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24 de Janeiro, 2012 José Moreira

O mamarracho e o navio

(…ou será “O mamarracho do navio”?).

Segundo a comunicação social, sempre lesta a difundir notícias importantes deste teor, dentro do navio “Costa Concordia”, naufragado há dias, foi encontrada e recuperada uma boneca representando a dita virgem Maria. Logo a ICAR, pela voz dos seus altifalantes, veio a terreiro afirmar, “urbi et orbi”, que o boneco era uma cópia do original, o qual, original, se encontra na capela das ditas aparições. Não foi dito se a cópia está, ou não, conforme o original, e se, em caso afirmativo, essa conformidade foi, ou não, certificada. Mas isso agora não interessa, como diria uma outra “virgem”. Interessa é que, para confirmar não se sabe bem o quê, a padralhada veio berrar que a boneca tinha sido comprada em Fátima.

Fico sem saber o que pretendem os funcionários da ICAR provar com tanta berraria e publicidade. Quanto a mim, deviam calar-se muito caladinhos e, caso perguntados, deveriam responder que a boneca, que foi capaz de desviar uma bala que, como se sabe, viaja a uma velocidade incrível, mas não conseguiu desviar um navio de cruzeiro que, na circunstância, não excederia os miseráveis 20 nós, dizia eu que, caso perguntados, deveriam afirmar que não senhores, aquela boneca só podia ter sido comprada numa qualquer loja dos chineses, porque se fosse de origem certificada, como é o caso de Fátima, o navio nem uma equimose ou uma leve beliscadura sofreria.

Uma coisa tenho de reconhecer, por muito que me custe: a boneca não se afogou. Pelo contrário, está viva e sã e devidamente exposta – desejo eu – numa igreja. O que me leva a sugerir ao Ratzinger  que aproveite. Não terá, por acaso, algum “santo” em lista de espera? Poderiam, perfeitamente, atribuir-lhe este “milagre”. Olhem que não é todos os dias que aparece uma boneca de Fátima dentro de um navio de cruzeiro – eu, pelo menos, nunca vi nenhuma – e se salva de morrer afogada.

E não levo nada pela sugestão.

 

Em simultâneo no “À Moda do Porto

24 de Janeiro, 2012 Ricardo Alves

É a votação final

O Diário Ateísta passou à segunda fase da votação do Aventar para melhor blogue de «Religião/Espiritualidade». Votem aqui, novamente ou pela primeira vez, até domingo. A racionalidade também é espiritualidade.

23 de Janeiro, 2012 João Vasco Gama

Curas pela Fé

Alguns charlatães enriquecem à custa da Fé das pessoas, e usam entre outras ferramentas de persuasão as «curas pela Fé».

James Randi desmascara o célebre Peter Popoff:

E aqui Derren Brown explica alguns dos truques que são utilizados:

23 de Janeiro, 2012 Luís Grave Rodrigues

Citação

22 de Janeiro, 2012 Carlos Esperança

Jacob e as filhas de Labão

Por

Leopoldo Pereira

Sou fã das histórias bíblicas, que interpreto de acordo com o que vem expresso no famoso Livro Sagrado. Embora indesmentíveis, dado o respeito e veneração que os textos merecem, aí eu peco um bocado…

Óbvio que não estudei afincadamente a matéria, pelo que se cometer alguma gafe no decurso da narrativa, acreditem, faço-o sem intenção.

Jacob, filho de Isaac e Rebeca, neto de Abraão, viveu 147 anos, 17 dos quais no Egipto. Teve 12 filhos, de várias mulheres, tornando-se um deles (José) muito famoso, protagonista de uma das histórias que mais me encantaram; mas essa fica para depois.

Convém desde já salientar que as personagens citadas interagiam com Deus amiúde, mantendo por vezes conversas em directo, quer em sonhos quer ao vivo.

Desde os meus tempos de Liceu que nutria singular apreço por Jacob, devido a Camões. Lembro o célebre soneto em que o vate escreve: “ Sete anos Jacob servia……  Começa de servir outros sete anos”, terminando: “Mais servira, se não fora para tão longo amor tão curta a vida”. A simpatia e até pena que Jacob me inspirava… varreram-se; Camões subestimou muita coisa acerca do traste que ajudou a imortalizar!

Esaú era irmão de Jacob e como primogénito herdava todos os bens e autoridade do pai. Ora esta situação, embora correcta, desfavorecia Jacob, de acordo com a lei local. Isaac, já muito velho, chamou Esaú para lhe dar a bênção, o que significava passar a pasta ao filho. As coisas não se processaram em segredo e Jacob, ajudado pela mãe, disfarçou-se de Esaú e o safado foi abençoado no lugar do irmão. Isaac (meio desconfiado) ainda perguntou duas vezes se estava falando com Esaú, mas o seu estado de saúde não lhe permitiu desmascarar o tratante. Quando Esaú regressou a casa e soube da trapaça, foi junto do pai para que o abençoasse também. Pelos vistos isso já não era possível e assim ficou na mó de baixo, deveras irritado com Jacob, a quem votou ódio de morte. Rebeca, temendo o pior, aconselhou Jacob a imigrar para Harã, onde residia o seu irmão Labão, dono de vários rebanhos.

