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25 de Novembro, 2009 Luís Grave Rodrigues

A exigência do Sr. Bispo

Convidado para uma palestra nas jornadas parlamentares do PSD, o Bispo do Porto D. Manuel Clemente exigiu um debate alargado sobre o casamento homossexual.

Não contente, o Sr. Bispo ainda defendeu a realização de um referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

E pronto: cá temos a intolerância, a defesa da discriminação e o famoso relativismo moral como argumento tipicamente católico.

Já não bastava assistirmos a um promotor de cultos primitivos da Idade do Bronze defender um referendo aos direitos fundamentais consagrados na Constituição.
Agora ainda temos de assistir a um sujeito que fez voto de celibato a – vejam só – «exigir» um debate alargado sobre a definição do casamento na lei civil.

Pois é: se o Sr. Bispo acha que o tema merece uma profunda reflexão na sociedade portuguesa, talvez lhe ficasse melhor a honestidade intelectual de promover um debate e defender um referendo sobre o acesso a pessoas do mesmo sexo já agora também… ao casamento católico.

24 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Monumento ao cardeal Cerejeira

cerejeira_salazar A pretexto da celebração do 50.º aniversário do monumento ao Cristo-Rei, cujo gosto não discuto, foi inaugurado no pretérito domingo um monumento ao cardeal Cerejeira. Se Almada não se regozijou especialmente com o primeiro, há boas razões para crer que não é grande o júbilo com o segundo –  tributo prestado ao prelado que foi um expoente do reaccionarismo nacional e amigo do peito do ditador Salazar.

Não discuto a estética dos monumentos mas não devo deixar passar sem reparo a ética do preito ao cardeal cuja cumplicidade com a ditadura e o ditador só teve de positivo o estímulo ao abandono da religião e ao desprezo do clero.

O cardeal Gonçalves Cerejeira não teve uma palavra de solidariedade para com o bispo honrado que discordou de Salazar – António Ferreira Gomes –, bispo do Porto, exilado durante uma década. Não se lhe conhece um único lamento face às torturas policiais, prisões arbitrárias, degredo de democratas, medidas de segurança dos tribunais plenários, perseguições, censura e ausência de quaisquer liberdades. Viveu feliz com os crucifixos nas escolas, o ensino obrigatório da religião e a perseguição aos democratas.

Erigir um monumento ao cardeal Cerejeira, é reabilitar a ditadura, branquear o passado de um cúmplice e enaltecer o comportamento da Igreja durante os anos do salazarismo.

Podia ter sido um prelado arredado da política e dos crimes da ditadura, mas não foi. Informou Salazar de que Deus o tinha escolhido por para governar o País e que não era ele, Cerejeira, quem o dizia, mas a Ir. Lúcia, dada à intimidade com o divino, que lho havia segredado. Podia ter sido neutro em relação à guerra colonial, mas preferiu animar os jovens a defenderem a civilização cristã e ocidental. Não lhes faltou, aliás, durante a guerra, com um bispo castrense para repetir essa mensagem nas colónias.

Manuel Gonçalves Cerejeira foi cardeal durante mais de 41 anos. Assistiu em silêncio à guerra civil de Espanha e aos crimes de Franco, tal como em Portugal aos desmandos da ditadura e ao terrorismo policial do seu amigo Salazar.

O bispo de Setúbal que inaugurou a estátua a Cerejeira comportou-se como o autarca de Santa Comba Dão com o museu à memória de Salazar. É a reabilitação da ditadura que está em curso, o branqueamento do fascismo e a homenagem ao tempo mais negro do século XX, em Portugal. Quando julgávamos que a Igreja, por pudor, esquecia o maior cúmplice da ditadura, há um bispo que nos lembra a matriz genética do salazarismo.

23 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Momento zen de segunda_23-11-09

João César das Neves (JCN), catequista ao serviço do episcopado, insiste nas homilias contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e reincide na defesa de todos os preconceitos pios.

É difícil explicar a um prosélito que há diferença entre pecado e crime, entre as penas do Inferno e a privação da liberdade, entre a ofensa feita ao deus de JCN e a infracção ao Código Penal.

