22 de Fevereiro, 2006 Carlos Esperança
Lúcia, Salazar e Cerejeira


Publicado em Ponte europa
Nota: Quem mentiria mais: a Irmã Lúcia? o cardeal Cerejeira ou a Senhora de Fátima?


Publicado em Ponte europa
Nota: Quem mentiria mais: a Irmã Lúcia? o cardeal Cerejeira ou a Senhora de Fátima?
Corria o Ano da Graça de 1978 quando João Paulo I ascendeu ao trono pontifício e anunciou uma investigação ao Instituto das Obras Religiosas (IOR) também conhecido por Banco do Vaticano cujas fraudes eram objecto de rumores.
Um jornalista comentou então: «Não anda cá muito tempo». E Deus assim o quis. João Paulo I foi Papa durante 33 dias e não verificou a contabilidade do IOR. Esqueceu-se de respirar durante a noite de 28 de Setembro.
Nunca se saberá se foi Deus que o chamou ou a Cúria que o enviou naquela madrugada de 1978. O Vaticano recusou a autópsia.
No consistório seguinte o Espírito Santo foi mais sensato e inspirou melhor os cardeais. JP2 foi o resultado do bom entendimento entre cardeais, Espírito Santo e Opus Dei.
Começou então a ascensão do arcebispo Paul Marcinkus, banqueiro e guarda-costas de JP2. Presidiu durante onze anos ao IOR, o principal accionista do Banco Ambrosiano, uma respeitada instituição financeira onde o Vaticano, a Mafia, o Opus Dei e outras pias instituições faziam os seus depósitos.
A duplicação fraudulenta das acções do Banco foi o expediente encontrado para cobrir um «buraco» provocado pela dupla Marcinkus/Roberto Calvi (este, um funcionário que o Vaticano fez Director).
Roberto Calvi foi encontrado enforcado num pilar de uma ponte de Londres. Marcinkus foi chamado a depor pela polícia de Roma mas o bondoso Papa JP2 nunca permitiu a extradição.
Morreu hoje, aos 84 anos, o antigo banqueiro da Santa Sé, protagonista de um dos maiores escândalos do Vaticano. Morreu em Phoenix, Arizona, sem barrete cardinalício.
O Papa B16, distraído com o breviário ou preocupado com o polimento dos sapatinhos vermelhos, só hoje se pronunciou sobre a polémica em torno das caricaturas de Maomé.
E que defendeu o velho censor? A liberdade de expressão? O direito dos não crentes à denúncia do que julgam uma fantochada? A liberdade religiosa?
«É necessário e urgente que as religiões e os seus símbolos sejam respeitados e que os crentes não sejam alvo de provocações que firam a sua iniciativa e os seus sentimentos religiosos» – disse B16 durante a audiência ao embaixador marroquino junto do Vaticano, Ali Achour.
Para o velho inquisidor, este é o código de conduta a que todos se devem submeter. Não há uma palavra de censura para quem lapida mulheres, degola infiéis, tortura reclusos, assassina apóstatas e faz do livro sagrado a fonte de direito que quer impor ao universo.
O silêncio, perante crimes cometidos em nome de Deus, é a cumplicidade de quem gostaria de iguais condições para atear fogueiras, queimar livros e cometer desmandos.
Foi um espectáculo pífio ver a fé de molho e os crentes a arremeterem contra o Céu, empunhando guarda-chuvas.
O padre Borga, refugiado no estúdio improvisado da RTP, exultava com a chuva e os pés enxutos. A seu lado estava o Sr. Duarte Pio, um reprodutor serôdio, que, até prova em contrário do ADN, se reclama descendente do senhor D. Miguel, católico trauliteiro que em Evoramonte renunciou ao absolutismo e ao trono de Portugal.
Fátima foi ontem mais do que lugar de ilusão, foi o penico do Céu com a base decorada com peregrinos, onde o Padre Eterno aliviou a bexiga e evacuou granizo, a pôr à prova a resistência dos crentes.
O Sr. Duarte dizia-se conde de Ourém, como se os títulos nobiliárquicos não tivessem sido extintos antes do nascimento da Lúcia e da sua pia obsessão de converter a Rússia. Debitou lugares-comuns e informou que tinha levado três filhos ao castigo.
O padre Borga e o Sr. Duarte estavam felizes enquanto a Irmã Lúcia, reincidente no seu próprio funeral, continuou morta durante o espectáculo para promoção da fé.
Dada a fraca afluência de peregrinos, prejudicada pela intempérie que se abateu sobre a Cova da Iria, com particular violência à chegada do féretro, a ICAR pensa na repetição do acto com as três vítimas da farsa, em cerimónia comum, num funeral colectivo.
Artigo 252º
Impedimento, perturbação ou ultraje a acto de culto
Quem:
a) Por meio de violência ou de ameaça com mal importante impedir ou perturbar o exercício legítimo do culto de religião; ou
b) Publicamente vilipendiar acto de culto de religião ou dele escarnecer;
é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias.
De acordo com uma notícia do news telegraph, foi realizada uma sondagem na qual 40% dos crentes islâmicos que vivem no Reino Unido se manifestaram favoráveis à introdução da Sharia em algumas partes do país.
É preocupante.
É preocupante que o valor da laicidade, da separação entre a igreja e o estado, entre os valores religiosos e a justiça, não sejam valores abraçados pela esmagadora maioria dessa comunidade.
Creio que isto é fruto de um problema estrutural e conjuntural.
