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12 de Janeiro, 2009 Carlos Esperança

Preocupações do general da fé

No DN de hoje, o bispo católico Januário Torgal Ferreira, comandante espiritual dos católicos fardados, por atropelo à laicidade, declarou que uma campanha idêntica à britânica, que lembra a possibilidade de Deus não existir, pode chocar os crentes.

Deveria chocar mais a campanha que há oito séculos garante que deus existe sem apresentação de provas. Curiosamente, no último 13 de Maio, a ICAR promoveu uma peregrinação a Fátima «contra o ateísmo» tendo como chefe da expedição bélica o cardeal que em Roma se dedicava a certificar milagres e criar santos – o português Saraiva Martins.

Num País onde a Reforma não teve lugar mas a Contra-Reforma foi violenta os crentes acostumaram-se a que a ICAR pudesse, aliada à ditadura, perseguir os descrentes e, jamais, a que pudessem manifestar-se vozes discordantes.

Para quem vive da alegada existência de deus é natural que a perda do monopólio deixe os bispos à beira de um ataque de nervos. O bispo Januário Torgal Ferreira passará em Fevereiro à reforma, como major-general do exército, com 3.687,25 €€, depois de ter o monopólio religioso das Forças Armadas Portuguesas.

Deus pode não existir, mas dá direito a reforma. Paga também pelos ateus.

11 de Janeiro, 2009 Carlos Esperança

Embustes da fé

Alguns avençados do divino garantem que é «a fé para acreditar em Deus é semelhante à fé para não acreditar em Deus». Trata-se naturalmente de um embuste que a maiúscula da palavra «Deus» logo trai.

Poderíamos repetir a frase com que o escritor Paulo Coelho, agora numa fase mística, faz propaganda da crença, em relação a outros mitos. Veja-se por exemplo esta: «A fé para acreditar em Sereias é semelhante à fé para não acreditar em Sereias» e ver-se-á a dimensão da tolice sem precisar de argumentos.

Curiosamente, sabendo-se que Bush e a Alexandra Solnado já afirmaram ter falado com deus e que a Irmã Lúcia foi visitada por Cristo, na sua cela em Tuy, não podemos deixar-nos enganar por provas testemunhais apesar da credibilidade das testemunhas, sobretudo da Lúcia e da Alexandra Solnado.

Quanto às Sereias, são numerosos os testemunhos de marinheiros e até de Cristóvão Colombo que as avistou na costa da América e disso nos deu testemunho. No entanto, muitos aceitarão que se levassem mulheres a bordo os marinheiros não teriam reparado nas Sereias.

Está por esclarecer o estado mental com que Moisés falou com deus no monte Sinai ou Maomé com o arcanjo Gabriel entre Medina e Meca.

Uma coisa é certa, não devemos acreditar em afirmações para as quais não possam ser apresentadas provas. Portanto, provavelmente deus não existe.

11 de Janeiro, 2009 Ricardo Alves

Autocarrros ateístas espalham-se pelo mundo

Numa demonstração da realidade da memética dawnkinsiana, a ideia de colocar publicidade ateísta em autocarros, primeiro experimentada em Londres, já se espalhou por Madrid, Barcelona e Washington.
Alguém sabe quanto custaria realizar esta ideia em Lisboa ou no Porto?
Agradece-se a resposta informada de publicitários e outros empresários dessa área na caixa de comentários.

10 de Janeiro, 2009 Carlos Esperança

Assaltantes de igrejas

A GNR identificou na região de Oliveira de Azeméis, os alegados autores de, pelo menos, 35 assaltos a Igrejas e Capelas na zona Centro do país.

É um bando de delinquentes à procura do óbolo que os crentes deixam nas caixas de esmolas para comprarem os favores dos santos junto do mito que a ICAR explora há dois mil anos. São promessas de gente que frequenta as bruxas, a Senhora da Ladeira, Fátima e outros locais de recolha das esmolas, que não interferem nos milagres.

