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5 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

Carta de autor desconhecido

Carta a Laura Schlessinger

Isto já se passou há alguns anos, de qualquer forma:

“Laura Schlessinger era conhecida locutora de rádio nos Estados Unidos. E tinha um programa interativo que dava respostas e conselhos aos ouvintes que a chamavam pelo telefone.

Uma vez, interpelada sobre a homossexualidade, a locutora disse que se tratava de uma abominação, pois assim o afirma a Bíblia no livro do Levítico 18:22.

Um ouvinte escreveu-lhe uma carta, cuja tradução vai a seguir:

Querida Dra. Laura:

Muito obrigado por se esforçar tanto para educar as pessoas segundo a lei de Deus.

Eu mesmo tenho aprendido muito no seu programa de rádio e desejo compartilhar os meus conhecimentos com o maior numero de pessoas possível.

Por exemplo, quando alguém se põe a defender o estilo homossexual de vida eu limito-me a lembrar-lhe que o Levítico, no capítulo 18, versículo 22, estabelece claramente que a homossexualidade é uma abominação. E ponto final.

Mas, de qualquer forma, necessito de alguns conselhos adicionais de sua parte a respeito de outras leis bíblicas concretamente e sobre a forma de as cumprir:

1)      Gostaria de vender a minha filha como serva, tal como indica o livro do êxodo 21:7. Nos tempos em que vivemos, na sua opinião, qual seria o preço adequado?

2)      O livro do Levítico 25:44, estabelece que posso possuir escravos, tanto homens como mulheres, desde que sejam adquiridos de países vizinhos. Um amigo meu afirma que isso só se aplica aos mexicanos, mas não aos canadianos. Será que a Sra. poderia esclarecer esse ponto? Porque não possuir escravos canadianos?

3)      Sei que não estou autorizado a ter qualquer contacto com mulher alguma no seu período de impureza menstrual (Lev. 19:19, 20:18, etc.). O problema que se coloca é o seguinte: como posso saber se as mulheres estão menstruadas ou não? Tenho tentado perguntar-lhes, mas muitas mulheres são tímidas e outras sentem-se ofendidas.

4)      Tenho um vizinho que insiste em trabalhar ao sábado. O livro do êxodo 35:2., claramente estabelece que quem trabalha aos sábados deve receber a pena de morte. Isto quer dizer que eu, pessoalmente, sou obrigado a matá-lo? Será que a Senhora poderia, de alguma maneira, aliviar-me dessa obrigação aborrecida?

5)      No livro do Levítico 21:18-21 está estabelecido que uma pessoa não se pode aproximar do altar de Deus se tiver algum defeito na vista. Tenho de confessar que preciso de óculos para ver. A minha acuidade visual tem de ser de 100% para que eu me aproxime do altar de Deus? Será que se pode abrandar um pouco essa exigência?

6)      A maioria dos meus amigos homens têm o cabelo cortado, muito embora isto seja claramente proibido em Levítico 19:27. Como é que eles devem morrer?

7)      Eu sei, graças a Levítico 11:6-8 que quem tocar na pele de um porco morto fica impuro. Acontece que jogo futebol americano, cujas bolas são feitas de pele de porco. Será que me será permitido continuar a jogar futebol americano se usar luvas?

8)      O meu tio tem uma granja. Ele deixa de cumprir o Levítico 19:19, pois planta dois tipos diferentes de sementes no mesmo campo, e também a sua mulher deixa de cumprir pois usa dois tipos de tecidos diferentes, a saber, algodão e poliéster. Além disso, ele passa o dia proferindo blasfémias e maldizendo-se. Será que é necessário levar a cabo o complicado procedimento de reunir todas as pessoas da vila para apedrejá-lo? Não poderíamos adotar um procedimento mais simples, que seria o de queimá-lo numa reunião privada, Como se faz com um homem que dorme com a sua sogra, ou uma mulher que dorme com o seu sogro (Levítico20:14)?

Sei que a Sra. Estudou estes assuntos com grande profundidade de forma que confio plenamente na sua ajuda.

Obrigado novamente por nos recordar que a palavra de Deus é eterna e imutável.”

5 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

ATEUS, RELIGIOSOS E TASCAS (2.ª parte)

Por lapso meu, de que peço desculpa aos leitores, faltou a parte final deste post que agora completo.

Por

ONOFRE VARELA

Provavelmente mal comparado, direi que ser-se hetero ou homossexual, é com cada um, e ninguém deve ser louvado ou punido pela sua escolha. O importante é que se encontre felicidade e razão de viver naquilo que cada um é, e que, em consciência, escolheu ser. A condição filosófica de se ser religioso ou ateu, é igualmente livre, e os dois pontos de vista são, do mesmo modo, defensáveis, desde que tomados em consciência e em idade adulta, sem imposições em idades tenras.