Estrutural porque o modelo de integração é laxista. Vai-se cedendo passo a passo, com leis anti-blasfémia, com leis feitas à medida das «especificidades culturais», que esquecem os valores da laicidade, da igualdade perante a lei, enquanto os guetos proliferam.
A integração tem de ser baseada numa verdadeira igualdade de oportunidades, não em cedências cobardes que escondem um paternalismo descriminador.
Conjuntural porque (esta sondagem também o confirma) as relações entre a comunidade islâmica e os britânicos têm piorado. Muito, tanto quanto entendo.
Isto vem reforçar a minha tese de que a invasão do Iraque foi do pior que poderia ter acontecido à laicidade. Não só no Iraque, como em todo o mundo.
Código Penal Português:
O macabro transporte foi acompanhado no seu trajecto por intermináveis reportagens em directo de todas as estações de televisão, embora quase sempre com imagens idênticas.
Mas todas com comentários mais ou menos idiotas e proferidos em voz sussurrada e em tom de abjecto auto-amesquinhamento e de uma cautelosa submissão, não se sabe bem a quê.
Ao longo do trajecto viam-se inúmeras pessoas, todas ansiosas por um relance do santo caixão e até, quem sabe, na ânsia de que uma pequena snifadela aos gazes da decomposição do corpo do santo cadáver lhes pudesse proporcionar uma overdose de santidade que lhes garantisse a remissão de secretos e inconfessáveis pecados, e lhes franqueasse milagrosamente as portas do Reino dos Céus.
Foram rezadas missas e entoados cânticos, tudo, e como de costume, em tom circunspecto, respeitoso e muito humilde.
Assim como se os fiéis estivessem a cumprir uma espécie de divina necessidade de louvor e glorificação, que lhes exige uma permanente pose de submissão canina.
Tendo como único crime praticado a sua pacóvia simplicidade, a Irmã Lúcia foi, ainda em criança e sem qualquer hipótese de recurso, impiedosamente condenada a prisão perpétua pela Igreja Católica.
Não fosse alguém duvidar dos critérios da mãe de Deus na escolha de três crianças alimentadas a sopas de cavalo cansado para transmitir uma mensagem à Humanidade, durante uma vida humana desperdiçada por uma clausura que durou 87 anos, a Irmã Lúcia só foi exibida fugazmente a intervalos estudadamente regulares.
Foi uma vida humana sacrificada a meros objectivos publicitários e promocionais de uma gigantesca fraude, que até, e antes de mais, começa por ser insultuosa para a inteligência e até para a fé dos próprios católicos.
Usada em vida, a irmã Lúcia continua agora a ser usada, sem qualquer vergonha ou pudor, mesmo depois de morta.
E tudo por mais, mas muito mais, do que 30 dinheiros…
(Publicado simultaneamente no «Random Precision»)
Entre as 9h da manhã e as 13h da tarde, nenhuma das 4 televisões (RTP1, A Dois, SIC e TVI) deu qualquer alternativa à programação religiosa. Todos aqueles que não têm TVCabo foram impedidos de ver televisão sem se sujeitar a este verdadeiro monopólio.
Isto é tanto mais grave quando desses 4 canais televisivos dois deles são públicos. A televisão pública deveria precisamente servir para garantir alternativas. O canal «A Dois» garante alternativas aos cristãos passando programação religiosa que não tem qualquer sustentabilidade económica. Hoje era altura de mostrar que não há cidadãos de primeira e de segunda: deveria ter dado uma alternativa a todos aqueles (e não são assim tão poucos) que não querem saber de rezas e de transladações.
Chove. As bátegas não param de fustigar os peregrinos. O que as novenas dos padres não conseguiram, consegue-o a meteorologia.
Não é a ineficácia das rezas ou a ausência de Deus que demove os crentes, alagados de fé e chuva até aos ossos, de estarem presentes na segunda edição do funeral de Lúcia.
Não há na repetição das exéquias fúnebres a saudade genuína das putas de S. Salvador da Baía a passearem o cadáver do Quincas Berro D´Água, nas ruas em cujos botequins devorou cachaça com a mesma sofreguidão com que as beatas chupavam hóstias.
A freira, a quem o terrorismo religioso do catecismo induziu alucinações, nunca terá um Jorge Amado que a celebre em «A morte e a morte da Irmã Lúcia, vidente».
O Quincas, quando devorou, de um trago só, água em vez de cachaça, deu tal berro que passou a ser carinhosamente tratado por «Berrinho» e fez-se personagem de romance. Lúcia comungava por hábito e obrigação pia, mantinha olhos vagos e a postura de quem vive morta por dentro envergando como mortalha o hábito de freira.
Quincas é o delicioso personagem que diverte e comove o leitor de «A morte e a morte de Quincas Berro D’Água», marginal que viveu a vida, pecador que amou e foi amado.
Lúcia é exemplo trágico de criança pobre, embrutecida com orações e amedrontada pelo Inferno, que sonhou virgens nas azinheiras, cambalhotas do Sol no caminho das cabras, profecias de conversão da Rússia e churrascos de almas para absentistas da missa.
A criança amestrada com pias mentiras sobre o divino tornou-se cadáver de estimação, acolitada pela força pública, a viajar com padres, bispos, freiras e peregrinos, numa obscena encenação com quatro missas, orações pias e um futuro promissor de oferendas de gente aflita.
Não é o último capítulo da história de uma encarcerada de Deus, é o início do caminho da santidade, à espera dos milagres e das oferendas que hão-de alimentar funcionários de Deus e fazer de Fátima uma das mais lucrativas sucursais do Vaticano.
A burla não acaba hoje, um novo ciclo começa.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.