Os malfeitores merecem o castigo terreno para os crimes praticados, seja o assalto às caixas das esmolas ou o roubo de arte sacra, mas é irónico que a ICAR se queixe dos roubos sem ter de justificar a proveniência. No mínimo, as esmolas contribuem para o enriquecimento ilícito pois não está provado que ao esbulho dos crentes corresponda qualquer benefício em troca.

Aliás, os ladrões podem sempre argumentar que ouviram uma voz que lhes pediu para levarem o dinheiro e as peças de arte sacra para distribuírem o produto pelos pobres, facto com um grau de probabilidades idêntico às conversas que a Virgem teve com os pastorinhos, em Fátima, e incomparavelmente superior à possibilidade de Pio XII ter visto o Sol às cambalhotas nos jardins do Vaticano.

Não sei como um tribunal poderá ser insensível à possibilidade de a Virgem ter incitado os meliantes a distribuírem os valores sacros pelos pobres, dado que, entre as suas habilidades, consta a capacidade de meter a mão nas entranhas de um papa supersticioso e desviar-lhe a bala dos órgãos nobres.

Entre a negação dos milagres da ICAR, igualmente inverosímeis, e a absolvição dos meliantes, os juízes são obrigados a decidir. Sem recurso para o tribunal divino.

9 de Janeiro, 2009 Ludwig Krippahl

Evolução: Por toda a parte

É comum, e errado, pensar a evolução como progredindo para um fim. A sequência do peixe que se transforma em anfíbio, réptil, mamífero e finalmente em homem sugere que o peixe já planeava unhas e cabelo. Mas a evolução é mais como um balde de berlindes despejado contra a parede. Em retrospectiva, cada encontrão e ressalto parece ter servido para pôr aquele berlinde exactamente ali. Mas ia parecer o mesmo qualquer que fosse o sítio ou o berlinde. O filme de cada berlinde faz parecer que havia um plano a seguir mas a visão do conjunto desengana-nos.

Assim, podemos distinguir dois problemas. Um é compreender as nossas origens sabendo já que existimos. É traçar, em retrospectiva, o trajecto que o berlinde percorreu. A física e a teoria da evolução explicam o que levou aquele berlinde ou aquela espécie a estar ali e a ser como é. Bem diferente é ponderar o que temos de especial para que a evolução conspirasse criar-nos. Esse é um falso problema. É como perguntar o que tem o berlinde azul de especial para que todos os outros o empurrassem exactamente para onde calhou. Nada. Se repetíssemos a experiência nem aquele berlinde ia parar ali nem nós seriamos como somos.

Isto não reduz a física e a teoria da evolução à narrativa do passado. A curto prazo podemos prever com detalhe as trajectórias dos berlindes ou as variações das características nas populações. O que faz a incerteza eventualmente dominar as estimativas é a complexidade dos sistemas, não a natureza das teorias. E há aspectos previsíveis mesmo a longo prazo. Podemos prever aproximadamente a distribuição dos berlindes pela sala em função da altura a que despejamos o balde, da espessura da alcatifa ou dos obstáculos que há no chão. E como olhos, pernas, asas e mandíbulas evoluíram independentemente várias vezes, podemos prever que se repetíssemos a evolução da vida na Terra, essas características iriam surgir de novo*.

Outro falso problema é haver seres vivos cada vez mais complexos. A vida surgiu com microorganismos simples que se juntaram em organismos multicelulares e eventualmente deram florestas, baleias e nós. Parece que uma tendência misteriosa os empurrou para a complexidade. Mas a tendência, tal como nos berlindes que se espalham pela sala, é apenas que a vida se espalhe pelas configurações que se reproduzem com sucesso. E a vida também começou contra a parede, encostada ao mínimo de complexidade abaixo do qual não é possível competir como ser vivo. Dali só havia um lado para onde se espalhar. De qualquer forma, ainda hoje quase todos os seres vivos são bactérias. Salvo raras excepções, a vida continua encostada à parede.

