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24 de Março, 2008 Mariana de Oliveira

Filme anti-Islão suspenso

Foi anunciada, no passado dia 23, a suspensão do site em que o deputado holandês de extrema-direita, Geert Wilders, ia divulgar o seu filme anti-islâmico.

Não morro de amores pelo islâmismo, assim como não morro de amores por qualquer outra religião. No entanto, reconheço que a liberdade de culto e de religião são valores fundamentais intrínsecos a qualquer Estado de Direito Democrático e, como tal, devem ser defendidos por todos. Ora, apesar de alguns adeptos do islamismo não serem, como todos sabemos, defensores da tolerância e da liberdade religiosa, não podemos, como sociedade que se quer livre e esclarecida, dar cobertura a ideias discriminatórias, sob pena de cairmos nos mesmos erros que criticamos.

A liberdade de que gozamos implica tolerância e respeito pelo próximo. Obviamente que não implica que não discutamos nem critiquemos as posições contrárias às nossas. É essencial que tratemos os nossos opositores com todo o respeito e tolerância com que queremos ser tratados. Isto é uma regra elementar da boa convivência social.

Mensagens de ódio e de preconceito – como as veiculadas pelo vídeo acima mencionado – apenas tornam qualquer troca de ideias infrutífera e pioram o problema da compatibilização da religião (islâmica, neste caso) com a sociedade.

24 de Março, 2008 Carlos Esperança

O Governo, os supermercados e a ICAR

O Governo colocou na agenda a questão da abertura do comércio aos domingos e feriados à tarde, depois do legítimo encerramento, pela ASAE, de seis hipermercados na última Sexta-Feira mais ou menos santa.

O problema está na lei que, para agradar à ICAR, mantém uma interdição anacrónica e beata.

A este respeito, em 25 de Julho de 2001, tornei público o seguinte texto:

«Se o dogma é um insulto à inteligência mas uma vitória para a fé, se agride a razão mas purifica a alma, se fecha os caminhos difíceis da ciência mas abre as largas avenidas da salvação, como é possível haver quem o enjeite? – O Governo português não.

Como diria o Eça, estava o Ministério, moderadamente jejuado, razoavelmente confessado e melhor comungado quando piedosamente se pronunciou sobre o horário do comércio, não se dissesse que o liberalismo económico encontrara em Portugal terreno fértil. Privatizaram-se as seguradoras e os bancos, é verdade; condescendeu-se com a liberalização dos combustíveis e da energia; as comunicações e os cimentos entregaram-se aos privados, mas o Estado chamou a si o horário das mercearias. Nos mares, nas estradas e nos ares circula a iniciativa privada mas respeita-se, na compra do sabão amarelo, o horário das repartições. Não tem horário a gasolina mas têm hora marcada a posta de pescada e o quilo de feijão carrapato.

Andou bem o Governo em proibir às grandes superfícies a abertura de portas ao Domingo. Preferiu a santa missa à venda dos legumes; dificultou a aquisição de frescos mas facilitou a divulgação das homilias; alguns bacalhaus ficaram por vender mas promoveu-se a eucaristia, com hóstias sem código de barras, nem prazo de validade, guardadas sem rede de frio nem inspecção sanitária. Folgam as caixas registadoras nas tardes de Domingo mas agitam-se as bandejas na missa do meio-dia.

Contrariamente ao que eu supunha, não houve, porém, festa nas sacristias, não rejubilou o patriarcado, não aconteceu um lausperene. Nem uma missa de acção de graças. Nem uma noveninha. Provavelmente algum padre-nosso rezado na clandestinidade ou uma ave-maria balbuciada por uma beata enquanto resistia à tentação da carne e ao assédio do marido. A própria Conferência Episcopal desistiu da pastoral da mercearia».

24 de Março, 2008 Ricardo Alves

Celebrar a violação do segundo princípio da termodinâmica

O mito central do cristianismo é a «ressurreição». Cristãos a sério como os do leste da Europa têm na «Páscoa» a festa central do seu calendário. Os católicos, com a sua pitoresca mistura de paganismo, cristianismo e consumismo, criaram uma religião pseudo-cristã que tem no «Natal» a sua festa mais importante.