Argumenta JCN que se o casamento entre pessoas do mesmo sexo fosse um direito não se compreendia que tivesse ficado omisso em trinta e tal anos que Portugal já leva de democracia. Esquece que os direitos, tal como a democracia, se têm conquistado contra a vontade dos seus bispos e o azedume dos seus padres. O direito que lhe provoca azia é uma conquista que não conta com a bênção eclesiástica nem com uma bula do papa. É o epílogo do longo processo que levou ao respeito pelas opções sexuais individuais que o Antigo Testamento abomina: “Um homem que se deite com outro homem como se fosse uma mulher, ambos cometeram uma abominação e deverão morrer e o seu sangue cairá sobre eles.”

Não sei se JCN prefere renegar o A.T., matar os homossexuais ou pagar a alguém que o faça por ele. Aliás, está em sintonia com o que também prescrevem o Corão e a Charia.

Na homilia de hoje, além da homofobia implícita, volta a manifestar a raiva que lhe causa a descriminalização do aborto e a legislação sobre o divórcio, terminando por afirmar que «a lei facilita a vida a marialvas, adúlteros e irresponsáveis».

Mas quereria o beato zelador dos bons costumes que se prendessem os marialvas, se enviassem para as galés os adúlteros, para as fogueiras as adúlteras e se condenassem a trabalhos forçados os irresponsáveis?

Se as leis fossem elaboradas segundo a vontade do Papa, teríamos um mundo à medida de JCN, mas regressaríamos à Idade Média, e o douto escriba seria assessor no Tribunal do Santo Ofício.

21 de Novembro, 2009 Fernandes

Santos, relíquias e parasitas

 Resulta anacrónico e até ridículo que ainda se consagrem edifícios, locais, objectos, animais, carros, barcos, e até tropas e armas que vão para a guerra matar o “próximo”. Mas não se pode estranhar demasiado, pois ainda recentemente o Vaticano definiu as normas para realizar exorcismos; (talvez por vergonha) recomendam que o exorcismo se realize em privado, sem a presença dos meios de comunicação, pedindo às testemunhas que não divulguem o que viram, “nem antes nem depois”.

Não deixa de ser extravagante que a Igreja fomente e apoie práticas de verdadeiro fanatismo religioso de inquestionável origem pagã.

O costume de efectuar peregrinações a lugares santos estava muito divulgado nas religiões mais antigas, e o cristianismo soube aproveitar e fomentar esse costume, pelos grandes proventos que tal prática traduz. Resulta lamentável ver milhares de doentes acudir a Fátima, cheios de esperança, e voltarem de lá como estavam e por vezes ainda pior, se algum se cura, mais tarde, tal facto deve-se a factores psicológicos a que chamam milagre.

Os milagres são o maná das religiões, a história está repleta deles. Fizeram milagres entre outros: Orfeu, Abaris, Aristeo, Epiménides, Esculápio, Pitágoras, Empédocles, Apolónio de Tiana, Plotino, Mahomé, etc. Diderot chegou a perguntar: Porque será que os milagres de Jesus e dos santos são verdadeiros, e os dos outros são falsos?

Sem dúvida que os relatos dos milagres, não são milagres. Todos os que aparecem no Antigo e Novo Testamento são autênticos plágios da época pré-cristã, produzindo-se uma espectacular similitude com os milagres de Buda, Pitágoras, Héracles e Diomísio. Spinoza afirma que a demonstração de uma religião através dos milagres é o mesmo que: «querer explicar o obscuro através de uma coisa mais obscura ainda.»

