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26 de Maio, 2009 Carlos Esperança

O Sr. Duarte Pio e o ordenamento do território

O Sr. Duarte Pio afirmou-se na pesquisa histórica com a descoberta da genuflexão dos cavalos de D. Nuno, antes da batalha de Aljubarrota, no preciso sítio onde, em 1917, o Sol faria piruetas e a senhora de Fátima apareceu a promover o terço. A investigação levou-o à publicação de um opúsculo que só a modéstia o impediu de reclamar uma cátedra.

Se  D. Nuno não tivesse sido canonizado pela sua intercessão na cura do olho esquerdo da D. Guilhermina de Jesus, queimado com óleo de fritar peixe, um milagre confirmado por médicos ateus e pelo Vaticano, o Sr. Duarte mostrava-lhes o opúsculo e arrasava-os com o prodígio dos solípedes. A canonização do taumaturgo era inevitável, apesar da injustiça papal que ignorou a presença de Duarte Pio e a de Paulo Portas em tão piedoso acto, dos poucos que no Vaticano puseram os pés. Todos.

O esforço intelectual com a publicação do opúsculo sobre a piedade dos cavalos, longe de lhe provocar um esgotamento, estimulou-o para outras tarefas nobres.

No dia 23 do corrente mês deste Ano da Graça, o Sr. Duarte Pio participou na Coroação e Função do Senhor Espírito Santo da Santa Casa da Misericórdia de Angra, actividade que deve exigir saber e devoção.

Mas o erudito e ecléctico intelectual revelou-se também, à margem da participação na Coroação e Função do Senhor Espírito Santo da Santa Casa da Misericórdia de Angra, um especialista em ordenamento do território.

O Sr. Duarte Pio afirmou que o estatuto político ideal para as regiões autónomas dos Açores e da Madeira seria o de «reino unido», como possuem a Escócia ou as Antilhas Holandesas. Segundo a Lusa, o ilustre visitante sustentou que «os reinos unidos dão o máximo de autonomia com o máximo de unidade nacional». Revelou ser um perito em ordenamento do território e um erudito em Geografia pois até sabe da existência da Escócia e das Antilhas.

Com tal sabedoria, não tardará a propor um estatuto para as Berlengas e os Farilhões.

25 de Maio, 2009 Carlos Esperança

Fé, moral e terrorismo

A igreja católica, perante a perplexidade dos crentes, encontra-se sob o escrutínio severo da comunicação social, dos pais e da maioria dos cidadãos. A moralidade que apregoa dissolve-se nos escândalos que a corroem.

O documento secreto de João XXIII, enviado aos bispos, ameaçando excomungar todos os que denunciassem os crimes sexuais cometidos pelo clero, incluindo as vítimas, veio lançar sobre o único papa que mereceu a afeição dos não crentes uma mancha indelével.
A tentação de encobrir os prevaricadores e o péssimo hábito de os transferir de paróquia veio avolumar o opróbrio que recai sobre o Vaticano, um Estado com muitas sotainas e pouca transparência.

Não interessa que o papa se pronuncie ou não sobre o recente e chocante escândalo na Irlanda. As hormonas e a liberdade devoram o último estado totalitário europeu.
João Paulo II teve de aceitar a resignação do amigo, cardeal de Viena, Hans Herman Groer, referido como seu eventual sucessor, um poço de virtudes conservadoras a cuja fulgurante carreira eclesiástica as tentações pedófilas puseram termo. Dos EUA à pia Irlanda, da Espanha à Austrália, as dúvida sobre a virtude dos padres vão aumentando a descrença no seu deus.

Pode, pois, o velho inquisidor Ratzinger vociferar contra o preservativo e exasperar-se  contra o planeamento familiar que os católicos não o escutam. O declínio da fé é uma evidência nas sociedades democráticas.

Urge controlar o terrorismo islâmico onde a hierarquia religiosa ocupa uma pirâmide irregular e sem vértice que dá origem a núcleos de devotos que aceitam tão cegamente o Corão como alguns cristãos o Antigo Testamento.

A recente tentativa de um acto terrorista de dimensões colossais foi sabotada nos EUA por infiltração no grupo assassino e venda de mísseis desactivados. Assusta saber que aqueles selvagens cruéis actuavam isolados, sem ligação a qualquer rede internacional.

Eram exclusivamente movidos pela fé, esse sinónimo do ódio xenófobo, essa demência sublimada na leitura do Corão, essa convicção de que o Paraíso abarrota de virgens e de mel para facínoras que julgam que deus é grande e que Maomé é um profeta respeitável.

