realiza-se a 12 de Fevereiro, na Catedral de Palma de Maiorca.

Comentário: Conheci várias vítimas dos «cursilhos» e fui fortemente assediado em 1964 e 1965 para a sua frequência, na Foz do Arelho. Faziam lavagens ao cérebro que, depois, continuavam com forte vigilância sobre os «convertidos».

8 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

Quem torto nasce…

Proselitismo e anti-semitismo

«O principal cardeal do Vaticano para relações com os judeus negou nesta quinta-feira que uma nova oração pedindo a conversão deles seja ofensiva e afirmou que os católicos tinham o direito de rezar como quiserem.

O cardeal Walter Kasper falou em uma entrevista para um importante jornal italiano um dia depois de líderes judaicos mundiais dizerem que a nova oração poderia ser um retrocesso de décadas para o diálogo intra-religioso». (Reuters)

7 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

Mutilação genital feminina (2)

A violência dos fanáticos

Às vezes dou por mim a pensar que já nada pode surpreender-me. A ditadura em que vivi, o terrorismo religioso das catequistas da minha infância, a guerra colonial, as viagens pelo mundo e algum conhecimento da história das religiões, bem como das misérias e violência do quotidiano, deviam servir-me de vacina para a demência da fé.

Nada disso. O pensamento dos fanáticos, dos mesmos que matam e morrem por um mito, que não admitem quem pense de forma diferente da sua, são um exemplo do que pode a demência da fé e o despautério do fanatismo.

Há tempos referi no Diário Ateísta a prosa do órgão oficial de uma diocese espanhola que, perante um caso de violência doméstica, em que o marido tinha assassinado a mulher, referia, com a mais boçal indigência e crueldade, que bem pior era o crime do aborto porque se um homem mata uma mulher é porque certamente ela o provocou, ao contrário do feto a que chamava criancinha por nascer.

Agora, perante o drama silencioso e cruel da excisão genital feminina, um leitor do Diário Ateísta, profissional nas caixas de comentários, atreve-se à mesma hedionda provocação.

Há na fé destes devotos a sanha brutal contra a mulher, a incontinência verbal dos fiéis, o ódio vesgo à liberdade individual e uma perversão dos valores que transforma pessoas de bem em fanáticos perigosos.

Por cada Alberto fanatizado há, algures, uma mulher a esvair-se em sangue.

6 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

Mutilação genital feminina

Em nome da tradição tanto se pode defender a morte do touro em Barrancos como a lapidação de uma mulher por adultério. Não há selvajaria, malvadez ou crueldade que não tenha na tradição argumentos de peso e trogloditas defensores.

As mulheres foram, sempre, vítimas predilectas do pecado original e da selvajaria dos homens ou de outras mulheres. Foram queimadas por bruxaria, vergastadas por adultério, repudiadas pelos maridos, casadas por imposição dos pais e exoneradas dos direitos cívicos e humanos pela legislação sexista. O martírio, a desonra e a humilhação foram o ónus do género que as religiões acolheram e as tradições consagraram.

Dentre as tradições mais abjectas conta-se a «mutilação genital feminina» uma forma de impedir à mulher o prazer sexual, de lhe causar sofrimento atroz e de lhe provocar, com frequência, a morte.

Dir-se-á que esta selvajaria não é, tal como outras, imposição religiosa. É verdade, mas não deixa de estar associada a costumes onde, quase sempre, há uma forte implantação do Islão. E, naturalmente, a componente mercantilista de um próspero negócio.

Não há grande diferença entre o facínora que se aluga para disparar um tiro de escopeta num inimigo a abater e a mulher que se contrata para fazer a excisão numa menina. Há nesta selvagem crueldade o peso de séculos e na condescendência ou cumplicidade uma cobardia que envergonha o género humano.

Malditas tradições, maldita gente que respeita um negócio destes, maldita fé que o consente.

Adenda: Vídeo sobre a «mutilação genital feminina»