A evolução não conduz a vida a um destino ordenado. Espalha-a caoticamente por todos os cantos e feitios em que esta prolifere, revelando que, contrariamente ao que se acreditou durante muito tempo, o universo não foi feito a pensar em nós. E isto incomoda alguns. Como ao berlinde que desse graças pela posição privilegiada que supunha merecer, também a muita gente incomoda saber que somos o que nos calhou pelo entornar do balde. Além disso, a evolução não é só algo que aconteceu. Está a acontecer. Os berlindes espalham-se com o balanço da queda e param em pouco tempo, mas a evolução é empurrada pela energia de uma estrela com cinco mil milhões de anos pela frente.

Por isto, a teoria da evolução é incompatível com um propósito inteligente para a nossa origem. Alguns tentam conciliar a teoria da evolução com um plano divino propondo que a evolução foi apenas o mecanismo que o criador escolheu para nos criar, mas isto não faz sentido. Estamos a meio do processo e não é coisa a que recorra quem sabe o que quer e como o obter. Para pôr o berlinde azul exactamente naquele canto não se despeja o balde do outro lado da sala. A evolução, como método de criação inteligente, só faria sentido se o criador não soubesse bem o que queria e pusesse tudo a mexer a ver se dava alguma coisa interessante.

Mas o pior em tentar conciliar a teoria da evolução com uma criação inteligente é não perceber uma parte importante do que a teoria nos diz. Que não é preciso inteligência nem propósito para a vida surgir, evoluir e tornar-se inteligente. Basta herança com modificação e tempo para que, mais cedo ou mais tarde, a vida se espalhe o suficiente para encontrar um canto de onde possa compreender a sua origem.

* Assumindo que já havia triploblastos (quase todos os animais excepto alguns como alforrecas, esponjas e corais). A evolução é mais complexa que um balde de berlindes, e pode ter sido uma grande sorte terem surgido certas coisas como eucariontes e embriões com três camadas.

Em simultâneo no Que Treta!

9 de Janeiro, 2009 Carlos Esperança

Genes

Por

José Moreira

Será desta vez que o imponente mas cada vez mais decrépito “edifício religioso” começa a desmoronar-se? É que pelas igrejas, e nas cerimónias de casamento, os padres ainda vão exortando os casais a aceitar “das mãos de Deus os filhos que ele (Deus) se dignar conceder”. O que pressupõe, julgo eu, que não sou bom em língua portuguesa, a aceitação dos filhos como Jeová entender. Aliás, parece ser isso que se depreende das palavras vaticanícias, que condenam o aborto mesmo que o feto seja deficiente.

Pois é. Mas as pessoas devem, já é tempo disso, começar a perguntar: “Os filhos que Deus me conceder e como conceder, ou os filhos que eu quiser e como eu quiser?” É que a ciência não pára, para o bem da humanidade e para desespero das hostes da sotaina.

Ainda não há muito tempo, quando se falou na possibilidade que adiante aponto – agora não como possibilidade mas como um facto consumado – o Papa Ratzinger, por alcunha ” Bento 16″, espumava: “Não se intrometa o homem na obra de Deus”. Claro que não, “seu” Joseph. O homem só intervém na obra da ciência. Na obra de Deus intervém vossa santidade, seja lá isso o que for. E por muito que lhes custe, por muito que vociferem, por muito que arrepelem os cabelos, a ciência obteve mais uma vitória. Já começa a ser possível evitar certas doenças futuras, muito tempo antes de a criança nascer.

É um pequeno passo? Não!!! É um enorme passo, um passo de gigante. A partir daqui, a erradicação de certas doenças, principalmente as de etiologia genética, deixa de ser uma utopia. Só tenho medo de não conseguir ver a redução drástica de muitos casos de cancro, por exemplo, ou de outras doenças de carácter hereditário.

Não faz mal. Já cá deixei quem possa ver isso por mim.