Não é contra estes “religiosos-militantes-de-base”, consumidores fervorosos de missas, que os ateus se manifestam (embora tentem alertá-los para a inexistência real de Deus, para além da ideia que é); mas sim contra as atitudes prepotentes dos bispos, quando querem impor conceitos religiosos a uma sociedade laica. É aí que os ateus têm de se defender, e muitas vezes o ataque é a melhor defesa. O que é estratégia.

Eu, enquanto ateu, não critico (no sentido agressivo) quem adora Deus, mas estou frontalmente contra quem explora os crentes, servindo-se do
conceito de Deus como arma apontada à consciência dos religiosos continuamente explorados desde há milénios. Entretanto os exploradores
rodeiam-se de mordomias e conquistam importância e estatuto social.

Do mesmo modo também não tenho nada contra quem tem necessidade de vender o seu ouro neste tempo de crise, mas já tenho tudo contra
aqueles que compram ouro ao mais baixo preço, governando-se, como abutres, com a miséria e a necessidade do próximo.

Mas, aqui chegado, também posso fazer um exercício de raciocínio, colocar-me do outro lado, e interrogar-me de um outro modo:
Todos os agentes religiosos devem ser tomados como desonestos só porque acreditam em Deus, o que para mim é uma mentira?
Serão, todos eles, uns refinadíssimos vigaristas vendedores do conceito de Deus (que é burlista) e de espaços paradisíacos no céu?
Ou estarão, muitos deles (se calhar a totalidade), plenamente convencidos do desempenho honestíssimo de missões de elevado valor moral e social nas comunidades onde se estabelecem?

Se estiverem convencidos disso, continuam a ser vigaristas e exploradores? Nos países africanos miseravelmente (des)governados por ditadores, as missões religiosas são a única esperança para os povos despossuídos famintos e doentes. Neste contexto, as acções dos religiosos (católicos e protestantes), sempre executadas em nome de Deus, são desonestas?

Transpondo estas interrogações para a política:
Quem, no Parlamento, tem mais razão? O Governo ou a Oposição? E quando invertidos os papeis? Quem é o detentor da razão? Deixa de a ter quem a tinha e passa a tê-la quem a não tinha?!

Bom… se calhar isto já é assunto para uma tese de doutoramento…

3 de Agosto, 2012 Ludwig Krippahl

A fé, adenda.

A propósito do post anterior, o leitor rage comentou que «o apego às […] crenças, a convicção do seu valor, mesmo quando injustificado» é comum em todos os humanos, não apenas nos fiéis de alguma religião, mencionando também a « necessidade em ciência de realizar testes com grupos de controlo para estabelecimento de baselines, e/ou com ocultação, para prevenir interpretações oblíquas dos resultados» (1). Tem razão, e é um ponto importante, mas a minha intenção não era alegar que só quem tem fé é que está sujeito a este erro.

Alguma subjectividade é inevitável quando formamos uma crença, mesmo acerca de factos, porque temos de escolher onde pomos a fasquia do nosso cepticismo. Se é a uma confiança de 95%, como em muitos ensaios clínicos preliminares, ou a cinco sigma como na física de partículas, é uma decisão maioritariamente subjectiva. Mas há sempre um ponto a partir do qual o peso das evidências é suficientemente forte para reconhecemos que é erro defender uma opinião contrária. É um erro que todos podemos cometer; mesmo perante evidências fortes podemos ser pressionados por factores epistemicamente irrelevantes mas emocionalmente persuasivos. No entanto, é algo que reconhecemos como um erro e, por isso, em ciência temos a preocupação de o combater. Não só com que o rage mencionou, mas também formulando várias hipóteses em vez de considerar uma isolada, com a revisão pelos pares e a descrição cuidadosa dos métodos para confirmação independente, a crítica aberta e pública e assim por diante.

O que sobressai na fé religiosa é considerar que, para certas hipóteses acerca de um deus ou de escrituras sagradas, esse enviesamento que em tudo o resto se reconhece ser erro afinal é virtude. Quem não for criacionista percebe que acreditar numa criação em seis dias há poucos milhares de anos é teimosia fanática. Quem não for católico vê que é absurdo julgar o Papa infalível, seja no que for. Quem não for hindu ou budista reconhece que a crença na reencarnação não tem fundamento. Mas para o seguidor de uma religião manter as respectivas crenças é mais importante do que corrigir esse erro que é óbvio para os outros, e que até é óbvio para o próprio quando contempla as crenças dos outros.

