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8 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

Notícia pia

Faleceu esta Quarta-feira na Espanha o fundador dos Cursilhos de Cristandade, Eduardo Bonnín, de 90 anos. O funeral realiza-se a 12 de Fevereiro, na Catedral de Palma de Maiorca.

Comentário: Conheci várias vítimas dos «cursilhos» e fui fortemente assediado em 1964 e 1965 para a sua frequência, na Foz do Arelho. Faziam lavagens ao cérebro que, depois, continuavam com forte vigilância sobre os «convertidos».

8 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

Quem torto nasce…

Proselitismo e anti-semitismo

«O principal cardeal do Vaticano para relações com os judeus negou nesta quinta-feira que uma nova oração pedindo a conversão deles seja ofensiva e afirmou que os católicos tinham o direito de rezar como quiserem.

O cardeal Walter Kasper falou em uma entrevista para um importante jornal italiano um dia depois de líderes judaicos mundiais dizerem que a nova oração poderia ser um retrocesso de décadas para o diálogo intra-religioso». (Reuters)

7 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

Mutilação genital feminina (2)

A violência dos fanáticos

Às vezes dou por mim a pensar que já nada pode surpreender-me. A ditadura em que vivi, o terrorismo religioso das catequistas da minha infância, a guerra colonial, as viagens pelo mundo e algum conhecimento da história das religiões, bem como das misérias e violência do quotidiano, deviam servir-me de vacina para a demência da fé.

Nada disso. O pensamento dos fanáticos, dos mesmos que matam e morrem por um mito, que não admitem quem pense de forma diferente da sua, são um exemplo do que pode a demência da fé e o despautério do fanatismo.

Há tempos referi no Diário Ateísta a prosa do órgão oficial de uma diocese espanhola que, perante um caso de violência doméstica, em que o marido tinha assassinado a mulher, referia, com a mais boçal indigência e crueldade, que bem pior era o crime do aborto porque se um homem mata uma mulher é porque certamente ela o provocou, ao contrário do feto a que chamava criancinha por nascer.

Agora, perante o drama silencioso e cruel da excisão genital feminina, um leitor do Diário Ateísta, profissional nas caixas de comentários, atreve-se à mesma hedionda provocação.

Há na fé destes devotos a sanha brutal contra a mulher, a incontinência verbal dos fiéis, o ódio vesgo à liberdade individual e uma perversão dos valores que transforma pessoas de bem em fanáticos perigosos.

Por cada Alberto fanatizado há, algures, uma mulher a esvair-se em sangue.

6 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

Mutilação genital feminina

Em nome da tradição tanto se pode defender a morte do touro em Barrancos como a lapidação de uma mulher por adultério. Não há selvajaria, malvadez ou crueldade que não tenha na tradição argumentos de peso e trogloditas defensores.

As mulheres foram, sempre, vítimas predilectas do pecado original e da selvajaria dos homens ou de outras mulheres. Foram queimadas por bruxaria, vergastadas por adultério, repudiadas pelos maridos, casadas por imposição dos pais e exoneradas dos direitos cívicos e humanos pela legislação sexista. O martírio, a desonra e a humilhação foram o ónus do género que as religiões acolheram e as tradições consagraram.

Dentre as tradições mais abjectas conta-se a «mutilação genital feminina» uma forma de impedir à mulher o prazer sexual, de lhe causar sofrimento atroz e de lhe provocar, com frequência, a morte.

Dir-se-á que esta selvajaria não é, tal como outras, imposição religiosa. É verdade, mas não deixa de estar associada a costumes onde, quase sempre, há uma forte implantação do Islão. E, naturalmente, a componente mercantilista de um próspero negócio.

Não há grande diferença entre o facínora que se aluga para disparar um tiro de escopeta num inimigo a abater e a mulher que se contrata para fazer a excisão numa menina. Há nesta selvagem crueldade o peso de séculos e na condescendência ou cumplicidade uma cobardia que envergonha o género humano.

Malditas tradições, maldita gente que respeita um negócio destes, maldita fé que o consente.

Adenda: Vídeo sobre a «mutilação genital feminina»

5 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

Espanha – PSOE compromete-se a rever privilégios da ICAR

 A luta deixou de ser entre o PSOE e o PP, os dois partidos hegemónicos que asseguram a alternância do poder, em Espanha, e passou a ser um braço de ferro entre o Governo legítimo e a Conferência Episcopal Espanhola.

Quiseram os bispos disputar as eleições e fazer do PP o braço armado da ICAR. Acabaram por remeter o PP para o lugar secundário de sacristão de uma Igreja toda-poderosa que não abdica do poder que a cumplicidade com o franquismo lhe outorgou.

