9 de Fevereiro, 2010 Carlos Esperança
Factos & documentos

"Os hipócritas - A igreja católica e o sexo".

"Os hipócritas - A igreja católica e o sexo".
No seu terceiro post acerca dos equívocos do ateísmo o Alfredo Dinis repete que «O maior drama do ateísmo [é] estar estruturalmente impedido de conseguir os seus objectivos: erradicar a religião»(1). A ver se é desta que isto se desdramatiza.
O único sítio de onde é legítimo o meu ateísmo erradicar a religião é a minha vida. E nisso o sucesso foi total. Qualquer Edir Macedo, Joseph Ratzinger ou Alexandra Solnado que me queira vender a sua banha da cobra vai ter de se haver com o meu ateísmo. E o papel social do ateísmo não é o que o Alfredo julga. O ateísmo não é um polícia das crenças. É um cinto de segurança. Não impede os acidentes nem evita asneiras mas reduz os estragos. Em grande parte, é graças à propagação do ateísmo que hoje posso criticar um sacerdote jesuíta, e director de uma faculdade da Universidade Católica, sem ir preso nem sofrer represálias. Quando o meu pai tinha a minha idade isto seria difícil. No tempo do meu avô era impensável.
E mesmo que daqui em diante o ateísmo não avance um milímetro que seja, ainda assim é importante defendê-lo para contrariar a pressão constante da religião. Este equilíbrio não é estático, e se deixamos de pressionar os que vivem convictos de ter a verdade revelada e de saber o que é melhor para si e para os outros, voltamos rapidamente aos “bons velhos tempos” da religião a bem ou a mal.
O que me traz aos novos equívocos do Alfredo. «A religião tem sobretudo a ver com a questão do sentido do universo e da vida. Os não crentes afirmam que não há nenhum sentido para além do que nos é dado pelo conhecimento científico.» Não é isso. O que eu afirmo é que o sentido da minha vida vem de mim. Não me pode ser dado, nem pela ciência, nem pela religião nem por coisa nenhuma. É claro que qualquer actividade humana pode ajudar. O Alfredo menciona a poesia e a arte, mas posso acrescentar a religião, o atletismo, o macramé e a ciência. Qualquer coisa que façamos com paixão ajuda a criar sentido na nossa vida. Uma vida sem sentido é apenas a de quem fica à espera que lhe dêem um.
Assim, não critico a religião por julgar que a vida não tem sentido. Critico-a pelos seus erros factuais e porque o sentido da minha vida me diz respeito a mim e não ao Alfredo ou ao seu deus. Se o Alfredo quer apontar algum equívoco nesta minha posição ateísta, sugiro que me explique porque preciso do deus dele para dar sentido à minha vida. Concordo que é importante «interrogar-se sobre o sentido da existência», mas discordo que a resposta do Alfredo seja relevante para mim.
Finalmente, o Alfredo aponta que a religião não é «fonte do conhecimento dos fenómenos naturais», pois isso é com a ciência, mas insiste que a religião é uma fonte de conhecimento, uma área do saber autónoma da ciência. Infelizmente, não deixa claro o que é suposto ser esse alegado conhecimento religioso. A religião sabe o quê?
O conhecimento é o conjunto dos dados e suas explicações. Sem dados não há nada que saber e sem explicações não há como sabê-lo. E estes aspectos são inseparáveis. Pode parecer que quando vejo chover sei que chove só pelos sentidos, um dado que não precisa de explicação. Mas, na verdade, concluo que está a chover por ser essa a explicação mais plausível para a sensação de ver chuva. Se em vez de chuva vir um elefante amarelo a voar já não concluo que exista tal coisa. Considero como explicação mais plausível ter sofrido um AVC, uma intoxicação alimentar ou psicose.
O Alfredo alega que a religião é fonte de conhecimento que não é científico nem é acerca da natureza. Mas se é conhecimento tem de incluir dados que possa conhecer, e falta indicar que dados tem o Alfredo que estejam fora da natureza e do âmbito da ciência. E se é conhecimento tem de incluir explicações, e não é concebível que haja explicações que não cumpram o que se exige de uma explicação científica: que explique.
Eu não cometo o equívoco de confundir religião com ciência. Sei que são bem diferentes, e nisto concordo com o Alfredo. Discordo é que a religião seja saber. A religião não precisa de dados nem de explicações porque é mera opinião e especulação. Há uns milhares de anos uns tipos inventaram umas profecias, outros mais tarde inventaram umas histórias baseadas nisso e assim por diante. Dos autores do Génesis à teologia moderna tem andado tudo a especular e opinar sobre as opiniões uns dos outros. A religião é autónoma porque inventa o que quiser.