1- A fé.

Em simultâneo no Que Treta!

3 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

ATEUS, RELIGIOSOS E TASCAS

Por

ONOFRE VARELA

Não sou um habitual colaborador deste espaço, e talvez devesse sê-lo. Confesso que tenho um défice de espírito associativo que pode ser comparado com o défice de democracia na Madeira.

Será essa a razão de a minha colaboração neste espaço ateísta ser tão esporádica, e sempre com a ajuda do meu amigo Carlos Esperança para inserir o texto no espaço virtual, pois eu sou completamente analfabeto em computadores.

Porém, nos últimos dez dias, já publiquei dois textos… o que para mim é um record nestes tempos de competição olímpica!

Confesso que o segundo dos textos esteve a um nível sete furos abaixo de cão!… Aquele registo não é a minha maneira de escrever, mas foi o modo que me pareceu poder ser melhor compreendido pelo raciocínio elementar do destinatário específico e nomeado.

Se o meu muito querido amigo Ricardo Pinho algum dia disse que este espaço se parecia com uma tasca, referia-se, muito provavelmente, às discussões de rodapé que os assuntos publicados suscitam às várias sensibilidades de quem os lê. Reconheço que o meu último texto esteve ao mesmo nível!…

Mas devo dizer que não tenho absolutamente nada contra as tascas! Frequento algumas e gosto das companhias (que escolho), dos petiscos e dos copos de bom vinho que por lá são aviados. E algumas têm fado, o que para mim é sempre um prémio! Tal como sinto ser premiado com a banda de música no fim das procissões, que me remetem a memória para os meus 14 anos (nos finais da década de 50) quando estudei solfejo na “Banda Marcial de S. Cristovão”, em Rio Tinto, na expectativa de vir a tocar clarinete… o que nunca aconteceu, com muita pena minha.

Quando, neste espaço de ateus, e nos recados de rodapé, se “insultam” e “atacam” ateus e religiosos, eu tomo isso como um folclore próprio das discussões de porta aberta a quem queira botar faladura. É um espaço democrático do mais puro, embora possa ferir algumas sensibilidades. Mas é o preço da democracia, e é bom que o paguemos para continuarmos a possui-la.

Nessa conversa de “ataques e insultos”, também é bom que atentemos nisto: os ateus contestam, legitimamente, o conceito da divindade, mas aceitam e respeitam quem tem necessidade dele.

Quem tenha estabelecido a sua razão de viver no conceito de Deus, merece todo o respeito daquele que não precisa de Deus para coisíssima nenhuma. Os “religioso-dependentes” devem continuar a louvar Deus se não forem capazes de se libertarem da ideia, se precisarem dela para serem felizes. Pois que sejam felizes.

Seria bom que, entretanto, questionassem a ideia de Deus… mas isso é coisa que não deve ser imposta. É uma tarefa mental de cada cidadão, e uns serão mais capazes de a encararem do que outros. Tudo depende da idade em que o conceito lhe foi embutido no cérebro, e do hábito que terá, ou não terá, de raciocinar e de questionar.

3 de Agosto, 2012 José Moreira

O Governo ajoelhado

Ao fim de muitos – demasiados, para o meu gosto – anos, os governantes conseguiram chegar à conclusão de que uma grande parte das fundações existentes em Portugal não são mais do que viveiros de parasitas. Daí que tenha decidido efectuar uma avaliação das referidas fundações e, de acordo com as respectivas utilidades ou finalidades, vai reduzir as horas das mamadas podendo, até, secar a mama. Até aqui tudo bem, estou farto de pagar para alimentar parasitas.

No entanto, a notícia traz um texto que me deixa preocupado. Reparem, eu disse preocupado, não disse surpreendido. Então não é que  “Em relação às cerca de 100 que foram criadas ao abrigo da Concordata, o Governo refere que “vão ter um tratamento à parte”, mas garante que também vão ser todas objecto de análise e avaliação”.? E eu pergunto: à parte, porquê? Vão ser avaliadas pelo bispo ou pelo cardeal? Talvez pela Conferência Episcopal? Ou será que, porque convém, se faz a separação entre Igreja e Estado?

Eu não tenho dúvidas de que algumas instituições religiosas prestam benefícios inegáveis – embora acabem por dizer “nós demos” – mas não me parece que tenham de ter tratamento diferenciado. Porque muitas outras instituições não religiosas também prestam serviços de valor inegável.

Ou (man)temos o Governo de joelhos?