24 de Maio, 2009 Ludwig Krippahl

Treta da semana: “Lixo mental”

A ironia é irresistível. No dia a seguir ao relatório sobre abusos a crianças por parte da Igreja Católica irlandesa, o João César das Neves defende, na sua forma rebuscada e parca de conteúdo, que a «descida ao abismo espiritual a que se assiste» se deve ao «Lixo mental».

«Filmes boçais, sites infames, programas idiotas, revistas escabrosas, videojogos obscenos, séries imbecis constituem a dieta intelectual dos cidadãos […]. Na ficção como nas notícias, a violência extrema, pornografia descarada, egoísmo, gula, desonestidade são produtos comuns.»(1)

O lixo mental não é novo. Recordo-me da Crónica Feminina que a minha avó materna lia há 30 anos. Tinha umas listas semanais com os números da sorte para jogar na lotaria, que indicavam um número diferente para cada signo. Hoje lê a Caras ou coisas dessas, mas a diferença é pouca. O meu pai tem uns livros do final do século XIX, que eram do pai dele, com compilações do Fliegende Blätter, um semanário satírico alemão especializado em estereótipos sociais(2). Na altura talvez tivesse graça mas, hoje, aquele humor é fraquito*. Portugal teve dois reis que sabiam escrever. Um escreveu sobre caça e o outro sobre montar a cavalo. E se compararmos o que vemos na televisão com o que assistia o camponês medieval vemos que era bem pior no auge da “espiritualidade” católica do João César das Neves. A superstição, a ignorância, a injustiça, a misoginia, os autos de fé e execuções públicas superavam qualquer Big Brother em “lixo mental”.

A diferença não é haver mais lixo mental. Uma diferença é compreendermos que o lixo para uns pode não o ser para outros. O Kama Sutra tanto pode ser pornografia obscena como um livro sagrado. As revistas que a minha avó lê parecem-me perda de tempo e não vejo graça nas piadas que o meu avô adorava. Mas, ao contrário do camponês medieval e do João César das Neves, eu percebo que estas divergências são inconsequentes. Meros gostos subjectivos onde o bom e o mau se distinguem de forma arbitrária. Ao contrário de queimar pessoas na fogueira ou sancionar legalmente a blasfémia, que prejudica pessoas em vez de lesar apenas os preconceitos.

Esta compreensão inibe o que o João César das Neves chama de “espiritualidade”, porque revela que qualquer religião é tão arbitrária, e relativa à sua cultura, como qualquer outra. Ao contrário do que cada uma apregoa, a religião não é um bastião contra o relativismo moral. É um exemplo extremo de relativismo, derivando tudo daquilo que se lembram de inventar acerca dos deuses.

Mas a causa mais importante do “abismo espiritual” é o mesmo factor que permite ver este relativismo da religião. É a liberdade de expressão e de acesso à informação. É verdade que quando todos se podem exprimir e ter acesso ao que os outros dizem muita coisa vai parecer lixo. Mesmo que não haja consenso acerca do que é, ou não é, lixo. Mas, infelizmente, também é verdade que a religião sempre foi uma desculpa para injustiças e abusos. Tal como o lixo mental, o abuso de crianças em instituições religiosas não é recente. O que é recente é que agora falamos disso. E essa violência e pornografia afasta muito mais gente da “espiritualidade” que os filmes do Bruce Willis ou da Cicciolina.

* Mas é humor alemão; é preciso dar um desconto. Como dizem os ingleses, a german joke is no laughing matter.

1- João César das Neves, 21-5-09, Destak, Lixo mental. Via Espectadores
2- Podem descarregar os volumes mais antigos na Arthistoricum.net

Em simultâneo no Que Treta!

23 de Maio, 2009 Carlos Esperança

CONVITE – 1.º Aniversário da AAP

AAP – Almoço de convívio e troca de impressões em COIMBRA

Faz 1 ano no próximo dia 30 de Maio, Sábado, que a Associação Ateísta Portuguesa se constituiu. Dezassete dias antes tinha havido a peregrinação a Fátima, contra o ateísmo, presidida pelo criador de milagres e fabricante de santos e beatos – o cardeal Saraiva Martins. Algum tempo depois o patriarca Policarpo considerava o ateísmo a maior tragédia da actualidade.

São exagerados estes publicitários. Até nos quatro bispos que soltaram ao longo deste 1.º ano para afrontarem a Associação Ateísta Portuguesa (AAP).