É a suposta violação de uma das mais fundamentais leis do universo que os cristãos celebram nesta altura do ano. Se não fosse uma violação de uma lei evidente até mesmo para os pastores semitas de há dois mil anos, não valeria a pena celebrá-la. Não se funda uma religião autoritária a partir de factos evidentes como a queda de uma pedra abandonada no ar, a água correr para a foz, ou ser impossível restaurar um copo partido em mil pedaços. Os chamados «milagres» são quase todos violações grosseiras do funcionamento conhecido da natureza, e é por isso que têm valor e que acreditar neles dá estatuto dentro de uma comunidade religiosa.

Que tratemos com respeito comunidades que exaltam a crença em perfeitos disparates não abona a favor da nossa sociedade.

E como se não bastasse celebrarem uma completa impossibilidade, os nossos vizinhos católicos ainda por cima acrescentaram-lhe uns detalhes grotescos com sangue, cruzes, espinhos e dor, muita dor. Sinceramente, não entendo como se pode celebrar a chegada da Primavera com cerimónias que recordam a dor, ostentam a dor, homenageiam a dor, se deleitam com a dor. Celebrar a Primavera deveria convidar aos primeiros passeios pelo campo ou pela praia, em boa companhia e depois de bem servido de mesa.

No fundo, as nozes com chocolate são uma escolha mais racional do que a crucificação. E não enganam ninguém.

23 de Março, 2008 Ricardo Alves

Vaticano confirma: Bin Laden foi injusto

Conforme eu já afirmara, o repúdio do Vaticano pela liberdade de expressão sempre foi inquebrantável, e portanto as acusações de Bin Laden foram injustas. É a própria sala de imprensa do Vaticano quem agora recorda que o Papa esteve do lado do islamismo durante a crise dos cartunes:

  • «O Papa e o Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso censuraram a campanha satírica contra o Islão em mais de uma ocasião» (Zenit).
23 de Março, 2008 Carlos Esperança

Hoje é dia de Páscoa cá no burgo

A Páscoa é pelos motivos que um homem quiser. Os judeus celebram a saída do Egipto e os cristãos comemoram a ressurreição de Cristo. Com o tempo, perdem-se a memória do plágio e os motivos da festa.

Hoje é dia Páscoa – dia em que JC ressuscitou dos mortos, com quem esteve a estagiar. Depois andou por aí, como alguns políticos, visitou quem quis e foi visto pelos que acreditaram ou, melhor, pelos que acreditam que houve quem o visse.

Ontem, ainda o ícone da lenda cristã fazia de morto, já os pantagruélicos festins tinham lugar para gáudio da indústria da restauração. Hoje, com o número da ressurreição feito, está tudo fechado. Quis um sítio para tomar um café e não encontrei quem mo servisse.

Despregado do sinal mais onde se finou, JC estagiou num túmulo, como toda a gente, e, para animação do negócio pio a que deu origem, subiu ao Céu e sentou-se à mão direita de deus-pai, um troglodita de mau feitio cuja biografia vem, em toda a sua crueza, num livro pouco recomendável e de origem duvidosa – o Antigo Testamento.

Para mim, que há muito deixei de acreditar nas pias fantasias e elucubrações católicas, é-me indiferente que JC se tenha dedicado à carpintaria, para continuar o negócio de família, ou se tenha afeiçoado à pregação e aos milagres, ao tempo o mais promissor segmento do sector terciário de uma economia rudimentar.

O que me dói, independentemente dos laivos politeístas da ICAR, com um deus-pai, o deus-filho, a mãe do filho, a pomba e muitos outros filhos da mãe cujos cadáveres eleva à condição de santos, o que me dói – dizia –, é não ter um sítio para tomar café.

Se a Páscoa da Ressurreição servisse para fazer o número de um morto que se cansa da posição, dá uns passeios e emigra para o Céu, mas não fechassem os Cafés, eu não estaria aqui a amaldiçoar a beata gazeta dos industriais da restauração.