O culto das relíquias não é nada de novo, na antiguidade existiam relíquias de deuses e heróis. A sua origem baseia-se na crença supersticiosa de que os heróis, profetas e santos, têm uma força que se mantém activa nos objectos dos personagens e se transmite a quem os possui. A magia cristã das relíquias, possui coincidências com os cultos pagãos e não tem nada que ver com o judaísmo nem com Jesus, na realidade constituem um claro gosto pelo fetichismo. No paganismo produziam-se aparições e milagres junto das tumbas dos heróis, e colocavam-se relíquias debaixo dos seus altares. O cristianismo adoptou este costume a partir do séc. IV, o que ocasionou uma forte procura e a consequente falsificação das chamadas relíquias. Este culto indiscutivelmente fetichista, alcançou tal protagonismo que algumas “relíquias” chegaram a fazer parte do tesouro nacional de certos países e foram símbolo de poder oficial até muito depois da Idade Média.

Entre estas relíquias, há algumas tão curiosas como ridículas. Conservam-se três ou quatro prepúcios “autênticos” de Jesus; a personificação do Espírito Santo em forma de pomba é tão genuína que se conservam umas plumas e até uns ovos como relíquia. A casa de Nazareth, onde viveu a Sagrada Família, foi transladada integralmente para Loreto por uns anjos. Conservam-se várias plumas das asas do Arcanjo Gabriel. O Santo Sudário que supostamente envolveu o cadáver de Jesus, continua a ser uma relíquia muito venerada apesar de análises feitas terem apontado a origem do tecido para muitos séculos depois.

O fetiche promovido pela Igreja por relíquias e santos, levou a situações tão aberrantes em que o título de Santo é dado a personagens que são mero produto da imaginação e jamais existiram, como, Jorge o aniquilador de dragões ou o arcanjo Gabriel, Miguel e Rafael.

Santifica-se inclusivamente um pecado capital! A Ira. Desde que praticado por eles, claro, ou a intransigência e o temor, mas só quando é o “Santo temor a Deus”.

Mas o cúmulo acontece quando uma instituição tão perversa e assassina como a Inquisição, a Igreja a chama de “Santa”, assim se santifica o crime, a tortura, a perseguição, a exploração, a delação e a vingança, tudo isto e muito mais o foi a “Santa” Inquisição.

Da mesma forma que a Igreja inventa relíquias, ela inventa os milagres e inclusivamente “cartas vindas do céu” que idealizaram a vida de Santos e Mártires a que todos chamamos Lendas.

Com os santos passou-se o mesmo que com as relíquias, a Igreja “produziu” uma tal quantidade de mártires e santos que o Papa Benedito XIV viu-se obrigado a intervir lembrando que a inscrição no lugar dos mártires ou dos santos, não demonstrava em absoluto a santidade nem sequer a existência de tal personagem.

Verdadeiros indesejáveis ou simplesmente indivíduos sem a menor relevância são “transformados” em seres excepcionais que sobem aos altares para serem adorados pelos ingénuos. E isto não sucedeu antes, continua nos dias de hoje. O arcebispo Stepinac, estreito colaborador do assassino e títere nazi na Jugoslávia, Pavelic, foi elevado aos altares como “mártir do comunismo”, esquecendo-se a sua colaboração no massacre dos sérvios. Um padre bastante vulgar, mas ambicioso, José María Escrivá, rapidamente e por indiscutível influência económica, está repleto de excelsas virtudes e foi elevado aos altares; seguramente que entre as suas virtudes está a humildade, por isso se fez chamar Josemaria, unindo os dois nomes com a finalidade de que existisse um nome novo no “santódromo”; ainda enriqueceu o apelido transformando-o em Escrivá de Balaguer e adquiriu o título de Marquês de Peralta; resulta difícil encontrar santidades com tão evidentes mostras de humildade.

Assim, temos hoje nos altares, para serem venerados pelos ingénuos e produzirem autênticos milagres económicos para a Santa Madre Igreja, santos que não passaram de autênticos parasitas da sociedade ou até de uns indesejáveis que mantiveram o seu “prestígio”  à custa da ignorância dos demais.

21 de Novembro, 2009 Carlos Esperança

Livros tóxicos

As civilizações não se chocam. Elas encontram-se, fundem, combinam, conversam entre si, e evoluem. O que colide na sociedade humana são a indiferença e os excessos de poder; e na natureza humana, com ou sem religião, há alguns que padecem deste mal.

Comentário: O que se choca é a civilização e a barbárie.