É boa altura para o encontro de todos os ateus, agnósticos, cépticos e livres-pensadores que queiram reunir-se nesse dia em Coimbra onde se pode aproveitar para discutir um documento a pedir um atestado de apostasia às dioceses.

Local: Restaurante «O Cantinho dos Reis» – Terreiro da Erva, N. 16 – COIMBRA (Largo entre a Rua da Sofia e a Av. Fernão de Magalhães, tudo locais muito conhecidos em Coimbra)

Ementa: Refeição completa com bebidas incluídas.

Hora: 13H00

Preço – > 10 € (Habitualmente anda pelos 7 € e a comida é boa e variada)

INSCRIÇÕES: (até segunda-feira,  dia 25) para o e-mail da AAP.

[email protected]

Caros ateus e ateias, Deus provavelmente não existe, portanto venham fruir este almoço e esqueçam a última ceia.

Bem-vindos a Coimbra. Viva o livre-pensamento.

Saudações ateístas.

23 de Maio, 2009 Carlos Esperança

Carta de um leitor

Por

Adão Cruz

Isto é a ponta de um incomensurável iceberg!

Os crimes cometidos pela igreja católica na Irlanda, vindos agora a público, somados a todos os outros crimes praticados e denunciados em todo o mundo contra a dignidade humana, especialmente a dignidade de crianças indefesas e desamparadas, os que se sabem e os que se encobrem, fazem da igreja católica, provavelmente, a instituição mais pedófila do mundo. Não se compreende como é que esta perversa instituição não é levada a tribunal.

A casa Pia é um grão de areia, comparada com o clamoroso escândalo universal, porco, sujo e escabroso em que a igreja católica sempre esteve atolada. Não só não é levada a tribunal, como se esquiva a qualquer penalização, dizendo-se, apenas, envergonhada e disposta a pedir perdão. Tretas! Tretas! Tretas! A monumental hipocrisia de sempre. Numa mão a hóstia, na outra o sexo, não o sexo saudável, impedido pelo Vaticano, mas o sexo-perverso, o sexo-psicopata, o sexo-crime. Repugnante, deveras repugnante, este comportamento de milhares dos chamados ministros de deus, em todo o mundo, comportamento mais que sabido e reconhecido pela igreja católica, a qual, mais não faz do que tentar esconder.

Como é que se pode compreender, à luz dos inúmeros e inegáveis factos destas últimas décadas, que uma instituição desta natureza não seja posta em causa, como é que é possível que a legitimidade oficial da sua existência seja aceite, como é que é possível que personalidades e governos de todo o mundo se verguem, vergonhosamente, a um poder tão divinamente baixo e porco, tão miseravelmente traduzido num dos mais hediondos crimes praticados pelo ser humano?

22 de Maio, 2009 Carlos Esperança

Irlanda – Protectorado do Vaticano

A Irlanda tem-se caracterizado pela influência eclesiástica a todos os níveis do poder. O reaccionarismo católico só encontra paralelo na dimensão dos escândalos do seu clero. Não há lei modernizadora que não depare com a intolerância da Igreja.

Ainda está na lembrança de todos a ordem do tribunal para reter uma adolescente cujos pais a queriam levar a Londres para abortar, na sequência de uma violação. O tribunal negava-lhe o direito de sair do país perante uma campanha de apoio orquestrada pelos padres. Depois explodiu com estrondo a denúncia do bispo que ocultava a paternidade mas transferia fundos da diocese para criar o filho.

Nos conventos, até 1960, enclausuravam-se as mães solteiras que “envergonharam a família”, a quem roubavam os filhos, e outras que convinha encarcerar para manter indivisa a herança. Eram ultrajadas e maltratadas. Foi a crueldade no máximo esplendor, com o conluio das famílias e do clero católico, durante longas décadas, até à decisão dos tribunais, que levou ao encerramento dos conventos/prisões e à libertação das detidas.

Agora surgem acusações de violências e abusos comprovados num relatório impecável: privação de alimentos, violências sexuais e agressões físicas a crianças. Um oceano de horrores em charcos de água benta.

Revela-se a perversão, o drama de milhares de crianças a quem roubaram a felicidade e os crimes do clero (padres e freiras) contra vítimas que deviam cuidar. O que revolta é a inépcia do Estado para controlar instituições religiosas porque, em vez da autonomia, há a conivência que impede a defesa da dignidade humana e a investigação dos crimes.