O Chico-esperto rumou à terra do tio, tendo parado quilómetros antes junto a um poço, onde iam beber pessoas e animais. Poucos minutos volvidos surgiu um rebanho conduzido por uma bela pastora, a quem Jacob logo deu um beijo! A seguir apresentou-se e disse ser seu primo. Lá seguiram para casa de Labão, que deu mais beijos no Jacob e decidiu empregá-lo, como pastor, desafiando-o a estabelecer um salário. Então ele sugeriu trabalhar sete anos à borla, com a condição de no fim daquele prazo casar com a prima Raquel, por quem já estava apaixonado. Labão, judeu até à medula, achou o negócio interessante e nem pestanejou. Nestes sete anos não se sabe qual terá sido o comportamento dos priminhos, pastores apaixonados e a morarem na mesma casa, pois nada consta, mas sabemos que, findo o prazo estabelecido, Jacob reclamou o prémio. O tio, homem de palavra, organizou grande festa, fazendo crer a todo mundo que Jacob casava com Raquel. Só que ao chegar a noite e o momento da deita, Labão enviou para a cama do sobrinho Lia e não Raquel. Como era noite e “de noite todos os gatos são pardos”, Jacob “comeu gato por lebre”. Ao alvorecer viu melhor a companheira e… ninguém gosta de ser enganado! Levantou-se pesaroso, maldizendo a sua vida e reclamou junto do sogro; mas este, num à vontade do caraças, disse-lhe que a tradição era casar primeiro a filha mais velha. Percebendo que não valia a pena exercer o direito do contraditório, resolveu propor ao sogro novo acordo: Trabalhar mais sete anos de graça, a troco de Raquel. O tio-sogro logo aceitou e desta feita pagou adiantado; finda a semana de núpcias com Lia, entregou-lhe Raquel.

Pensam que o desventurado pastor se quedou pela Raquel? Pois sim, não largou a Lia, nem as empregadas desta e as da Raquel, com a desculpa de Raquel ser estéril. Foi tendo vários filhos e quem mais tirou partido da situação foi Lia, que estava lá para as curvas. A certa altura Deus teve compaixão de Raquel e permitiu que tivesse um filho, a quem puseram o nome José. Tudo seguiu numa boa, com várias peripécias estranhas pelo meio, até que Jacob decide voltar à terra natal, alegando desejar viver com suas mulheres e filharada de forma independente. O sogro, que vira os negócios prosperarem com a prestimosa ajuda do genro e do Deus dele, não acolheu a ideia de ânimo leve, mas lá acabou por dar o braço a torcer. Porém Jacob, cuja moralidade está mais do que definida, não se foi sem levar consigo muitas ovelhas e cabras, tudo resultado do seu trabalho e de uma habilidade tão engenhosa que me ultrapassa. Acertou com o sogro o seguinte: Ficar só com os cordeiros negros e as cabras malhadas, que deviam ser em reduzido número, como se depreende. Depois multiplicou de forma astuciosa e para mim inexplicável, o rebanho negro e malhado, recorrendo a varas que colocava em paralelo quando os animais copulavam. Na cópula… os animais assimilavam as riscas (varas). Perceberam? Eu também não. A verdade é que Jacob enriqueceu muitíssimo e quando saiu de Harã já era um homem abastado, com ovelhas, cabras, camelos, jumentos, servos e servas. Não fui só eu a duvidar do truque mágico das varas, pois consta que os outros filhos de Labão diziam à boca cheia que o cunhado enriquecera à custa dos bens do sogro!

Homem rico e devoto, também manifestava certa inclinação pela edificação de altares, mas nada comparado com a tara do vovô.

Deus abençoou Jacob.

Face à bênção divina, escusado será dizer que as ameaças de Esaú caíam por terra, mas nunca fiando e Jacob tinha medo de enfrentar o mano velho! Como estratégia separou grande quantidade de gado para lhe ofertar e assim o amolecer, o que conseguiu.

Entretanto, talvez como treino para o que desse e viesse, lutou quase toda a noite com um homem. Tentou saber quem era esse homem, mas só lhe foi dito que lutou bem, que era um vencedor nato e que a partir daquele momento passaria a chamar-se Israel, pois também tinha lutado com Deus. Perceberam quem era o Adversário na luta???

Possivelmente o “Povo Eleito” escolheu o nome Israel para designar a sua pátria, distinguindo o parcialmente aqui descrito Jacob, que não tem muito de que se gabar.

L. Pereira, 17/01/12