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17 de Maio, 2012 Carlos Esperança

A França, o Papa e a Laicidade

O Presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, cardeal Rino Fisichella, falou no “direito de Deus”, o contrapoder antidemocrático que gostaria de sobrepor ao sufrágio universal. No mesmo dia, o Papa aproveitou as felicitações hipócritas ao novo presidente francês para lhe solicitar «respeito pelas «tradições espirituais», uma afronta a um país sem mácula no respeito pela liberdade religiosa.

«A República [Francesa] assegura a liberdade de consciência » e «garante o livre exercício dos cultos» (Art.º 1) mas «não reconhece, não remunera nem subvenciona nenhum culto» (art.º 2 ) da lei de11 de Dezembro de 1905, texto que Pio X condenou e que os dois últimos pontífices se esforçaram por remover.

A França não esqueceu, na hora do voto, as piruetas de Sarkozy para atrair votos dos crentes, sobretudo dos católicos, tradicionalmente conservadores e certamente teve em conta os recados do Vaticano e do episcopado contra François Hollande.

Na última terça-feira, o novo presidente francês manifestou a sua intenção de reafirmar “em todas as circunstâncias” os “princípios intocáveis da laicidade” do país, comprometendo-se também na luta “contra o racismo, o antissemitismo e todas as discriminações”. Não fez mais do que reiterar o respeito pela lei e pelos compromissos assumidos durante a campanha.

A laicidade tem poupado a França às humilhações que os dignitários religiosos gostam de impor a quem tem legitimidade democrática e, desde 1905, tem sido um instrumento útil para defender a cidadania do comunitarismo e a liberdade da exótica vontade divina que, jamais, seja qual for a religião que a interprete, se conforma com as leis humanas.

A laicidade é a forma justa de tratar todas as convicções de igual forma e de combater a subversão que o proselitismo procura. Mais do que um direito, é uma necessidade para os Estados conterem o proselitismo de religiões concorrentes.

O Estado é incompetente para se pronunciar sobre assuntos da fé e não deve encarregar-se de promover a difusão de qualquer credo particular.

A França, no que diz respeito à laicidade, é um modelo que devia servir de exemplo aos outros países. Os franceses, vítimas do genocídio provocado pela cruzada contra os albigenses, têm na laicidade a arma que impede o Vaticano de impor a sua iconografia nas escolas, tribunais, repartições e outros edifícios públicos e, sobretudo, a coerência para se defenderem do fascismo islâmico fomentado nas madraças e mesquitas.

A laicidade é filha dileta da República. Viva a República.

16 de Maio, 2012 Carlos Esperança

Papa pressiona presidente francês

Vaticano/França: Papa escreve ao novo presidente e pede respeito pelas «tradições espirituais»

Bento XVI felicita François Hollande e deseja que o seu mandato promova solidariedade e justiça
No discurso proferido na cerimónia de investidura, esta terça-feira, o novo presidente francês manifestou a sua intenção de reafirmar “em todas as circunstâncias” os “princípios intocáveis da laicidade” do país, comprometendo-se também na luta “contra o racismo, o antissemitismo e todas as discriminações”.

15 de Maio, 2012 Carlos Esperança

Vaticano colabora com a polícia romana

Contrariamente ao que tem sucedido noutros crimes, incluindo a proteção ao arcebispo Marcinkus no caso da falência fraudulenta do Banco Ambrosiano, desta vez o Vaticano imita os Estados de direito.

O porta-voz do Vaticano assegurou hoje a “plena colaboração” da Santa Sé com as investigações da justiça italiana relativamente a Enrico De Pedis, falecido líder da Mafia, cujos restos mortais foram identificados na basílica romana de Santo Apolinário.

14 de Maio, 2012 Carlos Esperança

FÁTIMA, FUTEBOL E FADO


Amália Rodrigues é o rosto do fado recuperado.

Por

Onofre Varela

A trilogia “Fátima, Futebol e Fado” que marcava a sociedade portuguesa no Estado Novo de António Oliveira Salazar, continua actual e o povo acata-a com fervor religioso.

Dos três efes, o Fado consegue saldo positivo. Reconhecido como Património Imaterial da Humanidade, tem nas vozes de Mariza, Carminho, e do meu amigo Filomeno, as mais belas interpretações da arte de Amália e do sentimento do povo português.