Aprecio mais um bom café do que uma ressurreição bem feita. 

22 de Março, 2008 Carlos Esperança

Origens europeias

Seria estultícia negar a influência das religiões e guerras pias que dilaceraram a Europa e que, tal como a cultura helénica e o direito romano, a moldaram. Seria, no entanto, perigoso esquecer que foi a anemia da religião que tornou possível a liberdade, que foi a perda do poder temporal da Igreja católica e da sua influência política que tornaram possível o espaço de liberdade em que, pesem embora as desigualdades e injustiças sociais que ainda persistem, se transformou a Europa.

A violência sagrada foi sempre filha da fé e dos interesses que à sua volta gravitam. Da Irlanda do Norte ao Chipre e à ex-Jugoslávia quantas mortes se devem aos desvarios da fé e à competição pelo negócio das almas?

Persistir nas referências religiosas da Europa e na sua consagração constitucional não é apenas redundante, é uma provocação às religiões excluídas, um braço de ferro com a laicidade e um desafio à secularização que permitiu a exclusão religiosa dos motivos de confronto no espaço civilizacional europeu.

Há uma conquista civilizacional de que todos beneficiamos, crentes, ateus e agnósticos, o carácter laico do Estado e a lógica separação das Igrejas. O proselitismo incorrigível dos crentes é um perigo que espreita das madraças de cada seita, dos púlpitos de todas as religiões.

Quem nos defende da obsessão que alguns sentem de salvar todos os outros? Por que motivo não se contentam com a salvação própria deixando na paz das perpétuas chamas os que se desinteressam da salvação da alma, apesar dos mimos e das ameaças?

21 de Março, 2008 Mariana de Oliveira

O problema é o latim

De acordo com a Agência Lusa, o Conselho dos Judeus da Alemanha «criticou o regresso da oração em Latim pelos judeus na Sexta-Feira Santa, considerando-a retrógrada e discrimatória da sua religião».

Na oração é pedido que os judeus reconheçam Jesus Cristo como o salvador de toda a humanidade e que, para isso, sejam devidamente iluminados por ele.

A presidente do Conselho dos Judeus da Alemanha, «entende que essa formulação representa um retrocesso em relação à de 1970, instituída pelo Papa Paulo VI, em que se dava um tratamento, a seu ver, mais respeitoso e conforme a vontade comum de diálogo interconfessional».

21 de Março, 2008 Carlos Esperança

Páscoa

Dizem-me que:

 A Páscoa é sempre no primeiro Domingo depois da primeira lua cheia após o equinócio de Primavera (20 de Março).

Esta datação baseia-se no calendário lunar que o povo hebreu usava para identificar a Páscoa judaica, razão pela qual  é uma festa móvel no calendário romano. Mas sei que o imperador Constantino, no Concílio de Niceia, também se meteu no assunto, com a ajuda de 318 bispos, no ano 325.

Este ano a Páscoa acontece mais cedo do que qualquer um de nós voltará a viver! E só o Manuel de Oliveira e poucos mais viram alguma vez uma Páscoa tão temporã (maiores de 95 anos!).

A próxima vez que a Páscoa vai ser tão cedo como este ano (23 de Março) será no ano 2228 (daqui a 220 anos). Já poucos seremos vivos! A última vez aconteceu em 1913.

A próxima vez em que a Páscoa for um dia mais cedo, 22 de Março, será no ano 2285 (daqui a 277 anos). A última vez que foi em 22 de Março corria o ano 1818. Por isso, ninguém que esteja vivo hoje, viu ou irá ver uma Páscoa mais cedo do que a deste ano.

Quanto aos votos canónicos que é mister apresentar nestas festividades, relacionadas com o equinócio da Primavera, deixo para outros, mais créus, a formulação acompanhada do adjectivo relacionado com a santidade.

Ficam, porém, os votos de um bom fim-de-semana alargado e um abraço, para todos os leitores do Diário Ateísta.