Em suma, o Alfredo aponta como equívocos do ateísmo não servir para nada, não dar valor à vida e confundir ciência com religião. Mas o ateísmo é muito útil aos ateus, é perfeitamente compatível com uma vida realizada e com sentido. E não são os ateus que confundem religião com ciência. O problema é os crentes confundirem fé com conhecimento.
1- Alfredo Dinis, Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo
Em simultâneo no Que Treta!
Os crimes de ódio são definidos nos Estados Unidos pelas leis federais que os identificam como crimes violentos motivados pela orientação sexual da vítima, cor da pele, identidade de género, incapacidade ou afins. O recente Matthew Shepard Act, cujo nome honra a memória do estudante homossexual de 21 anos torturado e assassinado em 1998, deixa isso bem claro assim como deixa bem claro que a legislação não se aplica às homilias de ódio de um qualquer homofóbico em nome de Deus:
An American Family Association radio show host has begun promoting legal sanctions for Americans engaging in “homosexual behavior”.
Bryan Fischer, que para além de integrar a associação que representa cerca de 2 milhões e meio de americanos dirige a Idaho Values Alliance, já louvou muito efusivamente o Uganda por resistir à «agenda» homossexual. Não sei se o próximo passo será pedir a emulação das leis do país que lhe mereceu tantos encómios… e que foram inspiradas por seus comparsas na homofobia!
(em stereo na jugular)
O terrorista que assassinou George R. Tiller em Maio do ano passado foi julgado e considerado culpado de homicídio de 1º grau. A sentença será lida na próximo dia 7 de Março e condenará Roeder a prisão perpétua. Mesmo assim, o terrorista está a ser investigado pelo FBI que tenta descobrir se Roeder agiu sozinho ou em conspiração com um dos muitos grupos de monstros sem pingo de moralidade que dão graças ao seu Deus pelo assassinato.
(em stereo na jugular)
A primeira capela dedicada ao exorcismo numa basílica católica foi inaugurada hoje na cidade de Querétaro, na região central do México. A cerimónia de benzedura da «Capela das Almas» foi conduzida com a pompa e circunstância apropriadas a tão solene momento pelo bispo de Querétaro, Mario de Gasperín.
Não há dados precisos sobre o número de exorcismos realizados no país mas, segundo as autoridades eclesiásticas, só na capital ocorrem cerca de dez por mês, e, de acordo os entendidos nestas coisas do Demo, as «possessões» estão a aumentar. Não sei se está previsto auxílio da concorrência com mais prática nestas lides demoníacas, por exemplo a Liberty Gospel Church que presta serviços análogos noutro continente…
(em stereo na jugular)
D. Manuel Martins em Famalicão
Leis da República não respeitam valores da família
O Bispo Emérito de Setúbal, D. Manuel Martins, disse ontem, em Famalicão, que a legislação que regula o divórcio, as uniões de facto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo «destrói por completo» o conceito de família. O prelado, que falava à margem da V Jornada da Família, no Centro Pastoral de Santo Adrião, mostrou-se impressionado com a designada “ética republicana”, esclarecendo que essa ética não tem nada a ver com a moral.
Novas denúncias de abuso sexual elevam pressão sobre Igreja Católica alemã
O que começou como escândalo local em Berlim alastrou pela Alemanha. Tabu do abuso sexual por parte de padres desperta entre políticos e religiosos a reivindicação por maior esclarecimento sexual dentro da Igreja.
Comentário: Perante a dúvida sobre a virtude dos padres cresce a descrença na bondade de deus.
O primeiro-ministro de Itália, Silvio Berlusconi, ofereceu um pacto ao Vaticano para restabelecer uma «correcta» relação entre a Igreja e o Executivo, após o distanciamento desde o ano passado por causa do chamado caso Boffo, informou hoje o jornal italiano La Repubblica.
Carta aberta ao Papa para renovar a Igreja
O jesuíta egípcio Henri de Boulad, de rito melquita, de 78 anos de idade, endereçou uma carta aberta ao Papa Bento XVI, que circula na Internet. Confessa que o seu coração sangra ao ver “o abismo em que se está a precipitar a nossa Igreja”.
Manifesta as suas preocupações. Em primeiro lugar, o “constante decréscimo da prática religiosa”. São poucas as pessoas e quase todas da terceira idade que frequentam as igrejas na Europa.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.