A agressividade episcopal e a ostensiva participação na campanha eleitoral através dos púlpitos está a deixar vários padres e muitos católicos à beira de um ataque de nervos. Seja qual for o resultado eleitoral a primeira vítima será a fé.

O clero espanhol não se conforma com a sociedade plural, tolerante e democrática que nasceu dos escombros do franquismo e a democracia é um caminho longo e difícil para quem gostaria de ver canonizados os impiedosos reis católicos, Fernando e Isabel.

A partir de 9 de Março, se Zapatero ganhar as eleições, a Igreja católica espanhola pode sofrer a mais severa e dolorosa punição que a sua gula merece, perder o financiamento público. Perde onde mais lhe dói, nos generosos benefícios financeiros que o PSOE lhe tem prodigalizado.

4 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

As diversas faces do totalitarismo

Jorge Sampaio é o primeiro alto representante da ONU para o Diálogo das Civilizações, a convite do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon. Pode dizer-se que, pela sua cultura, humanismo, tolerância e capacidade diplomática, foi escolhido o homem certo para o lugar certo e, no entanto, subsistem as mais legítimas dúvidas sobre o êxito dos esforços.

O conflito de civilizações é um mito para esconder o carácter totalitário e o proselitismo das diversas religiões. Não se trata, pois, de estabelecer pontes entre quem aprecia carne de cão e os que preferem leitão assado, entre os que aprenderam a comer arroz com dois pauzinhos e os que precisam de uma colher para o transportarem do prato à boca.

 Não há qualquer conflito entre esquimós e índios, entre indianos e europeus ou árabes e americanos. Não são os usos e costumes que acirram ódios mas sim a vontade de Deus interpretada pelos profissionais da fé, sempre obstinados a converter ou exterminar.

Há hoje um anti-semitismo demente do Islão que o sionismo exacerba, uma islamofobia crescente e generalizada perante o terrorismo que nasce do ódio transmitido às crianças nas madraças e alimentado nas mesquitas aos adultos.

O que está em causa é o ódio entre religiões ou entre seitas da mesma fé, todas com o exclusivo do Deus verdadeiro e portadoras do único alvará da agência de transportes para o Paraíso.

Não são a cruz, o kipá, o crescente islâmico ou o véu islâmico a cobrir a cara que repelem as pessoas, embora sejam muitas vezes a afirmação da identidade e uma provocação ostensiva. O que verdadeiramente divide, intimida e agride é a exigência de cada um a que todos os outros se submetam à sua fé.

Só a separação Igreja/Estado pode assegurar a paz religiosa e a liberdade para todos os credos e para ausência deles e sobrepor a vontade humana livremente manifestada em eleições livres à vontade de Deus tirada de velhas cópias de um livro da Idade do Bronze, adulteradas pelos desejos e tradições tribais dos guardas dos velhos mitos.

3 de Fevereiro, 2008 Ricardo Alves

Liberdade para todos

O Tempo das Cerejas, Vítor Dias escandaliza-se com o reconhecimento estatal da Igreja da Cientologia.
Não percebo porquê. Tudo aquilo que descreve (aliciamento insistente, corte com os laços familiares, controlo da correspondência privada, redes de influência mundial, crenças extravagantes) é comum a outras organizações religiosas mais respeitadas, como o Islão, os mórmones ou a ICAR. É evidente que haverá diferenças de grau, entre todas estas seitas, quanto aos aspectos referidos, mas não há diferença de natureza. Os numerários do Opus Dei também têm a sua correspondência controlada. Jesus Cristo defendeu a ruptura dos laços familiares. E a crença de que Maomé falou com um «anjo» não é melhor do que a de que a ideia cientologista de que houve uma guerra galáctica há milhões de anos.
Ao contrário de Vítor Dias, não me preocupa particularmente que a Comissão de Liberdade Religiosa tenha dado parecer positivo ao reconhecimento da Igreja da Cientologia (se o deu). O problema é o Estado poder conferir esse reconhecimento, distinguindo as comunidades religiosas umas das outras, hierarquizando-as, e que o faça através de uma Comissão onde se sentam representantes de outras comunidades religiosas.
No meu entender, o melhor seria que o Estado não reconhecesse comunidade religiosa alguma. Existe o direito de associação e o direito de manifestação. Quem quer partilhar a sua «vida espiritual» com outros, pode portanto fazê-lo, dentro do quadro legal, sem necessidade de «reconhecimento» estatal da «especificidade» religiosa. E o Estado não pode negar aos cidadãos a liberdade de seguirem uma dada religião, nem pronunciar-se sobre a validade das crenças religiosas.
Ou será que a liberdade é só para os católicos e islâmicos, mas não para os cientologistas?

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]