Os outros dois efes continuam na senda da miserável conspurcação da mente da maioria de nós. O Futebol (dito profissional) é cada vez mais um coio de interesses que pouco têm a ver com o Desporto; e Fátima já não tem salvação possível. A única parte em que se lhe pode encontrar algo de “benéfico” para os religiosos, é a anestesia da fé que, como placebo que é, permite esquecer as amarguras da vida e alimenta a esperança de que ocorra um milagre. Milagre que, definitivamente, não acontecerá se o crente se mantiver passivo e nada fizer, social e politicamente, para construir essa mudança.

Apenas rezas e meditações… não fazem caminho. Os dois, e cada um por si, arrebanham mais gente do que a que foi possível juntar nas praças das cidades portuguesas nos últimos 25 de Abril e Primeiro de Maio em luta por melhores salários e políticas sociais. A maioria dos portugueses espera mais dos dirigentes desportivos e dos milagres marianos, do que dos políticos que nos fazem cada vez mais miseráveis e que pretendem convencer-nos de que o desemprego e a fome são óptimas oportunidades de vida (!?!).

Relativamente a Fátima, deixo aqui as palavras de Lúcia em testemunho das aparições de 1917, que colhi de um livro insuspeito, escrito por António Augusto Borelli Machado, editado pelo Centro Cultural Reconquista, uma organização católica, com “Nihil Obstate” do P. Fernando Leite e “Imprimatur” do Con. Dr. Eduardo de Melo Peixoto, Vigário-Geral. Teve a primeira tiragem em 1967 e já alcançou mais de 120 edições, em dez línguas.

Nesse livro, a “sexta e última aparição”, registada a 13 de Outubro de 1917, é descrita assim, com base nos depoimentos de Lúcia:
“Chovera durante toda a aparição. Ao encerrar-se o colóquio de Nossa Senhora com Lúcia, no momento em que a Santíssima Virgem se eleva e que Lúcia grita: Olhem Para o Sol; as nuvens entreabriam-se, deixando ver o sol como um imenso disco de prata. Brilhava com intensidade jamais vista, mas não cegava. Isto durou apenas um instante. A imensa bola começou a bailar. Qual gigantesca roda de fogo, o sol girava rapidamente. Parou por certo tempo, para recomeçar, em seguida, a girar sobre si mesmo, vertiginosamente. Depois os seus bordos tornaram-se escarlates e deslizou no céu, como um redemoinho, espargindo chamas vermelhas de fogo. Essa luz reflectia-se no solo, nas árvores, nos arbustos, nas próprias faces das pessoas e nas roupas, tomando tonalidades brilhantes e diferentes cores. Animado três vezes por um movimento louco, o globo de fogo pareceu tremer, sacudir-se e precipitar-se em ziguezague sobre a multidão aterrorizada. Durou tudo uns dez minutos. Finalmente, o sol voltou em ziguezague para o ponto de onde se tinha precipitado e ficou novamente tranquilo e brilhante, com o mesmo fulgor de todos os dias”.

Como facilmente se compreende, aquilo que Lúcia viu (se acaso viu) foi tudo menos o sol… porque o sol não se movimenta assim, em estilo yó-yó! Se, em vez de no ano de 1917, este fenómeno tivesse sido testemunhado 60 anos depois, na década de 70, era arquivado numa pasta com a etiqueta “Observação de OVNI no lugar da Cova de Iria”. Os três pastorinhos eram esquecidos, os cépticos riam-se muito, e a Igreja não lhes atribuía qualquer  importância. Em consequência, hoje não havia basílica, e a Igreja Católica não possuía a choruda fonte de receitas em que Fátima se transformou!

Onofre Varela
Jornalista
(Carteira profissional nº 1971)

 

13 de Maio, 2012 Ludwig Krippahl

Treta da semana: Einstein dixit.

Segundo José Reis Chaves, espiritista brasileiro, «Os materialistas do passado incomodavam-se com a Igreja. Os de hoje se preocupam mais é com o espiritismo, por ser ele uma religião científica. […] Não é, pois, por acaso, que têm surgido muitos ateus fanáticos contra a doutrina codificada por Kardec, “o bom senso encarnado”.»(1) Pessoalmente, não me preocupo muito com o espiritismo, o Kardec ou a cor do seu bom senso. Preocupam-me mais coisas como o Estado português ter de pedir autorização ao Vaticano para mudar feriados, o negócio da religião não pagar impostos ou a forma como se ensina religiões nas escolas públicas. Se a «médium psicógrafa dra. Marlene Saes, de São Paulo (SP)» publica o «seu novo livro “Nas Águas do Mar da Vida”, pelo espírito Luizinho» e alguém o compra, pois que lhe faça bom proveito. Quanto à alegação de que o espiritismo é uma “religião científica”, concordo parcialmente. Dizer que «Para a física quântica, as coisas invisíveis são mais importantes do que as visíveis. E o espírito é invisível» ou «o espírito do médium tem que vibrar na sintonia da do espírito comunicante» não tem nada de científico, mas para religião basta.