Durante seis décadas foram vítimas de abusos sexuais, violências físicas e humilhações, milhares de crianças, com o conhecimento das autoridades políticas e religiosas, com a cultura do silêncio a vigorar enquanto a vida de crianças era dramaticamente destruída.

Já, várias vezes, o Diário Ateísta levantou o problema da defesa dos direitos das freiras e dos monges enclausurados, a necessidade de psicólogos, assistentes sociais e médicos verificarem se a clausura é uma decisão livre ou a reclusão pia coberta pelo manto da fé e do poder discricionário do clero. A violência não é só contra crianças.

Só tivemos insultos. Defender a liberdade, contra os preconceitos da fé, é um dever que pode custar caro e demora. Como se vê na devota Irlanda.

Nota: Não podemos esquecer as crianças vítimas das madraças islâmicas.

21 de Maio, 2009 Carlos Esperança

Momento zen de segunda

As homilias semanais de João César das Neves (JCN), no DN, não primam pela lógica mas brilham pela fidelidade ao papa, seja ele quem for, e pela defesa das afirmações da Igreja católica, quaisquer que sejam.

Nesta última segunda-feira, 18, sob o título «Anatomia da traição», esclareceu que os adúlteros incorrem no repúdio universal e são vistos como traidores, para acrescentar:  «Desde sempre a infidelidade foi sumamente desprezada, com delatores e apóstatas tratados com asco».

Quanto à traição conjugal, embora não enxergue tão severa reprovação social, sobretudo quando feita pelo homem, entendo a dor e o ódio do casto católico que julga interpretar uma sociedade que não o acompanha na abominação e na virtude.

Em relação à delação não partilho o asco de JCN, quando visa a prevenção dos crimes, nomeadamente do terrorismo, nem penso que o silêncio das máfias seja um paradigma ético.

Mas o que deveras me espanta no prosélito católico é o asco que lhe merece a apostasia. Não o vejo a execrar Paulo de Tarso por ter largado o judaísmo, a condenar Constantino por ter abandonado o mitraísmo e imposto o cristianismo ao império romano, e a rejeitar todos os apóstatas que se converteram ao cristianismo, quase sempre obrigados.

JCN não perdoa que os crentes das religiões falsas não se convertam à única verdadeira – a sua. O problema é que todos os crentes pensam o mesmo, que as outras religiões são falsas e, talvez, tenham razão. O anti-semitismo cristão, tal como o islâmico, deve-se à obstinada recusa dos judeus à apostasia. No fundo, o que todos querem é a apostasia dos outros, pelo que o asco de JCN apenas se refere aos apóstatas do catolicismo.

JCN não repele os apóstatas, odeia a liberdade religiosa, o livre-pensamento, o ateísmo e tudo o que evangelização e a Inquisição não conseguiram. Não concebe que a razão possa entrar em conflito com a fé, que a cidadania é incompatível com a obrigação de manter os valores incutidos no berço e cultivados nas mesquitas e nas igrejas com juras de felicidade eterna ou ameaças de penas perpétuas.

20 de Maio, 2009 palmirafsilva

Crimes sem castigo

As lavandarias das Madalenas irlandesas eram instituições com fins lucrativos, sediadas em conventos, que albergaram durante século e meio as irlandesas de «mau porte», as demasiado bonitas para a sua «salvação» moral, as concebidas sem a bênção da Igreja, as mães solteiras, enfim, todas as raparigas que eram de alguma forma consideradas uma ameaça aos valores (i)morais da sociedade. As desgraçadas que eram enviadas para estas prisões, lavavam «os seus pecados» com trabalho árduo e não remunerado, isto é, em completa e abjecta escravidão. Como nos conta o History Times:

«Up to 1993 the public knew very little about the Laundries but when an order of nuns, the Sisters of Our Lady of Charity of Refuge of High Park Convent, Dublin sold part of their convent to the Irish Republic for public use to replace funds that nuns had gambled and lost on the stock exchange.

The full story of the sexual, psychological and physical abuse these poor women had suffered started to come to light. It quickly became a national scandal in Ireland that engulfed both the Catholic Church and the Irish government.»

Hoje foi publicado um relatório que promete causar ondas ainda maiores que as lavandarias das Marias Madalenas quando o escândalo estoirou. O estarrecedor relatório, que culminou 9 anos de investigação sobre o abuso de crianças por membros do clero, era há muito aguardado – excepto pela Igreja Católica, embora esta tenha conseguido que nenhum padre ou afins seja processado pelo que se descobriu … e se tenha desdobrado em desculpas mal o relatório foi tornado público.

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