
A tradicional Marcha para Jesus, não se pode negar, é um evento pacífico, fraternal e bonito de se ver. Mas em toda cesta há maçãs podres. Durante, a marcha, o pastor Silas Malafaia aproveitou para atacar a recente decisão do STF sobre a união homoafetiva. Também protestou contra a PL 122. Afinal, bondosos, misericordiosos e exemplos de compaixão que são os evangélicos, eles querem o direito de poder discriminar e falar mal dos homossexuais. Malafaia ainda classificou como “lixo moral” as pessoas que questionam a interferência das igrejas em assuntos do governo.
Antes que me perguntem em que pesa a opinião de um pastor, a reportagem se encarregou de entrevistar algumas pessoas durante a marcha sobre temas polêmicos, como aborto e união gay. A resposta dos jovens foi de que “quem defende o homossexualismo e a maconha está aqui a serviço de Satanás“.
Penso como deve ser triste, angustiante e amedrontador viver achando que o diabo existe, e que há uma guerra em curso, e que há possessões demoníacas, etc, etc, e etc.
Agora, o que eu não entendo mesmo (nem pela lógica, nem pela emoção, simplesmente não entendo) é por que um evangélico se incomoda tanto com o que um homossexual faz entre 4 paredes. Afinal, se o problema é a condenação divina, ainda assim é algo com o qual o homossexual deve se preocupar, não o religioso.
Agora entendo o motivo do abandono, é que ele anda ocupado a fazer outro mundo novo porque este já deu o que tinha a dar. Chegou à conclusão de que o que fez aqui no planeta Terra não foi bem feito e agora, com a experiência adquirida, está a fazer a nova obra com as respectivas correções. Ora vejamos:
A 750 anos-luz da Terra está a nascer uma estrela que dispara milhares de litros de água por segundo para o espaço. Envolta em gases e pó, a proto-estrela, que não tem mais do que cem mil anos, encontra-se na constelação Perseus e é da mesma classe do nosso Sol, o que sugere que este tenha tido um comportamento parecido durante a sua formação.
Parece que a história do rabino, o advogado e o cão (1), afinal, é treta (2). O que até vem a calhar. O Alfredo Dinis disse que «gostava de ver o espírito crítico dos não crentes aplicar-se também às suas próprias ideias»(1). Aqui tem. Julguei que fosse verdade – estava na BBC e tudo (3) – mas não era. Enganei-me, e admito-o. Mas quando o Alfredo diz que «Na Igreja Católica não se considera uma virtude que alguém tenha fé sem que se interrogue sobre aquilo em que acredita», está a falar de um “interrogar-se” muito desenxabido. Porque só vale a pena interrogarmo-nos acerca da verdade de qualquer alegação se estivermos dispostos a mudar de ideias quando as evidências a revelam infundada. Caso contrário, é só interrogação a fingir. E isso, tanto quanto sei, é tradição da Igreja Católica desencorajar.
A interrogação também só vale pelas perguntas que fizermos. Por exemplo, se um rabino disser que o cão tem a alma do advogado, importa perguntar “como raio sabe ele?” Quem deixar escapar essa pergunta de pouco lhe servirá perguntar se é sincero, se falou alto ou se outros acreditaram no que ele disse. E se disse ou não disse nem sequer é o mais fundamental. Temos relatos segundo os quais Maomé disse ter falado com Alá e os apóstolos alegaram ter conhecido o criador do universo encarnado em Jesus. Talvez estes relatos sejam verídicos e essas pessoas tenham mesmo afirmado o que lhes atribuem. Ou talvez sejam tão treta como a história do rabino e do cão. Mas, se tivermos o pensamento crítico que o Alfredo pede, vemos que não faz muita diferença. Porque mesmo que tenham dito tais coisas não tinham forma de saber se era verdade ou não. Como é que Maomé sabia que era Allah que lhe falava? Como é que os apóstolos determinaram que o filho do carpinteiro tinha mesmo criado o universo? Ninguém que pense criticamente pode aceitar o testemunho – e muito menos a autoridade – de alguém que não tem como saber se o que diz é verdade.
Finalmente, o Alfredo disse também que «Infalibilidade por infalibilidade prefiro a do Papa à de Dawkins, Hitchens, Harris… » Pois eu prefiro nenhuma. Acreditar numa autoridade infalível não é compatível com a interrogação ou com o pensamento crítico. Se admito que posso errar, e de pouco vale interrogar-me se descartar essa possibilidade, tenho de admitir que posso errar quando julgo alguém infalível. E se posso estar enganado acerca disto não posso considerar infalível o que essa autoridade me disser. Afinal, podemos estar ambos enganados. Portanto, para o Alfredo Dinis poder considerar o Papa infalível é preciso que o Alfredo Dinis se considere também ele próprio infalível, pelo menos nisto. Este é outro caminho por onde a fé o leva mas por onde eu não o consigo acompanhar.
1- Treta da semana: justiça divina.
2- Harry’s Place, The Dog That Didn’t Die
3- BBC, Jerusalem rabbis ‘condemn dog to death by stoning’
Em simultâneo no Que Treta!
Alguns deístas apresentam Deus como uma abstracção infalsificável.
No que diz respeito a tal abstracção, tenho boas razões para nela não acreditar, com esta exposta por Bertrand Russel:
«Da minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá de porcelana girando em torno do Sol numa órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, sendo que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos.
Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com toda a razão pensariam que estou a dizer tolices.»
Não obstante, no que diz respeito a várias religiões teístas, em particular o cristianismo, tenho razões muito mais fortes não acreditar nas alegações feitas – a sua própria inconsistência interna, a incoerência entre as várias alegações associadas a cada uma destas religiões.
O video que se segue explica de forma muito clara e competente algumas das principais.
Tive muito prazer em vê-lo e quero por isso partilha-lo com todos:
Texto também publicado no Esquerda Republicana.
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