O que me interessa mais no texto do José Reis não é a comunicação «de períspirito para períspirito», a aura, a quinta-essência ou o corpo bioplasmático. É esta frase de Einstein, tantas vezes mal compreendida quantas é usada em defesa da tretologia: «A religião sem ciência é cega, e a ciência sem religião é aleijada». Esta frase é frequentemente invocada como querendo dizer que a ciência complementa, e é complementada por, uma crença esperançosa no sobrenatural, uma devoção a um suposto criador e essas superstições envolvendo deuses, espíritos e vida depois da morte que associamos ao termo “religião”. No entanto, não era nada disto que Einstein queria dizer. No artigo de onde citam apenas aquela frase e, normalmente, sem referir a origem, Einstein explica bem que sentido estava a dar ao termo.

«em vez de perguntar o que é religião eu preferiria perguntar o que caracteriza as aspirações de uma pessoa que me dê a impressão de ser religiosa: uma pessoa religiosamente esclarecida parece-me ser alguém que, de acordo com as suas capacidades, se tenha libertado dos grilhões dos seus desejos egoístas e se preocupe com pensamentos, sentimentos e aspirações aos quais se prende pelo seu valor sobrepessoal. Parece-me que o que é importante é a força deste conteúdo sobrepessoal e a profundidade da convicção acerca do seu significado avassalador, independentemente de haver alguma tentativa de unir este conteúdo a um Ser Divino, pois de outro modo não seria possível contar Buda e Espinosa como personalidades religiosas. Assim, uma pessoa religiosa é devota no sentido de que não tem dúvidas acerca do significado e elevação desses objectos e propósitos que vão além da sua pessoa e não requerem nem admitem um fundamento racional. Existem com a mesma necessidade e factualidade da própria pessoa. Neste sentido, a religião é o esforço milenar da humanidade em se tornar claramente e completamente consciente dos seus valores e propósitos, e de constantemente os fortalecer e estender os seus efeitos.»(2)

Ou seja, neste sentido, “religião” refere um esforço de se guiar por algum ideal que transcenda interesses pessoais, mas sem implicar nada acerca de deuses, espíritos ou crenças no sobrenatural. Um ateu pode perfeitamente ser religioso no sentido que Einstein dá ao termo, e o exemplo que Einsten dá é que a «ciência só pode ser criada por aqueles que estejam completamente imbuídos de aspiração para a verdade e a compreensão». É isto que Einstein quer dizer com essa frase tão célebre e tão deturpada. A devoção sem conhecimento objectivo é cega e a investigação sem devoção à verdade é paralítica.

Isto não tem nada que ver com as crenças que normalmente chamamos religiosas nem com o espiritismo do José Reis Chaves, superstições acerca das quais Einstein também foi bastante claro. Por exemplo, nesta carta ao filósofo Erik Gutkind:

«A palavra Deus não é para mim mais do que a expressão e o produto da fraqueza humana, a Bíblia uma colecção de lendas honráveis mas puramente primitivas, lendas que, no entanto, são bastante infantis. Nenhuma interpretação, por mais subtil que seja pode (para mim) alterar isto… Para mim, a religião judaica é, como todas as outras religiões, uma encarnação da superstição mais infantil.»(3)

Os argumentos de autoridade são muitas vezes falaciosos e quase sempre fracos. Mas penso que há boas razões para concordar com Einstein para além do simples facto de se tratar de Einstein. E, seja como for, invocar Einstein como autoridade para apoiar doutrinas espíritas e tretas afins é um tiro no pé, seja no da aura, no bioplasmático ou no do períspirito.

1- Blog de Espiritismo, José Reis Chaves – ‘Abalado está o ateísmo’
2- Sacred-Texts, Science and Religion II, Science, Philosophy and Religion, A Symposium, 1941.
3- Letters of Note, The word God is the product of human weakness.

Em simultâneo no Que Treta!